Zumbido pulsátil é o que bate junto com o coração. É menos comum que o zumbido contínuo, mas em mais de
75% dos pacientes a imagem mostra a causa, muitas vezes tratável. A mais comum é o fluxo venoso
alterado; a mais perigosa é a fístula arteriovenosa dural, que aparece em até 20% dos
investigados.
o que pedir ao prontuárioLado do zumbido, tom (agudo ou grave), o que piora e o que alivia (posição da cabeça,
compressão da jugular), sopro audível e perda auditiva, condutiva ou neurossensorial. Essas
respostas escolhem o exame e dizem onde olhar.
Clínica e escolha do exame
Pista clínica
Sugere
Tom agudo, com sopro, sem perda auditiva
Arterial ou fístula/MAV (malformação arteriovenosa)
Tom grave, "chiado"
Venosa
Muda com a posição da cabeça ou alivia com compressão da jugular do mesmo lado
Venosa
Alivia com pressão atrás da orelha
Veia emissária mastóidea
Trauma ou manipulação do pescoço
Dissecção da carótida ou da vertebral
Perda condutiva
Causa óssea, massa de orelha média ou tumor
Papiledema
Hipertensão intracraniana: olhar granulações e seios
Piora ao girar a cabeça para o mesmo lado
Compressão da jugular (Eagle vascular)
Exame inicial
Quando
Angio-RM (agudo) ou venografia por RM (grave)
Sem perda condutiva; sopro ou zumbido que muda com a cabeça ou com a compressão da jugular. Angio-TC ou venografia por TC se não der para fazer RM (menos sensível para shunt)
TC de osso temporal
Com perda condutiva; também quando a imagem vascular e a RM não acham causa
RM do conduto auditivo interno
Imagem vascular normal ou suspeita de massa
Doppler das carótidas
Sopro cervical
DSA (angiografia por subtração digital)
Referência: confirma, planeja e trata; indicada com exame positivo ou suspeita alta com exame negativo
perda condutiva não afasta fístula
Mesmo começando pela TC de osso temporal, a imagem vascular pode ser necessária para excluir fístula dural
ou malformação arteriovenosa.
Leitura da angio e armadilhas
Armadilha
Como evitar
Fluxo retrógrado na TOF (time of flight: angio-RM sem contraste) 3D
Sinal alto no seio sigmoide esquerdo ou nos seios petrosos imita shunt; ASL (arterial spin labeling: perfusão por RM sem contraste) confirma (a veia do shunt também fica clara no ASL)
Veias corticais e seio sagital no vértice
Sinal fraco e simétrico na TOF é normal
Alça da cerebelar anteroinferior no conduto
Variante normal: não mencionar
Angio-TC em fase única
Ver primeiro o bolo; veia assimétrica ou precoce pode ser shunt (comparar com as artérias)
Falso shunt na TOF, 34 anos
MIP (projeção de intensidade máxima) axial: seio sagital (seta) e veias corticais (ponta de seta) no vértice, simétricos: normal.MIP na base do crânio: sinal no seio petroso superior direito (seta) lido como shunt; a DSA não mostrou shunt.
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 2. Ver artigo
limiar baixo do lado sintomático
Sem ASL, veia com sinal alto na TOF do lado do zumbido merece menção. O mesmo vale para granulação
aracnoide grande ou estenose de seio, mesmo sem suspeita de hipertensão intracraniana.
Fístula dural e MAV
Junção arteriovenosa
Pistas
O que descrever
Fístula arteriovenosa dural
Adquirida (muitas vezes pós-trauma); parede do sigmoide irregular na TC de temporal; seios transverso e sigmoide realçando cedo e de um lado só na angio-TC
Local, drenagem venosa cortical e ectasia venosa (risco de sangrar)
Malformação arteriovenosa
Perto da base do crânio
Tamanho do nidus, área eloquente, drenagem superficial ou profunda
MAV do pedúnculo cerebelar médio, 34 anos
T1 pós-contraste axial: área de realce (seta).Coronal pós-contraste: novelo de vasos (oval).Angiografia vertebral direita: a MAV (oval) com veia profunda de drenagem precoce (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 3. Ver artigo
Fístula dural esquerda, 80 anos
TC de osso temporal: parede do sigmoide esquerdo irregular (oval); lado direito normal (setas).Angio-TC axial: seios transverso e sigmoide esquerdos realçando mais (setas) que os direitos (ponta de seta).DSA: a fístula com drenagem retrógrada no seio transverso esquerdo (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 4. Ver artigo
a lesão que não pode passar
Fístula e MAV podem sangrar e matar. Todo zumbido pulsátil merece alto índice de suspeita para lesão da
junção arteriovenosa.
Causas venosas
Causa venosa
Pontos
Estenose do seio transverso
A causa venosa mais comum; com ou sem hipertensão intracraniana; granulação aracnoide grande
Hipertensão intracraniana idiopática
Mulher em idade fértil com obesidade; até dois terços têm zumbido pulsátil. Sela parcialmente vazia, tonsilas no forame magno, fovéolas aracnoides na fossa média, estenose transversa, emissárias
Bulbo jugular alto ou divertículo
Muitas vezes com estenose de seio
Veias emissárias
Mastóidea, occipital ou condilar; em geral variantes, mas causam zumbido sobretudo com estenose
Compressão da jugular interna
Entre o processo transverso de C1 e o estiloide ou o digástrico; estenose grave em quase 1/4 das angio-TCs por qualquer motivo, então só valorizar com clínica compatível
Granulação aracnoide no seio transverso, 54 anos
T1 pós-contraste axial: granulação no seio transverso esquerdo (seta).T2 axial (seta).Angio-TC anterior: a granulação já aparecia (seta) e não foi comentada.Angiografia, fase venosa: a granulação (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 5. Ver artigo
Compressão da jugular (Eagle vascular), 66 anos
Angio-TC axial: jugular interna apagada (seta) entre o estiloide (ponta de seta) e C1.Angio-TC axial: plexo vertebral e veias cervicais profundas (asteriscos) mais densos que as jugulares.Angiografia, fase venosa: jugular apagada em C1 (seta), emissária mastóidea grande (ponta de seta) e plexo vertebral (oval).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 6. Ver artigo
na venografia, olhar
Seios transverso e sigmoide (calibre, falhas), bulbo jugular (altura, divertículo), jugular interna
(compressão) e veias emissárias.
Causas arteriais
Causa arterial
Pontos
Aterosclerose da carótida
Fatores de risco; sopro carotídeo
Dissecção
Trauma ou manipulação cervical
Displasia fibromuscular
Avaliar trajeto e calibre
Aneurisma da carótida interna
O petroso pode erodir orelha média e mastoide; procurar também aneurisma intradural
Carótida aberrante e artéria estapédica persistente
Causas raras (a fonte só as cita)
Aneurisma petroso da carótida interna direita, mulher de 33 anos
Angio-TC axial: aneurisma grande (seta).DSA da carótida comum direita (seta).Depois da embolização com molas (ponta de seta: enchimento da cerebral média).Injeção à esquerda: o aneurisma ocluído (seta) e enchimento colateral à direita (ponta de seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 7. Ver artigo
Causas ósseas e da cápsula ótica
Causa óssea
Na TC de osso temporal
Placa sigmoide fina ou deiscente
O defeito ósseo mais comum; sutil (até 1% como achado incidental); com zumbido, limiar baixo para descrever
Divertículo do sigmoide ou do bulbo jugular
Pedir venografia ou DSA para procurar estenose de seio
Efusão ou massa de orelha média
Perda condutiva; costuma ser clínica
Erosão ossicular e colesteatoma
Escudo embotado, ossículos erodidos
Terceira janela (canal semicircular superior)
Deiscência do teto do canal; vertigem com som alto ou pressão (Tullio), plenitude, autofonia
Otosclerose
Lucência à frente da janela oval (fissula ante fenestram): fenestral; em volta da cóclea: retrofenestral (neurossensorial); perda condutiva na 2ª ou 3ª década
Processo estiloide alongado
Anotar se não houver outra causa
Defeito da placa sigmoide, mulher de 29 anos
Angio-RM axial: protrusão sutil da parede do sigmoide direito (seta).TC de painel plano durante a DSA: o defeito (seta).Angiografia, fase venosa: junção transverso-sigmoide irregular (oval).Depois do stent: parede lisa.
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 8. Ver artigo
Divertículo do bulbo jugular, 58 anos
Venografia por RM (contraste de fase), MIP: divertículo do bulbo jugular esquerdo (seta).DSA: embolização com molas assistida por stent (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 12. Ver artigo
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 9. Ver artigo
Deiscência do canal semicircular superior e otosclerose, mulher de 42 anos
TC no plano de Pöschl: deiscência do canal superior direito (seta) e teto fino à esquerda (ponta de seta).TC axial: lucência à frente da janela oval, na fissula ante fenestram (círculo).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 10. Ver artigo
Otosclerose fenestral e retrofenestral, 35 anos
TC axial: lucência junto à janela oval (círculo) e em volta da cóclea (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 11. Ver artigo
Massas
Massa
Imagem
Pista
Paraganglioma timpânico
Partes moles lateral ao promontório coclear
Massa vermelha pulsátil na otoscopia; metade com perda condutiva
Paraganglioma jugular
Lesão permeativa a partir do bulbo jugular, que erode a espinha caroticojugular; pode parecer mastoide velada
RM: T2 alto, sal e pimenta, realce intenso; DOTATATE (PET com análogo da somatostatina) para estadiar
Colesteatoma
Velamento do espaço de Prussak, escudo embotado
Restrição à difusão
Meningioma
Iso ou hiper em T2, realce intenso, cauda dural, hiperostose
Malformação venosa intraóssea (hemangioma)
T2 alto, realce intenso, gordura em T1
A gordura tranquiliza
Schwannomas
Do conduto, intralabiríntico, do facial
Dão mais perda neurossensorial e déficit do nervo que zumbido pulsátil
Paraganglioma do bulbo jugular, 61 anos
T1 coronal: lesão escura junto ao forame jugular (círculo).T1 pós-contraste: realce intenso (círculo).Angiografia da carótida externa: suprimento pela faríngea ascendente e occipital (círculo).DOTATATE com cobre-64: a lesão (seta), sem outras.
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 13. Ver artigo
Colesteatoma, 43 anos
TC coronal: espaço de Prussak velado (seta) e tegmen deiscente (ponta de seta).Difusão: hipersinal na orelha média (seta).Mapa ADC (coeficiente de difusão aparente): restrição (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 14. Ver artigo
Meningioma do ângulo pontocerebelar, 66 anos
T2 3D axial: massa (asterisco) entrando no conduto auditivo interno.T1 pós-contraste coronal: realce e cauda dural (seta).
Fonte: Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, et al. RadioGraphics 2024;44(10):e240030, Fig. 15. Ver artigo
a massa de orelha média mais comum
O paraganglioma é a massa de orelha média que mais causa zumbido pulsátil, e a maioria dos
paragangliomas de orelha média se apresenta assim.
Tratamento
Tratamento
Como
Fístula dural
Embolização (transarterial ou transvenosa) ou clipagem; drenagem cortical ou profunda é a de maior risco
Estenose transversa
Stent alivia o zumbido mesmo sem gradiente ou pressão alta; embolização de emissária também funciona
Defeito ou divertículo do sigmoide ou bulbo
Stent, molas ou reconstrução transmastóidea
Aneurisma da carótida
Embolização endovascular
Paraganglioma
Vigilância, cirurgia (com embolização antes), radioterapia; lutécio-177 na doença avançada
Otosclerose e terceira janela
Aparelho auditivo, estapedectomia, reconstrução
Pontos de prova: alto rendimento
Rendimento da imagem
Mais de 75%
Causa mais comum
Venosa (estenose transversa)
Mais perigosa
Fístula dural (até 20%)
Agudo + sopro + sem perda
Fístula ou MAV: angio-RM
Grave + compressão jugular alivia
Venosa: venografia por RM
Com perda condutiva
TC de osso temporal
Defeito ósseo mais comum
Placa sigmoide
Alça da AICA (artéria cerebelar anteroinferior) no conduto
Não mencionar
Massa de orelha média mais comum
Paraganglioma
Timpânico
Lateral ao promontório
Prussak velado + difusão
Colesteatoma
Hipertensão intracraniana
Até 2/3 com zumbido pulsátil
Armadilhas e erros comuns
Erros
Chamar de shunt o fluxo retrógrado da TOF
Não comentar granulação aracnoide grande no seio
Deixar passar a placa sigmoide deiscente
Valorizar compressão da jugular sem clínica
Dar RM normal sem olhar o forame jugular
Esquecer imagem vascular na perda condutiva
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Zumbido pulsátil à direita com perda auditiva condutiva do mesmo lado. Exame inicial mais apropriado:
Com perda condutiva, começa-se pela TC de osso temporal (orelha média, ossículos, cápsula ótica, placa sigmoide). Imagem vascular pode vir depois para excluir fístula.
Qual é o defeito ósseo que mais causa zumbido pulsátil?
A placa sigmoide (cortical entre o seio sigmoide e a mastoide) é o defeito ósseo mais comum, pela ligação com a estenose venosa e a hipertensão intracraniana. É sutil e fácil de perder.
Mulher jovem com obesidade e zumbido pulsátil. Sela parcialmente vazia e estenose bilateral dos seios transversos. Diagnóstico mais provável:
Hipertensão intracraniana idiopática: até dois terços têm zumbido pulsátil; sela parcialmente vazia, tonsilas baixas, fovéolas aracnoides e estenose transversa.
Fonte.
Alkhatib SG, Kandregula S, Flesher K, Choudhri OA, Brant JA, Mohan S. Imaging of Pulsatile Tinnitus.
RadioGraphics 2024;44(10):e240030. doi:10.1148/rg.240030. University of Pennsylvania, EUA.
As legendas das figuras 7 e 8 da fonte dizem "esquerdo", mas os painéis tratam do lado direito; o caderno
segue os painéis. A fonte só cita carótida aberrante e artéria estapédica persistente, sem sinais de imagem,
e não traz classificação de paraganglioma, fístula dural ou MAV. Tirei o fluxograma em inglês (o algoritmo
está na tabela). Conferido em 07/10/2026.