Fontes: Bunch et al: 2020 e Khot et al: 2025, RadioGraphics
Localizar, não diagnosticar
O hiperparatireoidismo primário é a causa mais comum de hipercalcemia. O diagnóstico é
bioquímico; a imagem serve para localizar a glândula doente e decidir a cirurgia. Exame
negativo não tira o paciente da cirurgia: muda só a via (exploração bilateral em vez da mínima).
Causa do primário
Frequência
Adenoma único
80 a 90%
Doença multiglandular (hiperplasia)
6 a 15%
Adenoma duplo
4 a 10%
Carcinoma
Menos de 1%
a cirurgia que o laudo decide
Uma lesão única e confiável permite a paratireoidectomia minimamente invasiva (unilateral, com
PTH (paratormônio) intraoperatório: queda de mais de 50% confirma). Nenhuma lesão ou várias levam à exploração
bilateral (cura em mais de 95%).
Embriologia e onde procurar
Paratireoide
Superiores
Inferiores
Origem
4ª bolsa faríngea
3ª bolsa, junto com o timo
Migração
Curta: posição constante
Longa: do ângulo da mandíbula ao mediastino
Posição típica
Atrás do polo superior da tireoide (80 a 95%), na altura da cricoide
Junto ao polo inferior (50 a 60%)
Ectópicas
Retrofaríngea ou retroesofágica (3%)
Ligamento tireotímico (25%), mediastino (3%), timo
Raras
Bainha carotídea, intratireoidea, gordura escalênica (menos de 1%)
Bainha carotídea, intratireoidea, não descida
Onde ficam as paratireoides
Vista de frente: superiores (vermelho) e inferiores (azul) se sobrepõem.Vista lateral: as superiores ficam atrás do nervo laríngeo recorrente, as inferiores à frente.
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 1. Ver artigo
Ectopia adquirida
Desenho: a superior aumentada desce atrás do nervo até o mediastino.TC sagital arterial: o adenoma (contorno).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 2. Ver artigo
Ectópicas em quatro pacientes
Retrofaríngea (contorno).Intratireoidea (contorno).Mediastinal (contorno).Na bainha carotídea, perto do ângulo da mandíbula (contorno).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 3. Ver artigo
o plano do nervo
Altura não diz a origem: a superior aumentada desce com frequência ao mediastino (ectopia adquirida)
e fica abaixo da inferior. O que separa é o plano do nervo laríngeo recorrente, aproximado pelo
sulco traqueoesofágico: superiores ficam atrás dele, inferiores à frente.
Glândula normal: 2 a 7 mm, 35 a 50 mg, quatro em cerca de 84% das pessoas, mais de quatro em até 13%.
TC 4D: protocolo e padrões
Protocolo da TC 4D
Valor
Fases
Sem contraste, arterial (cerca de 30 s), venosa (cerca de 60 s) · alguns acrescentam uma tardia
Cobertura
Da mandíbula à carina
Contraste
100 mL a 4 mL/s com soro, pelo braço direito (menos artefato no mediastino)
Técnica
Cortes de 1,25 mm; 140 kVp para vencer o endurecimento do feixe nos ombros
Armadilha: nódulo tireoidiano exofítico
Sem contraste: igual à tireoide, porque tem iodo (contorno).Arterial: parece um adenoma (contorno).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 11. Ver artigo
Padrão do adenoma
Sem contraste
Arterial
Venosa
A (clássico, só 20%)
Hipo
Hiper
Hipo (lavagem)
B
Hipo
Igual à tireoide
Hipo
C
Hipo
Igual
Igual: só a fase sem contraste mostra
Padrão A, dois pacientes
Sem contraste: lesão menos densa que a tireoide (contorno).Arterial: realce intenso.Venosa: lavagem.Segundo paciente, sem contraste.Arterial.Venosa.
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 5. Ver artigo
Padrões B e C
Padrão B, sem contraste (contorno).Arterial: igual à tireoide.Venosa: menos densa.Padrão C, sem contraste: o único momento em que aparece (contorno).Arterial: igual.Venosa: igual.
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 6. Ver artigo
Variações
Adenoma com cisto (contorno).Com gordura (contorno).Com gordura; a seta mostra uma segunda lesão.Com calcificação (contorno).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 7. Ver artigo
Vaso polar
Arterial: o vaso (seta) leva a um adenoma atrás do esôfago.
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 8. Ver artigo
TC 4D, mulher de 69 anos
Sem contraste: lesão hipoatenuante atrás do lobo direito (seta).Arterial coronal: realce e artéria polar (setas).Venosa (seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 9. Ver artigo
a fase sem contraste é a chave
A tireoide tem iodo e é densa sem contraste; o adenoma, não. Por isso a fase sem contraste separa o
adenoma do nódulo tireoidiano exofítico. O vaso polar chegando à lesão favorece
paratireoide; o linfonodo tem vaso no hilo, hilo gorduroso e realce progressivo (mais na
venosa).
O que o cirurgião quer no laudo
No laudo
Por quê
Número de candidatas
Única: adenoma e cirurgia mínima · nenhuma ou várias: doença multiglandular
Tamanho
Mais de 13 mm favorece adenoma · menos de 7 mm, mesmo única, favorece multiglandular
Localização
Em relação à cartilagem cricoide e ao sulco traqueoesofágico (o nível vertebral não serve ao cirurgião)
Grau de confiança
Permite começar pelo alvo mais confiável e converter
Ectópica ou supranumerária
Muda a via
Doença tireoidiana
Pode ser tratada na mesma cirurgia
Subclávia direita aberrante
Indica nervo laríngeo não recorrente: risco de lesão de até 13%
Nervo laríngeo recorrente e não recorrente
Normal: o nervo direito contorna a subclávia e sobe no sulco traqueoesofágico.Com subclávia direita aberrante, o nervo vai direto do vago à laringe.
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 4. Ver artigo
Doença multiglandular
Arterial: glândulas levemente aumentadas dos dois lados (contornos).Mais acima, as outras duas (contornos).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 9. Ver artigo
Carcinoma, 16 anos
Venosa axial: lesão inferior esquerda heterogênea e calcificada (contorno).Coronal (contorno).
Fonte: Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394, Fig. 10. Ver artigo
+ complemento · multiglandular e carcinoma
Nenhuma lesão na TC 4D tem especificidade de 88% para doença multiglandular. O carcinoma é sugerido por
PTH muito alto, paciente jovem, lesão grande (mais de 2 a 3 cm) com calcificação, invasão e
linfonodos; nenhum achado o separa com segurança do adenoma. Termine o padrão de busca mesmo depois
de achar uma lesão óbvia: pode haver outra.
Ultrassom
US e sestamibi juntos são a primeira linha (sensibilidade de cerca de 81%; US sozinho, 70%) e o US
avalia a tireoide na mesma hora. Transdutor linear de 10 a 14 MHz, pescoço estendido, compressão
graduada para lesões de menos de 1 cm.
Adenoma no US
Achado
Ecogenicidade
Hipoecogênico em relação à tireoide, homogêneo
Forma
Oval ou em gota, margens lisas
Plano
Linha ecogênica separando da tireoide (as cápsulas)
Doppler
Artéria polar que se abre em arco periférico antes de entrar
Atípicos
Só 51% têm todos os achados típicos: cístico, lobulado, iso ou hiperecogênico
Anatomia no US
Sagital: pele, músculo, tireoide e a paratireoide (PA) aumentada atrás dela.
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 12. Ver artigo
Adenoma típico, mulher de 65 anos
Escala de cinza: lesão hipoecogênica em gota (seta) com linha ecogênica separando da tireoide (ponta de seta).Doppler: vaso polar (seta) abrindo em arco (pontas de seta).Outro paciente, TC coronal: o vaso polar (seta) e o adenoma (ponta de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 13. Ver artigo
Imitador no US
Como separar
Nódulo tireoidiano
Dentro da cápsula da tireoide, sem artéria polar
Linfonodo
Hilo ecogênico com vasos hilares
Tubérculo de Zuckerkandl
Contínuo com a tireoide no plano sagital
Esôfago
Assinatura de alça, move ao engolir
Músculo longo do pescoço
Fibras estriadas
Tumor de colisão, homem de 58 anos
US e Doppler: carcinoma folicular da tireoide (asterisco) e adenoma da paratireoide (ponta de seta) lado a lado.
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 20. Ver artigo
Linfonodo normal
US e Doppler: hilo ecogênico (seta) com vasos hilares (seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 22. Ver artigo
Linfonodos anormais
Sem hilo e com microcalcificações (pontas de seta): metástase de carcinoma papilífero.
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 23. Ver artigo
onde o US falha
Glândula ectópica (mediastino, retroesofágica), intratireoidea, bócio multinodular e hiperplasia. Na
dúvida entre US e cintilografia, a punção com dosagem de PTH no lavado resolve (sensibilidade de
95%).
Cintilografia, cistos e casos especiais
Situação
O que saber
Sestamibi (SPECT/TC: tomografia por emissão de fóton único associada à TC)
Tireoide e paratireoide captam cedo; a paratireoide retém na fase tardia (60 a 180 min) · falso-positivo mais comum: adenoma de tireoide
Adenoma cístico
Cisto com parede nodular; sestamibi capta só a parte sólida
Cisto de paratireoide
Anecoico, avascular; aspirado em água de rocha com PTH alto
Intratireoideo
Difícil; vaso polar e captação persistente ajudam
Secundário e terciário
Quatro glândulas hiperplásicas (insuficiência renal) · imagem ajuda a achar ectópicas
Tecido no esternocleidomastóideo ou no antebraço; não confundir com metástase
Cateterismo venoso
Último recurso: PTH 1,5 a 2 vezes o sistêmico localiza
Localização com US e sestamibi, homem de 44 anos
US e Doppler: lesão hipoecogênica vascularizada atrás do polo inferior esquerdo (pontas de seta).Sestamibi: o foco (ponta de seta).Imagem planar: a captação persistente (ponta de seta).SPECT/TC: o mesmo foco (ponta de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 5. Ver artigo
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 8. Ver artigo
Adenoma cístico, homem de 53 anos
TC: lesão atrás do lobo esquerdo (seta).Punção guiada por US (seta, ponta de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 10. Ver artigo
Cateterismo venoso, mulher de 64 anos com recidiva
Venografia com coleta seletiva de PTH.
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 11. Ver artigo
Adenoma cístico de 5,2 cm, homem de 55 anos
US: cisto com nódulos na parede (setas).Sestamibi: capta na parte sólida (seta) e não no cisto (pontas de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 15. Ver artigo
Cisto de paratireoide funcionante, homem de 57 anos
US e Doppler: cisto anecoico e avascular de 2,9 cm (setas).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 16. Ver artigo
Carcinoma, homem de 31 anos
US: massa de 2,6 cm mal delimitada (pontas de seta).Doppler: vasos centrais (seta, pontas de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 17. Ver artigo
MEN 2A, mulher de 38 anos
Adenoma junto ao polo inferior esquerdo (seta) e carcinoma medular com microcalcificações (pontas de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 18. Ver artigo
Autoimplante no esternocleidomastóideo, homem de 55 anos
US: implante hipoecogênico (ponta de seta).Doppler (ponta de seta).TC: os dois implantes (pontas de seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 19. Ver artigo
Adenoma intratireoideo, mulher de 72 anos
US: nódulo hipoecogênico dentro da tireoide (seta) e Doppler; embaixo, cintilografia e SPECT/TC com captação (seta).
Fonte: Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. RadioGraphics 2025;45(6):e240182, Fig. 21. Ver artigo
Pontos de prova: alto rendimento
Diagnóstico
Bioquímico; imagem localiza
Adenoma único
80 a 90%
Superiores
4ª bolsa, atrás do nervo
Inferiores
3ª bolsa com o timo, à frente
Ectópica inferior
Ligamento tireotímico
Padrão clássico
Arterial alto, lavagem venosa (20%)
Fase sem contraste
Separa da tireoide
Vaso polar
Paratireoide
Hilo vascular
Linfonodo
Lesão > 13 mm
Adenoma
< 7 mm ou nenhuma
Multiglandular
Subclávia aberrante
Nervo não recorrente
US
Hipoecogênico, arco periférico
Sestamibi
Retenção tardia
Cisto
Água de rocha, PTH alto
Armadilhas e erros comuns
Erros
Pedir imagem para diagnosticar hiperparatireoidismo
Chamar de superior a glândula só por estar alta
Laudar o nível vertebral em vez da cricoide
Esquecer a fase sem contraste
Parar a busca na primeira lesão
Confundir linfonodo com adenoma
Não citar a subclávia direita aberrante
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Adenoma no mediastino superior, abaixo do nível das inferiores, situado atrás do plano do sulco traqueoesofágico. A glândula de origem mais provável:
A altura não diz a origem. A superior aumentada desce pelo sulco traqueoesofágico e fica atrás do nervo laríngeo recorrente; as inferiores ficam à frente dele.
Local ectópico mais comum das paratireoides inferiores:
As inferiores descem com o timo (3ª bolsa): ligamento tireotímico em cerca de 25%, depois o mediastino. Retroesofágico é o ectópico típico das superiores.
Fontes.
1. Bunch PM, Randolph GW, Brooks JA, et al. Parathyroid 4D CT: What the Surgeon Wants to Know.
RadioGraphics 2020;40(5):1383-1394. doi:10.1148/rg.2020190190
2. Khot R, Dixe de Oliveira Santo I, Shen L, et al. US of the Neck beyond the Thyroid Gland: Parathyroid
Glands. RadioGraphics 2025;45(6):e240182. doi:10.1148/rg.240182
As fontes discordam nas proporções (hiperplasia de cerca de 6% × 10 a 15%), no protocolo (3 fases × 4
fases) e no lugar da TC 4D (superior × segunda linha). Nenhuma dá valores de atenuação em UH nem
percentual de lavagem. A fonte 2 atribui a tireoide à 4ª bolsa (ela vem do assoalho da faringe). Tirei os
desenhos com texto em inglês, a histologia e a foto cirúrgica. Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.