Cadernos QRad 86 · Tornozelo e Pé no Pronto-Socorro
Musculoesquelético · trauma

Tornozelo e Pé no Pronto-Socorro

Fonte: Pal, Raniga et al: 2024, RadioGraphics

Ler com roteiro para não perder o sutil

Trauma de tornozelo e pé está entre os atendimentos mais comuns do pronto-socorro, e a radiografia é o primeiro exame. As fraturas que se perdem são pequenas: avulsões, Lisfranc, Chopart, o processo lateral do tálus, a base do 5º metatarso. O antídoto é um roteiro fixo e saber o mecanismo, que prevê o que mais procurar. Limiar baixo para TC quando a radiografia é normal ou duvidosa e a suspeita é alta.

SérieIncidênciasO que conferir na técnica
TornozeloAP (anteroposterior), mortise, perfilMortise: espaço articular limpo, sem sobrepor os maléolos · perfil: cúpulas do tálus sobrepostas, subtalar aberta, com a base do 5º metatarso
PéDorsoplantar, oblíqua, perfilOblíqua: bases do 3º ao 5º sem sobreposição, seio do tarso visível · perfil: com o calcâneo e os arcos
CalcâneoAxial (Harris) e perfil
LisfrancAP, oblíqua de 30° e perfil, dos dois ladosCom carga quando a sem carga é normal

O roteiro do tornozelo

PerfilAP e mortise
Tibiotársica, subtalar, ChopartEspaço da mortise: medial, superior e lateral
Maléolo posterior, maléolo lateral e fíbulaSindesmose: sobreposição e distância
Processo lateral do tálusMaléolo medial (fratura, edema, fragmento)
Calcâneo posterior, triângulo de Ward, processo anteriorCúpula do tálus
Base do 5º metatarsoFíbula: abaixo, na altura ou acima da sindesmose
Gordura de Kager, derrame ("lágrima")Partes moles perimaleolares
O roteiro na mortise, homem de 28 anos (normal)
Partes moles (1), maléolo medial (2), espaço da mortise (3), sindesmose (4), cúpula do tálus (5), fíbula (6), processo lateral do tálus (7) e base do 5º metatar
Partes moles (1), maléolo medial (2), espaço da mortise (3), sindesmose (4), cúpula do tálus (5), fíbula (6), processo lateral do tálus (7) e base do 5º metatarso (8).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, Fig. 1. Ver artigo
MedidaNormal
Espaço claro medial, superior e lateral4 mm · medial abaixo de 4 mm indica estabilidade
Distância tibiofibular (1 cm acima da mortise)Até 6 mm
Sobreposição tibiofibularCerca de 6 mm no AP e 1 mm na mortise (valores mínimos)
três zonas de estabilidade Medial (maléolo medial e deltoide), sindesmose e lateral (fíbula e ligamentos laterais). Uma zona lesada: estável. Duas ou mais: instável (bimaleolar, trimaleolar, fratura-luxação, tálus desviado, espaço claro medial alargado). Estável vai para tratamento conservador; instável, para TC e cirurgia.

Weber e Lauge-Hansen

Weber olha a fíbula em relação à sindesmose; Lauge-Hansen olha o mecanismo (posição do pé + direção da força), que dá uma sequência previsível de lesões. A supinação começa do lado lateral; a pronação, do medial.

WeberLauge-HansenFíbulaSequência
ASupinação-aduçãoAbaixo da sindesmose, transversa (avulsão)Lateral primeiro; o maléolo medial vertical vem por último (estádio 2, instável)
BSupinação-rotação externaNa altura da sindesmose, oblíquaSindesmose anterior → fíbula → maléolo posterior (3) → medial transverso ou espaço medial alargado (4)
CPronação-rotação externaAcima da sindesmoseMedial transverso ou espaço alargado primeiro → sindesmose → fíbula → maléolo posterior
Supinação-rotação externa, estádio 1
AP: avulsão do tubérculo de Tillaux-Chaput (seta azul) e os subtibiale (seta verde).
AP: avulsão do tubérculo de Tillaux-Chaput (seta azul) e os subtibiale (seta verde).
Perfil, TC coronal e axial: o fragmento do ligamento tibiofibular anterior (setas azuis); RM: lesão da sindesmose (seta laranja).
Perfil, TC coronal e axial: o fragmento do ligamento tibiofibular anterior (setas azuis); RM: lesão da sindesmose (seta laranja).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 19. Ver artigo
as regras da busca secundária Maléolo medial vertical sozinho: procure a fratura lateral escondida (supinação-adução). Medial e lateral fraturados no Weber B: há lesão da sindesmose ou fratura do maléolo posterior. Maléolo medial transverso ou espaço claro medial alargado sem fratura distal da fíbula: procure a fratura proximal da fíbula, a Maisonneuve (instável).
Fratura de Maisonneuve
Perna: fratura da fíbula proximal (seta verde).
Perna: fratura da fíbula proximal (seta verde).
Tornozelo: espaço claro medial alargado (linha e seta azuis) e sindesmose aberta (seta laranja), sem fratura distal da fíbula.
Tornozelo: espaço claro medial alargado (linha e seta azuis) e sindesmose aberta (seta laranja), sem fratura distal da fíbula.
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 28. Ver artigo
EstabilidadeConduta
Supinação-adução 1, supinação-rotação externa 1 e 2Estáveis · Weber B isolado que alarga o espaço medial sem carga e normaliza com carga é estável
Pronação-rotação externa 1Estável só com desvio de menos de 2 mm
Os demaisInstáveis: TC e cirurgia
a avulsão pesa mais que o tamanho Avulsões pequenas (tubérculo de Tillaux-Chaput no ligamento tibiofibular anterior, maléolo posterior, processo lateral do tálus, base do 5º metatarso) contam para a estabilidade, permitem consolidação osso com osso e, perdidas, podem impedir a redução da fíbula.

Ossículos que imitam fratura

OssículoImita
Os trigonumFratura do processo posterior do tálus (de Stieda)
Os peroneumAvulsão da base do 5º metatarso
Navicular acessórioAvulsão do tibial posterior na tuberosidade do navicular
Apófise da base do 5º metatarsoAvulsão do fibular curto (a apófise é longitudinal)
Apófise do calcâneoPode ser esclerótica e fragmentada normalmente
Os calcaneus secundariusAvulsão do processo anterior do calcâneo
Os intermetatarseumO fragmento do sinal de Lisfranc
Ossículos que imitam fratura
Os trigonum (seta).
Os trigonum (seta).
Os peroneum (seta laranja) e navicular acessório (seta amarela).
Os peroneum (seta laranja) e navicular acessório (seta amarela).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 33. Ver artigo
Mais variantes
Apófise do calcâneo (seta azul) e apófise da base do 5º metatarso (seta laranja).
Apófise do calcâneo (seta azul) e apófise da base do 5º metatarso (seta laranja).
Os calcaneus secundarius (seta amarela).
Os calcaneus secundarius (seta amarela).
Os intermetatarseum (seta verde).
Os intermetatarseum (seta verde).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 34. Ver artigo
ossículo ou fratura Ossículo: redondo, com cortical em toda a volta, margem esclerótica e lisa, que não encaixa no osso vizinho (ou é maior que o "defeito"), sem dor no lugar. Fratura: triangular, sem cortical, borda em zigue-zague, encaixa como peça de quebra-cabeça.

Lisfranc

A articulação tarsometatársica é um arco romano com a pedra-chave no 2º metatarso encaixado entre os cuneiformes. O ligamento de Lisfranc vai do cuneiforme medial à base do 2º metatarso.

IncidênciaAlinhamento normal
APBorda lateral do 1º metatarso com a do 1º cuneiforme · borda medial do 2º metatarso com a do 2º cuneiforme · distância C1-M2 (do 1º cuneiforme ao 2º metatarso) e M1-M2 (do 1º ao 2º metatarso) de menos de 2 mm
OblíquaBorda medial do 3º metatarso com a do 3º cuneiforme · borda medial do 4º metatarso com a do cuboide · 5º metatarso ultrapassando menos de 3 mm
PerfilSem degrau dorsal · ângulo tarsometatársico de menos de 15°
Fratura-luxação de Lisfranc, homem de 37 anos
AP: base do 2º metatarso desalinhada do 2º cuneiforme (linha amarela), C1-M2 alargada (linha laranja) e fragmento no espaço (o sinal do fleck, no detalhe); 1º m
AP: base do 2º metatarso desalinhada do 2º cuneiforme (linha amarela), C1-M2 alargada (linha laranja) e fragmento no espaço (o sinal do fleck, no detalhe); 1º metatarso alinhado com o 1º cuneiforme (linha preta).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, Fig. 2. Ver artigo
o sinal do fragmento (fleck) Pequeno fragmento entre o cuneiforme medial e a base do 2º metatarso: avulsão do ligamento de Lisfranc. Junto com C1-M2 alargado e o 2º metatarso desalinhado do 2º cuneiforme, é lesão de Lisfranc. Fraturas das bases do 2º ao 4º metatarso, mesmo sem desvio, pedem TC.
Próximo passoQuando
TCDesalinhamento, fragmento, fraturas das bases ou do cuboide (mapa cirúrgico) · radiografia normal com suspeita alta
RMLesão só ligamentar, trauma de baixa energia
Radiografia com cargaInstabilidade sutil: aumenta a diástase · instável se C1-M2 ou M1-M2 passa de 5 mm, ou diferença de mais de 1 mm para o outro lado

Calcâneo

Ângulo no perfilNormalFratura com afundamento da faceta posterior
Böhler24 a 40°Diminui (menos de 20°)
Gissane (crítico)95 a 145°Aumenta (mais de 145°)
Ângulos do calcâneo
Em cima, Böhler diminuído na fratura intra-articular (1); embaixo, Gissane aumentado na intra-articular (3).
Em cima, Böhler diminuído na fratura intra-articular (1); embaixo, Gissane aumentado na intra-articular (3).
Em cima, Böhler normal na fratura extra-articular (2); embaixo, Gissane normal na extra-articular (4).
Em cima, Böhler normal na fratura extra-articular (2); embaixo, Gissane normal na extra-articular (4).
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 46. Ver artigo

Os dois ângulos ficam normais na fratura extra-articular. A primeira pergunta é se a faceta posterior está acometida: se não, é extra-articular (processo anterior, sustentáculo, tuberosidade, avulsão do Aquiles); se sim, intra-articular, e a TC conta as linhas pela faceta (classificação de Sanders) e diz se é em língua ou de afundamento articular. Fratura por estresse ou insuficiência: RM.

Chopart

A articulação de Chopart é a talonavicular (medial) mais a calcaneocuboide (lateral), ligadas pelo ligamento bifurcado. Vem de trauma de alta energia, e as avulsões costumam não aparecer na radiografia: TC. No AP e no perfil, as duas articulações formam uma linha em "S" suave (linha cima).

MecanismoLado medialLado lateral
InversãoImpacção: corpo do navicular, cabeça do tálusAvulsão: processo anterior do calcâneo (bifurcado), cuboide dorsolateral, extensor curto dos dedos
EversãoAvulsão: tuberosidade do navicular (tibial posterior)Impacção: fratura em quebra-nozes do cuboide
Lesão de Chopart em inversão
TC: fratura do processo anterior do calcâneo (seta laranja), avulsão plantar do cuboide (seta azul) e avulsão lateral distal do calcâneo no extensor curto dos d
TC: fratura do processo anterior do calcâneo (seta laranja), avulsão plantar do cuboide (seta azul) e avulsão lateral distal do calcâneo no extensor curto dos dedos (seta amarela).
Radiografias do mesmo caso.
Radiografias do mesmo caso.
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 54. Ver artigo
Lesão de Chopart em eversão
TC: fratura da tuberosidade do navicular (seta laranja), quebra-nozes da calcaneocuboide (seta amarela) e fraturas das bases dos metatarsos (seta azul).
TC: fratura da tuberosidade do navicular (seta laranja), quebra-nozes da calcaneocuboide (seta amarela) e fraturas das bases dos metatarsos (seta azul).
Oblíqua: as mesmas lesões (setas).
Oblíqua: as mesmas lesões (setas).
Perfil.
Perfil.
Fonte: Pal D, Raniga SB, Mittal AK, et al. RadioGraphics 2024;44(12):e240104, apresentação, slide 55. Ver artigo
Chopart e Lisfranc juntos A eversão que arranca a tuberosidade do navicular e esmaga o cuboide pode vir com fraturas das bases dos metatarsos e dos cuneiformes: olhe sempre as duas articulações.

Pontos de prova: alto rendimento

TornozeloAP, mortise, perfil
Espaço claro medial4 mm
Distância tibiofibularAté 6 mm
InstávelDuas zonas lesadas
Weber AAbaixo, transversa · supinação-adução
Weber BNa altura, oblíqua · supinação-rotação externa
Weber CAcima · pronação-rotação externa
Medial verticalProcure o lateral
Medial transverso sem fíbula distalMaisonneuve
Tillaux-ChaputAvulsão do tibiofibular anterior
OssículoRedondo, cortical, não encaixa
Os trigonumImita Stieda
Lisfranc APM2 medial com C2
Lisfranc oblíquaM4 medial com cuboide
C1-M2< 2 mm
FleckLisfranc
Bases 2–4 fraturadasTC
Böhler24–40° · diminui
Gissane95–145° · aumenta
CalcâneoFaceta posterior acometida?
ChopartLinha cima
InversãoProcesso anterior do calcâneo
EversãoNavicular e quebra-nozes

Armadilhas e erros comuns

Erros

  • Ler o tornozelo sem roteiro e perder a base do 5º metatarso
  • Não procurar a fíbula proximal no medial isolado
  • Chamar de estável o Weber B com espaço medial alargado na carga
  • Desprezar a avulsão pequena
  • Chamar de fratura o os trigonum ou o os peroneum
  • Dar alta com radiografia normal e suspeita de Lisfranc
  • Medir Böhler sem procurar a faceta posterior na TC
  • Ver o Chopart e esquecer o Lisfranc

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Radiografia do tornozelo com fratura transversa do maléolo medial e espaço claro medial alargado, sem fratura distal da fíbula. O próximo passo é:

Maléolo medial transverso ou espaço medial alargado sem fratura distal da fíbula: procure a fratura proximal da fíbula, a Maisonneuve, com lesão da sindesmose. É instável (pronação-rotação externa).
↑revisar esta parte do caderno · Weber e Lauge-Hansen
Questão 2

Fratura oblíqua da fíbula na altura da sindesmose (Weber B) e fratura do maléolo medial. O que mais deve estar lesado?

No Weber B (supinação-rotação externa) a sequência é sindesmose anterior, fíbula, maléolo posterior e por último o lado medial. Se o medial está fraturado, a sindesmose ou o maléolo posterior também estão: estádio 4, instável.
↑revisar esta parte do caderno · Weber e Lauge-Hansen
Questão 3

Qual característica favorece ossículo acessório em vez de fragmento de fratura?

Ossículo é redondo, com cortical em toda a volta, margem esclerótica e lisa, e não encaixa no osso vizinho. Forma triangular, borda irregular e encaixe de quebra-cabeça são de fragmento de fratura.
↑revisar esta parte do caderno · Ossículos que imitam fratura
Questão 4

No AP do pé, qual alinhamento normal confere a articulação de Lisfranc?

No AP, a borda medial do 2º metatarso se alinha com a do 2º cuneiforme (e a lateral do 1º com a do 1º cuneiforme). Na oblíqua, a borda medial do 4º metatarso com a do cuboide. Fragmento entre C1 e M2 é o sinal do fleck.
↑revisar esta parte do caderno · Lisfranc
Questão 5

Na fratura intra-articular do calcâneo com afundamento da faceta posterior, os ângulos ficam:

O afundamento da faceta posterior diminui o Böhler (normal 24 a 40°; menos de 20° sugere fratura) e aumenta o Gissane (normal 95 a 145°). Na fratura extra-articular os dois ficam normais.
↑revisar esta parte do caderno · Calcâneo
Questão 6

Trauma em eversão do pé com avulsão da tuberosidade do navicular. Qual outra fratura é típica desse mecanismo?

Na eversão, o lado medial avulsiona (tuberosidade do navicular, tibial posterior) e o lateral impacta: fratura em quebra-nozes do cuboide. Na inversão é o contrário: avulsão do processo anterior do calcâneo e impacção medial.
↑revisar esta parte do caderno · Chopart
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Fonte.
Pal D, Raniga SB, Mittal AK, Ahuja A, Panwar J, Kumaravel M. Ankle and Foot Injuries in the Emergency Department: Checklist-based Approach to Radiographs. RadioGraphics 2024;44(12):e240104. doi:10.1148/rg.240104 (artigo e apresentação de slides)

A maioria dos slides é esquema com texto em inglês (roteiros, mecanismos, estágios); ficaram os casos. Alguns cortes de TC trazem o nome dos ossos em inglês (Calcaneum, Cuboid, Talus). As regras de Ottawa e as fraturas do adolescente (Tillaux juvenil, triplanar) não estão na fonte. Conferido em 07/10/2026.

Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados da mesma fonte.