No mapeamento antes de uma fístula arteriovenosa, a veia cefálica deve ser medida:
Fístula de Hemodiálise ao US
A linha de vida do paciente em diálise
A hemodiálise responde por 80 a 90% das diálises, e o acesso ideal é uma ligação direta entre artéria e veia, com fluxo suficiente e que se punciona com facilidade várias vezes por semana. A fístula arteriovenosa (FAV) é a preferida: dura mais (3 a 7 anos, contra 12 a 18 meses do enxerto), infecta, trombosa e rouba menos, e custa menos. Em troca, demora para amadurecer e falha mais no começo (50% contra 15%). O enxerto (prótese) pode ser usado em dias, e o cateter venoso central é o último recurso.
| Ordem de preferência | Detalhe |
|---|---|
| 1. Radiocefálica (punho) | Preserva o braço para depois · fluxo menor |
| 2. Braquiocefálica (cotovelo, braço) | Amadurece mais, fluxo maior · mais roubo |
| 3. Braquiobasílica com transposição da basílica | A basílica é funda e medial: precisa ser trazida para a superfície |
| 4. Enxertos | Alça no antebraço · reto ou em alça no braço até a axilar · coxa |
| Endovascular (percutânea) | Anastomose em ângulo de quase 0° entre artéria e veia profundas do antebraço, por uma veia perfurante · mais reintervenções no 1º ano |
Mapeamento antes da cirurgia
O KDOQI (Kidney Disease Outcomes Quality Initiative: diretriz da National Kidney Foundation) 2019 indica o mapeamento por US para quem tem mais risco de falha, veias puncionadas muitas vezes, estenose central conhecida ou provável, ou exame físico difícil.
| Item | Como |
|---|---|
| Posição | Sentado, com garrote para medir as veias do braço · sala e gel aquecidos (evita vasoconstrição) |
| Medida | Diâmetro interno anteroposterior no transversal, sem pressão do transdutor · profundidade da parede anterior da veia |
| Artéria | Mais de 2 mm · calcificação (grave: sutura difícil, amadurece pior) · bifurcação alta da braquial (a variante mais comum; falha mais) · fluxo da braquial normal de 30 a 120 mL/min |
| Veia para FAV | Mais de 2,0 a 2,5 mm (com garrote) · sem trombo nem alteração pós-trombótica · para enxerto, pelo menos 4,0 mm |
| Veias centrais | Onda monofásica na subclávia e na jugular interna sugere estenose ou oclusão do tronco braquiocefálico; dos dois lados, da veia cava superior · confirmar com venografia |
| Teste de Allen com Doppler | Transdutor na eminência tenar, compressão da radial: o fluxo do arco palmar se inverte = arco completo · fluxo some = arco incompleto, risco de isquemia da mão |
| FAV endovascular | Radial ou ulnar e perfurante de 2 mm ou mais perto do cotovelo |





Maturação
FAV madura é a que se punciona com duas agulhas em 75% das sessões por 4 semanas seguidas. Falha de maturação é não servir 12 semanas depois da cirurgia: acontece em 24 a 65% (até 70% nas radiocefálicas).
| Critério | Valor |
|---|---|
| Regra dos 6 (6 semanas depois) | Veia de 6 mm (recentemente aceito 4 a 5 mm), até 6 mm de profundidade, 6 cm retos para duas agulhas, fluxo de 500 a 600 mL/min |
| Prático | Veia de mais de 4 mm e fluxo de mais de 500 mL/min: 95% de chance de servir |
| Veia funda demais | Mais de 6 mm da pele: superficialização |


| Por que não amadurece | Pista |
|---|---|
| Estenose justa-anastomótica | A causa mais comum na radiocefálica (25 a 64% das falhas) |
| Veias acessórias | Ramos que desviam fluxo (mais de 25% do fluxo, ou um terço do calibre da veia principal) nos primeiros 10 cm · mola ou ligadura |
| Estenose na saída | Veia de drenagem, arco da cefálica, central |
| Artéria ruim | Pequena, calcificada, com estenose |



O exame da fístula pronta
| Segmento | Normal |
|---|---|
| Artéria antes da anastomose | Baixa resistência, alta amplitude (o fluxo da braquial sobe cerca de 10 vezes depois da fístula) |
| Artéria depois da anastomose | Alta resistência, para a mão |
| Anastomose | Velocidade alta e aliasing; pode ser normal sem estreitamento no modo B |
| Veia de saída | "Arterializada": fluxo pulsátil com alargamento espectral, que vai virando venoso ao subir |
| Enxerto | Parede em "trilho" (duas linhas ecogênicas) |


Varredura: terço distal da artéria de entrada, anastomose arterial (e venosa no enxerto), toda a veia ou o enxerto até onde der nas veias centrais. Use o aliasing do Doppler colorido como mapa para pôr a amostra espectral, e meça a velocidade de pico em cada estreitamento e 2 cm antes dele.
Estenose e trombose
A estenose é a causa mais comum de disfunção e quase sempre está por trás da trombose (mais de 90%). Vem de hiperplasia neointimal nos pontos em que o fluxo faz curva.
| Acesso | Onde estreita mais | Relação de velocidade de pico |
|---|---|---|
| Radiocefálica | Justa-anastomótica (até 2 cm da anastomose) | 3:1 |
| Braquiocefálica | Arco da cefálica (30 a 77%) ou veia de saída | 2:1 |
| Braquiobasílica transposta | Ponto de giro (onde a basílica transposta volta a ser profunda; 70 a 75%) | 2:1 |
| Enxerto | Anastomose venosa (70%) | 2:1 |











| Critério | Valor |
|---|---|
| Estreitamento | Mais de 50% no modo B (difícil de medir: estenoses excêntricas) |
| Velocidade | Mais de 400 a 500 cm/s no ponto estreito |
| Relação | Velocidade no estreitamento ÷ 2 cm antes · os valores variam entre as fontes (de 2:1 a 4:1 conforme o local) |
| Fluxo | Menos de 600 mL/min, ou queda de 25% em relação ao anterior |
| Trombose | O que saber |
|---|---|
| US | Trombo ecogênico sem cor nem onda na veia ou no enxerto |
| Sinal indireto | A artéria antes da anastomose perde a baixa resistência: onda de alta resistência, às vezes com diástole invertida ("onda de batida") |
| Fluxo e risco | Enxerto abaixo de 600 mL/min trombosa mais · a FAV pode ficar pérvia com 300 |
| Tratamento | Trombectomia endovascular e tratamento da estenose por trás · salvar em 24 horas melhora a patência da fístula · não em acesso infectado ou recém-criado |


Roubo, alto débito, aneurismas e coleções
| Complicação | Imagem | Conduta |
|---|---|---|
| Síndrome do roubo | Fluxo invertido na artéria depois da anastomose (para dentro da fístula) mais sintomas distais (mão fria, dormência na diálise, dor, perda de tecido) · comprimir a fístula devolve o fluxo para a mão | Leve: aquecer, ajustar anti-hipertensivo · estenose de entrada: angioplastia · alto fluxo: bandagem · fechar a fístula em último caso |
| Roubo fisiológico | Fluxo invertido sem sintoma · comum | Nada |
| Alto débito | Fluxo do acesso acima de 2.000 mL/min ou mais de 30 a 35% do débito cardíaco | Insuficiência cardíaca de alto débito · bandagem |
| Aneurisma verdadeiro | As três camadas, mais de 18 mm ou 3 vezes a veia, fluxo circular lento | Decide a clínica, não o tamanho |
| Pseudoaneurisma | Coleção com colo, sinal do yin-yang (vai e vem) · mais no enxerto, nos pontos de punção | Rompe mais · pele fina e brilhante, sangramento prolongado: tratar |
| Seroma | Anecoico, sem fluxo, perto da anastomose arterial do enxerto (2 a 4% no 1º mês) | Aspirar se comprimir |
| Hematoma × abscesso | Ambos hipoecogênicos e sem fluxo · ar sugere infecção | A clínica decide |


















O tratamento endovascular
| Ferramenta | Quando e como |
|---|---|
| Angioplastia | Primeira linha para estenose (inclusive central) · balão cerca de 1 mm maior que a veia normal vizinha, alta pressão até sumir a "cintura" · na justa-anastomótica, trate a saída antes |
| Balão de corte | Segunda linha quando sobra mais de 30% |
| Balão farmacológico | Mais tempo até a próxima intervenção em vários estudos (pré-dilatar com balão comum) |
| Stent revestido | Estenose da anastomose venosa do enxerto e reestenose · cruzar o cotovelo e zonas de punção · stent metálico não revestido não deve ser usado · não fechar outras saídas nem estender para a axilar |
| Trombectomia | Saída, entrada, retoques: trombolítico e maceração, cateter de Fogarty na anastomose, depois tratar as estenoses · pela jugular interna, com sucesso acima de 95% |
| Colaterais | Molas ou ligadura percutânea com fio da veia que compete |
Pontos de prova: alto rendimento
| FAV × enxerto | Dura mais, infecta e trombosa menos · demora a amadurecer |
| Ordem | Radiocefálica, braquiocefálica, basílica transposta, enxerto |
| Braço | Não dominante, distal primeiro |
| Artéria | > 2 mm |
| Veia para FAV | > 2,0–2,5 mm com garrote |
| Veia para enxerto | ≥ 4 mm |
| Medida | Diâmetro interno, sem pressão |
| Allen com Doppler | Fluxo palmar inverte = arco completo |
| Regra dos 6 | 6 mm, ≤ 6 mm de fundura, 6 cm, 500–600 mL/min |
| Fluxo | Veia a ~10 cm da anastomose |
| Falha de maturação | 12 semanas · justa-anastomótica, acessórias |
| Acessória | > 25% do fluxo ou 1/3 do calibre |
| Radiocefálica | Estenose justa-anastomótica · 3:1 |
| Braquiocefálica | Arco da cefálica · 2:1 |
| Basílica transposta | Ponto de giro |
| Enxerto | Anastomose venosa |
| Estenose | > 50%, > 400–500 cm/s, fluxo < 600 |
| Sem sintoma | Não tratar |
| Trombose indireta | Artéria de entrada vira alta resistência |
| Roubo | Fluxo invertido + sintoma · compressão reverte |
| Alto débito | > 2.000 mL/min ou > 30–35% do débito |
| Aneurisma | > 18 mm ou 3× a veia |
| Pseudoaneurisma | Colo, yin-yang |
| Stent | Revestido; nunca metálico nu |
| Trombose | Salvar em 24 h |
Armadilhas e erros comuns
Erros
- Medir a veia sem garrote ou apertando com o transdutor
- Medir o fluxo num trecho com estenose ou turbulência
- Fazer o exame logo depois da diálise
- Chamar de estenose o aliasing normal da anastomose
- Esquecer as veias acessórias nos primeiros 10 cm
- Chamar de síndrome do roubo o fluxo invertido sem sintoma
- Não olhar o arco da cefálica na braquiocefálica
- Indicar tratamento de estenose em quem está sem sintoma
- Colocar stent metálico nu em zona de punção
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6Seis semanas depois de uma fístula radiocefálica, qual conjunto indica que ela amadureceu?
Em qual local a estenose é mais típica de uma fístula braquiocefálica?
Paciente com fístula braquiocefálica perdeu o frêmito. No US, a artéria braquial antes da anastomose tem onda de alta resistência com diástole invertida. Isso indica:
Mulher com fístula braquiocefálica tem dor e dormência na mão durante a diálise. A artéria depois da anastomose tem fluxo invertido, que volta para a mão quando se comprime a fístula. O diagnóstico é:
Paciente em diálise sem queixa, com fístula funcionando bem, tem no US de rotina uma estenose de 55% na veia de saída. A conduta recomendada é:
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Sharbidre KG, Alexander LF, Varma RK, et al. Hemodialysis Access: US for Preprocedural Mapping and Evaluation of Maturity and Access Dysfunction. RadioGraphics 2024;44(1):e230053. doi:10.1148/rg.230053
Sailer A, et al. Imaging of Arteriovenous Fistulas: Maturation, Maintenance, and Declotting. RadioGraphics 2025;45(7):e230082. doi:10.1148/rg.230082 (artigo e apresentação de slides)
As recomendações são as do KDOQI 2019 citadas pelas fontes. Onde as duas fontes dão números diferentes (relação de velocidade, roubo, estenose justa-anastomótica), o caderno diz. Conferido em 06/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.