Cadernos QRad 06 · Obstétrico de Segundo Trimestre
Ultrassonografia · Obstetrícia

Obstétrico de Segundo Trimestre

ISUOG Clinical Standards Committee (Salomon LJ, Alfirevic Z, Berghella V, Bilardo CM, et al.). ISUOG Practice Guidelines (updated): performance of the routine mid-trimester fetal ultrasound scan. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856. doi:10.1002/uog.24888.

Como ler as recomendações

A diretriz classifica cada item como ponto de boa prática (consenso do comitê, sem grau formal) ou com grau de recomendação A, B ou C, conforme a força da evidência. Neste caderno, quando o grau é formal ele aparece marcado (por exemplo grau B); o restante corresponde a pontos de boa prática.

a ideia central Estas são recomendações mínimas. Havendo tempo, equipamento e habilidade, uma avaliação mais completa é encorajada, e o desvio em relação ao protocolo deve ser documentado.

O que o exame é, e o que ele não é

O rastreamento morfológico do segundo trimestre é feito principalmente para avaliação anatômica do feto e serve também de linha de base para comparar o crescimento em exames posteriores. Nas mãos de especialistas, a maioria das anomalias estruturais clinicamente importantes é detectada, mas há diferenças significativas de taxa de detecção entre centros e entre operadores.

o exame de rotina inclui Atividade cardíaca · número de fetos (e corionicidade/amnionicidade nas múltiplas) · idade gestacional e tamanho fetal · anatomia fetal básica · aspecto e localização placentária · volume de líquido amniótico.

O que fica de fora

  • Massas uterinas e anexiais (miomas, cistos ovarianos) devem ser relatadas se vistas, mas a avaliação formal do útero e dos anexos não faz parte do exame de rotina.
  • Determinação do sexo fetal não faz parte do exame: o que se checa é o aspecto normal da genitália externa. O relato do sexo depende de solicitação dos pais e da prática local.
  • Contar dedos das mãos e dos pés não é necessário.
  • Avaliação completa da coluna em todos os planos não faz parte do exame básico.
quando o exame não pode ser completado Repetir para garantir exame completo, ou encaminhar a outro examinador (grau C), o mais rápido possível. Anomalias acabam sendo detectadas em 0,5–5% desses casos. Documente sempre a razão do desvio em relação ao protocolo.
+ complemento · ALARA A ultrassonografia pré-natal parece segura, mas o tempo de exposição deve ser minimizado com a menor potência capaz de gerar informação diagnóstica: princípio ALARA (As Low As Reasonably Achievable). A diretriz é explícita: o exame não deve ser feito com finalidade de entretenimento.

Biometria e datação

medidas de rotina DBP (diâmetro biparietal) · CC (circunferência cefálica) · CA (circunferência abdominal) · CF (comprimento femoral).
Biometria fetal padrão
Circunferência cefálica.
Circunferência cefálica.
Circunferência abdominal.
Circunferência abdominal.
Comprimento do fêmur.
Comprimento do fêmur.
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 1. Ver artigo
MedidaPlano e referênciasCalipers
DBPCorte transverso da cabeça no nível dos tálamos; insonação ideal a 90° dos ecos da linha média; hemisférios simétricos; falx interrompida anteriormente apenas pelo cavum do septo pelúcido; cerebelo não visívelNa parte mais larga do crânio, perpendicular à linha média. Preferir externa-externa
CCMesmas referências do DBPElipse ao redor da face externa dos ecos ósseos, ou calculada: CC = 1,62 × (DBP + DOF (diâmetro occipitofrontal))
CACorte transverso do abdome o mais circular possível; veia umbilical no nível do seio portal; estômago visível; rins não visíveis; coluna preferencialmente às 3 ou 9 horasElipse na superfície externa da pele, ou calculada: CA = 1,57 × (DAP (diâmetro anteroposterior do abdome) + DAT (diâmetro transverso do abdome))
CFAmbas as extremidades da diáfise ossificada visíveis; maior eixo da diáfise; ângulo de insonação entre 45° e 90°Nas extremidades da diáfise ossificada, sem incluir a epífise distal; excluir o artefato de espícula triangular
datação Se a idade gestacional ainda não foi estabelecida, após 14 semanas use CC isolada ou CC + CF (grau B), pela evidência do INTERGROWTH-21st (International Fetal and Newborn Growth Consortium for the 21st Century). Se a datação já foi feita em exame de boa qualidade mais precoce, não recalcule a data provável de parto em exames subsequentes.

Peso fetal estimado

  • Fórmula de Hadlock-3 (CC, CA, CF): a mais estável matematicamente, recomendada na maioria dos cenários (grau C), inclusive nos fetos suspeitos de serem pequenos ou grandes.
  • Expressar o desvio como percentil ou escore Z, indicando no laudo a curva de referência utilizada.
  • Preferir curvas prescritivas, prospectivas, populacionais e de baixo viés metodológico, atentando também às curvas recomendadas nacional ou localmente.
  • Medidas seriadas para avaliar crescimento devem respeitar intervalo de pelo menos 3 semanas.
  • Restrição de crescimento: usar os critérios do consenso Delphi 2016.
⚠ forma da cabeça Braquicefalia e dolicocefalia (por síndromes, oligoâmnio ou apresentação pélvica) distorcem o DBP e levam a erro de datação. Nesses casos a CC é mais confiável. O índice cefálico (DBP/DOF) caracteriza a forma da cabeça.

Líquido amniótico

Maior bolsão vertical (DVP)Interpretação
≤ 2,0 cmReduzido
> 2,0 e ≤ 8,0 cmNormal
> 8,0 cmAumentado

Mede-se o maior bolsão vertical livre de cordão e de partes fetais. O ILA (índice de líquido amniótico) pode ser preferível para avaliar poli-hidrâmnio, e o DVP para avaliar oligo-hidrâmnio (grau C).

A tabela que organiza o exame

Esta é a peça central da diretriz: o conteúdo mínimo do rastreamento morfológico. Itens marcados com * são opcionais: avaliados se tecnicamente viáveis e conforme a prática local.

SegmentoItens
CabeçaCrânio íntegro · forma normal · cavum do septo pelúcido · plexos coroides · falx mediana · tálamos · ventrículos laterais · cerebelo · cisterna magna · prega nucal*
FaceAmbas as órbitas e bulbos presentes · perfil facial mediossagital* · osso nasal* · lábio superior íntegro
PescoçoAusência de massas (ex.: higroma cístico)
Tórax e coraçãoTórax e pulmões de forma e tamanho normais · atividade cardíaca presente · corte de quatro câmaras em posição normal (câmaras esquerdas à esquerda) · vias de saída aórtica e pulmonar de tamanho e relação normais · via de saída do VE (ventrículo esquerdo); corte de três vasos ou de três vasos e traqueia normal · sem hérnia diafragmática
AbdomeEstômago em posição normal à esquerda · alças normais (não dilatadas nem hiperecogênicas) · vesícula biliar à direita* · ambos os rins presentes, sem pielectasia · bexiga de aspecto normal · inserção do cordão no abdome fetal normal
EsqueletoSem defeitos ou massas na coluna (cortes transverso e sagital) · braços e mãos presentes, articulações em posição normal · pernas e pés presentes, articulações em posição normal
PlacentaPosição e relação com o colo normais · sem massas
CordãoTrês vasos* · inserção placentária* normal
GenitáliaGenitália masculina ou feminina normal*
ColoMedida do comprimento cervical normal*
regra geral Suspeitou de anomalia em qualquer item → exame detalhado ou encaminhamento a centro especializado.

Crânio, cérebro e face

os quatro aspectos do crânio Tamanho (biometria) · forma (oval, sem protrusões ou defeitos focais, interrompida apenas por suturas hipoecogênicas estreitas) · integridade (sem defeitos ósseos) · densidade óssea (estrutura ecogênica contínua).

Alterações de forma (limão, morango, folha de trevo) devem ser documentadas e investigadas. A perda da ecogenicidade normal do crânio, ou a visualização anormalmente nítida do cérebro fetal, levanta suspeita de má mineralização: osteogênese imperfeita, hipofosfatasia.

os três planos do cérebro Transventricular e transtalâmico: integridade dos hemisférios.
Transcerebelar: fossa posterior, com cerebelo e cisterna magna.
Estruturas a avaliar: ventrículos laterais (com plexos coroides), cavum do septo pelúcido, falx mediana, tálamos, cerebelo e cisterna magna.
Cortes transversos da cabeça fetal
Corte transventricular: foice (Falx), cornos anteriores, cavum do septo pelúcido (CSP), átrio e plexo coroide (CP).
Corte transventricular: foice (Falx), cornos anteriores, cavum do septo pelúcido (CSP), átrio e plexo coroide (CP).
Corte transcerebelar: cerebelo, verme e cisterna magna (CM), com os tálamos (Th).
Corte transcerebelar: cerebelo, verme e cisterna magna (CM), com os tálamos (Th).
Corte transtalâmico: os tálamos (Th). Os cortes transventricular e transtalâmico avaliam a integridade dos hemisférios.
Corte transtalâmico: os tálamos (Th). Os cortes transventricular e transtalâmico avaliam a integridade dos hemisférios.
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 2. Ver artigo
⚠ artefato do hemisfério próximo Artefatos obscurecem o hemisfério proximal: o mais próximo do transdutor. É a razão pela qual a avaliação é feita, na prática, no hemisfério distal, e o motivo de anomalias unilaterais passarem despercebidas.

Face

O básico: lábio superior em corte coronal (frontal) para detectar fenda labial, presença e posição das órbitas com separação normal dos olhos e, se viável, o perfil mediossagital. Nariz, narinas, palato, maxila, mandíbula, língua e orelhas podem ser avaliados, mas não fazem parte do exame de rotina.

Face fetal
Corte coronal: boca, lábios e nariz.
Corte coronal: boca, lábios e nariz.
Perfil mediossagital, quando tecnicamente possível: dá pistas de fenda labial bilateral, bossa frontal, micrognatia e alterações do osso nasal.
Perfil mediossagital, quando tecnicamente possível: dá pistas de fenda labial bilateral, bossa frontal, micrognatia e alterações do osso nasal.
Órbitas: simétricas e íntegras, separadas por cerca de um diâmetro orbitário.
Órbitas: simétricas e íntegras, separadas por cerca de um diâmetro orbitário.
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 3. Ver artigo

Tórax e coração

Tórax: transição suave para o abdome, costelas com curvatura normal e sem deformidade, pulmões homogêneos, sem desvio de mediastino nem massas. A interface diafragmática costuma ser visível como linha hipoecoica separando conteúdo torácico e abdominal.

a sequência cardíaca Começar por situs, eixo e ritmo. Depois: quatro câmaras → vias de saída → três vasos (e três vasos e traqueia).
Planos do rastreamento cardíaco
Quatro câmaras: átrios esquerdo e direito (LA, RA), ventrículos esquerdo e direito (LV, RV), valvas atrioventriculares com inserção escalonada e septo íntegro.
Quatro câmaras: átrios esquerdo e direito (LA, RA), ventrículos esquerdo e direito (LV, RV), valvas atrioventriculares com inserção escalonada e septo íntegro.
Via de saída do ventrículo esquerdo (seta).
Via de saída do ventrículo esquerdo (seta).
Via de saída do ventrículo direito (seta). As duas vias de saída têm calibre parecido e se cruzam ao sair dos ventrículos.
Via de saída do ventrículo direito (seta). As duas vias de saída têm calibre parecido e se cruzam ao sair dos ventrículos.
Três vasos: artéria pulmonar (Pa), aorta ascendente (Ao) e veia cava superior direita (SVC).
Três vasos: artéria pulmonar (Pa), aorta ascendente (Ao) e veia cava superior direita (SVC).
Três vasos e traqueia: arco ductal (Da), arco aórtico (AA), veia cava superior (SVC) e traqueia (Tr).
Três vasos e traqueia: arco ductal (Da), arco aórtico (AA), veia cava superior (SVC) e traqueia (Tr).
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 4. Ver artigo
+ complemento · por que as vias de saída importam O corte de quatro câmaras isoladamente não detecta as conotruncais. São as vias de saída que revelam tetralogia de Fallot, transposição das grandes artérias, dupla via de saída de VD (ventrículo direito) e tronco arterioso comum, e o corte de três vasos e traqueia melhora a detecção de anomalias das vias de saída, do arco aórtico e das veias sistêmicas. O detalhe de que as vias de saída se cruzam no feto normal é o achado que separa coração normal de transposição.

Abdome, rins, bexiga e coluna

Abdome

  • Situs abdominal determinado; estômago claramente visível à esquerda, ocupando cerca de um terço da metade esquerda do corte usado para a CA.
  • Três estruturas hipoecoicas no andar superior, da esquerda para a direita: estômago, veia umbilical e vesícula biliar (esta última opcional). Localização anômala sugere veia umbilical direita persistente, heterotaxia ou shunt porto-hepático.
  • Inserção do cordão no abdome: procurar defeito de parede ventral (onfalocele, gastrosquise).
  • Coleções líquidas anormais dentro ou ao redor das alças (ascite, cistos entéricos, dilatação evidente) devem ser documentadas.
⚠ intestino hiperecogênico Ecogenicidade intestinal igual à do osso é motivo de encaminhamento. Para evitar falso-positivo, reduza o ganho e verifique se as alças continuam mais ecogênicas que a crista ilíaca adjacente.

Rins e bexiga

AchadoConduta
Pelve renal ≥ 7 mmReavaliação no terceiro trimestre
Bexiga: p95 do maior eixo14 mm às 18 semanas · 23 mm às 22 semanas. A bexiga não deve alcançar o nível da inserção do cordão
Bexiga muito aumentada ou não visualizada de forma persistenteEncaminhar para avaliação detalhada
Inserção do cordão, bexiga, rins e coluna
Inserção do cordão no abdome fetal (seta): afasta defeito da parede, como onfalocele e gastrosquise.
Inserção do cordão no abdome fetal (seta): afasta defeito da parede, como onfalocele e gastrosquise.
Bexiga ladeada pelas artérias umbilicais ao Doppler colorido (estrela).
Bexiga ladeada pelas artérias umbilicais ao Doppler colorido (estrela).
Os dois rins (setas) e a coluna em corte axial.
Os dois rins (setas) e a coluna em corte axial.
Coluna em corte longitudinal com a pele íntegra: rastreio de espinha bífida.
Coluna em corte longitudinal com a pele íntegra: rastreio de espinha bífida.
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 5. Ver artigo

Coluna

O exame básico inclui cortes transverso e sagital. A anomalia grave mais frequente, a espinha bífida aberta, costuma vir acompanhada de deformidade cerebelar característica e cisterna magna obliterada: é por esses sinais indiretos, no crânio, que ela é geralmente detectada.

Membros e genitália

  • Documentar a presença de todas as quatro extremidades.
  • Avaliar presença dos ossos longos e sua simetria, comprimento, forma, alinhamento, posição e movimento.
  • Contar dedos não é exigido.
  • Medir um fêmur costuma ser suficiente; havendo suspeita, medir todos os ossos longos e comparar com curvas padronizadas.
Extremidades
Membro superior: úmero (humerus), rádio (radius) e ulna.
Membro superior: úmero (humerus), rádio (radius) e ulna.
Membro inferior: fêmur (femur), tíbia (tibia) e fíbula (fibula).
Membro inferior: fêmur (femur), tíbia (tibia) e fíbula (fibula).
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 6. Ver artigo

Genitália: a caracterização para determinação do sexo não faz parte do exame de rotina; o relato depende de solicitação dos pais e da prática e regulamentação locais. O que se verifica é o aspecto normal da genitália externa.

Placenta, vasa previa e colo

Placenta

Posição da placenta em relação ao colo
Corte do colo (Cervix) com a bexiga (Bladder) e o líquido amniótico (Amniotic fluid): a posição da placenta é descrita em relação ao orifício interno (seta trac
Corte do colo (Cervix) com a bexiga (Bladder) e o líquido amniótico (Amniotic fluid): a posição da placenta é descrita em relação ao orifício interno (seta tracejada).
Fonte: Salomon LJ et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856, Fig. 7. Ver artigo
SituaçãoConduta
Borda inferior alcança ou ultrapassa o orifício internoReavaliação no terceiro trimestre
Distância borda–orifício interno ≤ 15 mm na via transvaginalReavaliação no terceiro trimestre (grau C)
Suspeita de acretismoAvaliação detalhada complementar
+ complemento · migração placentária A “migração” (crescimento da parede uterina entre a borda placentária e o orifício interno) é frequente, e o seguimento no terceiro trimestre confirma posição normal na maioria dos casos. Os pontos de corte recentemente sugeridos para migração provável são 5 mm para placenta anterior e 15,5 mm para posterior, medidos por via transvaginal no exame de segundo trimestre.
sinais de acretismo Risco em mulheres com cirurgia uterina prévia e placenta anterior baixa ou prévia. Procurar: ausência da linha miometrial hipoecoica sob a placenta · lacunas placentárias grandes e irregulares · interrupção da linha hiperecogênica entre a serosa uterina e a bexiga · espessura miometrial subplacentária < 1 mm · abaulamento placentário (placental bulge).

Vasa previa

Vasos fetais desprotegidos correndo pelas membranas, sobre ou a menos de 2 cm do orifício cervical interno. Prevalência de 0,5 por 1000 gestações. O conhecimento pré-natal aumenta significativamente a sobrevida e reduz a morbidade perinatal.

fatores de risco → exame dirigido Gestação gemelar · concepção por reprodução assistida · placenta baixa ou bilobada · lobos succenturiados · inserção velamentosa do cordão. Na presença desses fatores, recomenda-se exame dirigido por via transvaginal com Doppler colorido (grau B).
TUDO SE DECIDE PELA RELAÇÃO COM O ORIFÍCIO INTERNO placenta baixa OI = orifício interno Borda que alcança ou ultrapassa o orifício, ou distância ≤ 15 mm na via transvaginal: reavaliar no terceiro trimestre. A maioria “migra” até o termo. vasa previa lobo < 2 cm do OI Vasos fetais desprotegidos nas membranas, sobre o orifício ou a menos de 2 cm dele. Com fator de risco (inserção velamentosa, lobo succenturiado): transvaginal com Doppler. acretismo bexiga lacunas Cicatriz uterina prévia com placenta anterior baixa. Procurar: perda da linha miometrial hipoecoica, lacunas grandes e irregulares, interface com a bexiga rota, miométrio < 1 mm.
Os três achados que mudam a conduta no segundo trimestre dependem da mesma referência, o orifício cervical interno: a distância da borda placentária, os vasos desprotegidos da vasa previa e, na placenta anterior sobre cicatriz, os sinais de acretismo. Esquemas ilustrativos, em corte sagital.

Colo uterino

  • Medida por via transvaginal, no contexto de rastreamento de parto pré-termo (grau C). Exige consentimento adicional, treinamento apropriado do operador e auditoria de resultados.
  • Colo curto = < 25 mm, sobretudo antes de 24 semanas, correlaciona-se fortemente com parto pré-termo.
  • Em gestação única, sem parto pré-termo espontâneo prévio e colo < 25 mm antes de 24 semanas, a progesterona vaginal reduz significativamente o risco de prematuridade e a morbidade neonatal.
  • Com colo curto e parto pré-termo espontâneo prévio, a cerclagem reduz o risco; várias sociedades recomendam medida seriada entre 16 e 23 semanas nessa população.

Gestação múltipla

  • Determinar corionicidade (e amnionicidade nas monocoriônicas): possível no segundo trimestre se houver duas massas placentárias separadas ou sexos discordantes, com exceções.
  • A corionicidade é mais bem avaliada antes de 14–15 semanas, quando se identificam o sinal do lambda ou do T.
  • Visualizar a inserção placentária do cordão de cada feto.
  • Registrar características distintivas (sexo, marcadores únicos, posição no útero): rotular os gêmeos corretamente é crítico.
  • Sem exame de primeiro trimestre, sem duas placentas identificáveis e com sexos iguais: considerar monocoriônica e seguir como gestação de alto risco.

Pontos de prova: alto rendimento

O que o exame incluiAtividade cardíaca · número de fetos · idade gestacional/tamanho · anatomia básica · placenta · líquido amniótico.
Datação após 14 semanasCC isolada ou CC + CF (INTERGROWTH-21st). Não recalcular se já datado em exame precoce de qualidade.
Plano do DBPTransverso no nível dos tálamos, falx interrompida pelo cavum do septo pelúcido, cerebelo não visível.
Plano da CAVeia umbilical no seio portal, estômago visível, rins não visíveis, corte o mais circular possível.
FórmulasCC = 1,62 × (DBP + DOF) · CA = 1,57 × (DAP + DAT).
Comprimento femoralÂngulo de insonação 45–90°, excluir a epífise distal e o artefato de espícula.
Peso fetal estimadoHadlock-3 (CC, CA, CF). Expressar em percentil ou escore Z e citar a curva usada.
Restrição de crescimentoCritérios do consenso Delphi 2016.
Líquido amnióticoDVP ≤2 cm reduzido · >2 e ≤8 normal · >8 aumentado. ILA para poli, DVP para oligo.
Planos do cérebroTransventricular, transtalâmico e transcerebelar.
Forma do crânioLimão, morango, folha de trevo → documentar e investigar. Perda da ecogenicidade normal → má mineralização.
FaceLábio superior em coronal + órbitas; perfil mediossagital se viável.
Roteiro cardíacoSitus, eixo e ritmo → quatro câmaras → vias de saída → três vasos (e três vasos e traqueia).
Vias de saídaAproximadamente do mesmo calibre e cruzando-se no feto normal.
EstômagoÀ esquerda, ocupando ~1/3 da metade esquerda do corte da CA.
Intestino hiperecogênicoEcogenicidade igual à do osso → encaminhar. Reduzir o ganho e comparar com a crista ilíaca.
Pelve renal≥ 7 mm → reavaliar no terceiro trimestre.
Bexigap95 do maior eixo: 14 mm (18 sem) e 23 mm (22 sem).
Espinha bífida abertaDetectada pelos sinais cranianos: deformidade cerebelar e cisterna magna obliterada.
PlacentaBorda que alcança/ultrapassa o orifício interno, ou ≤15 mm na via TV (transvaginal) → reavaliar no 3º trimestre.
AcretismoMiométrio subplacentário <1 mm, lacunas irregulares, perda da linha serosa-bexiga, bulge.
Vasa previaVasos a <2 cm do orifício interno; 0,5/1000; exame dirigido TV com Doppler se houver fator de risco.
Colo curto<25 mm antes de 24 semanas → progesterona vaginal; com parto pré-termo prévio, cerclagem.
CorionicidadeMais bem avaliada antes de 14–15 semanas (lambda × T). Na dúvida, tratar como monocoriônica.

Armadilhas e erros comuns

Técnicos

  • Medir DBP em cabeça braquicéfala ou dolicocéfala e errar a datação: nesses casos a CC é mais confiável.
  • Incluir a epífise femoral distal ou o artefato de espícula na medida do CF.
  • Usar curvas antigas: a redução da largura do feixe nos aparelhos modernos alterou as medidas laterais e pode superestimar o CF em tabelas desatualizadas.
  • Avaliar o hemisfério proximal, encoberto por artefato.
  • Diagnosticar intestino hiperecogênico com ganho alto: sempre reduza e compare com a crista ilíaca.
  • Medir o bolsão de líquido incluindo cordão ou partes fetais.

De escopo e laudo

  • Tratar o exame como “normal” sem ter completado a Tabela 1: se não deu para completar, repita ou encaminhe.
  • Recalcular a idade gestacional em exame tardio quando já havia datação de boa qualidade.
  • Não citar a curva de referência usada no laudo.
  • Deixar de relatar mioma ou cisto ovariano visto incidentalmente: relatar é obrigatório, avaliar formalmente não é.
  • Parar no corte de quatro câmaras: as conotruncais só aparecem nas vias de saída.
  • Não medir o colo em paciente de risco, ou medi-lo sem consentimento e treinamento específicos.
  • Deixar de procurar vasa previa quando há inserção velamentosa, placenta bilobada ou lobo succenturiado.

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Gestante chega ao rastreamento morfológico com 22 semanas e nega ter feito qualquer ultrassonografia prévia. Como estabelecer a idade gestacional?

Se a idade gestacional ainda não foi estabelecida, após 14 semanas a datação usa CC isolada ou CC + CF (grau B), pela evidência do INTERGROWTH-21st. O Hadlock-3 (CC, CA, CF) serve para o peso fetal estimado, não para datar. E o contrário também cai: se já houve datação em exame precoce de boa qualidade, não recalcular a data provável de parto em exames subsequentes.
↑revisar esta parte do caderno · Biometria e datação
Questão 2

Residente lista itens da Tabela 1 e pergunta quais são obrigatórios e quais são opcionais (marcados com *). Qual deles faz parte obrigatória do exame anatômico básico?

Na Tabela 1, os itens com * são opcionais, avaliados se tecnicamente viáveis e conforme a prática local: prega nucal, perfil mediossagital, osso nasal, vesícula biliar, três vasos do cordão, genitália e colo. O lábio superior íntegro é obrigatório, avaliado em corte coronal (frontal) justamente para detectar fenda labial, junto com ambas as órbitas e bulbos presentes.
↑revisar esta parte do caderno · A tabela que organiza o exame
Questão 3

No plano transcerebelar de um morfológico de rotina, você observa cerebelo com deformidade característica e cisterna magna obliterada. O que esses achados significam?

A anomalia grave mais frequente, a espinha bífida aberta, costuma vir acompanhada de deformidade cerebelar característica e cisterna magna obliterada: é por esses sinais indiretos no crânio que ela é geralmente detectada. A alternativa do artefato é a armadilha: artefatos obscurecem o hemisfério proximal, razão pela qual a avaliação prática é feita no distal, não na fossa posterior. A perda da ecogenicidade normal do crânio é pista de má mineralização (osteogênese imperfeita, hipofosfatasia), outro capítulo.
↑revisar esta parte do caderno · Crânio, cérebro e face
Questão 4

Morfológico com corte de quatro câmaras normal. Nas vias de saída, as artérias aparecem paralelas, sem se cruzarem, de calibre semelhante. Qual a interpretação?

No feto normal as vias de saída são aproximadamente do mesmo calibre e cruzam-se ao sair dos respectivos ventrículos: é esse detalhe que separa coração normal de transposição. A lição de fundo: o corte de quatro câmaras isolado não detecta as conotruncais; são as vias de saída que revelam tetralogia de Fallot, transposição, dupla via de saída de VD e tronco arterioso comum, e o corte de três vasos e traqueia ainda melhora essa detecção.
↑revisar esta parte do caderno · Tórax e coração
Questão 5

Ao avaliar o abdome fetal, as alças intestinais parecem hiperecogênicas. Qual a conduta correta antes de fechar o laudo?

Intestino hiperecogênico é motivo de encaminhamento quando a ecogenicidade é igual à do osso. Para evitar falso-positivo, reduza o ganho e verifique se as alças continuam mais ecogênicas que a crista ilíaca adjacente: essa é a comparação de referência, não fígado nem pulmão. A armadilha clássica é diagnosticar intestino hiperecogênico com ganho alto; o intervalo de 3 semanas é para medidas seriadas de crescimento, e a reavaliação no terceiro trimestre é a conduta da pelve renal ≥ 7 mm.
↑revisar esta parte do caderno · Abdome, rins, bexiga e coluna
Questão 6

Primigesta sem parto pré-termo espontâneo prévio, colo medido por via transvaginal no rastreio: 21 mm às 22 semanas. Qual a conduta com melhor evidência?

Colo curto é < 25 mm, sobretudo antes de 24 semanas, e correlaciona-se fortemente com parto pré-termo. Em gestação única sem parto pré-termo espontâneo prévio, a progesterona vaginal reduz significativamente o risco de prematuridade e a morbidade neonatal. A cerclagem entra quando há parto pré-termo espontâneo prévio, e são várias as sociedades que recomendam medida seriada entre 16 e 23 semanas exatamente nessa população, não na primigesta.
↑revisar esta parte do caderno · Placenta, vasa previa e colo
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Fonte: ISUOG Clinical Standards Committee. ISUOG Practice Guidelines (updated): performance of the routine mid-trimester fetal ultrasound scan. Ultrasound Obstet Gynecol 2022;59(6):840–856. doi:10.1002/uog.24888.

Nota: A diretriz remete a documentos específicos para o exame cardíaco fetal detalhado, para a neurossonografia e para gestação múltipla. Este caderno cobre o que é rastreamento de rotina; a avaliação dirigida de cada suspeita segue as diretrizes correspondentes.