Na vesícula, ecos em faixa com margem convexa que somem ao reposicionar o paciente e diminuem ao baixar o ganho. O mecanismo mais provável é:
Artefatos do US, Harmônica e Composição Espacial
O ultrassom é uma coleção de artefatos
O aparelho monta a imagem com três suposições. Quando o tecido as desobedece, aparece o artefato, e muitos deles ajudam no diagnóstico: o reforço do cisto, a sombra do cálculo, o ring-down do gás. Saber o mecanismo diz se o achado é real e qual botão o confirma.
| Suposição do aparelho | Quando falha |
|---|---|
| O pulso anda em linha reta, e o eco vem do feixe principal, de uma reflexão só, do último pulso | Lobos secundários, reverberação, espelho, refração, ambiguidade de profundidade |
| A velocidade do som é constante, 1540 m/s, então o tempo vira profundidade | Erro de posição e de tamanho na gordura (1450 m/s), aberração de fase |
| A força do eco depende só da ecogenicidade (o TGC (time gain compensation: compensação do ganho conforme a profundidade) compensa a atenuação) | Reforço posterior e sombra acústica |
Feixe e resolução
| Resolução | Do que depende | Artefato |
|---|---|---|
| Lateral | Largura do feixe: estreita na zona focal, larga nos campos próximo e distante | Pontos borrados para os lados · dois alvos mais próximos que o feixe viram um |
| Elevacional (espessura do corte) | Em geral a pior das três · transdutor de uma fileira não foca em profundidade | Ecos falsos dentro do líquido, por volume parcial: imitam debris na bexiga ou barro na vesícula |
| Axial | Comprimento do pulso (SPL): separa interfaces a mais da metade do SPL | Melhora com frequência maior · não muda com a profundidade |



| Ajuste | O que corrige |
|---|---|
| Zona focal na estrutura, várias zonas focais | Resolução lateral |
| Frequência mais alta | Resolução lateral e axial (perde penetração) |
| Velocidade do som ajustada (mama, gordura) | Aberração de fase: com o tecido fora de 1540 m/s, o foco eletrônico erra e o feixe alarga |
| Almofada de gel, transdutor 1,5D ou 2D | Resolução elevacional: põe o cisto superficial na zona focal e separa cisto de nódulo sólido |


| Ruído | O que saber |
|---|---|
| Speckle | Interferência dos ecos de espalhadores do tamanho do comprimento de onda ou menores · dá a textura do tecido, mas baixa o contraste · diminui com redução de speckle por pós-processamento, composição espacial e harmônica |
| Lobos laterais | Cerca de 1% da energia sai fora do eixo · o eco de um refletor forte ao lado é posto dentro do feixe · invisível no tecido, aparece no líquido: o pseudobarro da vesícula, vindo do gás da alça vizinha |
| Lobos de grade | Ângulos mais oblíquos (até 90°), mais fortes · nascem do arranjo de elementos espaçados · não existem se o espaçamento é menor que meio comprimento de onda · a harmônica os suprime |




Reverberação, cauda de cometa e ring-down
A interface músculo-gordura reflete cerca de 1% do pulso; a músculo-ar, quase 100%. Entre dois refletores fortes e paralelos o pulso vai e volta, e cada volta vira um eco mais fundo.
| Artefato | Mecanismo e aspecto | Uso |
|---|---|---|
| Reverberação | Vai e volta entre dois refletores (muitas vezes a face do transdutor e uma interface próxima) · linhas paralelas claras a intervalos iguais, mais fracas com a profundidade | Gás anormal: pneumoperitônio, pneumatose, pneumobilia · atrapalha: imita debris no cisto |
| Cauda de cometa | Reverberação entre interfaces próximas demais para separar · triângulo ecogênico que afina com a profundidade | Cristais de colesterol na adenomiomatose · coloide espesso no nódulo coloide benigno da tireoide · calcificação, clipe, DIU (dispositivo intrauterino) |
| Ring-down | Vibração de bolhas de ar presas em tetraedro · faixa contínua ou bandas paralelas atrás do gás | Por definição, só gás: pneumoperitônio, gás portal, infecção enfisematosa, abscesso · gás no apêndice tranquiliza · linhas B no pulmão |






Espelho, refração e velocidade do som
| Artefato de trajeto | Mecanismo | Exemplo e armadilha |
|---|---|---|
| Imagem em espelho | O pulso bate num refletor forte e liso, volta pelo mesmo caminho: a cópia é posta mais funda, à mesma distância do outro lado | Lesão do fígado repetida acima do diafragma · também pleura, bexiga, alça (parede falsamente espessa, pulmão falsamente consolidado) |
| Multicaminho | Reflexões fora do eixo no caminho | Objeto um pouco mais fundo, perda de qualidade |
| Refração (mau registro) | O feixe desvia ao cruzar obliquamente tecidos de velocidades diferentes (lei de Snell) | Objeto deslocado, como o lápis no copo d'água · erro de alvo na biópsia |
| Duplicação | O reto abdominal funciona como lente | Aorta, saco gestacional ou medula duplicados, sobretudo na pelve através da parede |
| Sombra de borda | Reflexão e refração na borda curva de um cisto ou massa | Linhas hipoecogênicas paralelas atrás das bordas · não confundir com sombra de cálculo (vaso no seio renal) |






| Velocidade do som | O que acontece |
|---|---|
| Meio mais lento (gordura, 1450 m/s) | O eco chega tarde: o aparelho põe a estrutura mais funda |
| Distorção de contorno | Gordura focal no fígado faz o diafragma parecer afundado ali |
| Baioneta | A agulha parece dobrada ou partida ao cruzar uma lesão de velocidade diferente |
| Camada uniforme de gordura | Sem degrau, mas todas as profundidades superestimadas · a gordura é cerca de 5% mais lenta: um dermoide de 5 cm mede 5,25 cm |

| Ambiguidade de profundidade | O que saber |
|---|---|
| Mecanismo | O eco de uma estrutura funda chega depois do pulso seguinte e é posto perto do transdutor |
| Aspecto | Ecos falsos dentro de estrutura líquida grande (hidrocele, por exemplo) |
| Correção | Baixar a PRF (pulse repetition frequency: frequência de repetição de pulsos), aumentar a profundidade da imagem, menos zonas focais |

Reforço e sombra acústica
A atenuação cresce quase linearmente com a frequência: água 0,02, fígado 0,4 e osso 20 dB/cm/MHz. O TGC supõe que todo tecido atenua igual; o que foge disso aparece como reforço ou sombra.
| Atenuação | Mecanismo | Na prática |
|---|---|---|
| Reforço posterior | Atrás de algo que atenua pouco, o TGC compensa demais | Separa cisto de sólido · armadilha: lesão sólida homogênea de baixa atenuação também reforça |
| Sombra limpa | Cálculo grande, osso: a energia é absorvida | Faixa anecoica escura |
| Sombra parcial | Tecido que atenua muito (gordura) ou cálculo menor que o feixe | Faixa hipoecogênica · zona focal na altura do cálculo |
| Sombra suja | Gás: reflexões secundárias dentro da sombra | Ecos de baixa intensidade, como no ring-down |





| A sombra | Aumenta com | Diminui com |
|---|---|---|
| Do cálculo | Frequência alta, harmônica, zona focal no cálculo | Zona focal mal posta, feixe largo, composição espacial |


Imagem harmônica
O tecido não é linear: a onda anda mais rápido na compressão que na rarefação e se deforma, passando energia da frequência fundamental para as harmônicas (2 MHz gera 4 MHz, 6 MHz...). O aparelho transmite na fundamental e recebe só a 2ª harmônica.
| Harmônica | O que saber |
|---|---|
| Força | A 2ª harmônica tem 1/10 a 1/100 da potência da fundamental · cresce com o quadrado da pressão |
| Onde nasce | Alguns centímetros abaixo da pele, mais forte no centro: um feixe mais estreito |
| Como separa a fundamental | Filtro de frequência (perde resolução axial) ou inversão de pulso (pulso e pulso invertido; melhor resolução, menos quadros por segundo) |
| Ganhos | Menos lobos laterais e de grade · resolução lateral e elevacional melhores · menos ruído de aberração e de reverberação nas camadas superficiais (melhor com muita gordura) · agulha mais visível |
| Custos | Taxa de quadros até pela metade (48 para 37 quadros/s a 3,5 cm no fantoma) · menos penetração: campo distante escuro |
| Artefatos | Sombra e reforço aumentam · sombra de borda do cisto também |
| Doppler | Muda só a parte em modo B |





Composição espacial e as duas juntas
A composição espacial soma numa imagem só os quadros feitos com o feixe inclinado em vários ângulos (em geral 3 a 9). O ganho é maior onde todos os feixes se cruzam, no centro; as bordas ficam mais ruidosas.
| Composição espacial | O que saber |
|---|---|
| Ganhos | Menos speckle e ruído · bordas mais nítidas (mais reflexões especulares voltam) · menos anisotropia no sentido lateral · agulha íngreme mais visível |
| Custos | Menos sombra e menos reforço (o feixe inclinado passa por baixo do objeto) e sombra mais larga · cauda de cometa e ring-down mais largos e fracos · borrão de movimento |
| Parâmetros | Número de ângulos, ângulo máximo, média ou máximo, foco: efeito pequeno no fantoma do artigo |

| Efeito no artefato | Harmônica | Composição | As duas |
|---|---|---|---|
| Sombra e reforço | Aumentam | Diminuem | Depende: a composição vence em objeto pequeno e superficial |
| Speckle e ruído | Pouco efeito (o artigo conta como contraste) | Diminuem | Diminuem mais |
| Ruído de aberração e reverberação | Diminui | Pode aumentar | Diminui |
| Resolução lateral e elevacional | Melhora | Neutra | Melhora |
| Taxa de quadros e movimento | Cai | Borrão de persistência | Soma as duas perdas |











Pontos de prova: alto rendimento
| Velocidade suposta | 1540 m/s |
| Gordura | 1450 m/s, estrutura posta mais funda |
| Dermoide de 5 cm na gordura | Mede 5,25 cm |
| Resolução axial | Metade do SPL, não muda com a profundidade |
| Pior resolução | Elevacional (espessura do corte) |
| Lobo lateral | Pseudobarro na vesícula |
| Pseudobarro | Margem convexa, cai com o ganho |
| Lobos de grade | Somem se espaçamento < λ/2 |
| Reverberação | Linhas paralelas a intervalos iguais |
| Cauda de cometa | Adenomiomatose, coloide |
| Ring-down | Só gás |
| Espelho | Lesão hepática acima do diafragma |
| Duplicação | Reto abdominal como lente |
| Ambiguidade de profundidade | Baixar a PRF |
| Atenuação do osso | 20 dB/cm/MHz |
| Sombra parcial | Zona focal no cálculo |
| Sombra suja | Gás |
| Harmônica | Mais sombra e reforço, menos penetração |
| Composição | Menos sombra, menos speckle |
| Procurar sombra ou cometa | Desligar a composição |
Armadilhas e erros comuns
Erros
- Chamar de barro os ecos do lobo lateral ou da espessura do corte
- Chamar de debris a reverberação dentro do cisto
- Ler a lesão em espelho como lesão do pulmão
- Dizer que o cálculo não faz sombra com a composição ligada
- Chamar de cisto toda lesão com reforço posterior
- Medir lesão sob gordura espessa sem lembrar do erro de velocidade
- Confundir sombra de borda com sombra de cálculo
- Esperar ring-down de metal ou de cálcio
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6Sobre a resolução axial no ultrassom, é correto afirmar que:
Atrás de um foco ecogênico no hilo hepático há uma faixa contínua de bandas paralelas. O que esse artefato indica?
Paciente com subcutâneo muito espesso. Uma lesão abaixo dessa gordura tende a aparecer:
Cálculo renal pequeno sem sombra acústica com a composição espacial ligada. O ajuste que mais ajuda a mostrar a sombra é:
Ao ligar a imagem harmônica de tecido, o que se espera?
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Baad M, Lu ZF, Reiser I, Paushter D. Clinical Significance of US Artifacts. RadioGraphics 2017;37(5):1408–1423. doi:10.1148/rg.2017160175
Fahrenholtz SJ, Hamdani K, Ausmus J, et al. US Tissue Harmonic and Spatial Compound Imaging: What Are They and How Do They Change the Image? RadioGraphics 2026;46(9):e250157
Os dois artigos divergem no efeito da harmônica sobre o speckle: Baad diz que diminui; Fahrenholtz conta a melhora como contraste, não como menos speckle. Os artefatos do Doppler (twinkling, aliasing) não estão nas fontes. Os esquemas com texto em inglês foram tirados; algumas imagens de comparação do segundo artigo trazem o título em inglês gravado na imagem (sem harmônica, composição). Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.