96 · Peritônio, Retroperitônio e Pelve Extraperitoneal
Abdome · anatomia e disseminação
Peritônio, Retroperitônio e Pelve Extraperitoneal
Fontes: Gaballah et al: 2024 e 2026, RadioGraphics
Por onde a doença anda no abdome
Coleções, gás, sangue e tumor não se espalham ao acaso: seguem ligamentos, mesentérios e planos
entre fáscias. Reconhecer o ligamento pelo vaso que corre dentro dele e saber em qual espaço uma coleção
nasceu diz de onde ela veio e para onde vai.
Cavidade peritoneal (sem órgãos) × espaço subperitoneal contínuo (vísceras, vasos, linfáticos, nervos, mesentérios e ligamentos)
Explicar a disseminação, que corre nos dois sentidos
Mesentérico
Mesentério contínuo da junção esofagogástrica ao mesorreto, tratado como órgão
Cirurgia (excisão completa do mesocólon)
o vaso marca o ligamento
Na TC, cada ligamento é reconhecido pelos vasos que correm nele. O peritônio normal tem 25 a 50 mL de
líquido; no homem a cavidade é fechada, na mulher se comunica com o exterior pelas tubas.
Ligamentos e mesentérios
Ligamento
Liga
Marca na TC
Gastro-hepático
Pequena curvatura ao lobo esquerdo do fígado
Artéria e veia gástricas esquerdas
Hepatoduodenal
Hilo hepático à transição D1-D2 (borda livre do omento menor)
Veia porta, artéria hepática, colédoco
Gastroesplênico
Terço superior da grande curvatura ao hilo esplênico
Gástricas curtas, gastroepiploica esquerda
Esplenorrenal
Hilo esplênico ao espaço pararrenal anterior esquerdo
Vasos esplênicos, cauda do pâncreas
Gastrocólico (grande omento)
Dois terços inferiores da grande curvatura ao transverso
Gastroepiploicas
Mesocólon transverso
Transverso ao pâncreas
Cólicas médias, tronco gastrocólico
Mesentério do delgado
Oblíquo, da junção duodenojejunal à fossa ilíaca direita
Vasos mesentéricos superiores
Duodenocólico, frenocólico
Duodeno à flexura hepática · flexura esplênica ao diafragma
Mesocólons ascendente, descendente e sigmoide
Cólon à raiz do mesentério ou à parede pélvica
Cólicas direitas, ileocólicas, cólica esquerda, sigmoides e retal superior
Falciforme
Fígado ao diafragma e à parede anterior
Ligamento redondo
Ligamento gastro-hepático
TC: a artéria gástrica esquerda (seta) marca o ligamento entre a pequena curvatura e o lobo esquerdo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 1. Ver artigo
Ligamento gastroesplênico
TC: gástricas curtas e gastroepiploica esquerda (seta) entre o estômago e o baço.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 2. Ver artigo
Câncer da flexura hepática pelo ligamento duodenocólico
TC coronal: massa junto ao duodeno, levada pelo ligamento duodenocólico.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 21. Ver artigo
Pancreatite necrosante pelo mesocólon transverso
TC axial: coleção no mesocólon transverso e no espaço pararrenal anterior esquerdo.Sagital: a coleção segue o mesocólon e o ligamento gastrocólico.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 22. Ver artigo
Câncer do transverso e da flexura hepática pelos ligamentos
TC coronal: tumor pelo duodenocólico até o mesocólon junto à cabeça do pâncreas.Sagital: extensão ao ligamento hepatoduodenal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 23. Ver artigo
Câncer da cabeça do pâncreas na raiz do mesentério
TC sagital: oclusão da artéria e da veia mesentéricas superiores.Coronal: isquemia de alças.Axial: colaterais pela cólica média e pela gastroepiploica.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 25. Ver artigo
Câncer de pâncreas pela raiz do mesentério e pelo mesocólon
TC: tumor envolvendo a veia mesentérica superior e a cólica média.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 27. Ver artigo
Trauma da raiz do mesentério e do mesocólon transverso
TC: coleção densa no mesentério e no mesocólon depois de trauma.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 28. Ver artigo
o mesocólon transverso é o centro
Ele liga os ligamentos de cima e de baixo: à esquerda o esplenorrenal e o frenocólico, à direita o
hepatoduodenal e o duodenocólico, em cima o gastrocólico e embaixo a raiz do mesentério. Sua raiz
fica sobre o pâncreas, e por isso a pancreatite e o câncer de pâncreas chegam ao omento menor, à
flexura esplênica, ao hilo esplênico, à bolsa omental e à raiz do mesentério.
Espaços peritoneais e o caminho da ascite
Espaço
O que saber
Supramesocólico direito
Subfrênico direito, sub-hepático anterior e posterior (bolsa de Morison) e bolsa omental, que se comunica pelo forame de Winslow
Supramesocólico esquerdo
Subfrênico esquerdo e peri-hepático (o recesso gastro-hepático fica entre o lobo esquerdo e o estômago)
Inframesocólico
Dividido pelo mesentério: o espaço infracólico direito é fechado embaixo; o esquerdo se comunica livremente com a pelve
Goteiras paracólicas
A direita é contínua com o espaço supramesocólico direito · a esquerda é barrada em parte pelo ligamento frenocólico
Espaço supramesocólico direito e goteira direita
TC coronal com vazamento de contraste: o espaço supramesocólico direito é contínuo com a goteira direita (pontas de seta); o ligamento frenocólico (seta) separa o lado esquerdo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 4. Ver artigo
Estase e implantes
Onde
Pontos de estase
Fundo de saco retovesical ou retouterino, quadrante inferior direito (fim do mesentério), borda superior do mesossigmoide, goteira direita, espaço subfrênico direito
Mais pendentes
Em pé: fundo de saco de Douglas ou retovesical · deitado: bolsa de Morison
Por que à direita
O líquido sobe pela goteira direita com a pressão negativa do diafragma; o frenocólico freia o lado esquerdo · abscessos e implantes subfrênicos são mais à direita
Ascite mucinosa
Superfície do fígado e subfrênico direito, com endentação dos órgãos
Implantes subfrênicos e peri-hepáticos à direita, câncer de pâncreas
RM com contraste: implantes na superfície do fígado à direita (pontas de seta).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 6. Ver artigo
Pseudomixoma de origem apendicular
TC: ascite mucinosa no omento menor e no gastroesplênico, endentando a superfície do fígado.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 7. Ver artigo
Ar e líquido no peritônio
Ar livre
Fonte provável
Só supramesocólico
Úlcera gástrica ou duodenal
No ligamento hepatoduodenal
Muito sugestivo de perfuração gastroduodenal
Inframesocólico e no mesentério
Delgado ou sigmoide
Pós-operatório
Diminui e some em 3 a 4 dias, às vezes 3 a 4 semanas · ar que aumenta ou não some sugere complicação
Ar livre por úlcera pré-pilórica perfurada
TC: ar à frente do fígado (seta) e peritonite (ponta de seta).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 9. Ver artigo
Menos de 20 UH (unidades Hounsfield), livre, sem septos · edema de parede e serosas
Mais de 20 a 30 UH, loculado, septos, peritônio espesso com realce · perto da origem
Laboratório
Gradiente albumina soro-ascite de 1,1 g/dL ou mais, leucócitos abaixo de 250/µL
Variável
Tipo de líquido
Pista
Sangue
Mais de 30 UH (menos não exclui) · coágulo sentinela denso junto da fonte · extravasamento
Bile
Quadrante superior direito · cintilografia ou contraste hepatobiliar
Urina
Ruptura intraperitoneal da bexiga · contraste na fase excretora ou cistografia por TC
Quilo
Pode ter menos de 0 UH · triglicerídeos altos
Infectado
Peritônio liso, espesso e com realce, loculações, restrição
Maligno
Espessamento nodular irregular
Peritonite pós-operatória
TC coronal: coleções no espaço supramesocólico direito, na goteira e nos espaços inframesocólicos.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 10. Ver artigo
Carcinoma hepatocelular roto
TC sagital: sangue em volta do fígado estendendo-se ao ligamento gastro-hepático.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 11. Ver artigo
Doença do peritônio e do mesentério
Doença peritoneal
Pistas
Carcinomatose
Gástrico, cólon, apêndice, pâncreas, vias biliares, ovário · espessamento, nódulos, omento em bolo, ascite precoce · calcificação sem quimioterapia: ovário seroso ou tumor mucinoso
Linfomatose
Massas volumosas e homogêneas com linfonodos (em geral não Hodgkin)
Sarcomatose
Massas volumosas heterogêneas, em geral sem linfonodos
Mesotelioma maligno
Até 40% sem amianto · espessamento difuso ou nodular, omento, ascite
Tumor desmoplásico de pequenas células
Massas arredondadas em rapaz jovem, sem órgão de origem
Peritonite tuberculosa
Peritônio liso e uniforme, ascite densa · linfonodos com centro hipoatenuante e realce periférico · região ileocecal
Peritonite encapsulante
Delgado envolto por membrana (“casulo”), obstrução de repetição · diálise peritoneal longa, tuberculose, cirurgia, ovário
Mesotelioma peritoneal
TC: espessamento do omento.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 12. Ver artigo
Tumor desmoplásico de pequenas células redondas
Espessamento subfrênico esquerdo, no ligamento falciforme e ascite.Ligamentos falciforme e hepatoduodenal e porta hepática.Nódulos no mesentério e nas vísceras.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 13. Ver artigo
Carcinomatose por câncer de mama
TC coronal: implantes no mesentério e na serosa, com ascite.Axial: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 14. Ver artigo
Linfomatose peritoneal
TC coronal: massas e espessamento peritoneal.Axial: o mesmo.PET-CT (tomografia por emissão de pósitrons acoplada à TC): captação de FDG (fluordesoxiglicose).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 15. Ver artigo
Carcinoma mucinoso do apêndice
TC: grande omento, ligamento gastro-hepático e fissura do ligamento venoso.Ligamento gastroesplênico e hilo esplênico.Coronal: fígado e parede abdominal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 16. Ver artigo
Implantes calcificados de carcinoma seroso de ovário
TC: calcificações peritoneais e na cápsula do fígado.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 17. Ver artigo
Peritonite tuberculosa
TC coronal: peritônio liso e espesso, ascite densa e alças agrupadas como num casulo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 18. Ver artigo
Peritonite encapsulante em diálise peritoneal
TC sem contraste: alças agrupadas e peritônio calcificado.Outro corte: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 19. Ver artigo
Peritonite encapsulante com carcinomatose de ovário
TC axial: alças envoltas por membrana.Coronal: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 20. Ver artigo
Câncer gástrico no grande omento
TC: omento infiltrado e ascite.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 24. Ver artigo
No mesentério
Pistas
Linfoma
O tumor sólido mais comum · envolve vasos sem ocluir: sinal do sanduíche
Carcinoide
Massa espiculada e calcificada com desmoplasia e retração de alças · captação no PET com dotatato
Desmoide
Polipose adenomatosa familiar, Gardner · sinal baixo ou intermediário em T2
Mesenterite esclerosante
Halo de gordura e pseudocápsula · no crônico, massa com calcificação
Câncer de cólon no mesocólon
Perda do plano de gordura, linfonodos até a raiz · excisão completa do mesocólon
Linfoma mesentérico
TC sagital antes do tratamento: massa envolvendo a artéria e a veia mesentéricas superiores sem ocluir (sinal do sanduíche).Depois do tratamento: regressão.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 29. Ver artigo
Metástase mesentérica de carcinoide
TC: massa espiculada e calcificada com retração das alças.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 30. Ver artigo
Tumor desmoide do mesentério
TC coronal: massa sólida no mesentério.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 31. Ver artigo
Metástase de melanoma no intestino e no mesentério
TC: massa (seta).RM T2: a mesma lesão.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 32. Ver artigo
Câncer de sigmoide no mesocólon
TC sagital: tumor invadindo o mesossigmoide.Disseminação ao longo dos ramos da veia mesentérica inferior.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 33. Ver artigo
Câncer do cólon ascendente com linfonodo no mesocólon
TC: tumor (M) e linfonodo (N) no mesocólon ascendente, entre o peritônio e a fáscia pararrenal anterior.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2024;44(8):e230216, Fig. 34. Ver artigo
Massa intraperitoneal empurra o cólon para trás.Massa retroperitoneal empurra o cólon para a frente.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 19. Ver artigo
Angiomiolipoma renal com vaso nutridor
RM: o vaso que entra na massa aponta o rim como origem (imita lipossarcoma).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 20. Ver artigo
Carcinoma renal atravessando as fáscias
TC: tumor através das fáscias renais anterior e posterior, do ligamento esplenorrenal e do plano lateroconal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 22. Ver artigo
Plano interfascial
Onde
Retromesentérico
Entre o pararrenal anterior e o perirrenal · cruza a linha média
Retrorrenal
Entre o perirrenal e o pararrenal posterior
Lateroconal
Dentro da fáscia lateroconal; encontra os outros dois na trifurcação
Interfascial combinado
Abaixo do cone renal, onde os planos se juntam · liga o retroperitônio à pelve
Pancreatite necrosante nos planos interfasciais
TC: líquido nos planos retromesentérico, retrorrenal e lateroconal e coleção na bolsa omental.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 5. Ver artigo
Pancreatite de repetição
RM T2: líquido nos planos retromesentérico e retrorrenal (setas).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 6. Ver artigo
Aneurisma de aorta roto
TC coronal: hematoma descendo pelo plano interfascial combinado até a pelve.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 12. Ver artigo
Hematoma pararrenal posterior direito
TC sagital sem contraste: hematoma no plano retromesentérico e no combinado, até a pelve.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 13. Ver artigo
comunicações que explicam os casos
O espaço pararrenal anterior cruza a linha média, mas as coleções ficam do lado em que nasceram, exceto
as do pâncreas. O perirrenal direito se abre em cima para a área nua do fígado: lesão ali pode
sangrar só para o retroperitônio. Na altura da crista ilíaca os três espaços se comunicam e seguem
para a pelve.
Espaços extraperitoneais da pelve
Espaço pélvico
Limites
Conteúdo
Pré-vesical (de Retzius embaixo e à frente)
À frente da fáscia umbilicovesical, atrás da transversal · se estende para os lados (espaço de Bogros)
Gordura
Perivesical
Entre a bexiga e a fáscia umbilicovesical
Bexiga, úraco, artérias umbilicais obliteradas
Perirretal
Entre o reto e a fáscia mesorretal
Reto, vasos, linfonodos
Pararretal
Entre a fáscia mesorretal e a parede pélvica
Tecido frouxo
Pré-sacral
Entre a fáscia pélvica posterior e a parietal
Tecido areolar
a pelve conversa com tudo
O espaço pré-vesical continua para trás com o perivesical, o pararretal e o pré-sacral, para cima com o
retroperitônio e para os lados com a bainha do reto, o canal inguinal e a bainha femoral: um hematoma
inguinal depois de cateterismo femoral pode subir para o retroperitônio.
Gás, sangue, urina e tumor fora do peritônio
Coleção
O que saber
Gás retroperitoneal
Gás no pararrenal anterior junto do duodeno sugere perfuração duodenal (CPRE, colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) · chega à pelve pelo plano combinado
Pancreatite
Do pararrenal anterior ao plano retromesentérico, cruza a linha média, vai ao retrorrenal, ao lateroconal e à pelve · flanco (Grey Turner) e umbigo (Cullen)
Hematoma
Agudo 50 a 80 UH, coágulo sentinela 45 a 70 UH · aneurisma roto desce pelo plano combinado · sangramento perirrenal espontâneo: procurar tumor renal
Zonas do hematoma
I central (em geral cirurgia), II lateral (conservador se estável), III pélvica (fratura, embolização)
Urinoma
Perirrenal, pode cruzar a linha média · ruptura extraperitoneal da bexiga: “dente molar” (coroa pré-vesical, raízes pararretais)
Abscesso
Centro líquido com realce periférico, restrição
Perfuração duodenal depois de CPRE
Radiografia: gás retroperitoneal.TC em janela de pulmão: gás cruzando a linha média.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 8. Ver artigo
Perfuração do descendente depois de polipectomia
TC: gás perirrenal passando ao plano lateroconal, ao pararrenal posterior e ao pré-peritoneal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 9. Ver artigo
Necrose pancreática infectada
TC coronal: coleção com gás no pararrenal anterior estendendo-se ao fígado.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 10. Ver artigo
Necrose encapsulada infectada
TC sagital: do pararrenal anterior à pelve e ao mesocólon transverso.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 11. Ver artigo
Ruptura traumática do rim esquerdo
Fase arterial: sangramento ativo.Fase venosa: aumento do extravasamento.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 14. Ver artigo
Metástase hemorrágica de melanoma
TC: sangue perirrenal que cruza a linha média pelo plano retromesentérico.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 15. Ver artigo
Urinoma
TC tardia: urina perirrenal nos planos retrorrenal e retromesentérico, cruzando a linha média.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 16. Ver artigo
Ruptura extraperitoneal da bexiga
Cistografia por TC: contraste pré-vesical em “dente molar” (setas).
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 17. Ver artigo
Abscesso perirrenal
TC: abscesso que fica dentro do seu espaço.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 18. Ver artigo
Coleção de pancreatite até a parede abdominal
TC: do pararrenal anterior ao plano lateroconal, ao espaço pré-peritoneal e à parede.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 38. Ver artigo
Via de disseminação
Exemplos
Pela fáscia
Carcinoma renal atravessando a fáscia renal · câncer de reto na fáscia mesorretal
Linfática
Gônadas drenam direto para os linfonodos para-aórticos: linfonodo retroperitoneal em homem jovem pede US do testículo
Venosa
Carcinoma renal para veia renal e cava · invasão venosa extramural no reto · leiomiossarcoma da cava
Perineural
Câncer de pâncreas pelos plexos da mesentérica superior e do tronco celíaco · reto para o plexo lombossacro
Em manto (envolve sem infiltrar)
Linfoma levanta a aorta · fibrose retroperitoneal poupa a face posterior da aorta · IgG4 · Erdheim-Chester (“rim peludo”, aorta revestida)
Pelos ligamentos
Cauda do pâncreas ou rim esquerdo para o baço pelo esplenorrenal
Câncer de reto na fáscia mesorretal
RM T2: tumor alcançando a fáscia mesorretal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 23. Ver artigo
Carcinoma urotelial do trato alto
RM: tumor no espaço perirrenal, junto da cava e do psoas, mantendo o contorno do rim.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 24. Ver artigo
Metástases de próstata
TC coronal: tecido perirrenal e periureteral.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 25. Ver artigo
Câncer de endométrio recidivado
TC: tecido envolvendo o ureter e o hilo renal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 26. Ver artigo
Mieloma extraósseo
TC coronal: tecido envolvendo aorta, cava e ureter.Sagital: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 27. Ver artigo
Linfonodos de tumor de testículo
TC: linfonodos retroperitoneais.US com Doppler: o tumor no testículo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 28. Ver artigo
Trombo tumoral de carcinoma renal
RM: tumor na veia renal e na cava.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 29. Ver artigo
Invasão venosa extramural no câncer de reto
RM T2: veia preenchida por tumor.T1 com contraste: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 30. Ver artigo
Leiomiossarcoma da cava inferior
TC: massa na cava.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 31. Ver artigo
Leiomiossarcoma da veia cólica esquerda
TC: massa ao longo da veia.Outro corte: o mesmo.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 32. Ver artigo
Câncer de reto recidivado com disseminação perineural
Coronal: tumor na parede pélvica e no ureter.T2 axial: ao longo do nervo isquiático, com denervação do iliopsoas.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 33. Ver artigo
Linfoma retroperitoneal
TC: massa que levanta a aorta, com extensão perirrenal.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 34. Ver artigo
Fibrose retroperitoneal por IgG4
Coronal: tecido periureteral e perirrenal.Axial: em volta da aorta, poupando a face posterior.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 35. Ver artigo
Doença de Erdheim-Chester
TC: tecido perirrenal e aorta revestida.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 36. Ver artigo
Câncer da cauda do pâncreas pelo ligamento esplenorrenal
TC: tumor chegando ao baço.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 37. Ver artigo
Tumor de células germinativas para o tórax
Coronal: linfonodos retroperitoneais e retrocrurais.Sagital: extensão transdiafragmática e pleural.
Fonte: Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. RadioGraphics 2026;46(2):e250022, Fig. 39. Ver artigo
Pontos de prova: alto rendimento
Ligamento gastro-hepático
Gástrica esquerda
Hepatoduodenal
Porta, hepática, colédoco
Mesocólon transverso
Cólica média, centro dos ligamentos
Ponto mais pendente deitado
Bolsa de Morison
Goteira que conversa com o subfrênico
Direita
Infracólico esquerdo
Abre para a pelve
Ar no hepatoduodenal
Perfuração gastroduodenal
Transudato
Menos de 20 UH, livre
Sangue
Mais de 30 UH, coágulo sentinela
Omento em bolo
Carcinomatose
Sinal do sanduíche
Linfoma
Carcinoide mesentérico
Espiculado, calcificado
Plano retromesentérico
Cruza a linha média
Plano combinado
Leva à pelve
Área nua do fígado
Abre para o perirrenal direito
Dente molar
Ruptura extraperitoneal da bexiga
Grey Turner
Flanco, plano retrorrenal
Fibrose retroperitoneal
Poupa a face posterior da aorta
Linfonodo retroperitoneal em homem jovem
US do testículo
Armadilhas e erros comuns
Erros
Procurar implante só onde há líquido, esquecendo Morison e o subfrênico direito
Ler o ar no ligamento hepatoduodenal sem pensar em úlcera perfurada
Chamar de transudato o líquido loculado e denso
Chamar de carcinomatose a peritonite tuberculosa
Esquecer que a pancreatite atravessa a linha média pelos planos
Não procurar tumor renal no sangramento perirrenal espontâneo
Chamar de fibrose retroperitoneal o linfoma que levanta a aorta
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Na TC, qual vaso identifica o ligamento gastro-hepático?
O gastro-hepático (parte do omento menor) leva a artéria e a veia gástricas esquerdas. Gástricas curtas marcam o gastroesplênico, gastroepiploicas o gastrocólico, cólica média o mesocólon transverso e a mesentérica superior o mesentério do delgado.
Paciente acamado, em decúbito dorsal. Qual o ponto mais pendente do andar superior da cavidade peritoneal, onde pequenas coleções se acumulam?
Deitado, o recesso hepatorrenal (bolsa de Morison) é o ponto mais pendente; em pé, é o fundo de saco de Douglas ou retovesical. A goteira direita leva líquido da pelve até o subfrênico direito.
Ar livre restrito ao espaço supramesocólico, com bolhas no ligamento hepatoduodenal. A fonte mais provável é:
Ar só supramesocólico, e principalmente no ligamento hepatoduodenal, aponta para úlcera gástrica ou duodenal perfurada. Ar inframesocólico e no mesentério sugere delgado ou sigmoide.
Massa mesentérica que envolve a artéria e a veia mesentéricas superiores sem ocluí-las, com linfonodos volumosos. Pensar em:
O linfoma é o tumor sólido mais comum do mesentério e envolve vasos e alças sem obstruir: o sinal do sanduíche. O carcinoide é espiculado, calcificado e retrai as alças.
Qual plano liga o retroperitônio à pelve extraperitoneal e explica o hematoma de aneurisma roto que desce até a pelve?
Abaixo do cone renal, os planos retromesentérico e retrorrenal se juntam no plano interfascial combinado, que segue para a pelve. É o caminho do hematoma do aneurisma, do gás e da pancreatite até a pelve.
Na cistografia por TC, o contraste extravasado em volta da bexiga tem forma de dente molar. Isso indica:
O “dente molar” é a urina no espaço pré-vesical (coroa) descendo para os pararretais (raízes): ruptura extraperitoneal. Na intraperitoneal o contraste contorna alças e se acumula nas goteiras e na bolsa de Morison.
Fontes.
Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. The Peritoneum: Anatomy, Pathologic Findings, and Patterns of
Disease Spread. RadioGraphics 2024;44(8):e230216. doi:10.1148/rg.230216
Gaballah AH, Algazzar M, Kazi IA, et al. Retroperitoneum and Pelvic Extraperitoneum: Anatomic
Landmarks, Imaging Features, and Patterns of Disease Spread. RadioGraphics 2026;46(2):e250022.
doi:10.1148/rg.250022
Os dois artigos usam “subperitoneal” de jeitos diferentes: no do peritônio é todo o espaço fora da
cavidade (modelo de Meyers); no do retroperitônio é só a pelve extraperitoneal. Os limiares de sangue
também diferem (mais de 30 UH num, 50 a 80 UH para o sangue agudo no outro). Hérnias internas e os
recessos da bolsa omental não estão nas fontes. Os esquemas e fluxogramas com texto em inglês foram
tirados. Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.