Cadernos QRad 23 · O-RADS US
Ultrassom ginecológico · estratificação de risco

O-RADS US

Fonte: ACR O-RADS US v2022 · Radiology 2023;308(3):e230685. doi:10.1148/radiol.230685 · IOTA 2026 · Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724. doi:10.1002/uog.70191

Um léxico que vira número, e um número que vira conduta

O O-RADS (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System) US descreve a lesão anexial com termos fixos, converte a descrição num escore de 0 a 5 e amarra cada escore a uma faixa de risco de malignidade e a uma conduta. A versão v2022, publicada em novembro de 2022 e descrita no Radiology em 2023, é a que vale, e ela mexeu em pontos que caem em prova.

as três mudanças que a v2022 trouxe 1. O termo “bilocular”. Antes só havia unilocular e multilocular. O cisto de 2 lóculos com septação única, lisa e fina passou a ter nome próprio e a cair para O-RADS 2.

2. A sombra acústica entrou no escore das lesões sólidas. Lesão sólida de contorno liso com sombra e fluxo mínimo ou moderado (color score 2 a 3) desceu de 4 para 3.

3. O seguimento por US virou opção real para o O-RADS 3. Como os estudos de validação mostraram que o risco do 3 é baixo, hoje se recomenda seguir por US se não houver ressecção, em vez de mandar todo mundo para a RM.
a regra que resolve as dúvidas de leitura Quando houver incerteza na escolha do descritor (liso ou irregular, qual color score), use a categoria de maior risco para pontuar a lesão.

Isso está entre os conceitos regentes, e é a única regra genérica de desempate do sistema.
onde o O-RADS US não se aplica O sistema vale para ovários, lesões que envolvem (ou se suspeita que envolvam) ovários e/ou tubas, e cistos paraovarianos, quando a intenção é estratificar risco de malignidade.

Não se aplica a: doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica, torção de ovário normal e lesões claramente identificadas como não ovarianas e não tubárias (um mioma exofítico ou de ligamento largo, por exemplo). Se a origem é indeterminada, as opções são TC e RM.

Os nove conceitos regentes

ConceitoO que diz
1. A quem se aplicaOvários, lesões que envolvem ou podem envolver ovários e/ou tubas, e cistos paraovarianos, quando o objetivo é estratificar risco de malignidade. Não se aplica a DIP (doença inflamatória pélvica), ectópica, torção de ovário normal e lesões claramente não ovarianas nem tubárias. Origem indeterminada → TC ou RM
2. Ovário não vistoA maioria dos ovários não visualizados e todos os ausentes são “O-RADS: não aplicável”. Visualizando só um, pode-se pontuá-lo normalmente. O exame pode ser O-RADS 0 quando se esperava ver o ovário pela indicação e ele não apareceu
3. Lesões múltiplasCada lesão é caracterizada separadamente, e a conduta é guiada pela de maior escore. Devem-se dar recomendações separadas quando a conduta de uma independe da outra
4. Status menopausalPós-menopausa = amenorreia de ≥ 1 ano · precoce = menos de 5 anos · tardia = ≥ 5 anos. Incerto ou útero ausente → usar a idade > 50 anos (precoce = > 50 mas < 55; tardia = ≥ 55)
5. Especialista em USMédico cuja prática inclui foco em avaliação ultrassonográfica de lesões anexiais. Não há requisito formal; as qualificações potenciais são experiência suficiente e participação em atividades de garantia de qualidade em imagem anexial
6. TécnicaA avaliação é geralmente transvaginal. A via abdominal pode acrescentar caracterização e pode bastar quando a transvaginal não é viável. Cine-loops ortogonais são fortemente encorajados
7. MedidasO maior diâmetro único é o usado para pontuar e para conduzir. Reportar três dimensões ajuda a avaliar mudança de intervalo, para a qual se usa a dimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
8. Léxico e incertezaO léxico e a caracterização valem para a maioria das lesões, independentemente de risco ou sintomas. Na dúvida sobre a escolha do achado (liso × irregular, color score) use a categoria de maior risco
9. CondutaAs recomendações são orientação, não exigência, e valem para risco médio e sem sintomas agudos. Podem ser modificadas por risco pessoal ou familiar, mutação BRCA (breast cancer 1 e 2: genes de suscetibilidade hereditária ao câncer de mama e de ovário), sintomas e julgamento profissional, qualquer que seja o escore
Mioma exofítico simulando lesão anexial sólida, mulher de 38 anos
US: massa sólida anexial esquerda (cursores), de contorno liso e com sombra ampla (setas).
US: massa sólida anexial esquerda (cursores), de contorno liso e com sombra ampla (setas).
Doppler colorido: vasos em ponte (setas) ligando a lesão ao útero (ponta de seta): mioma subseroso exofítico. Achar os dois ovários separados ajuda a excluir or
Doppler colorido: vasos em ponte (setas) ligando a lesão ao útero (ponta de seta): mioma subseroso exofítico. Achar os dois ovários separados ajuda a excluir origem ovariana.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 2. Ver artigo
+ complemento · por que o conceito 2 existe Distinguir “não aplicável” de O-RADS 0 importa porque o 0 é uma categoria de falha técnica, e não de dúvida. A v2022 reescreveu o 0 exatamente para isso: “achados da lesão relevantes para a estratificação de risco não podem ser adequadamente caracterizados por fatores técnicos”.

Ou seja: O-RADS 0 não é para a incerteza do leitor quanto à caracterização da lesão. Para essa incerteza vale o conceito 8: subir a categoria.

As seis categorias

O-RADS CATEGORIA RISCO CONDUTA 0 Avaliação incompleta N/A repetir o US, ou RM 1 Ovário normal 0% nenhuma 2 Quase certamente benigno < 1% alta, ou seguimento por US 3 Baixo risco 1 a < 10% se não operada, US em até 6 meses 4 Risco intermediário 10 a < 50% especialista em US, RM ou onco-ginecologia 5 Alto risco ≥ 50% protocolo do onco-ginecologista
As categorias com a faixa de risco de malignidade e o eixo da conduta. O risco cresce de 1 a 5; o 0 é falha técnica e fica fora da escala.
EscoreCategoriaRisco de malignidade
0Avaliação incompleta: achados relevantes não caracterizáveis por fatores técnicosNão aplicável
1Ovário normal: sem lesão ovariana, ou cisto fisiológico, que é o folículo (cisto simples ≤ 3 cm) ou o corpo lúteo (tipicamente ≤ 3 cm)0%
2Quase certamente benigno< 1%
3Baixo risco1 a < 10%
4Risco intermediário10 a < 50%
5Alto risco≥ 50%
duas frases novas no O-RADS 1 “Sem lesão ovariana” foi acrescentado para deixar claro que o ovário normal sem nenhuma observação focal também é O-RADS 1: antes a categoria listava só folículo e corpo lúteo.

E o corpo lúteo passou a ser “tipicamente ≤ 3 cm”, enfatizando as características morfológicas sobre o tamanho. O corpo lúteo típico é um cisto de paredes espessas, com parede interna lisa ou crenada e fluxo periférico; ecos internos são opcionais, e a vascularização interna deve estar sempre ausente.
Ovário sem achado focal (O-RADS US 1)
Ovário normal, mulher de 52 anos na pós-menopausa. A v2022 incluiu 'sem lesão ovariana' no O-RADS 1.
Ovário normal, mulher de 52 anos na pós-menopausa. A v2022 incluiu 'sem lesão ovariana' no O-RADS 1.
Ovário normal, mulher de 60 anos na pós-menopausa: alguns focos ecogênicos puntiformes sem sombra (seta), provável sequela de hemorragia ovulatória, que ajudam
Ovário normal, mulher de 60 anos na pós-menopausa: alguns focos ecogênicos puntiformes sem sombra (seta), provável sequela de hemorragia ovulatória, que ajudam a achar o ovário pequeno da pós-menopausa.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 4. Ver artigo
Corpo lúteo típico
Cisto de parede espessa com paredes internas lisas e ecos internos de sangue (seta).
Cisto de parede espessa com paredes internas lisas e ecos internos de sangue (seta).
Parede interna crenada (setas pontilhadas).
Parede interna crenada (setas pontilhadas).
Aspecto 'sólido' (pontas de seta): as paredes espessas se encostam e o líquido central não aparece.
Aspecto 'sólido' (pontas de seta): as paredes espessas se encostam e o líquido central não aparece.
Doppler colorido do primeiro: fluxo periférico.
Doppler colorido do primeiro: fluxo periférico.
Doppler colorido do segundo: fluxo periférico (setas pontilhadas).
Doppler colorido do segundo: fluxo periférico (setas pontilhadas).
Doppler colorido do 'sólido': o fluxo periférico confirma; fluxo interno nunca deve existir.
Doppler colorido do 'sólido': o fluxo periférico confirma; fluxo interno nunca deve existir.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 5. Ver artigo
as condutas do O-RADS 2, por tamanho Cisto simples: ≤ 3 cm: nenhuma conduta na pré-menopausa (é folículo) e nenhuma na pós · > 3 a 5 cm: nenhuma na pré, US em 12 meses na pós · > 5 e < 10 cm: US em 12 meses nas duas.

Unilocular liso não simples (ecos internos e/ou septações incompletas) e cisto bilocular liso: ≤ 3 cm: nenhuma na pré, US em 12 meses na pós · > 3 e < 10 cm: US em 6 meses nas duas.

O seguimento é limitado a 24 meses; depois, conforme indicação clínica.
o que fazer com o resultado do seguimento Menor: queda de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média → encerra a vigilância.
Estável → US aos 24 meses do exame inicial.
Maior: aumento de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média → US aos 12 e 24 meses do exame inicial, depois conduta pela ginecologia.
Morfologia mudou → reavaliar com os descritores do léxico, do zero.

Cistos sem componente sólido

CISTO SEM COMPONENTE SÓLIDO O-RADS Unilocular 1 lóculo liso, < 10 cm: simples ou não simples 2 liso, ≥ 10 cm 3 irregular, qualquer tamanho 3 Bilocular 2 lóculos liso, < 10 cm 2 liso, ≥ 10 cm 3 irregular, qualquer tamanho 4 Multilocular ≥ 3 lóculos liso, < 10 cm, CS 1 a 3 3 liso, ≥ 10 cm, CS 1 a 3 4 liso, qualquer tamanho, CS 4 4 irregular, qualquer tamanho 4 Parede irregular, num cisto, é irregularidade de parede ou septo com menos de 3 mm de altura.
Os cistos sem componente sólido. Quatro variáveis decidem: número de lóculos, parede lisa ou irregular, tamanho e color score.
o vocabulário exato Unilocular: 1 lóculo, sem septação completa.
Bilocular: 2 lóculos, ou seja, uma septação completa, com ou sem ecos internos.
Multilocular: ≥ 3 lóculos, ou seja, duas ou mais septações completas.

Septações incompletas não contam para a locularidade.

Liso e irregular, nos cistos, referem-se às paredes internas e septações, e irregularidade de parede, num cisto, é a que tem menos de 3 mm de altura. A partir de 3 mm, aquilo é componente sólido.
por que o bilocular nasceu Na versão original, o cisto de septação única era multilocular e caía em O-RADS 3 (1 a < 10%). Os dados de 2 anos do estudo IOTA (International Ovarian Tumor Analysis) 5 mostraram que cistos multiloculares < 10 cm, de parede interna lisa e fluxo menor que muito intenso, tinham risco diferente conforme o número de lóculos: 2,3% com mais de dois lóculos, mas apenas 0,7% com septação única.

0,7% cai dentro da faixa do O-RADS 2 (< 1%): daí o rebaixamento. E o glossário registra a consequência: cistos biloculares lisos têm risco menor, independentemente do tamanho ou do color score.

O alinhamento com o Consenso da SRU (Society of Radiologists in Ultrasound) sobre cistos anexiais foi a outra motivação: lá, o cisto com uma septação fina única (que pode representar dois cistos simples adjacentes) é conduzido como um cisto simples unilocular.
+ complemento · o color score, adotado da IOTA 1 = sem fluxo · 2 = fluxo mínimo · 3 = fluxo moderado · 4 = fluxo muito intenso.

É uma avaliação subjetiva da vascularização intralesional ao Doppler colorido.

Componente sólido e lesão sólida

COM COMPONENTE SÓLIDO, E LESÃO SÓLIDA O-RADS Cisto com componente sólido unilocular, < 4 projeções papilares 4 unilocular, ≥ 4 projeções papilares 5 bi ou multilocular, CS 1 a 2 4 bi ou multilocular, CS 3 a 4 5 Lesão sólida ≥ 80% sólida contorno liso, CS 1, com ou sem sombra 3 contorno liso, com sombra, CS 2 a 3 3 contorno liso, sem sombra, CS 2 a 3 4 contorno liso, CS 4, com ou sem sombra 5 contorno irregular, qualquer tamanho e CS 5 Ascite e/ou nódulos peritoneais 5 Componente sólido: protrui ≥ 3 mm da parede ou do septo. Projeção papilar: componente sólido cercado por líquido em três lados. CS 1 sem fluxo · 2 mínimo · 3 moderado · 4 muito intenso.
Cistos com componente sólido e lesões sólidas. Na lesão sólida, o contorno externo decide primeiro: irregular é sempre 5. Ascite ou nódulos peritoneais levam a 5 as lesões O-RADS 3 e 4; nas O-RADS 1 e 2, procure outra causa.
as três definições que a prova cobra Lesão sólida: ≥ 80% sólida. Exclui produtos de sangue e conteúdo de dermoide.
Componente sólido: protrui ≥ 3 mm em altura da parede ou da septação para dentro do lúmen.
Projeção papilar (pp): subtipo de componente sólido, cercado por líquido em três lados.

Nas lesões sólidas, liso e irregular referem-se ao contorno externo, e não às paredes internas, como nos cistos.
a sombra acústica, a novidade da v2022 Na versão original, a sombra não era um achado do algoritmo para lesões sólidas, o que inflava o escore de lesões sólidas benignas e podia levar a cirurgia desnecessária.

Os dados do IOTA 5 mostraram que lesão sólida de contorno liso com sombra acústica tinha risco < 10% quando a vascularização interna era qualquer coisa menor que muito intensa (CS (color score: grau de vascularização ao Doppler colorido) < 4). Por isso, sólidas lisas com sombra e CS 2 ou 3 hoje são O-RADS 3, onde antes eram 4.

Duas ressalvas. A sombra precisa ser difusa ou ampla para qualificar, para não confundir com artefato de refração, que aparece tipicamente na borda da lesão. E a sombra não muda nada quando o contorno externo é irregular: irregular é sempre O-RADS 5.
os dois erros de contagem 1. Contar como componente sólido o que não é tecido: coágulo retrátil de cisto hemorrágico e conteúdo de dermoide são excluídos por definição.

2. Errar o corte de 4 projeções papilares. Cisto unilocular com < 4 pps é 4; com ≥ 4 pps é 5. E o cisto unilocular com componente sólido que não é considerado projeção papilar também é 4, em qualquer tamanho e color score.
+ complemento · quando a RM entra Para lesões sólidas O-RADS 3 e para todas as O-RADS 4 e 5, a v2022 enfatiza a RM como avaliação suplementar, porque a RM com contraste tem especificidade maior para lesões sólidas e para lesões císticas com componente sólido.

Quando a RM for feita nesses casos, recomenda-se fortemente usar o protocolo O-RADS RM e dar o escore correspondente.

Já para as císticas de baixo risco sem componente sólido, a v2022 preferiu o seguimento por US: pela disponibilidade limitada e pelo valor agregado pequeno da RM nesse cenário.

As lesões classicamente benignas

a regra de entrada, e a de saída Lesões ovarianas classicamente benignas < 10 cm e todas as extraovarianas são O-RADS 2. As ovarianas ≥ 10 cm são O-RADS 3.

E a regra de saída foi reforçada na v2022. Diante de qualquer achado atípico, no exame inicial ou no seguimento, abandone o rótulo e use os descritores gerais do léxico: unilocular, multilocular, sólida.
LesãoAparência típicaConduta
Cisto hemorrágicoCisto unilocular, sem vascularização interna, e ao menos um de: padrão reticular (linhas finas que se cruzam, representando fibrina) · coágulo retrátil (componente intracístico de margens retas, côncavas ou angulares)Pré: ≤ 5 cm nada · > 5 e < 10 cm US em 2 a 3 meses
Pós precoce (< 5 anos): < 10 cm: confirmar com US em 2 a 3 meses, especialista em US ou RM
Pós tardia (≥ 5 anos): não deve ocorrer; recategorizar
Cisto dermoideLesão cística com ≤ 3 lóculos, sem vascularização interna, e ao menos um de: componente hiperecoico (difuso ou regional) com sombra · linhas e pontos hiperecoicos · estruturas esféricas ecogênicas flutuantes≤ 3 cm: US em 12 meses é opcional
> 3 e < 10 cm: se não ressecado, US em 12 meses
Não depende do status menopausal
EndometriomaLesão cística com ≤ 3 lóculos, sem vascularização interna, ecos homogêneos de baixo nível ou em vidro fosco, e paredes/septações internas lisas · ± focos ecogênicos puntiformes periféricos na paredePré: < 10 cm: se não ressecado, US em 12 meses
Pós, primeira detecção: confirmar com US em 2 a 3 meses, especialista ou RM; depois, se não ressecado, US em 12 meses
Cisto paraovarianoCisto simples separado do ovárioImagem: nenhuma
Cisto de inclusão peritonealColeção líquida com o ovário na margem ou suspenso dentro dela, que se conforma aos órgãos pélvicos adjacentes · ± septações (aderências)Imagem: nenhuma
HidrossalpingeEstrutura tubular preenchida por líquido anecoico · ± septações incompletas (pregas) · ± pregas endossalpingeanas (projeções curtas e arredondadas nas paredes internas)Imagem: nenhuma
Cisto hemorrágico típico
Doppler colorido: cisto unilocular sem fluxo interno, com fluxo na parede (pontas de seta) e padrão reticular de linhas finas que se cruzam.
Doppler colorido: cisto unilocular sem fluxo interno, com fluxo na parede (pontas de seta) e padrão reticular de linhas finas que se cruzam.
Doppler colorido: coágulo retrátil (seta), tecido avascular de margens angulares ou retas. Sangue não é componente sólido.
Doppler colorido: coágulo retrátil (seta), tecido avascular de margens angulares ou retas. Sangue não é componente sólido.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 8. Ver artigo
Endometrioma típico com fluxo na parede e nos septos
Doppler colorido: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e foco ecogênico puntiforme periférico (seta pontilhada), sem fluxo interno; fluxo e
Doppler colorido: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e foco ecogênico puntiforme periférico (seta pontilhada), sem fluxo interno; fluxo em volta (setas).
Endometrioma multilocular: fluxo também nos septos (pontas de seta), que podem ser parênquima ovariano entre os lóculos.
Endometrioma multilocular: fluxo também nos septos (pontas de seta), que podem ser parênquima ovariano entre os lóculos.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 9. Ver artigo
Endometrioma típico com focos ecogênicos periféricos
US: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e focos ecogênicos puntiformes periféricos (setas).
US: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e focos ecogênicos puntiformes periféricos (setas).
Outro endometrioma, com alguns ecos grosseiros: os focos ecogênicos periféricos (setas) têm alta especificidade.
Outro endometrioma, com alguns ecos grosseiros: os focos ecogênicos periféricos (setas) têm alta especificidade.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 11. Ver artigo
Cisto dermoide típico, com componente hiperecogênico e sombra
US: componente hiperecogênico regional (setas) com sombra (setas pontilhadas) e linhas e pontos hiperecogênicos, o cabelo enrolado (ponta de seta).
US: componente hiperecogênico regional (setas) com sombra (setas pontilhadas) e linhas e pontos hiperecogênicos, o cabelo enrolado (ponta de seta).
US: componente hiperecogênico difuso (setas) com sombra (setas pontilhadas), sem líquido aparente. O conteúdo do dermoide não conta como componente sólido.
US: componente hiperecogênico difuso (setas) com sombra (setas pontilhadas), sem líquido aparente. O conteúdo do dermoide não conta como componente sólido.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 10. Ver artigo
Hidrossalpinge típica
US longitudinal: estrutura tubular anecoica com septação incompleta, uma prega (seta).
US longitudinal: estrutura tubular anecoica com septação incompleta, uma prega (seta).
US transversal: pregas endossalpingeas, pequenas projeções arredondadas na margem interna (pontas de seta), que separam a hidrossalpinge de um cisto septado com
US transversal: pregas endossalpingeas, pequenas projeções arredondadas na margem interna (pontas de seta), que separam a hidrossalpinge de um cisto septado com parede irregular.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 12. Ver artigo
o que a v2022 acrescentou a cada uma Hemorrágico: passou a exigir unilocular e sem vascularização interna. O padrão reticular não deve ser confundido com septações, e fluxo periférico é permitido, porque muitos cistos hemorrágicos vêm de um corpo lúteo, onde o fluxo periférico é comum.

Dermoide e endometrioma: passaram a exigir ≤ 3 lóculos e sem vascularização interna. Acima de três lóculos, o risco observado é maior. E “sem vascularização interna” exclui o fluxo nas paredes e nas septações intervenientes, que pode ser parênquima ovariano entre lesões adjacentes.

Dermoide: entrou “componente hiperecoico (difuso ou regional)”, porque a lesão inteira pode ser hiperecoica, sem líquido reconhecível ao redor.

Endometrioma: os focos ecogênicos puntiformes periféricos (depósitos de colesterol) entraram como achado opcional (incomuns, porém específicos).

Hidrossalpinge: “anecoico” entrou para separá-la da hematossalpinge, que no O-RADS RM se associa a carcinoma intraepitelial tubário seroso na ausência de outra causa.
as duas exceções que dependem da menopausa Cisto hemorrágico na pós-menopausa tardia (≥ 5 anos) não deve ocorrer: se você o vê, recategorize com os outros descritores.

Endometrioma detectado pela primeira vez após a menopausa é incomum, sobrepõe-se a neoplasia, e há incidência aumentada de malignidade associada à endometriose depois da menopausa. Por isso a exigência de confirmação.

O dermoide, ao contrário, deixou de depender do status menopausal na v2022.
o rodapé sobre o seguimento das benignas O documento é honesto: há escassez de evidência para definir necessidade, duração ou intervalo ótimo de vigilância. Se estável, considerar US aos 24 meses do exame inicial e depois conforme a clínica.

E acrescenta o que a evidência de fato sustenta: risco aumentado de malignidade em endometriomas após a menopausa e nos presentes há mais de 10 anos.

Quando os achados são apenas sugestivos e a avaliação global é incerta, recomenda-se US em até 3 meses.

A atualização IOTA de 2026

há dois caminhos para chegar ao O-RADS Caminho ACR (American College of Radiology): o léxico e a tabela de categorias do O-RADS US v2022, descritos acima.
Caminho IOTA: os descritores benignos e, se nenhum se aplicar, o modelo ADNEX (Assessment of Different NEoplasias in the adneXa), que calcula um risco e o converte na categoria.

No caminho IOTA, ovário normal ou achado funcional é O-RADS 1; lesão a que se aplica um descritor benigno é O-RADS 2; sem descritor benigno, roda-se o ADNEX e a categoria sai do risco calculado: < 1% = 2, 1 a < 10% = 3, 10 a < 50% = 4, ≥ 50% = 5. As faixas são as mesmas.
Descritor benigno IOTADefinição
BD1 (descritor benigno 1)Cisto unilocular com ecogenicidade em vidro fosco e maior diâmetro < 10 cm, em mulher pré-menopausa (diagnóstico presumido: endometrioma)
BD2Cisto unilocular com ecogenicidade mista e sombra acústica, maior diâmetro < 10 cm, em mulher pré-menopausa (diagnóstico presumido: dermoide)
BD3Cisto unilocular de paredes regulares, conteúdo anecoico e maior diâmetro < 10 cm (diagnóstico presumido: cisto simples ou cistadenoma)
BD4Todos os demais cistos uniloculares de paredes regulares e maior diâmetro < 10 cm (classificados como benignos)
Variável do ADNEXValor
Maior diâmetro da lesãoem mm
Maior diâmetro do maior componente sólidoem mm
Mais de 10 lóculos?sim ou não
Número de projeções papilares0, 1, 2, 3 ou ≥ 4
Sombra acústica presente?sim ou não
Ascite presente?sim ou não
Tipo de centro (preditor não ultrassonográfico)oncológico ou outro
Idade (preditor clínico do modelo original)em anos
CA-125 (antígeno de câncer 125, preditor clínico, opcional)em U/mL
as definições que a IOTA atualizou em 2026 Componente sólido: precisa ter ao menos um diâmetro ≥ 3 mm. Tecido sólido sem nenhum diâmetro de 3 mm não é componente sólido. Atenção: no ACR a régua é a altura (protrusão ≥ 3 mm da parede ou do septo); no IOTA, qualquer diâmetro.

Projeção papilar: componente sólido que protrui para a cavidade do cisto com altura ≥ 3 mm. Se a protrusão tem altura < 3 mm mas a base mede ≥ 3 mm, ela é componente sólido, mas não é projeção papilar.

Tumor sólido irregular: ângulos agudos (< 90°), lobulações ou margens espiculadas no contorno externo. E também é irregular o tumor sólido que contém cistos com irregularidade na parede interna, mesmo que o contorno externo seja liso.

Color score: vale a regra do pior cenário, e usa-se o maior grau de vascularização observado no tumor. Um componente sólido muito vascularizado dá CS 4, ainda que a parede e os septos tenham pouco fluxo.

Sombra acústica: a sombra de borda é artefato e não se reporta como sombra acústica, porque não nasce de dentro da lesão. Atenuação que causa queda gradual do sinal, sem área de perda bem definida, também não é sombra.
A 'bola branca' do dermoide (IOTA)
Desenho da bola branca, cabelo e sebo, que não conta como componente sólido.
Desenho da bola branca, cabelo e sebo, que não conta como componente sólido.
US em escala de cinza e power Doppler: a bola branca, avascular, com sombra.
US em escala de cinza e power Doppler: a bola branca, avascular, com sombra.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 2. CC BY 4.0. Ver artigo
Lama na parede interna do cisto (IOTA)
Desenho da lama aderida à parede interna de um endometrioma.
Desenho da lama aderida à parede interna de um endometrioma.
US em escala de cinza e power Doppler: a lama (contorno pontilhado), sem vascularização.
US em escala de cinza e power Doppler: a lama (contorno pontilhado), sem vascularização.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 3. CC BY 4.0. Ver artigo
como contar projeções papilares: a régua dos 50% Para separar uma projeção com vários picos de várias projeções: para cada par de picos vizinhos e o vale entre eles, medem-se, a partir da mesma linha de base e perpendicular à parede ou ao septo, a altura de cada pico e a altura do fundo do vale.

Se o fundo do vale tem ≥ 50% da altura do menor dos dois picos → conta como uma projeção.
Se tem < 50% → contam como duas.

Repete-se para cada par de picos adjacentes.
Contar projeções papilares: a regra x/y (IOTA)
Em cima, x/y ≥ 50%: os dois picos são uma só projeção papilar. Embaixo, x/y < 50%: são projeções separadas, e aqui há três (1 a 3). x é a altura do fundo do
Em cima, x/y ≥ 50%: os dois picos são uma só projeção papilar. Embaixo, x/y < 50%: são projeções separadas, e aqui há três (1 a 3). x é a altura do fundo do vale entre dois picos; y é a altura do pico mais baixo, da mesma base.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 17. CC BY 4.0. Ver artigo
as armadilhas de classificação da IOTA Septação incompleta não faz multilocular: Cisto só com septos incompletos e sem componente sólido é unilocular, mesmo que pareça multilocular em alguns planos.

Coágulo e muco não são tecido sólido: A área hiper-refletiva e avascular do dermoide (a “bola branca” de pelo e sebo) não é componente sólido. Nem a lama (sludge) das paredes do endometrioma. Paredes, septos (mesmo espessos) e estroma ovariano normal também não.

Sinal de Doppler dentro de uma estrutura confirma que ela é tecido sólido, exceto septos, septos incompletos e estroma normal. A ausência de sinal não exclui tecido sólido: na dúvida, classifique como componente sólido.

Cisto dentro de tumor sólido não se conta: Uma vez que a massa é sólida (≥ 80% de tecido sólido), o número de lóculos não é contado, e no ADNEX a resposta a “mais de 10 lóculos?” é sempre não.
+ complemento · o coágulo × o tecido sólido, à beira do aparelho O consenso dá manobras práticas. O coágulo costuma ter contorno côncavo, nunca tem vascularização interna, e tem consistência gelatinosa: deforma-se sob pressão suave do transdutor, enquanto o tecido sólido permanece firme. Coágulos e grumos de muco podem até se afastar da parede quando a lesão é empurrada pelo transdutor.

O que mudou da versão original

OndeMudança
O-RADS 0Redigido como “achados relevantes não caracterizáveis por fatores técnicos”: enfatiza que não é para a incerteza do leitor. Conduta passou a “repetir o US ou RM”
O-RADS 1Ganhou “sem lesão ovariana”. Corpo lúteo passou a “tipicamente ≤ 3 cm”
LocularidadeNasceu o bilocular (2 lóculos). Multilocular foi redefinido como ≥ 3 lóculos
Lesões sólidasA sombra (difusa ou ampla) entrou como achado, relevante para o contorno liso · é preciso diferenciar do artefato de refração
Benignas clássicasReforçado: qualquer achado atípico, no exame inicial ou no seguimento, obriga a usar os outros descritores
HemorrágicoUnilocular, sem vascularização interna · pode ter fluxo periférico
Dermoide≤ 3 lóculos, sem vascularização interna · componente hiperecoico difuso ou regional
Endometrioma≤ 3 lóculos, sem vascularização interna · ± focos ecogênicos puntiformes periféricos
HidrossalpingeAnecoica · septações incompletas e pregas endossalpingeanas viraram achados opcionais
MenopausaDefinidas precoce e tardia, e usadas na conduta
Medida de mudançaDimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
Seguimento do 2Menos seguimento para cistos simples · limitado a 24 meses
O-RADS 3“Se não ressecada cirurgicamente, considerar US em até 6 meses” · a RM permanece opção para as lesões sólidas
O-RADS 4Nova opção de imagem: “conforme protocolo do onco-ginecologista”
O-RADS 5“Imagem: conforme protocolo do onco-ginecologista”
por que a atualização foi feita agora Dois fatos externos pesaram. Em 2021, o CMS (Centers for Medicare & Medicaid Services) americano aprovou o esquema de conduta do O-RADS US como ferramenta de garantia de qualidade, o que aumentou o interesse em incorporar o O-RADS a todos os laudos de US pélvico. E, em 2022, o grupo IOTA publicou os dados interinos de 2 anos do IOTA 5, com risco menor em algumas lesões sólidas lisas com sombra e nos cistos lisos de septação única, o que deu suporte estatístico à atualização. Os estudos de validação já mostravam boa concordância interobservador, inclusive entre usuários de níveis diferentes de experiência.

A isso somaram-se áreas de discrepância com o Consenso da SRU sobre cistos anexiais e com o O-RADS RM, que a v2022 procurou alinhar.
a mensagem estrutural da v2022 Ela melhora a especificidade de algumas lesões de baixo risco (bilocular, sólida lisa com sombra) e fortalece as recomendações de conduta, aproximando-as dos estudos de validação e dos protocolos clínicos.

E firma o O-RADS US 4 como o corte apropriado para malignidade: por isso o 3 passou a ser seguido, e não investigado.

Pontos de prova: alto rendimento

Escala de risco1 = 0% · 2 = < 1% · 3 = 1 a < 10% · 4 = 10 a < 50% · 5 = ≥ 50%
O-RADS 0Falha técnica: não é a incerteza do leitor
Ovário não visualizado ou ausente“O-RADS: não aplicável”
Bilocular2 lóculos · liso e < 10 cm é O-RADS 2
Multilocular≥ 3 lóculos: mudou na v2022
Septação incompletaNão conta para a locularidade
Irregularidade de parede num cisto< 3 mm de altura: a partir de 3 mm é componente sólido
Lesão sólida≥ 80% sólida · exclui sangue e conteúdo de dermoide
Componente sólidoProtrui ≥ 3 mm em altura
Projeção papilarComponente sólido cercado por líquido em três lados
Corte das projeções papilaresUnilocular com < 4 pps é 4; com ≥ 4 é 5
Color score1 sem fluxo · 2 mínimo · 3 moderado · 4 muito intenso
Sólida lisa com sombra, CS 2–3O-RADS 3: era 4 antes da v2022
Sólida de contorno irregularO-RADS 5, sempre
Ascite e/ou nódulos peritoneaisO-RADS 5, se não houver outra causa · com lesão O-RADS 1 ou 2, buscar outra causa
Liso × irregularParedes internas nos cistos · contorno externo nas sólidas
Na dúvidaSuba para a categoria de maior risco
Medida para pontuarMaior diâmetro único
Medida para compararDimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
Mudança relevante no seguimento≥ 10 a 15% na dimensão linear média
Pós-menopausaAmenorreia ≥ 1 ano · precoce < 5 anos · tardia ≥ 5 anos
Se incerto ou sem úteroIdade > 50 anos · tardia a partir de 55
Benignas ovarianas< 10 cm são 2 · ≥ 10 cm são 3
Benignas extraovarianasSempre 2, em qualquer tamanho
Dermoide e endometrioma típicos≤ 3 lóculos e sem vascularização interna
Cisto hemorrágico típicoUnilocular, sem fluxo interno · reticular ou coágulo retrátil
Hemorrágico na pós tardiaNão deve ocorrer: recategorizar
Achado atípico numa benigna clássicaAbandone o rótulo e use os descritores gerais
Seguimento máximo do O-RADS 224 meses
Seguimento do O-RADS 3Se não ressecada, US em até 6 meses
IOTA: descritores benignosBD1 vidro fosco · BD2 misto com sombra · BD3 anecoico · BD4 demais uniloculares regulares · todos < 10 cm
IOTA: variáveis do ADNEXSeis ultrassonográficas: diâmetro, maior componente sólido, > 10 lóculos, número de pps, sombra, ascite · o tipo de centro · e, no modelo original, idade e CA-125 (opcional)
IOTA 2026: componente sólidoAo menos um diâmetro ≥ 3 mm (no ACR, altura ≥ 3 mm)
IOTA 2026: color scoreRegra do pior cenário: vale o maior grau observado
IOTA 2026: contar ppsVale do vale ≥ 50% do menor pico → uma projeção

Armadilhas e erros comuns

Erros de descritor

  • Contar septação incompleta como lóculo
  • Chamar de multilocular o cisto de 2 lóculos: desde a v2022 é bilocular
  • Contar coágulo retrátil ou conteúdo de dermoide como componente sólido
  • Aplicar liso × irregular à parede interna de uma lesão sólida: ali vale o contorno externo
  • Ler artefato de refração de borda como sombra acústica
  • Chamar de projeção papilar o componente sólido que não está cercado por líquido em três lados

Erros de escore

  • Usar O-RADS 0 para a própria incerteza: o 0 é técnico
  • Escolher a categoria menor quando o achado é duvidoso: a regra é subir
  • Deixar de aplicar o corte de 10 cm às benignas clássicas ovarianas
  • Esquecer que sólida irregular é 5, tenha ou não sombra
  • Pontuar uma lesão claramente não ovariana e não tubária: mioma exofítico não entra
  • Conduzir pela lesão errada em doença bilateral: vale a de maior escore

Erros de conduta

  • Mandar todo O-RADS 3 para RM: hoje o seguimento por US é a via preferida nas císticas
  • Usar o maior diâmetro para julgar crescimento: para isso vale a dimensão linear média
  • Seguir um O-RADS 2 além de 24 meses sem indicação clínica
  • Aceitar cisto hemorrágico na pós-menopausa tardia
  • Tratar endometrioma novo na pós-menopausa como achado banal
  • Fazer RM sem usar o protocolo e o escore O-RADS RM

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Mulher de 34 anos. US transvaginal mostra cisto ovariano de 6 cm com uma única septação completa, fina e lisa, paredes internas lisas, sem componente sólido e sem fluxo interno. Qual o escore O-RADS US v2022 e a conduta?

Esta é a mudança que a v2022 trouxe e que mais cai em prova. Uma septação completa única, fina e lisa faz um cisto de 2 lóculos, e 2 lóculos agora têm nome próprio: bilocular. Multilocular foi redefinido como ≥ 3 lóculos.

Na versão original, este cisto era multilocular e caía em O-RADS 3. Os dados de 2 anos do IOTA 5 mostraram que, entre cistos lisos < 10 cm com fluxo menor que muito intenso, os de mais de dois lóculos tinham 2,3% de risco, mas os de septação única tinham 0,7%: dentro da faixa do O-RADS 2 (< 1%). Daí o rebaixamento.

A conduta vem da tabela de categorias: cisto unilocular liso não simples ou bilocular liso de > 3 e < 10 cm → US em 6 meses, tanto na pré quanto na pós-menopausa. Fosse ≤ 3 cm, seria nenhuma conduta na pré e US em 12 meses na pós.

Se este mesmo cisto tivesse ≥ 10 cm, subiria para O-RADS 3. E se a parede interna fosse irregular, o bilocular iria para O-RADS 4: a irregularidade custa mais no bilocular do que no unilocular, que com parede irregular fica em 3.
↑revisar esta parte do caderno · Cistos sem componente sólido
Questão 2

Lesão anexial sólida de 5 cm, contorno externo liso, com sombra acústica difusa emanando de dentro da lesão, e fluxo mínimo ao Doppler colorido (color score 2). Qual o escore?

A sombra acústica entrou no algoritmo das lesões sólidas na v2022, e é a segunda grande mudança da versão.

Na versão original, a sombra não era achado do algoritmo para lesões sólidas, o que inflava o escore de sólidas benignas, tipicamente fibromatosas, e podia levar a cirurgia desnecessária. Os dados do IOTA 5 mostraram que a sólida de contorno liso com sombra tinha risco < 10% desde que a vascularização interna fosse qualquer coisa menor que muito intensa, isto é, CS < 4. Por isso ela desceu de 4 para 3.

A linha vizinha da tabela é o contraste que fixa a regra: a sólida lisa sem sombra, com CS 2 a 3, continua sendo O-RADS 4. E a sólida lisa com CS 1 é 3 tenha sombra ou não.

Duas ressalvas do texto. A sombra precisa ser difusa ou ampla para qualificar, justamente para não se confundir com o artefato de refração, que costuma aparecer na borda da lesão, onde o som atravessa tecidos de impedância diferente. E a sombra não muda nada se o contorno externo for irregular: contorno irregular é sempre O-RADS 5, em qualquer tamanho e qualquer color score.

Lembrando a definição: lesão sólida é a que tem ≥ 80% de tecido sólido, excluídos produtos de sangue e conteúdo de dermoide.
↑revisar esta parte do caderno · Componente sólido e lesão sólida
Questão 3

Mulher de 63 anos, menopausada há 8 anos. US mostra cisto ovariano unilocular de 4 cm com padrão reticular de linhas finas que se cruzam e sem vascularização interna: o aspecto clássico de cisto hemorrágico. Como proceder?

A tabela de Lesões Classicamente Benignas é explícita: na pós-menopausa tardia (5 anos ou mais), o cisto hemorrágico não deve ocorrer, e a lesão deve ser recategorizada usando os outros descritores do léxico.

A lógica é fisiológica: muitos cistos hemorrágicos vêm de um corpo lúteo, e sem ovulação não há corpo lúteo. O que parece coágulo pode ser componente sólido, e aí a lesão é outra coisa, com outro escore.

Os três regimes, para fixar:

Pré-menopausa: ≤ 5 cm nenhuma conduta; > 5 e < 10 cm, US em 2 a 3 meses.
Pós-menopausa precoce (< 5 anos): < 10 cm, confirmar por uma de três opções: US em 2 a 3 meses, reavaliação por especialista em US, ou RM com escore O-RADS RM.
Pós-menopausa tardia (≥ 5 anos): não deve ocorrer.

Vale lembrar como se define a menopausa aqui: amenorreia de ≥ 1 ano; precoce é menos de 5 anos e tardia é 5 anos ou mais. Se o status for incerto ou o útero tiver sido removido, usa-se a idade > 50 anos, com tardia a partir dos 55.

E a regra geral que a v2022 reforçou vale para todas as seis lesões clássicas: diante de qualquer achado atípico, no exame inicial ou no seguimento, abandone o rótulo e use os descritores gerais.
↑revisar esta parte do caderno · As lesões classicamente benignas
Questão 4

Você acompanha um cisto O-RADS 2. No exame inicial media 52 × 44 × 40 mm; hoje mede 60 × 48 × 45 mm. Qual medida o O-RADS US v2022 manda usar para julgar se houve mudança, e por quê?

O sétimo conceito regente separa duas medidas com finalidades diferentes, e a prova gosta exatamente dessa separação:

Para pontuar e para conduzir → o maior diâmetro único da lesão.
Para avaliar mudança de intervalo → a dimensão linear média, (C + L + A) ÷ 3.

Reportar as três dimensões é justamente o que permite calcular a média e comparar exames seriados. Nos números do enunciado: (52+44+40)/3 = 45,3 mm contra (60+48+45)/3 = 51 mm, um aumento de cerca de 12,5%.

E o corte importa: mudança de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média é o que conta. Diminuindo nessa magnitude, encerra-se a vigilância. Estável, faz-se US aos 24 meses do exame inicial. Aumentando, consideram-se US aos 12 e 24 meses do inicial, e depois conduta pela ginecologia. Se a morfologia mudar, reavalia-se do zero com os descritores do léxico.

O volume pelo elipsoide existe, mas não é o que o O-RADS US pede.
↑revisar esta parte do caderno · Os nove conceitos regentes
Questão 5

Cisto ovariano de 7 cm com quatro lóculos, paredes e septações internas lisas, sem componente sólido, mas com fluxo muito intenso ao Doppler colorido (color score 4). Qual o escore?

No cisto multilocular sem componente sólido, três variáveis decidem: parede, tamanho e color score.

Liso, < 10 cm, CS 1 a 3 → O-RADS 3.
Liso, ≥ 10 cm, CS 1 a 3 → 4.
Liso, qualquer tamanho, CS 4 → 4.
Irregular, qualquer tamanho → 4.

Aqui a parede é lisa e o tamanho é < 10 cm, o que sozinho daria 3, mas o color score 4 sobe a lesão para O-RADS 4, e ele faz isso independentemente do tamanho.

Note que o multilocular é a única família de cistos sem componente sólido em que o color score entra na conta. No unilocular e no bilocular o fluxo não pontua: o que decide é parede e tamanho. É por isso que o glossário registra que cistos biloculares lisos têm risco menor, independentemente do tamanho ou do color score.

Quatro lóculos, aqui, é multilocular: a partir de 3 lóculos, ou seja, com duas ou mais septações completas. Septações incompletas não contariam.

Para chegar a 5 seria preciso componente sólido com CS 3 ou 4, ou ascite e/ou nódulos peritoneais. Fluxo intenso, sozinho, não leva um cisto sem componente sólido ao alto risco.
↑revisar esta parte do caderno · Cistos sem componente sólido
Questão 6

Cisto unilocular com uma protrusão de tecido sólido a partir da parede interna. A protrusão tem 2 mm de altura, mas sua base mede 4 mm. Pelo consenso IOTA de 2026, como classificá-la?

O consenso IOTA de 2026 separou dois conceitos que costumavam andar juntos, e as duas definições atualizadas são complementares:

Componente sólido: precisa ter ao menos um diâmetro ≥ 3 mm. Aqui a base mede 4 mm, então é componente sólido.
Projeção papilar: é um componente sólido que protrui para a cavidade do cisto com altura ≥ 3 mm. Aqui a altura é 2 mm, então não é projeção papilar.

O texto descreve exatamente este caso: se uma protrusão de tecido sólido com altura < 3 mm tiver qualquer diâmetro de 3 mm ou mais (isto é, base de 3 mm ou mais), ela é componente sólido, mas não projeção papilar.

A distinção não é acadêmica: o ADNEX tem como variável o número de projeções papilares (0, 1, 2, 3 ou ≥ 4), e contar esta como papilar mudaria o risco calculado. Ela entra na conta, sim, mas como maior diâmetro do maior componente sólido, que é outra variável do modelo.

Sobre o Doppler: sinal colorido dentro de uma estrutura confirma que ela é tecido sólido, exceto septos, septos incompletos e estroma ovariano normal. Mas a ausência de sinal não exclui tecido sólido, porque pode ser problema técnico; na dúvida, o consenso manda classificar como componente sólido.

No léxico do ACR, a régua do componente sólido é outra: protrusão de ≥ 3 mm em altura, e a irregularidade de parede de um cisto é a que tem menos de 3 mm de altura. Por esse léxico, esta protrusão de 2 mm contaria como irregularidade de parede, e não como componente sólido. A projeção papilar do ACR é o componente sólido cercado por líquido em três lados.
↑revisar esta parte do caderno · A atualização IOTA de 2026
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Fonte: Strachowski LM, Jha P, Phillips CH, et al. O-RADS US v2022: An Update from the American College of Radiology's Ovarian-Adnexal Reporting and Data System US Committee. Radiology. 2023;308(3):e230685. doi:10.1148/radiol.230685; inclui as tabelas oficiais do ACR com data de lançamento de novembro de 2022.

Atualização de terminologia: Timmerman D, Valentin L, Testa AC, et al. Terms, definitions and measurements to describe the sonographic features of adnexal tumors: updated consensus opinion from the International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) Group. Ultrasound Obstet Gynecol. 2026;67(5):702–724. doi:10.1002/uog.70191

Preditores clínicos do ADNEX: Van Calster B, Van Hoorde K, Valentin L, et al. Evaluating the risk of ovarian cancer before surgery using the ADNEX model to differentiate between benign, borderline, early and advanced stage invasive, and secondary metastatic tumours. BMJ. 2014;349:g5920. doi:10.1136/bmj.g5920

Todos os escores, descritores, cortes e condutas foram transcritos das Figuras 1A a 1C e das Tabelas 1 a 5 do artigo do ACR, e das Tabelas 1 e 2 do consenso IOTA. A v2022 segue vigente (conferido em 24/08/2026).

Os diagramas são próprios. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.