Carcinoma do colo de 3 cm, restrito ao colo, com linfonodo ilíaco externo necrótico na RM. O estádio FIGO 2018 é:
Câncer do Colo e do Endométrio na RM
Dois cânceres, a mesma RM
O câncer do colo é o quarto mais comum na mulher no mundo, 85% nos países de poucos recursos (o Brasil entre eles), ligado ao HPV (papilomavírus humano). O do endométrio é da pós-menopausa, ligado ao estrogênio sem oposição e à obesidade. A RM é o exame de estadiamento local dos dois, com o mesmo princípio: cortes de alta resolução em T2 planejados pelo eixo do órgão, mais difusão.
| Colo | Endométrio | |
|---|---|---|
| Estadiamento | FIGO (Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia) 2018: clínico e por imagem (a imagem muda o estádio) | FIGO 2009: cirúrgico (a RM orienta o tratamento) |
| Plano-chave | Axial oblíquo perpendicular ao colo | Axial oblíquo perpendicular à cavidade |
| Pergunta-chave | Paramétrio, vagina, linfonodos | Profundidade da invasão miometrial, estroma cervical |
| Tratamento divisor | Cirurgia (inicial) × quimiorradiação (localmente avançado) | Histerectomia com ou sem linfadenectomia |
Protocolo de RM
| Passo | Como |
|---|---|
| Preparo | Esvaziar a bexiga 30 minutos antes (bexiga parcialmente cheia) · antiperistáltico (escopolamina ou glucagon) · jejum de 4 a 6 horas no endométrio |
| Gel vaginal | Opcional · ajuda a ver a vagina superior (30 a 60 mL de gel de US) |
| T2 sagital | Primeiro, pela pelve: tamanho, vagina, bexiga e reto |
| T2 axial oblíquo de campo pequeno | Perpendicular ao colo (colo) ou à cavidade (endométrio) · sem ele, o paramétrio e a invasão miometrial são super ou subestimados |
| Difusão | b 0/50 e pelo menos 750 a 1.000 · o tumor é claro no b alto e escuro no ADC (coeficiente de difusão aparente) |
| Campo grande | Axial T1 e T2 dos hilos renais à sínfise: linfonodos para-aórticos, hidronefrose, osso |
| Contraste | No colo não é rotina (o tumor já contrasta com o estroma escuro) · no endométrio, dinâmico: precoce (30 a 60 s), equilíbrio (2 a 3 min), tardio (4 a 5 min) |

















Colo: o que mudou na FIGO 2018
| Estádio | FIGO 2018 |
|---|---|
| IA1 | Invasão de até 3 mm de profundidade (só na histologia) |
| IA2 | Mais de 3 e até 5 mm (a largura saiu da definição) |
| IB1 | Mais de 5 mm de profundidade e até 2 cm |
| IB2 | Mais de 2 e até 4 cm |
| IB3 | Mais de 4 cm |
| IIA1 / IIA2 | 2/3 superiores da vagina, até 4 cm / mais de 4 cm |
| IIB | Paramétrio |
| IIIA | Terço inferior da vagina |
| IIIB | Parede pélvica ou hidronefrose |
| IIIC1 / IIIC2 | Linfonodos pélvicos / para-aórticos (por imagem ou patologia) |
| IVA / IVB | Mucosa da bexiga ou do reto / à distância |





| Linfonodos | Sensibilidade | Especificidade |
|---|---|---|
| PET-TC (tomografia por emissão de pósitrons acoplada à TC) com FDG (fluordesoxiglicose) | 82% | 95% |
| TC | 50% | 92% |
| RM | 56% | 91% |
Sobrevida em 5 anos pela FIGO 2018: IB1 91,6%, IB2 83,3%, IB3 76,1%, IIB 63,9%, IIIC1 60,8% (grupo heterogêneo), IIIC2 37,5%, IVB 14,7%.
Colo: estádio por estádio na RM
O tumor tem sinal intermediário em T2, bem diferente do estroma fibroso, que é escuro.
| Estrutura | Invadida | Preservada |
|---|---|---|
| Vagina (IIA) | Perda do sinal baixo da parede vaginal em continuidade com o tumor (ver em dois planos) · superestimada nos fórnices | Faixa de líquido com sinal alto entre tumor e parede |
| Paramétrio (IIB) | Ruptura de espessura total do anel estromal escuro com tecido na gordura parametrial | Anel estromal escuro de 3 mm preservado em volta: 96 a 99% de especificidade para excluir |
| Parede pélvica (IIIB) | Tumor a menos de 3 mm da parede (obturador interno, piriforme, vasos) · ureter obstruído | |
| Terço inferior da vagina (IIIA) | Abaixo do nível da base da bexiga, melhor no sagital | |
| Bexiga e reto (IVA) | Tumor atravessando a parede até a mucosa e a luz (confirmar por cistoscopia) | Perda do plano de gordura sozinha não é IVA · RM negativa tem VPN (valor preditivo negativo) de 100% |











| Linfonodo suspeito | Pista |
|---|---|
| Tamanho | Menor eixo de mais de 10 mm, ou mais de 8 mm e redondo |
| Necrose central | VPP (valor preditivo positivo) de 100% na pelve · capta pouco no centro no PET |
| Contorno | Lobulado ou espiculado (ruptura da cápsula) |
| Sinal | Igual ao do tumor · ADC menor, mas com sobreposição |







A TC estadia mal o colo (50% dos tumores IB têm a mesma densidade do estroma), mas acerta 92% da doença avançada (IIIB a IVB). O PET-TC entra do IB1 cirúrgico em diante e na doença localmente avançada, e muda o tratamento em cerca de um terço.
Colo: tratamento e traquelectomia
| Estádio | Tratamento |
|---|---|
| IA1 | Conização (margem livre pode curar) ou histerectomia · com invasão linfovascular, linfadenectomia |
| IA2, IB1 | Traquelectomia radical (preserva fertilidade) ou histerectomia, com linfadenectomia |
| IB2, IIA1 | Histerectomia radical e linfadenectomia (ou radioterapia e braquiterapia) |
| IB3, IIA2 | Quimiorradiação (histerectomia depois não melhora a sobrevida) |
| IIB a IVA | Quimiorradiação · cirurgia só para amostrar linfonodos |
Endométrio: tipos e estadiamento
| Tipo I (85%) | Tipo II (15%) | |
|---|---|---|
| Histologia | Endometrioide graus 1 e 2 | Endometrioide grau 3, seroso, células claras, indiferenciado |
| Precursor | Hiperplasia | Carcinoma intraepitelial (endométrio atrófico) |
| Comportamento | Precoce, lento, bom prognóstico | Avançado, rápido, peritônio e linfonodos |
A classificação molecular (TCGA, The Cancer Genome Atlas) separa quatro grupos: POLE (mutação do gene da DNA polimerase épsilon; melhor prognóstico), instabilidade de microssatélites, baixo número de cópias e alto número de cópias com TP53 (mutação do gene supressor de tumor p53; o pior). A biópsia classifica tão bem quanto a peça.
| FIGO 2009 | Definição |
|---|---|
| IA | No corpo, invasão de menos de 50% do miométrio |
| IB | Invasão de 50% ou mais |
| II | Estroma cervical |
| IIIA | Serosa e/ou anexos |
| IIIB | Vagina e/ou paramétrio |
| IIIC1 / IIIC2 | Linfonodos pélvicos / para-aórticos |
| IVA / IVB | Mucosa da bexiga ou do intestino / à distância (inclusive linfonodo inguinal) |
Endométrio: invasão miometrial e cervical
No T2 normal: endométrio claro, zona juncional escura (miométrio interno, contínuo com o estroma interno do colo), miométrio externo intermediário. O tumor tem sinal intermediário (mais escuro que o endométrio, um pouco mais claro que o miométrio), restringe e realça menos que o miométrio.
| Sequência | O que mostra |
|---|---|
| T2 axial oblíquo | Zona juncional escura contínua: sem invasão · rompida: invasão |
| Contraste precoce | Faixa de realce subendometrial lisa e contínua praticamente exclui invasão superficial |
| Contraste de equilíbrio | Melhor contraste tumor-miométrio: a fase para a invasão profunda |
| Contraste tardio | Estroma cervical |
| Difusão | Ajuda quando o tumor tem o mesmo sinal do miométrio, com adenomiose ou leiomioma, sem contraste |





| Armadilha | Por quê |
|---|---|
| Tumor com o mesmo sinal do miométrio | A interface some no T2 |
| Tumor no corno | O miométrio é fino ali |
| Tumor grande | Distende e afina o miométrio |
| Útero atrófico | Zona juncional indistinta |
| Adenomiose e leiomioma | Também são escuros no T2 (sub ou superestimação) · o tumor restringe, eles não |
| Tumor prolapsado no canal | Alarga o canal sem invadir: a mucosa endocervical fica intacta |









| Fora do útero | Sinal |
|---|---|
| Estroma cervical (II) | Tumor rompendo o estroma escuro, realce do estroma interrompido no tardio · pior prognóstico |
| Serosa (IIIA) | Serosa escura rompida, contorno irregular, perda do realce em anel do miométrio externo |
| Ovário | Primário sincrônico em 5 a 8% (massa sólido-cística, invasão mínima) × metástase (bilateral, invasão profunda) |
| Linfonodos | Pélvicos de mais de 8 mm, abdominais de mais de 10 mm, ou redondos, irregulares, necróticos · o útero superior drena para ilíacos comuns e para-aórticos |
| Bexiga e reto (IVA) | Plano de gordura preservado exclui · mucosa exige extensão até a luz |















Preservação da fertilidade, radioterapia e recidiva
| Tema | O que saber |
|---|---|
| Preservar fertilidade | Progestagênio contínuo ou DIU (dispositivo intrauterino) de levonorgestrel · só endometrioide grau 1, sem invasão miometrial nem do estroma cervical, sem doença fora do útero e sem linfonodo na RM · RM de controle em 6 a 9 meses |
| Radioterapia | A RM guia o planejamento e a braquiterapia (posição do aplicador, contorno do tumor, complicações) |
| Recidiva | Mais na cúpula vaginal e nos linfonodos, a maioria nos 2 primeiros anos · massa de sinal intermediário que restringe e realça |
| Resposta completa | Cúpula vaginal lisa, sem nodularidade excêntrica, sem restrição |
| Depois da radiação | Fibrose: T2 escuro, sem restrição, realce tardio crescente · edema: T2 e difusão claros, realce variável · na dúvida, biópsia |








Pontos de prova: alto rendimento
| Colo FIGO 2018 | Clínico e por imagem |
| IA | Só profundidade: 3 e 5 mm |
| IB1 / IB2 / IB3 | ≤ 2 / 2–4 / > 4 cm |
| IIIC1 / IIIC2 | Linfonodos pélvicos / para-aórticos |
| Plano-chave | Axial oblíquo perpendicular ao colo |
| Paramétrio preservado | Anel escuro de 3 mm |
| Paramétrio invadido | Ruptura de espessura total |
| Parede pélvica | < 3 mm ou hidronefrose |
| IVA | Até a mucosa |
| Edema bolhoso | T2 claro, não é invasão |
| Linfonodo necrótico | VPP 100% |
| PET-TC | Linfonodo: 82% / 95% |
| IB3, IIA2 | Quimiorradiação |
| Traquelectomia | ≥ 1 cm do orifício interno, até IB1 |
| Endométrio | Estadiamento cirúrgico |
| IA × IB | < 50% × ≥ 50% |
| II | Estroma cervical |
| Zona juncional contínua | Sem invasão |
| Realce subendometrial liso | Sem invasão |
| Invasão profunda | Fase de equilíbrio |
| Estroma cervical | Fase tardia |
| Adenomiose | Não restringe |
| Corno | Miométrio fino, armadilha |
| POLE | Melhor prognóstico |
| TP53 | Pior |
| Fertilidade | Grau 1, sem invasão |
| Recidiva | Cúpula vaginal |
| Fibrose × recidiva | Fibrose não restringe |
Armadilhas e erros comuns
Erros
- Estadiar o paramétrio no axial verdadeiro de campo grande
- Fazer a RM logo depois da biópsia do colo
- Chamar de IVA a perda do plano de gordura
- Chamar de invasão o edema bolhoso
- Esquecer os linfonodos no estadiamento do colo
- Medir a invasão miometrial no corno ou no útero atrófico sem difusão e contraste
- Confundir adenomiose com invasão profunda
- Chamar de invasão cervical o tumor que só prolapsou no canal
- Chamar de recidiva a fibrose pós-radiação
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6No T2 axial oblíquo perpendicular ao colo, qual achado praticamente exclui invasão do paramétrio?
Mulher de 32 anos com carcinoma escamoso do colo de 1,5 cm, a 1,5 cm do orifício interno, sem paramétrio nem linfonodos, que deseja engravidar. A opção cirúrgica é:
Carcinoma endometrioide com invasão de 60% do miométrio, sem invasão do estroma cervical nem doença fora do útero. O estádio FIGO 2009 é:
Na RM de câncer de endométrio, qual achado praticamente exclui invasão miometrial superficial?
Qual situação tende a causar erro na estimativa da invasão miometrial?
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Salib MY, Russell JHB, Stewart VR, et al. 2018 FIGO Staging Classification for Cervical Cancer: Added Benefits of Imaging. RadioGraphics 2020;40(6):1807–1822. doi:10.1148/rg.2020200013
Maheshwari E, Nougaret S, Stein EB, et al. Update on MRI in Evaluation and Treatment of Endometrial Cancer. RadioGraphics 2022;42(7):2112–2130. doi:10.1148/rg.220070
O artigo do endométrio é anterior à FIGO 2023: o caderno dá a FIGO 2009 e a classificação molecular como o artigo as apresenta. O esquema dos tipos I e II (em inglês) e a imagem de planejamento da braquiterapia ficaram de fora. Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.