Cadernos QRad 119 · Trauma Cerebrovascular e da Junção Craniocervical
Neurorradiologia · trauma

Trauma Cerebrovascular e da Junção Craniocervical

Fontes: Rutman et al: 2018 e Riascos et al: 2015, RadioGraphics

O pescoço que fratura também lesa a artéria

A lesão cerebrovascular contusa (BCVI, das carótidas e vertebrais cervicais) aparece em 1 a 1,6% dos traumatizados, e até 80% passam por um período latente (em média 72 horas) antes do AVC: é a janela em que a angio-TC muda o desfecho. As fraturas da coluna cervical, sobretudo de C1 a C3, são o fator de risco mais forte, e cerca de um terço das lesões cervicais está na junção craniocervical.

duas perguntas no trauma cervical alto O osso e os ligamentos estão estáveis? (TC com reconstruções de 1,25 mm ou menos; RM para ligamento e medula). A artéria vertebral ou a carótida estão lesadas? (angio-TC). Fratura que atravessa o forame transverso responde à primeira e levanta a segunda.

BCVI: quem rastrear e como

Quem rastrearAchado
Sinais (urgência)Sangramento arterial pelo pescoço, boca, nariz ou orelha · hematoma cervical em expansão · sopro cervical abaixo dos 50 anos · déficit focal (inclusive Horner) · AVC na imagem · déficit que a TC de crânio não explica
FraturasColuna cervical: corpo vertebral, forame transverso, subluxação ou lesão ligamentar, qualquer fratura de C1 a C3 · base do crânio no canal carotídeo · Le Fort II ou III
Outros fatoresLesão axonal difusa com Glasgow baixo · quase enforcamento com anóxia · lesão em "varal" com edema ou dor
Critérios ampliadosFratura de mandíbula · fratura complexa do crânio · desenluvamento do couro cabeludo · lesão vascular torácica · TCE (traumatismo cranioencefálico) com lesão torácica
Dissecção vertebral após manipulação quiroprática, homem de 35 anos
Angio-TC axial: hematoma intramural na vertebral direita (pontas de seta) e trombo na esquerda (seta); AVC no território da cerebral posterior esquerda.
Angio-TC axial: hematoma intramural na vertebral direita (pontas de seta) e trombo na esquerda (seta); AVC no território da cerebral posterior esquerda.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 1. Ver artigo
Mecanismos
Hiperextensão e rotação estiram a carótida interna sobre C1 a C3.
Hiperextensão e rotação estiram a carótida interna sobre C1 a C3.
Carótida esmagada entre mandíbula e coluna.
Carótida esmagada entre mandíbula e coluna.
Vertebral estirada entre vértebras subluxadas.
Vertebral estirada entre vértebras subluxadas.
Vertebral lacerada por fragmento ósseo.
Vertebral lacerada por fragmento ósseo.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 2. Ver artigo
o sinal do cinto Abrasão do cinto de segurança estava nos critérios originais, mas depois se mostrou que, sozinha, não é fator de risco. Até 30% das BCVI aparecem na angio-TC sem nenhum fator de risco.
ModalidadePapel
Angio-TC (32 canais ou mais)Primeira linha; sensibilidade 66 a 98% e especificidade 92 a 100% contra a DSA (angiografia por subtração digital) (o que escapa é quase sempre grau I)
DSAReferência histórica; hoje para angio-TC duvidosa ou negativa com suspeita alta; não mostra a parede
RM e angio-RMNão serve para rastrear; o T1 com saturação de gordura mostra o crescente de hematoma em volta do flow void
RM de parede (black-blood)Complemento para resolver dúvida (hematoma × artefato × placa) e no controle
Venografia por TCFratura que atinge seio dural ou bulbo jugular: até ~41% com trombose
Lesão da carótida após estrangulamento
Angio-TC axial: irregularidade focal da carótida interna direita (seta).
Angio-TC axial: irregularidade focal da carótida interna direita (seta).
Sagital (setas).
Sagital (setas).
DSA: defeito de enchimento focal (seta), trombo ou hematoma intramural.
DSA: defeito de enchimento focal (seta), trombo ou hematoma intramural.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 4. Ver artigo
Dissecção da carótida interna na RM
T1 axial com saturação de gordura: crescente claro (seta) em volta do flow void da carótida direita, o falso lúmen.
T1 axial com saturação de gordura: crescente claro (seta) em volta do flow void da carótida direita, o falso lúmen.
DSA 3D: carótida cervical distal irregular e estreita (setas).
DSA 3D: carótida cervical distal irregular e estreita (setas).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 5. Ver artigo
+ complemento · mecanismos Hiperextensão com rotação estira a carótida interna sobre os processos transversos de C1 a C3; fratura ou subluxação estira a vertebral; fragmento ósseo lacera; flexão e fratura de mandíbula esmagam a carótida contra a coluna. Manipulação quiroprática é o exemplo clássico de trauma trivial.

Escala de Denver (Biffl)

GrauDefinição
IIrregularidade da parede, dissecção ou hematoma intramural com estenose < 25%
IIEstenose > 25%, qualquer flap intimal elevado ou qualquer trombo intraluminal
IIIPseudoaneurisma
IVOclusão
VTransecção ou fístula arteriovenosa
Os graus em desenho
Grau I.
Grau I.
Grau II: trombo.
Grau II: trombo.
Grau II: flap.
Grau II: flap.
Grau II: hematoma intramural acima de 25%.
Grau II: hematoma intramural acima de 25%.
Grau III: pseudoaneurisma.
Grau III: pseudoaneurisma.
Grau IV: oclusão.
Grau IV: oclusão.
Grau V: transecção com extravasamento.
Grau V: transecção com extravasamento.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 6. Ver artigo
Grau I
Angio-TC MIP (projeção de intensidade máxima) oblíqua: irregularidade leve, abaixo de 25% (setas).
Angio-TC MIP (projeção de intensidade máxima) oblíqua: irregularidade leve, abaixo de 25% (setas).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 7. Ver artigo
Grau II por hematoma intramural
Angio-TC axial: carótida interna esquerda petrosa estreitada acima de 25% (setas).
Angio-TC axial: carótida interna esquerda petrosa estreitada acima de 25% (setas).
Outro paciente, axial no nível de C1: V3 esquerdo espessado e estreito (seta).
Outro paciente, axial no nível de C1: V3 esquerdo espessado e estreito (seta).
Sagital: o mesmo V3, com trombo focal (setas).
Sagital: o mesmo V3, com trombo focal (setas).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Figs. 9, 10. Ver artigo
Grau II por flap, homem de 30 anos com Le Fort II
Angio-TC axial: flap na carótida comum direita (seta).
Angio-TC axial: flap na carótida comum direita (seta).
MIP coronal (seta).
MIP coronal (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 11. Ver artigo
Flap e trombo na vertebral, com fratura do forame transverso
Axial: fratura do forame transverso (seta).
Axial: fratura do forame transverso (seta).
Sagital: trombo mural com flap na vertebral esquerda (seta).
Sagital: trombo mural com flap na vertebral esquerda (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 12. Ver artigo
Grau II por trombo
Axial: trombo mural (seta).
Axial: trombo mural (seta).
Sagital: estreitamento focal acima de 25% (seta).
Sagital: estreitamento focal acima de 25% (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 13. Ver artigo
Achado na imagemComo aparece
Hematoma intramuralEspessamento longo da parede, excêntrico ou circular; na RM, crescente claro em T1 com saturação (isointenso nas primeiras 72 horas)
Flap e duplo lúmenDefeito linear no lúmen; contraste no falso lúmen é patognomônico
PseudoaneurismaEvaginação focal, fusiforme ou sacular, que pode estreitar o lúmen
OclusãoCarótida interna: afilamento antes de ocluir. Vertebral: corte abrupto
Transecção e fístulaContraste fora do vaso, crescendo nas fases tardias; na DSA, veia cheia na fase arterial
Pseudoaneurisma (grau III)
MIP axial: evaginação sacular da carótida interna esquerda (seta).
MIP axial: evaginação sacular da carótida interna esquerda (seta).
MIP sagital (seta).
MIP sagital (seta).
DSA lateral (seta).
DSA lateral (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 14. Ver artigo
Pseudoaneurisma que cresce
MIP sagital oblíqua: pseudoaneurisma da carótida interna direita (seta) estreitando o lúmen (ponta de seta).
MIP sagital oblíqua: pseudoaneurisma da carótida interna direita (seta) estreitando o lúmen (ponta de seta).
Sete dias depois: um pouco maior (seta).
Sete dias depois: um pouco maior (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 15. Ver artigo
Oclusão da carótida (grau IV)
Angio-TC coronal: afilamento e oclusão da carótida interna proximal (seta).
Angio-TC coronal: afilamento e oclusão da carótida interna proximal (seta).
DSA oblíqua (seta).
DSA oblíqua (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 16. Ver artigo
Oclusão da vertebral (grau IV)
Sagital oblíqua: oclusão da vertebral direita proximal (seta).
Sagital oblíqua: oclusão da vertebral direita proximal (seta).
Sagital: reconstituição em C3-C4 (seta branca) e fratura da faceta de C5 (seta preta).
Sagital: reconstituição em C3-C4 (seta branca) e fratura da faceta de C5 (seta preta).
Axial: o vaso ocluído (seta).
Axial: o vaso ocluído (seta).
RM axial T2: perda do flow void (ponta de seta).
RM axial T2: perda do flow void (ponta de seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 17. Ver artigo
Transecção da vertebral com dissociação atlanto-occipital (grau V)
TC axial: extravasamento num grande hematoma na junção craniocervical (setas).
TC axial: extravasamento num grande hematoma na junção craniocervical (setas).
MIP axial (setas).
MIP axial (setas).
MIP coronal: vertebral esquerda transeccionada em V3-V4 (setas).
MIP coronal: vertebral esquerda transeccionada em V3-V4 (setas).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 18. Ver artigo
Transecção e fístula da vertebral (grau V)
MIP coronal: extravasamento no forame transverso direito de C4 (seta).
MIP coronal: extravasamento no forame transverso direito de C4 (seta).
Angiografia da vertebral direita: extravasamento ativo (seta).
Angiografia da vertebral direita: extravasamento ativo (seta).
Angiografia da vertebral esquerda: enchimento retrógrado da direita até a transecção (seta).
Angiografia da vertebral esquerda: enchimento retrógrado da direita até a transecção (seta).
DSA da vertebral direita, fase arterial.
DSA da vertebral direita, fase arterial.
Fase seguinte.
Fase seguinte.
Drenagem venosa precoce: fístula arteriovenosa.
Drenagem venosa precoce: fístula arteriovenosa.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 19. Ver artigo
onde a lesão se esconde Carótida interna na base do crânio e no canal carotídeo, e o segmento V3 tortuoso da vertebral. Use as imagens axiais de origem, reconstruções fora do eixo e MIP.

Simuladores e armadilhas

SimuladorPistas
AteroscleroseIdoso, calcificação, origem da carótida comum, bulbo ou origem da vertebral; placa não é clara no T1 com saturação
VasoespasmoIgual ao grau I na primeira imagem; some em horas, a lesão persiste
Displasia fibromuscular"Colar de contas", multifocal e bilateral
Alça ou redundância da carótidaMascara ou imita pequena evaginação
Vertebral hipoplásicaFina por inteiro, com forame transverso pequeno (comum)
ArtefatosAmálgama dentária (quase 5% das TCs) e material de coluna criam falsos flaps atrás da mandíbula e na base do crânio; bolo mal cronometrado e veias em volta da vertebral
Artefato, não lesão
Angio-TC coronal: irregularidade mínima aparente (setas).
Angio-TC coronal: irregularidade mínima aparente (setas).
RM T1 axial com saturação: parede normal (setas).
RM T1 axial com saturação: parede normal (setas).
RM T1 coronal com saturação (setas).
RM T1 coronal com saturação (setas).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 8. Ver artigo
Aterosclerose imitando BCVI
MIP coronal: placa calcificada na origem da vertebral esquerda (seta).
MIP coronal: placa calcificada na origem da vertebral esquerda (seta).
Axial em C1: placa calcificada no V3 direito, imitando hematoma (seta).
Axial em C1: placa calcificada no V3 direito, imitando hematoma (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 20. Ver artigo
Alça da carótida
MIP axial: pequeno pseudoaneurisma no segmento enovelado (seta).
MIP axial: pequeno pseudoaneurisma no segmento enovelado (seta).
MIP coronal (seta).
MIP coronal (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 21. Ver artigo
Artefato de amálgama dentária
Angio-TC axial: lesão grau II da vertebral direita difícil de ver (seta); as estrias imitam flaps nas carótidas normais (pontas de seta).
Angio-TC axial: lesão grau II da vertebral direita difícil de ver (seta); as estrias imitam flaps nas carótidas normais (pontas de seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 22. Ver artigo

Tratamento e controle

CondutaPor grau
AntitrombóticoGraus I a IV, salvo contraindicação; aspirina é pelo menos tão eficaz quanto heparina e sangra menos
IntervençãoGrau III sintomático ou que cresce a 1,0 a 1,5 cm; grau V é de intervenção (cirurgia ou endovascular); grau IV sem benefício provado
DuraçãoGrau I: 3 a 6 meses · II e III: indefinida se estável, suspende se cicatrizar · IV: por toda a vida
ControleAngio-TC em 7 a 10 dias nos graus I a III; persistiu, mais 3 meses e nova imagem; graus IV e V assintomáticos não precisam de controle de rotina
Pseudoaneurisma grande tratado com cirurgia
Angiografia lateral: grande dilatação da carótida interna esquerda (seta).
Angiografia lateral: grande dilatação da carótida interna esquerda (seta).
Depois da cirurgia: ponte da carótida interna para a cerebral média, pérvia (seta).
Depois da cirurgia: ponte da carótida interna para a cerebral média, pérvia (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 23. Ver artigo
EvoluçãoNo controle
Grau IAté 75% cicatrizam; 8% pioram
Grau II8% resolvem, 30% viram grau I, 40 a 43% progridem
Grau IIISó 11% melhoram; cerca de 25% pioram
Grau IVAté 40% recanalizam
Cicatrização
MIP sagital oblíqua: hematoma intramural de 25 a 50% na carótida interna direita (seta).
MIP sagital oblíqua: hematoma intramural de 25 a 50% na carótida interna direita (seta).
Três meses de antiplaquetário: quase cicatrizado.
Três meses de antiplaquetário: quase cicatrizado.
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 24. Ver artigo
Piora, com fratura do côndilo occipital
Angio-TC oblíqua: hematoma intramural na vertebral direita (seta).
Angio-TC oblíqua: hematoma intramural na vertebral direita (seta).
Sete dias depois: pequeno pseudoaneurisma (seta), progressão para grau III.
Sete dias depois: pequeno pseudoaneurisma (seta), progressão para grau III.
Reconstrução 3D (seta).
Reconstrução 3D (seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 25. Ver artigo
Dissecção da carótida e RM de parede
Angio-TC axial: estenose com fio de contraste (seta).
Angio-TC axial: estenose com fio de contraste (seta).
Cinco semanas depois, TOF (time-of-flight: angiografia por RM sem contraste em que o próprio fluxo gera o sinal): estreitamento residual mínimo (seta).
Cinco semanas depois, TOF (time-of-flight: angiografia por RM sem contraste em que o próprio fluxo gera o sinal): estreitamento residual mínimo (seta).
Angio-TC oblíqua inicial (seta).
Angio-TC oblíqua inicial (seta).
T1 black-blood axial: parede espessa e clara, hematoma subagudo (ponta de seta).
T1 black-blood axial: parede espessa e clara, hematoma subagudo (ponta de seta).
T1 black-blood coronal (pontas de seta).
T1 black-blood coronal (pontas de seta).
Fonte: Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. RadioGraphics 2018;38(2):542-563, Fig. 26. Ver artigo
o AVC cai com o tratamento Sem tratamento, o AVC chegava a 64% nas lesões carotídeas e 54% nas vertebrais; com antitrombótico, 6,8% e 2,6%. A lesão carotídea infarta mais que a vertebral.

Junção craniocervical: anatomia e imagem

LigamentoOndeFunção
TransversoAtrás do dente, preso às massas laterais do atlasO mais forte; segura o dente contra o arco anterior
AlaresDo dente aos côndilos occipitaisLimitam a rotação e a flexão lateral
ApicalDa ponta do dente ao básioEstabilizador menor
Membrana tectóriaContinua o ligamento longitudinal posterior até o forame magnoLimita a extensão
CruciformeTransverso mais as cruzes superior e inferiorFixa o dente
Ligamentos na RM
Sagital T2: atlanto-occipital anterior (seta branca), apical (ponta de seta branca), membrana tectória (setas pretas) e transverso (pontas de seta pretas).
Sagital T2: atlanto-occipital anterior (seta branca), apical (ponta de seta branca), membrana tectória (setas pretas) e transverso (pontas de seta pretas).
Coronal: ligamentos alares (setas).
Coronal: ligamentos alares (setas).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Figs. 4, 5. Ver artigo
Ligamento transverso
RM axial T2: o transverso (seta) entre as massas laterais do atlas.
RM axial T2: o transverso (seta) entre as massas laterais do atlas.
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 6. Ver artigo
Lesões ligamentares em T2
Coronal: C1-C2 alargadas com líquido (pontas de seta).
Coronal: C1-C2 alargadas com líquido (pontas de seta).
Sagital: rupturas do apical, cruciforme e membrana tectória (seta), com lesão medular.
Sagital: rupturas do apical, cruciforme e membrana tectória (seta), com lesão medular.
Axial: lesão do ramo direito do transverso (seta).
Axial: lesão do ramo direito do transverso (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 7. Ver artigo

O atlas é um anel sem corpo e sem disco; a atlantoaxial é a porção mais móvel da coluna e depende dos ligamentos. A TC em cortes finos é o exame de escolha (reconstruções de 1,25 mm ou menos); a RM entra para ligamento e medula, e o ACR (American College of Radiology) a indica quando o exame neurológico não é possível por mais de 48 horas, mesmo com TC normal.

+ complemento · cápsulas Lesão capsular tipo I é só atlantoaxial; tipo II junta atlantoaxial e atlanto-occipital e tem mais lesão medular. Ligamento normal é escuro em T2; lesado fica heterogêneo ou descontínuo.

Dissociação atlanto-occipital

Tipo de AODDeslocamento do crânioNota
IAnteriorO mais comum
IIVertical (distração)O mais instável
IIIPosterior
AOD tipos I e II
Tipo I, TC sagital: crânio deslocado para a frente (seta).
Tipo I, TC sagital: crânio deslocado para a frente (seta).
Tipo I, parassagital: côndilo à frente da massa lateral de C1 (seta).
Tipo I, parassagital: côndilo à frente da massa lateral de C1 (seta).
Tipo II, TC coronal: avulsão dos côndilos (setas).
Tipo II, TC coronal: avulsão dos côndilos (setas).
Tipo II, RM sagital T2: ruptura da membrana tectória (seta).
Tipo II, RM sagital T2: ruptura da membrana tectória (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Figs. 9, 10. Ver artigo
AOD tipo III
TC sagital: crânio deslocado para trás, com fragmento junto ao básio (seta).
TC sagital: crânio deslocado para trás, com fragmento junto ao básio (seta).
Parassagital: côndilo atrás da massa lateral de C1 (seta).
Parassagital: côndilo atrás da massa lateral de C1 (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 11. Ver artigo
Lesão ligamentar com TC quase normal, menino de 17 anos
TC sagital: básio-dente normal (linha) e espaço espinolaminar C1-C2 alargado para 11 mm (seta dupla).
TC sagital: básio-dente normal (linha) e espaço espinolaminar C1-C2 alargado para 11 mm (seta dupla).
RM sagital T2 no dia seguinte: cápsula C1-C2 distendida com nível líquido (seta).
RM sagital T2 no dia seguinte: cápsula C1-C2 distendida com nível líquido (seta).
RM coronal T2: alares rotos (setas grossas) e cápsulas distendidas (setas finas).
RM coronal T2: alares rotos (setas grossas) e cápsulas distendidas (setas finas).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 20. Ver artigo
a medida Distância básio-dente > 10 mm é altamente sugestiva de dissociação. Alargamento das articulações atlanto-occipitais (ou da soma dos dois lados) também leva ao diagnóstico. Alar e membrana tectória são os estabilizadores que importam aqui.
a criança A AOD (atlanto-occipital dissociation: dissociação atlanto-occipital) é muito mais comum em crianças, sobretudo abaixo de 8 a 10 anos: cabeça grande para o corpo, articulações rasas e ligamentos frouxos. Avulsão dos côndilos acompanha ruptura dos alares.

Fraturas dos côndilos occipitais

CôndiloAnderson e MontesanoTuli
Cominutiva, sem fragmento no forame magno (compressão)I1 (não desviada)
Linear do crânio que chega ao côndilo (golpe direto)II1
Avulsão do côndilo pelo ligamento alarIII2A ou 2B
Anderson-Montesano tipo I
TC sagital: fratura cominutiva do côndilo direito (seta).
TC sagital: fratura cominutiva do côndilo direito (seta).
Coronal (seta).
Coronal (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 13. Ver artigo
Anderson-Montesano tipo II
TC axial: fratura linear do côndilo direito (seta).
TC axial: fratura linear do côndilo direito (seta).
Coronal: o traço vem do occipital (seta).
Coronal: o traço vem do occipital (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 14. Ver artigo
Anderson-Montesano tipo III
TC coronal: fragmento de avulsão do côndilo esquerdo (seta).
TC coronal: fragmento de avulsão do côndilo esquerdo (seta).
RM coronal T2: alar esquerdo avulsionado (seta) e hipersinal no direito (ponta de seta).
RM coronal T2: alar esquerdo avulsionado (seta) e hipersinal no direito (ponta de seta).
RM axial T2: ruptura do lado esquerdo do transverso (seta).
RM axial T2: ruptura do lado esquerdo do transverso (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 15. Ver artigo
TuliDefiniçãoConduta
1Não desviadaMesmo tratamento para I e II de Anderson-Montesano
2ADesviada, sem instabilidade ligamentarPode pedir colar rígido
2BDesviada, com instabilidade ligamentarCirurgia

Atlas, ligamento transverso e rotação

AtlasMecanismo e pontos
Arco posteriorHiperextensão; tende a ser estável
Explosão (burst)Carga axial; o anel quebra em mais de um ponto
Massa lateralFlexão lateral, um lado
Frequência2 a 13% das fraturas cervicais agudas
Sinal no coronalMassas laterais de C1 para fora das bordas do corpo de C2 (antes, na radiografia de boca aberta)
TransversoRuptura com explosão ou massa lateral = instável: o dente vai para trás e pode comprimir o saco dural; pode romper sem fratura
Massas laterais para fora
Esquema coronal: as massas laterais de C1 passam das bordas de C2 (linhas tracejadas), sinal de fratura do atlas.
Esquema coronal: as massas laterais de C1 passam das bordas de C2 (linhas tracejadas), sinal de fratura do atlas.
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 17. Ver artigo
Explosão do atlas
TC axial: fratura do arco anterior de C1 (seta).
TC axial: fratura do arco anterior de C1 (seta).
RM axial T2: ruptura do transverso (seta).
RM axial T2: ruptura do transverso (seta).
RM coronal T2: massas laterais afastadas (pontas de seta).
RM coronal T2: massas laterais afastadas (pontas de seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 18. Ver artigo
Rotação C1-C2Pontos
Subluxação rotatória traumáticaFlexão e rotação com lesão do alar; mais em crianças; rara
PredisposiçãoFrouxidão ligamentar (artrite reumatoide, Down, Morquio, Marfan) e anomalias do dente ou do transverso
GriselSubluxação sem trauma, em criança com infecção de faringe, amígdala, pescoço ou ouvido
ArmadilhaNa TC, a rotação fisiológica chega a 79° e as facetas perdem até 74 a 85% do contato: aparência sozinha não faz o diagnóstico
Lesão do alar com trauma menor (Ehlers-Danlos)
TC coronal: dente fora do centro (seta).
TC coronal: dente fora do centro (seta).
RM coronal T2: alar esquerdo roto, com o espaço alargado (seta).
RM coronal T2: alar esquerdo roto, com o espaço alargado (seta).
RM axial T2: transverso íntegro (seta).
RM axial T2: transverso íntegro (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 19. Ver artigo
Subluxação rotatória
TC sagital: atlas deslocado para a frente à esquerda (seta).
TC sagital: atlas deslocado para a frente à esquerda (seta).
TC axial: atlas rodado (seta) sobre o áxis (ponta de seta).
TC axial: atlas rodado (seta) sobre o áxis (ponta de seta).
3D vista de baixo: faceta descoberta (seta).
3D vista de baixo: faceta descoberta (seta).
Fonte: Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134, Fig. 21. Ver artigo

Pontos de prova: alto rendimento

BCVI: fator de risco mais forteFratura cervical (C1 a C3)
Período latenteAté 80%, média 72 h
RastreamentoAngio-TC de 32 canais ou mais
Grau IIFlap, trombo ou > 25%
Grau IIIPseudoaneurisma
Oclusão da vertebralCorte abrupto
Tratamento graus I a IVAntitrombótico
ControleAngio-TC em 7 a 10 dias
Básio-dente> 10 mm: AOD
AOD mais instávelTipo II, vertical
Tuli 2BCirurgia
Explosão de C1 com transverso rotoInstável

Armadilhas e erros comuns

Erros

  • Não pedir angio-TC na fratura do forame transverso
  • Rastrear BCVI com RM ou Doppler
  • Chamar de grau I um flap ou trombo
  • Ler artefato de amálgama como flap
  • Deixar passar o V3 tortuoso e o canal carotídeo
  • Chamar de subluxação a rotação fisiológica de C1-C2

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Angio-TC após colisão: evaginação sacular focal da carótida interna cervical, sem oclusão. Grau na escala de Denver:

Pseudoaneurisma é grau III. Grau II é flap, trombo ou estenose acima de 25%; IV é oclusão; V é transecção ou fístula.
↑revisar esta parte do caderno · Escala de Denver (Biffl)
Questão 2

Pequeno flap intimal na vertebral, com estenose de 10%. Grau:

Qualquer flap elevado ou trombo intraluminal é grau II, qualquer que seja a estenose. O corte de 25% vale para irregularidade e hematoma.
↑revisar esta parte do caderno · Escala de Denver (Biffl)
Questão 3

Lesão carotídea grau II em politraumatizado sem contraindicação. Conduta padrão e controle:

Graus I a IV recebem antitrombótico (aspirina é tão eficaz quanto heparina). Graus I a III repetem a angio-TC em 7 a 10 dias: 40 a 43% dos grau II progridem.
↑revisar esta parte do caderno · Tratamento e controle
Questão 4

Fratura de C2 que atravessa o forame transverso, paciente sem déficit. Próximo exame:

Fratura do forame transverso e qualquer fratura de C1 a C3 pedem rastreamento com angio-TC, ainda no período latente. Doppler e angio-RM não servem para rastrear.
↑revisar esta parte do caderno · BCVI: quem rastrear e como
Questão 5

TC de trauma: distância entre o básio e a ponta do dente de 14 mm. O que sugere?

Básio-dente > 10 mm é altamente sugestiva de dissociação atlanto-occipital. O tipo II (vertical) é o mais instável.
↑revisar esta parte do caderno · Dissociação atlanto-occipital
Questão 6

Avulsão desviada do côndilo occipital, com RM mostrando instabilidade ligamentar. Pela classificação de Tuli:

Desviada com instabilidade ligamentar é Tuli 2B: cirurgia. Sem instabilidade é 2A (pode pedir colar rígido); não desviada é 1.
↑revisar esta parte do caderno · Fraturas dos côndilos occipitais
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Fontes.
1. Rutman AM, Vranic JE, Mossa-Basha M. Imaging and Management of Blunt Cerebrovascular Injury. RadioGraphics 2018;38(2):542-563. doi:10.1148/rg.2018170140
2. Riascos R, Bonfante E, Cotes C, et al. Imaging of Atlanto-Occipital and Atlantoaxial Traumatic Injuries: What the Radiologist Needs to Know. RadioGraphics 2015;35(7):2121-2134. doi:10.1148/rg.2015150035

A escala de Denver deixa sem grau a estenose de exatamente 25%, e as legendas da fonte 1 usam "25 a 50%" ora como grau II, ora como "I a II". A fonte 2 traz como medida com corte só a distância básio-dente; não apresenta intervalo básio-axial, razão de Powers, intervalo atlantodental nem as classificações de Dickman, Fielding e Anderson-D'Alonzo, e o caderno também não. Onde a fonte 2 escreve "atlanto-occipital" ao falar da rotação, o assunto é C1-C2. Tirei os diagramas com texto em inglês. Conferido em 07/10/2026.

Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.