Gestante chega ao rastreamento morfológico com 22 semanas e nega ter feito qualquer ultrassonografia prévia. Como estabelecer a idade gestacional?
Obstétrico de Segundo Trimestre
Como ler as recomendações
A diretriz classifica cada item como ponto de boa prática (consenso do comitê, sem grau formal) ou com grau de recomendação A, B ou C, conforme a força da evidência. Neste caderno, quando o grau é formal ele aparece marcado (por exemplo grau B); o restante corresponde a pontos de boa prática.
O que o exame é, e o que ele não é
O rastreamento morfológico do segundo trimestre é feito principalmente para avaliação anatômica do feto e serve também de linha de base para comparar o crescimento em exames posteriores. Nas mãos de especialistas, a maioria das anomalias estruturais clinicamente importantes é detectada, mas há diferenças significativas de taxa de detecção entre centros e entre operadores.
O que fica de fora
- Massas uterinas e anexiais (miomas, cistos ovarianos) devem ser relatadas se vistas, mas a avaliação formal do útero e dos anexos não faz parte do exame de rotina.
- Determinação do sexo fetal não faz parte do exame: o que se checa é o aspecto normal da genitália externa. O relato do sexo depende de solicitação dos pais e da prática local.
- Contar dedos das mãos e dos pés não é necessário.
- Avaliação completa da coluna em todos os planos não faz parte do exame básico.
Biometria e datação



| Medida | Plano e referências | Calipers |
|---|---|---|
| DBP | Corte transverso da cabeça no nível dos tálamos; insonação ideal a 90° dos ecos da linha média; hemisférios simétricos; falx interrompida anteriormente apenas pelo cavum do septo pelúcido; cerebelo não visível | Na parte mais larga do crânio, perpendicular à linha média. Preferir externa-externa |
| CC | Mesmas referências do DBP | Elipse ao redor da face externa dos ecos ósseos, ou calculada: CC = 1,62 × (DBP + DOF (diâmetro occipitofrontal)) |
| CA | Corte transverso do abdome o mais circular possível; veia umbilical no nível do seio portal; estômago visível; rins não visíveis; coluna preferencialmente às 3 ou 9 horas | Elipse na superfície externa da pele, ou calculada: CA = 1,57 × (DAP (diâmetro anteroposterior do abdome) + DAT (diâmetro transverso do abdome)) |
| CF | Ambas as extremidades da diáfise ossificada visíveis; maior eixo da diáfise; ângulo de insonação entre 45° e 90° | Nas extremidades da diáfise ossificada, sem incluir a epífise distal; excluir o artefato de espícula triangular |
Peso fetal estimado
- Fórmula de Hadlock-3 (CC, CA, CF): a mais estável matematicamente, recomendada na maioria dos cenários (grau C), inclusive nos fetos suspeitos de serem pequenos ou grandes.
- Expressar o desvio como percentil ou escore Z, indicando no laudo a curva de referência utilizada.
- Preferir curvas prescritivas, prospectivas, populacionais e de baixo viés metodológico, atentando também às curvas recomendadas nacional ou localmente.
- Medidas seriadas para avaliar crescimento devem respeitar intervalo de pelo menos 3 semanas.
- Restrição de crescimento: usar os critérios do consenso Delphi 2016.
Líquido amniótico
| Maior bolsão vertical (DVP) | Interpretação |
|---|---|
| ≤ 2,0 cm | Reduzido |
| > 2,0 e ≤ 8,0 cm | Normal |
| > 8,0 cm | Aumentado |
Mede-se o maior bolsão vertical livre de cordão e de partes fetais. O ILA (índice de líquido amniótico) pode ser preferível para avaliar poli-hidrâmnio, e o DVP para avaliar oligo-hidrâmnio (grau C).
A tabela que organiza o exame
Esta é a peça central da diretriz: o conteúdo mínimo do rastreamento morfológico. Itens marcados com * são opcionais: avaliados se tecnicamente viáveis e conforme a prática local.
| Segmento | Itens |
|---|---|
| Cabeça | Crânio íntegro · forma normal · cavum do septo pelúcido · plexos coroides · falx mediana · tálamos · ventrículos laterais · cerebelo · cisterna magna · prega nucal* |
| Face | Ambas as órbitas e bulbos presentes · perfil facial mediossagital* · osso nasal* · lábio superior íntegro |
| Pescoço | Ausência de massas (ex.: higroma cístico) |
| Tórax e coração | Tórax e pulmões de forma e tamanho normais · atividade cardíaca presente · corte de quatro câmaras em posição normal (câmaras esquerdas à esquerda) · vias de saída aórtica e pulmonar de tamanho e relação normais · via de saída do VE (ventrículo esquerdo); corte de três vasos ou de três vasos e traqueia normal · sem hérnia diafragmática |
| Abdome | Estômago em posição normal à esquerda · alças normais (não dilatadas nem hiperecogênicas) · vesícula biliar à direita* · ambos os rins presentes, sem pielectasia · bexiga de aspecto normal · inserção do cordão no abdome fetal normal |
| Esqueleto | Sem defeitos ou massas na coluna (cortes transverso e sagital) · braços e mãos presentes, articulações em posição normal · pernas e pés presentes, articulações em posição normal |
| Placenta | Posição e relação com o colo normais · sem massas |
| Cordão | Três vasos* · inserção placentária* normal |
| Genitália | Genitália masculina ou feminina normal* |
| Colo | Medida do comprimento cervical normal* |
Crânio, cérebro e face
Alterações de forma (limão, morango, folha de trevo) devem ser documentadas e investigadas. A perda da ecogenicidade normal do crânio, ou a visualização anormalmente nítida do cérebro fetal, levanta suspeita de má mineralização: osteogênese imperfeita, hipofosfatasia.
Transcerebelar: fossa posterior, com cerebelo e cisterna magna.
Estruturas a avaliar: ventrículos laterais (com plexos coroides), cavum do septo pelúcido, falx mediana, tálamos, cerebelo e cisterna magna.



Face
O básico: lábio superior em corte coronal (frontal) para detectar fenda labial, presença e posição das órbitas com separação normal dos olhos e, se viável, o perfil mediossagital. Nariz, narinas, palato, maxila, mandíbula, língua e orelhas podem ser avaliados, mas não fazem parte do exame de rotina.



Tórax e coração
Tórax: transição suave para o abdome, costelas com curvatura normal e sem deformidade, pulmões homogêneos, sem desvio de mediastino nem massas. A interface diafragmática costuma ser visível como linha hipoecoica separando conteúdo torácico e abdominal.





Abdome, rins, bexiga e coluna
Abdome
- Situs abdominal determinado; estômago claramente visível à esquerda, ocupando cerca de um terço da metade esquerda do corte usado para a CA.
- Três estruturas hipoecoicas no andar superior, da esquerda para a direita: estômago, veia umbilical e vesícula biliar (esta última opcional). Localização anômala sugere veia umbilical direita persistente, heterotaxia ou shunt porto-hepático.
- Inserção do cordão no abdome: procurar defeito de parede ventral (onfalocele, gastrosquise).
- Coleções líquidas anormais dentro ou ao redor das alças (ascite, cistos entéricos, dilatação evidente) devem ser documentadas.
Rins e bexiga
| Achado | Conduta |
|---|---|
| Pelve renal ≥ 7 mm | Reavaliação no terceiro trimestre |
| Bexiga: p95 do maior eixo | 14 mm às 18 semanas · 23 mm às 22 semanas. A bexiga não deve alcançar o nível da inserção do cordão |
| Bexiga muito aumentada ou não visualizada de forma persistente | Encaminhar para avaliação detalhada |




Coluna
O exame básico inclui cortes transverso e sagital. A anomalia grave mais frequente, a espinha bífida aberta, costuma vir acompanhada de deformidade cerebelar característica e cisterna magna obliterada: é por esses sinais indiretos, no crânio, que ela é geralmente detectada.
Membros e genitália
- Documentar a presença de todas as quatro extremidades.
- Avaliar presença dos ossos longos e sua simetria, comprimento, forma, alinhamento, posição e movimento.
- Contar dedos não é exigido.
- Medir um fêmur costuma ser suficiente; havendo suspeita, medir todos os ossos longos e comparar com curvas padronizadas.


Genitália: a caracterização para determinação do sexo não faz parte do exame de rotina; o relato depende de solicitação dos pais e da prática e regulamentação locais. O que se verifica é o aspecto normal da genitália externa.
Placenta, vasa previa e colo
Placenta

| Situação | Conduta |
|---|---|
| Borda inferior alcança ou ultrapassa o orifício interno | Reavaliação no terceiro trimestre |
| Distância borda–orifício interno ≤ 15 mm na via transvaginal | Reavaliação no terceiro trimestre (grau C) |
| Suspeita de acretismo | Avaliação detalhada complementar |
Vasa previa
Vasos fetais desprotegidos correndo pelas membranas, sobre ou a menos de 2 cm do orifício cervical interno. Prevalência de 0,5 por 1000 gestações. O conhecimento pré-natal aumenta significativamente a sobrevida e reduz a morbidade perinatal.
Colo uterino
- Medida por via transvaginal, no contexto de rastreamento de parto pré-termo (grau C). Exige consentimento adicional, treinamento apropriado do operador e auditoria de resultados.
- Colo curto = < 25 mm, sobretudo antes de 24 semanas, correlaciona-se fortemente com parto pré-termo.
- Em gestação única, sem parto pré-termo espontâneo prévio e colo < 25 mm antes de 24 semanas, a progesterona vaginal reduz significativamente o risco de prematuridade e a morbidade neonatal.
- Com colo curto e parto pré-termo espontâneo prévio, a cerclagem reduz o risco; várias sociedades recomendam medida seriada entre 16 e 23 semanas nessa população.
Gestação múltipla
- Determinar corionicidade (e amnionicidade nas monocoriônicas): possível no segundo trimestre se houver duas massas placentárias separadas ou sexos discordantes, com exceções.
- A corionicidade é mais bem avaliada antes de 14–15 semanas, quando se identificam o sinal do lambda ou do T.
- Visualizar a inserção placentária do cordão de cada feto.
- Registrar características distintivas (sexo, marcadores únicos, posição no útero): rotular os gêmeos corretamente é crítico.
- Sem exame de primeiro trimestre, sem duas placentas identificáveis e com sexos iguais: considerar monocoriônica e seguir como gestação de alto risco.
Pontos de prova: alto rendimento
| O que o exame inclui | Atividade cardíaca · número de fetos · idade gestacional/tamanho · anatomia básica · placenta · líquido amniótico. |
| Datação após 14 semanas | CC isolada ou CC + CF (INTERGROWTH-21st). Não recalcular se já datado em exame precoce de qualidade. |
| Plano do DBP | Transverso no nível dos tálamos, falx interrompida pelo cavum do septo pelúcido, cerebelo não visível. |
| Plano da CA | Veia umbilical no seio portal, estômago visível, rins não visíveis, corte o mais circular possível. |
| Fórmulas | CC = 1,62 × (DBP + DOF) · CA = 1,57 × (DAP + DAT). |
| Comprimento femoral | Ângulo de insonação 45–90°, excluir a epífise distal e o artefato de espícula. |
| Peso fetal estimado | Hadlock-3 (CC, CA, CF). Expressar em percentil ou escore Z e citar a curva usada. |
| Restrição de crescimento | Critérios do consenso Delphi 2016. |
| Líquido amniótico | DVP ≤2 cm reduzido · >2 e ≤8 normal · >8 aumentado. ILA para poli, DVP para oligo. |
| Planos do cérebro | Transventricular, transtalâmico e transcerebelar. |
| Forma do crânio | Limão, morango, folha de trevo → documentar e investigar. Perda da ecogenicidade normal → má mineralização. |
| Face | Lábio superior em coronal + órbitas; perfil mediossagital se viável. |
| Roteiro cardíaco | Situs, eixo e ritmo → quatro câmaras → vias de saída → três vasos (e três vasos e traqueia). |
| Vias de saída | Aproximadamente do mesmo calibre e cruzando-se no feto normal. |
| Estômago | À esquerda, ocupando ~1/3 da metade esquerda do corte da CA. |
| Intestino hiperecogênico | Ecogenicidade igual à do osso → encaminhar. Reduzir o ganho e comparar com a crista ilíaca. |
| Pelve renal | ≥ 7 mm → reavaliar no terceiro trimestre. |
| Bexiga | p95 do maior eixo: 14 mm (18 sem) e 23 mm (22 sem). |
| Espinha bífida aberta | Detectada pelos sinais cranianos: deformidade cerebelar e cisterna magna obliterada. |
| Placenta | Borda que alcança/ultrapassa o orifício interno, ou ≤15 mm na via TV (transvaginal) → reavaliar no 3º trimestre. |
| Acretismo | Miométrio subplacentário <1 mm, lacunas irregulares, perda da linha serosa-bexiga, bulge. |
| Vasa previa | Vasos a <2 cm do orifício interno; 0,5/1000; exame dirigido TV com Doppler se houver fator de risco. |
| Colo curto | <25 mm antes de 24 semanas → progesterona vaginal; com parto pré-termo prévio, cerclagem. |
| Corionicidade | Mais bem avaliada antes de 14–15 semanas (lambda × T). Na dúvida, tratar como monocoriônica. |
Armadilhas e erros comuns
Técnicos
- Medir DBP em cabeça braquicéfala ou dolicocéfala e errar a datação: nesses casos a CC é mais confiável.
- Incluir a epífise femoral distal ou o artefato de espícula na medida do CF.
- Usar curvas antigas: a redução da largura do feixe nos aparelhos modernos alterou as medidas laterais e pode superestimar o CF em tabelas desatualizadas.
- Avaliar o hemisfério proximal, encoberto por artefato.
- Diagnosticar intestino hiperecogênico com ganho alto: sempre reduza e compare com a crista ilíaca.
- Medir o bolsão de líquido incluindo cordão ou partes fetais.
De escopo e laudo
- Tratar o exame como “normal” sem ter completado a Tabela 1: se não deu para completar, repita ou encaminhe.
- Recalcular a idade gestacional em exame tardio quando já havia datação de boa qualidade.
- Não citar a curva de referência usada no laudo.
- Deixar de relatar mioma ou cisto ovariano visto incidentalmente: relatar é obrigatório, avaliar formalmente não é.
- Parar no corte de quatro câmaras: as conotruncais só aparecem nas vias de saída.
- Não medir o colo em paciente de risco, ou medi-lo sem consentimento e treinamento específicos.
- Deixar de procurar vasa previa quando há inserção velamentosa, placenta bilobada ou lobo succenturiado.
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6Residente lista itens da Tabela 1 e pergunta quais são obrigatórios e quais são opcionais (marcados com *). Qual deles faz parte obrigatória do exame anatômico básico?
No plano transcerebelar de um morfológico de rotina, você observa cerebelo com deformidade característica e cisterna magna obliterada. O que esses achados significam?
Morfológico com corte de quatro câmaras normal. Nas vias de saída, as artérias aparecem paralelas, sem se cruzarem, de calibre semelhante. Qual a interpretação?
Ao avaliar o abdome fetal, as alças intestinais parecem hiperecogênicas. Qual a conduta correta antes de fechar o laudo?
Primigesta sem parto pré-termo espontâneo prévio, colo medido por via transvaginal no rastreio: 21 mm às 22 semanas. Qual a conduta com melhor evidência?
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Nota: A diretriz remete a documentos específicos para o exame cardíaco fetal detalhado, para a neurossonografia e para gestação múltipla. Este caderno cobre o que é rastreamento de rotina; a avaliação dirigida de cada suspeita segue as diretrizes correspondentes.