Um léxico que vira número, e um número que vira conduta
O O-RADS (Ovarian-Adnexal Reporting and Data System) US descreve a lesão anexial com termos fixos, converte a descrição num
escore de 0 a 5 e amarra cada escore a uma faixa de risco de malignidade e a uma conduta. A
versão v2022, publicada em novembro de 2022 e descrita no Radiology em 2023, é a que
vale, e ela mexeu em pontos que caem em prova.
as três mudanças que a v2022 trouxe1. O termo “bilocular”. Antes só havia unilocular e multilocular. O cisto de 2
lóculos com septação única, lisa e fina passou a ter nome próprio e a cair para
O-RADS 2.
2. A sombra acústica entrou no escore das lesões sólidas. Lesão sólida de contorno liso
com sombra e fluxo mínimo ou moderado (color score 2 a 3) desceu de 4 para 3.
3. O seguimento por US virou opção real para o O-RADS 3. Como os estudos de validação
mostraram que o risco do 3 é baixo, hoje se recomenda seguir por US se não houver
ressecção, em vez de mandar todo mundo para a RM.
a regra que resolve as dúvidas de leituraQuando houver incerteza na escolha do descritor (liso ou irregular, qual color score), use a categoria de maior risco para pontuar a lesão.
Isso está entre os conceitos regentes, e é a única regra genérica de desempate do sistema.
onde o O-RADS US não se aplica
O sistema vale para ovários, lesões que envolvem (ou se suspeita que envolvam) ovários
e/ou tubas, e cistos paraovarianos, quando a intenção é estratificar risco de
malignidade.
Não se aplica a: doença inflamatória pélvica, gravidez ectópica, torção de
ovário normal e lesões claramente identificadas como não ovarianas e não tubárias (um mioma exofítico ou de ligamento largo, por exemplo). Se a origem é indeterminada, as opções são
TC e RM.
Os nove conceitos regentes
Conceito
O que diz
1. A quem se aplica
Ovários, lesões que envolvem ou podem envolver ovários e/ou tubas, e cistos paraovarianos, quando o objetivo é estratificar risco de malignidade. Não se aplica a DIP (doença inflamatória pélvica), ectópica, torção de ovário normal e lesões claramente não ovarianas nem tubárias. Origem indeterminada → TC ou RM
2. Ovário não visto
A maioria dos ovários não visualizados e todos os ausentes são “O-RADS: não aplicável”. Visualizando só um, pode-se pontuá-lo normalmente. O exame pode ser O-RADS 0 quando se esperava ver o ovário pela indicação e ele não apareceu
3. Lesões múltiplas
Cada lesão é caracterizada separadamente, e a conduta é guiada pela de maior escore. Devem-se dar recomendações separadas quando a conduta de uma independe da outra
4. Status menopausal
Pós-menopausa = amenorreia de ≥ 1 ano · precoce = menos de 5 anos · tardia = ≥ 5 anos. Incerto ou útero ausente → usar a idade > 50 anos (precoce = > 50 mas < 55; tardia = ≥ 55)
5. Especialista em US
Médico cuja prática inclui foco em avaliação ultrassonográfica de lesões anexiais. Não há requisito formal; as qualificações potenciais são experiência suficiente e participação em atividades de garantia de qualidade em imagem anexial
6. Técnica
A avaliação é geralmente transvaginal. A via abdominal pode acrescentar caracterização e pode bastar quando a transvaginal não é viável. Cine-loops ortogonais são fortemente encorajados
7. Medidas
O maior diâmetro único é o usado para pontuar e para conduzir. Reportar três dimensões ajuda a avaliar mudança de intervalo, para a qual se usa a dimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
8. Léxico e incerteza
O léxico e a caracterização valem para a maioria das lesões, independentemente de risco ou sintomas. Na dúvida sobre a escolha do achado (liso × irregular, color score) use a categoria de maior risco
9. Conduta
As recomendações são orientação, não exigência, e valem para risco médio e sem sintomas agudos. Podem ser modificadas por risco pessoal ou familiar, mutação BRCA (breast cancer 1 e 2: genes de suscetibilidade hereditária ao câncer de mama e de ovário), sintomas e julgamento profissional, qualquer que seja o escore
Mioma exofítico simulando lesão anexial sólida, mulher de 38 anos
US: massa sólida anexial esquerda (cursores), de contorno liso e com sombra ampla (setas).Doppler colorido: vasos em ponte (setas) ligando a lesão ao útero (ponta de seta): mioma subseroso exofítico. Achar os dois ovários separados ajuda a excluir origem ovariana.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 2. Ver artigo
+ complemento · por que o conceito 2 existe
Distinguir “não aplicável” de O-RADS 0 importa porque o 0 é uma categoria de
falha técnica, e não de dúvida. A v2022 reescreveu o 0 exatamente para isso: “achados da
lesão relevantes para a estratificação de risco não podem ser adequadamente caracterizados por
fatores técnicos”.
Ou seja: O-RADS 0 não é para a incerteza do leitor quanto à caracterização da lesão. Para
essa incerteza vale o conceito 8: subir a categoria.
As seis categorias
As categorias com a faixa de risco de malignidade e o eixo da conduta. O risco cresce de 1 a 5;
o 0 é falha técnica e fica fora da escala.
Escore
Categoria
Risco de malignidade
0
Avaliação incompleta: achados relevantes não caracterizáveis por fatores técnicos
Não aplicável
1
Ovário normal: sem lesão ovariana, ou cisto fisiológico, que é o folículo (cisto simples ≤ 3 cm) ou o corpo lúteo (tipicamente ≤ 3 cm)
0%
2
Quase certamente benigno
< 1%
3
Baixo risco
1 a < 10%
4
Risco intermediário
10 a < 50%
5
Alto risco
≥ 50%
duas frases novas no O-RADS 1“Sem lesão ovariana” foi acrescentado para deixar claro que o ovário normal sem
nenhuma observação focal também é O-RADS 1: antes a categoria listava só folículo e corpo
lúteo.
E o corpo lúteo passou a ser “tipicamente ≤ 3 cm”, enfatizando as características
morfológicas sobre o tamanho. O corpo lúteo típico é um cisto de paredes espessas, com
parede interna lisa ou crenada e fluxo periférico; ecos internos são opcionais, e a
vascularização interna deve estar sempre ausente.
Ovário sem achado focal (O-RADS US 1)
Ovário normal, mulher de 52 anos na pós-menopausa. A v2022 incluiu 'sem lesão ovariana' no O-RADS 1.Ovário normal, mulher de 60 anos na pós-menopausa: alguns focos ecogênicos puntiformes sem sombra (seta), provável sequela de hemorragia ovulatória, que ajudam a achar o ovário pequeno da pós-menopausa.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 4. Ver artigo
Corpo lúteo típico
Cisto de parede espessa com paredes internas lisas e ecos internos de sangue (seta).Parede interna crenada (setas pontilhadas).Aspecto 'sólido' (pontas de seta): as paredes espessas se encostam e o líquido central não aparece.Doppler colorido do primeiro: fluxo periférico.Doppler colorido do segundo: fluxo periférico (setas pontilhadas).Doppler colorido do 'sólido': o fluxo periférico confirma; fluxo interno nunca deve existir.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 5. Ver artigo
as condutas do O-RADS 2, por tamanhoCisto simples: ≤ 3 cm: nenhuma conduta na pré-menopausa (é folículo) e nenhuma na
pós · > 3 a 5 cm: nenhuma na pré, US em 12 meses na pós · > 5 e < 10 cm: US em
12 meses nas duas.
Unilocular liso não simples (ecos internos e/ou septações incompletas) e cisto bilocular
liso: ≤ 3 cm: nenhuma na pré, US em 12 meses na pós · > 3 e < 10 cm: US em
6 meses nas duas.
O seguimento é limitado a 24 meses; depois, conforme indicação clínica.
o que fazer com o resultado do seguimentoMenor: queda de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média → encerra a
vigilância. Estável → US aos 24 meses do exame inicial. Maior: aumento de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média → US aos 12 e 24
meses do exame inicial, depois conduta pela ginecologia. Morfologia mudou → reavaliar com os descritores do léxico, do zero.
Cistos sem componente sólido
Os cistos sem componente sólido. Quatro variáveis decidem: número de lóculos, parede
lisa ou irregular, tamanho e color score.
o vocabulário exatoUnilocular: 1 lóculo, sem septação completa. Bilocular: 2 lóculos, ou seja, uma septação completa, com ou sem ecos internos. Multilocular: ≥ 3 lóculos, ou seja, duas ou mais septações completas.
Septações incompletas não contam para a locularidade.
Liso e irregular, nos cistos, referem-se às paredes internas e septações, e irregularidade de parede, num cisto, é a que tem menos de 3 mm de altura. A partir de 3 mm,
aquilo é componente sólido.
por que o bilocular nasceu
Na versão original, o cisto de septação única era multilocular e caía em O-RADS 3
(1 a < 10%). Os dados de 2 anos do estudo IOTA (International Ovarian Tumor Analysis) 5 mostraram que cistos multiloculares
< 10 cm, de parede interna lisa e fluxo menor que muito intenso, tinham risco diferente conforme
o número de lóculos: 2,3% com mais de dois lóculos, mas apenas 0,7% com septação
única.
0,7% cai dentro da faixa do O-RADS 2 (< 1%): daí o rebaixamento. E o glossário registra
a consequência: cistos biloculares lisos têm risco menor, independentemente do tamanho ou do
color score.
O alinhamento com o Consenso da SRU (Society of Radiologists in Ultrasound) sobre cistos anexiais foi a outra motivação: lá, o cisto
com uma septação fina única (que pode representar dois cistos simples adjacentes) é conduzido
como um cisto simples unilocular.
+ complemento · o color score, adotado da IOTA1 = sem fluxo · 2 = fluxo mínimo · 3 = fluxo moderado · 4 = fluxo muito intenso.
É uma avaliação subjetiva da vascularização intralesional ao Doppler colorido.
Componente sólido e lesão sólida
Cistos com componente sólido e lesões sólidas. Na lesão sólida, o contorno externo decide
primeiro: irregular é sempre 5. Ascite ou nódulos peritoneais levam a 5 as lesões O-RADS 3 e 4; nas O-RADS 1 e 2, procure outra causa.
as três definições que a prova cobraLesão sólida: ≥ 80% sólida. Exclui produtos de sangue e conteúdo de
dermoide. Componente sólido: protrui ≥ 3 mm em altura da parede ou da septação para dentro do
lúmen. Projeção papilar (pp): subtipo de componente sólido, cercado por líquido em três
lados.
Nas lesões sólidas, liso e irregular referem-se ao contorno externo, e não às
paredes internas, como nos cistos.
a sombra acústica, a novidade da v2022
Na versão original, a sombra não era um achado do algoritmo para lesões sólidas, o que inflava o escore de lesões sólidas benignas e podia levar a cirurgia desnecessária.
Os dados do IOTA 5 mostraram que lesão sólida de contorno liso com sombra acústica tinha
risco < 10% quando a vascularização interna era qualquer coisa menor que muito
intensa (CS (color score: grau de vascularização ao Doppler colorido) < 4). Por isso, sólidas lisas com sombra e CS 2 ou 3 hoje são O-RADS 3,
onde antes eram 4.
Duas ressalvas. A sombra precisa ser difusa ou ampla para qualificar, para não confundir
com artefato de refração, que aparece tipicamente na borda da lesão. E a sombra
não muda nada quando o contorno externo é irregular: irregular é sempre
O-RADS 5.
os dois erros de contagem1. Contar como componente sólido o que não é tecido: coágulo retrátil de cisto
hemorrágico e conteúdo de dermoide são excluídos por definição.
2. Errar o corte de 4 projeções papilares. Cisto unilocular com < 4 pps é
4; com ≥ 4 pps é 5. E o cisto unilocular com componente sólido que não
é considerado projeção papilar também é 4, em qualquer tamanho e color score.
+ complemento · quando a RM entra
Para lesões sólidas O-RADS 3 e para todas as O-RADS 4 e 5, a v2022 enfatiza a RM
como avaliação suplementar, porque a RM com contraste tem especificidade maior para lesões
sólidas e para lesões císticas com componente sólido.
Quando a RM for feita nesses casos, recomenda-se fortemente usar o protocolo O-RADS
RM e dar o escore correspondente.
Já para as císticas de baixo risco sem componente sólido, a v2022 preferiu o
seguimento por US: pela disponibilidade limitada e pelo valor agregado pequeno da RM
nesse cenário.
As lesões classicamente benignas
a regra de entrada, e a de saída
Lesões ovarianas classicamente benignas < 10 cm e todas as extraovarianas são
O-RADS 2. As ovarianas ≥ 10 cm são O-RADS 3.
E a regra de saída foi reforçada na v2022. Diante de qualquer achado atípico, no exame inicial
ou no seguimento, abandone o rótulo e use os descritores gerais do léxico: unilocular,
multilocular, sólida.
Lesão
Aparência típica
Conduta
Cisto hemorrágico
Cisto unilocular, sem vascularização interna, e ao menos um de: padrão reticular (linhas finas que se cruzam, representando fibrina) · coágulo retrátil (componente intracístico de margens retas, côncavas ou angulares)
Pré: ≤ 5 cm nada · > 5 e < 10 cm US em 2 a 3 meses Pós precoce (< 5 anos): < 10 cm: confirmar com US em 2 a 3 meses, especialista em US ou RM Pós tardia (≥ 5 anos):não deve ocorrer; recategorizar
Cisto dermoide
Lesão cística com ≤ 3 lóculos, sem vascularização interna, e ao menos um de: componente hiperecoico (difuso ou regional) com sombra · linhas e pontos hiperecoicos · estruturas esféricas ecogênicas flutuantes
≤ 3 cm: US em 12 meses é opcional > 3 e < 10 cm: se não ressecado, US em 12 meses Não depende do status menopausal
Endometrioma
Lesão cística com ≤ 3 lóculos, sem vascularização interna, ecos homogêneos de baixo nível ou em vidro fosco, e paredes/septações internas lisas · ± focos ecogênicos puntiformes periféricos na parede
Pré: < 10 cm: se não ressecado, US em 12 meses Pós, primeira detecção: confirmar com US em 2 a 3 meses, especialista ou RM; depois, se não ressecado, US em 12 meses
Cisto paraovariano
Cisto simples separado do ovário
Imagem: nenhuma
Cisto de inclusão peritoneal
Coleção líquida com o ovário na margem ou suspenso dentro dela, que se conforma aos órgãos pélvicos adjacentes · ± septações (aderências)
Imagem: nenhuma
Hidrossalpinge
Estrutura tubular preenchida por líquido anecoico · ± septações incompletas (pregas) · ± pregas endossalpingeanas (projeções curtas e arredondadas nas paredes internas)
Imagem: nenhuma
Cisto hemorrágico típico
Doppler colorido: cisto unilocular sem fluxo interno, com fluxo na parede (pontas de seta) e padrão reticular de linhas finas que se cruzam.Doppler colorido: coágulo retrátil (seta), tecido avascular de margens angulares ou retas. Sangue não é componente sólido.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 8. Ver artigo
Endometrioma típico com fluxo na parede e nos septos
Doppler colorido: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e foco ecogênico puntiforme periférico (seta pontilhada), sem fluxo interno; fluxo em volta (setas).Endometrioma multilocular: fluxo também nos septos (pontas de seta), que podem ser parênquima ovariano entre os lóculos.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 9. Ver artigo
Endometrioma típico com focos ecogênicos periféricos
US: cisto unilocular com ecos homogêneos de baixa intensidade e focos ecogênicos puntiformes periféricos (setas).Outro endometrioma, com alguns ecos grosseiros: os focos ecogênicos periféricos (setas) têm alta especificidade.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 11. Ver artigo
Cisto dermoide típico, com componente hiperecogênico e sombra
US: componente hiperecogênico regional (setas) com sombra (setas pontilhadas) e linhas e pontos hiperecogênicos, o cabelo enrolado (ponta de seta).US: componente hiperecogênico difuso (setas) com sombra (setas pontilhadas), sem líquido aparente. O conteúdo do dermoide não conta como componente sólido.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 10. Ver artigo
Hidrossalpinge típica
US longitudinal: estrutura tubular anecoica com septação incompleta, uma prega (seta).US transversal: pregas endossalpingeas, pequenas projeções arredondadas na margem interna (pontas de seta), que separam a hidrossalpinge de um cisto septado com parede irregular.
Fonte: Strachowski LM et al. Radiology 2023;308(3):e230685, Fig. 12. Ver artigo
o que a v2022 acrescentou a cada umaHemorrágico: passou a exigir unilocular e sem vascularização interna. O padrão
reticular não deve ser confundido com septações, e fluxo periférico é permitido, porque muitos cistos hemorrágicos vêm de um corpo lúteo, onde o fluxo periférico é comum.
Dermoide e endometrioma: passaram a exigir ≤ 3 lóculos e sem vascularização
interna. Acima de três lóculos, o risco observado é maior. E “sem vascularização interna”
exclui o fluxo nas paredes e nas septações intervenientes, que pode ser parênquima
ovariano entre lesões adjacentes.
Dermoide: entrou “componente hiperecoico (difuso ou regional)”, porque a lesão inteira
pode ser hiperecoica, sem líquido reconhecível ao redor.
Endometrioma: os focos ecogênicos puntiformes periféricos (depósitos de colesterol)
entraram como achado opcional (incomuns, porém específicos).
Hidrossalpinge: “anecoico” entrou para separá-la da hematossalpinge, que no
O-RADS RM se associa a carcinoma intraepitelial tubário seroso na ausência de outra causa.
as duas exceções que dependem da menopausaCisto hemorrágico na pós-menopausa tardia (≥ 5 anos) não deve ocorrer: se você o vê,
recategorize com os outros descritores.
Endometrioma detectado pela primeira vez após a menopausa é incomum, sobrepõe-se a
neoplasia, e há incidência aumentada de malignidade associada à endometriose depois da
menopausa. Por isso a exigência de confirmação.
O dermoide, ao contrário, deixou de depender do status menopausal na v2022.
o rodapé sobre o seguimento das benignas
O documento é honesto: há escassez de evidência para definir necessidade, duração ou
intervalo ótimo de vigilância. Se estável, considerar US aos 24 meses do exame inicial e
depois conforme a clínica.
E acrescenta o que a evidência de fato sustenta: risco aumentado de malignidade em
endometriomas após a menopausa e nos presentes há mais de 10 anos.
Quando os achados são apenas sugestivos e a avaliação global é incerta, recomenda-se
US em até 3 meses.
A atualização IOTA de 2026
há dois caminhos para chegar ao O-RADSCaminho ACR (American College of Radiology): o léxico e a tabela de categorias do O-RADS US v2022, descritos acima. Caminho IOTA: os descritores benignos e, se nenhum se aplicar, o modelo
ADNEX (Assessment of Different NEoplasias in the adneXa), que calcula um risco e o converte na categoria.
No caminho IOTA, ovário normal ou achado funcional é O-RADS 1; lesão a que se aplica um
descritor benigno é O-RADS 2; sem descritor benigno, roda-se o ADNEX e a categoria sai do
risco calculado: < 1% = 2, 1 a < 10% = 3, 10 a < 50% = 4,
≥ 50% = 5. As faixas são as mesmas.
Descritor benigno IOTA
Definição
BD1 (descritor benigno 1)
Cisto unilocular com ecogenicidade em vidro fosco e maior diâmetro < 10 cm, em mulher pré-menopausa (diagnóstico presumido: endometrioma)
BD2
Cisto unilocular com ecogenicidade mista e sombra acústica, maior diâmetro < 10 cm, em mulher pré-menopausa (diagnóstico presumido: dermoide)
BD3
Cisto unilocular de paredes regulares, conteúdo anecoico e maior diâmetro < 10 cm (diagnóstico presumido: cisto simples ou cistadenoma)
BD4
Todos os demais cistos uniloculares de paredes regulares e maior diâmetro < 10 cm (classificados como benignos)
Variável do ADNEX
Valor
Maior diâmetro da lesão
em mm
Maior diâmetro do maior componente sólido
em mm
Mais de 10 lóculos?
sim ou não
Número de projeções papilares
0, 1, 2, 3 ou ≥ 4
Sombra acústica presente?
sim ou não
Ascite presente?
sim ou não
Tipo de centro (preditor não ultrassonográfico)
oncológico ou outro
Idade (preditor clínico do modelo original)
em anos
CA-125 (antígeno de câncer 125, preditor clínico, opcional)
em U/mL
as definições que a IOTA atualizou em 2026Componente sólido: precisa ter ao menos um diâmetro ≥ 3 mm. Tecido sólido sem
nenhum diâmetro de 3 mm não é componente sólido. Atenção: no ACR a régua é a altura (protrusão ≥ 3 mm da parede ou do septo); no IOTA, qualquer diâmetro.
Projeção papilar: componente sólido que protrui para a cavidade do cisto com altura ≥ 3
mm. Se a protrusão tem altura < 3 mm mas a base mede ≥ 3 mm, ela é
componente sólido, mas não é projeção papilar.
Tumor sólido irregular: ângulos agudos (< 90°), lobulações ou margens espiculadas no
contorno externo. E também é irregular o tumor sólido que contém cistos com irregularidade
na parede interna, mesmo que o contorno externo seja liso.
Color score: vale a regra do pior cenário, e usa-se o maior grau de
vascularização observado no tumor. Um componente sólido muito vascularizado dá CS 4, ainda
que a parede e os septos tenham pouco fluxo.
Sombra acústica: a sombra de borda é artefato e não se reporta como sombra
acústica, porque não nasce de dentro da lesão. Atenuação que causa queda gradual do sinal,
sem área de perda bem definida, também não é sombra.
A 'bola branca' do dermoide (IOTA)
Desenho da bola branca, cabelo e sebo, que não conta como componente sólido.US em escala de cinza e power Doppler: a bola branca, avascular, com sombra.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 2. CC BY 4.0. Ver artigo
Lama na parede interna do cisto (IOTA)
Desenho da lama aderida à parede interna de um endometrioma.US em escala de cinza e power Doppler: a lama (contorno pontilhado), sem vascularização.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 3. CC BY 4.0. Ver artigo
como contar projeções papilares: a régua dos 50%
Para separar uma projeção com vários picos de várias projeções: para cada par de
picos vizinhos e o vale entre eles, medem-se, a partir da mesma linha de base e perpendicular à
parede ou ao septo, a altura de cada pico e a altura do fundo do vale.
Se o fundo do vale tem ≥ 50% da altura do menor dos dois picos → conta como
uma projeção.
Se tem < 50% → contam como duas.
Repete-se para cada par de picos adjacentes.
Contar projeções papilares: a regra x/y (IOTA)
Em cima, x/y ≥ 50%: os dois picos são uma só projeção papilar. Embaixo, x/y < 50%: são projeções separadas, e aqui há três (1 a 3). x é a altura do fundo do vale entre dois picos; y é a altura do pico mais baixo, da mesma base.
Fonte: Timmerman D et al. Ultrasound Obstet Gynecol 2026;67(5):702–724, Fig. 17. CC BY 4.0. Ver artigo
as armadilhas de classificação da IOTASeptação incompleta não faz multilocular: Cisto só com septos incompletos e sem
componente sólido é unilocular, mesmo que pareça multilocular em alguns planos.
Coágulo e muco não são tecido sólido: A área hiper-refletiva e avascular do dermoide (a “bola branca” de pelo e sebo) não é componente sólido. Nem a lama (sludge) das
paredes do endometrioma. Paredes, septos (mesmo espessos) e estroma ovariano normal também
não.
Sinal de Doppler dentro de uma estrutura confirma que ela é tecido sólido, exceto septos,
septos incompletos e estroma normal. A ausência de sinal não exclui tecido sólido:
na dúvida, classifique como componente sólido.
Cisto dentro de tumor sólido não se conta: Uma vez que a massa é sólida (≥ 80% de tecido
sólido), o número de lóculos não é contado, e no ADNEX a resposta a “mais de 10 lóculos?”
é sempre não.
+ complemento · o coágulo × o tecido sólido, à beira do aparelho
O consenso dá manobras práticas. O coágulo costuma ter contorno côncavo, nunca tem
vascularização interna, e tem consistência gelatinosa: deforma-se sob pressão suave do
transdutor, enquanto o tecido sólido permanece firme. Coágulos e grumos de muco podem até
se afastar da parede quando a lesão é empurrada pelo transdutor.
O que mudou da versão original
Onde
Mudança
O-RADS 0
Redigido como “achados relevantes não caracterizáveis por fatores técnicos”: enfatiza que não é para a incerteza do leitor. Conduta passou a “repetir o US ou RM”
O-RADS 1
Ganhou “sem lesão ovariana”. Corpo lúteo passou a “tipicamente ≤ 3 cm”
Locularidade
Nasceu o bilocular (2 lóculos). Multilocular foi redefinido como ≥ 3 lóculos
Lesões sólidas
A sombra (difusa ou ampla) entrou como achado, relevante para o contorno liso · é preciso diferenciar do artefato de refração
Benignas clássicas
Reforçado: qualquer achado atípico, no exame inicial ou no seguimento, obriga a usar os outros descritores
Hemorrágico
Unilocular, sem vascularização interna · pode ter fluxo periférico
Dermoide
≤ 3 lóculos, sem vascularização interna · componente hiperecoico difuso ou regional
Anecoica · septações incompletas e pregas endossalpingeanas viraram achados opcionais
Menopausa
Definidas precoce e tardia, e usadas na conduta
Medida de mudança
Dimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
Seguimento do 2
Menos seguimento para cistos simples · limitado a 24 meses
O-RADS 3
“Se não ressecada cirurgicamente, considerar US em até 6 meses” · a RM permanece opção para as lesões sólidas
O-RADS 4
Nova opção de imagem: “conforme protocolo do onco-ginecologista”
O-RADS 5
“Imagem: conforme protocolo do onco-ginecologista”
por que a atualização foi feita agora
Dois fatos externos pesaram. Em 2021, o CMS (Centers for Medicare & Medicaid Services) americano aprovou o esquema de conduta do
O-RADS US como ferramenta de garantia de qualidade, o que aumentou o interesse em incorporar
o O-RADS a todos os laudos de US pélvico. E, em 2022, o grupo IOTA publicou os dados interinos de 2 anos do IOTA 5, com risco menor em algumas lesões sólidas lisas com sombra e nos cistos lisos de septação única, o que deu suporte estatístico à atualização. Os estudos de validação já mostravam boa concordância interobservador, inclusive entre usuários de níveis diferentes de experiência.
A isso somaram-se áreas de discrepância com o Consenso da SRU sobre cistos anexiais e
com o O-RADS RM, que a v2022 procurou alinhar.
a mensagem estrutural da v2022
Ela melhora a especificidade de algumas lesões de baixo risco (bilocular, sólida lisa com
sombra) e fortalece as recomendações de conduta, aproximando-as dos estudos de validação e
dos protocolos clínicos.
E firma o O-RADS US 4 como o corte apropriado para malignidade: por isso o 3 passou a
ser seguido, e não investigado.
< 3 mm de altura: a partir de 3 mm é componente sólido
Lesão sólida
≥ 80% sólida · exclui sangue e conteúdo de dermoide
Componente sólido
Protrui ≥ 3 mm em altura
Projeção papilar
Componente sólido cercado por líquido em três lados
Corte das projeções papilares
Unilocular com < 4 pps é 4; com ≥ 4 é 5
Color score
1 sem fluxo · 2 mínimo · 3 moderado · 4 muito intenso
Sólida lisa com sombra, CS 2–3
O-RADS 3: era 4 antes da v2022
Sólida de contorno irregular
O-RADS 5, sempre
Ascite e/ou nódulos peritoneais
O-RADS 5, se não houver outra causa · com lesão O-RADS 1 ou 2, buscar outra causa
Liso × irregular
Paredes internas nos cistos · contorno externo nas sólidas
Na dúvida
Suba para a categoria de maior risco
Medida para pontuar
Maior diâmetro único
Medida para comparar
Dimensão linear média: (C + L + A) ÷ 3
Mudança relevante no seguimento
≥ 10 a 15% na dimensão linear média
Pós-menopausa
Amenorreia ≥ 1 ano · precoce < 5 anos · tardia ≥ 5 anos
Se incerto ou sem útero
Idade > 50 anos · tardia a partir de 55
Benignas ovarianas
< 10 cm são 2 · ≥ 10 cm são 3
Benignas extraovarianas
Sempre 2, em qualquer tamanho
Dermoide e endometrioma típicos
≤ 3 lóculos e sem vascularização interna
Cisto hemorrágico típico
Unilocular, sem fluxo interno · reticular ou coágulo retrátil
Hemorrágico na pós tardia
Não deve ocorrer: recategorizar
Achado atípico numa benigna clássica
Abandone o rótulo e use os descritores gerais
Seguimento máximo do O-RADS 2
24 meses
Seguimento do O-RADS 3
Se não ressecada, US em até 6 meses
IOTA: descritores benignos
BD1 vidro fosco · BD2 misto com sombra · BD3 anecoico · BD4 demais uniloculares regulares · todos < 10 cm
IOTA: variáveis do ADNEX
Seis ultrassonográficas: diâmetro, maior componente sólido, > 10 lóculos, número de pps, sombra, ascite · o tipo de centro · e, no modelo original, idade e CA-125 (opcional)
IOTA 2026: componente sólido
Ao menos um diâmetro ≥ 3 mm (no ACR, altura ≥ 3 mm)
IOTA 2026: color score
Regra do pior cenário: vale o maior grau observado
IOTA 2026: contar pps
Vale do vale ≥ 50% do menor pico → uma projeção
Armadilhas e erros comuns
Erros de descritor
Contar septação incompleta como lóculo
Chamar de multilocular o cisto de 2 lóculos: desde a v2022 é bilocular
Contar coágulo retrátil ou conteúdo de dermoide como componente sólido
Aplicar liso × irregular à parede interna de uma lesão sólida: ali vale o contorno externo
Ler artefato de refração de borda como sombra acústica
Chamar de projeção papilar o componente sólido que não está cercado por líquido em três lados
Erros de escore
Usar O-RADS 0 para a própria incerteza: o 0 é técnico
Escolher a categoria menor quando o achado é duvidoso: a regra é subir
Deixar de aplicar o corte de 10 cm às benignas clássicas ovarianas
Esquecer que sólida irregular é 5, tenha ou não sombra
Pontuar uma lesão claramente não ovariana e não tubária: mioma exofítico não entra
Conduzir pela lesão errada em doença bilateral: vale a de maior escore
Erros de conduta
Mandar todo O-RADS 3 para RM: hoje o seguimento por US é a via preferida nas císticas
Usar o maior diâmetro para julgar crescimento: para isso vale a dimensão linear média
Seguir um O-RADS 2 além de 24 meses sem indicação clínica
Aceitar cisto hemorrágico na pós-menopausa tardia
Tratar endometrioma novo na pós-menopausa como achado banal
Fazer RM sem usar o protocolo e o escore O-RADS RM
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Mulher de 34 anos. US transvaginal mostra cisto ovariano de 6 cm com uma única septação completa, fina e lisa, paredes internas lisas, sem componente sólido e sem fluxo interno. Qual o escore O-RADS US v2022 e a conduta?
Esta é a mudança que a v2022 trouxe e que mais cai em prova. Uma septação completa única, fina e lisa faz um cisto de 2 lóculos, e 2 lóculos agora têm nome próprio: bilocular. Multilocular foi redefinido como ≥ 3 lóculos.
Na versão original, este cisto era multilocular e caía em O-RADS 3. Os dados de 2 anos do IOTA 5 mostraram que, entre cistos lisos < 10 cm com fluxo menor que muito intenso, os de mais de dois lóculos tinham 2,3% de risco, mas os de septação única tinham 0,7%: dentro da faixa do O-RADS 2 (< 1%). Daí o rebaixamento.
A conduta vem da tabela de categorias: cisto unilocular liso não simples ou bilocular liso de > 3 e < 10 cm → US em 6 meses, tanto na pré quanto na pós-menopausa. Fosse ≤ 3 cm, seria nenhuma conduta na pré e US em 12 meses na pós.
Se este mesmo cisto tivesse ≥ 10 cm, subiria para O-RADS 3. E se a parede interna fosse irregular, o bilocular iria para O-RADS 4: a irregularidade custa mais no bilocular do que no unilocular, que com parede irregular fica em 3.
Lesão anexial sólida de 5 cm, contorno externo liso, com sombra acústica difusa emanando de dentro da lesão, e fluxo mínimo ao Doppler colorido (color score 2). Qual o escore?
A sombra acústica entrou no algoritmo das lesões sólidas na v2022, e é a segunda grande mudança da versão.
Na versão original, a sombra não era achado do algoritmo para lesões sólidas, o que inflava o escore de sólidas benignas, tipicamente fibromatosas, e podia levar a cirurgia desnecessária. Os dados do IOTA 5 mostraram que a sólida de contorno liso com sombra tinha risco < 10% desde que a vascularização interna fosse qualquer coisa menor que muito intensa, isto é, CS < 4. Por isso ela desceu de 4 para 3.
A linha vizinha da tabela é o contraste que fixa a regra: a sólida lisa sem sombra, com CS 2 a 3, continua sendo O-RADS 4. E a sólida lisa com CS 1 é 3 tenha sombra ou não.
Duas ressalvas do texto. A sombra precisa ser difusa ou ampla para qualificar, justamente para não se confundir com o artefato de refração, que costuma aparecer na borda da lesão, onde o som atravessa tecidos de impedância diferente. E a sombra não muda nada se o contorno externo for irregular: contorno irregular é sempre O-RADS 5, em qualquer tamanho e qualquer color score.
Lembrando a definição: lesão sólida é a que tem ≥ 80% de tecido sólido, excluídos produtos de sangue e conteúdo de dermoide.
Mulher de 63 anos, menopausada há 8 anos. US mostra cisto ovariano unilocular de 4 cm com padrão reticular de linhas finas que se cruzam e sem vascularização interna: o aspecto clássico de cisto hemorrágico. Como proceder?
A tabela de Lesões Classicamente Benignas é explícita: na pós-menopausa tardia (5 anos ou mais), o cisto hemorrágico não deve ocorrer, e a lesão deve ser recategorizada usando os outros descritores do léxico.
A lógica é fisiológica: muitos cistos hemorrágicos vêm de um corpo lúteo, e sem ovulação não há corpo lúteo. O que parece coágulo pode ser componente sólido, e aí a lesão é outra coisa, com outro escore.
Os três regimes, para fixar:
Pré-menopausa: ≤ 5 cm nenhuma conduta; > 5 e < 10 cm, US em 2 a 3 meses. Pós-menopausa precoce (< 5 anos): < 10 cm, confirmar por uma de três opções: US em 2 a 3 meses, reavaliação por especialista em US, ou RM com escore O-RADS RM. Pós-menopausa tardia (≥ 5 anos): não deve ocorrer.
Vale lembrar como se define a menopausa aqui: amenorreia de ≥ 1 ano; precoce é menos de 5 anos e tardia é 5 anos ou mais. Se o status for incerto ou o útero tiver sido removido, usa-se a idade > 50 anos, com tardia a partir dos 55.
E a regra geral que a v2022 reforçou vale para todas as seis lesões clássicas: diante de qualquer achado atípico, no exame inicial ou no seguimento, abandone o rótulo e use os descritores gerais.
Você acompanha um cisto O-RADS 2. No exame inicial media 52 × 44 × 40 mm; hoje mede 60 × 48 × 45 mm. Qual medida o O-RADS US v2022 manda usar para julgar se houve mudança, e por quê?
O sétimo conceito regente separa duas medidas com finalidades diferentes, e a prova gosta exatamente dessa separação:
Para pontuar e para conduzir → o maior diâmetro único da lesão. Para avaliar mudança de intervalo → a dimensão linear média, (C + L + A) ÷ 3.
Reportar as três dimensões é justamente o que permite calcular a média e comparar exames seriados. Nos números do enunciado: (52+44+40)/3 = 45,3 mm contra (60+48+45)/3 = 51 mm, um aumento de cerca de 12,5%.
E o corte importa: mudança de ≥ 10 a 15% na dimensão linear média é o que conta. Diminuindo nessa magnitude, encerra-se a vigilância. Estável, faz-se US aos 24 meses do exame inicial. Aumentando, consideram-se US aos 12 e 24 meses do inicial, e depois conduta pela ginecologia. Se a morfologia mudar, reavalia-se do zero com os descritores do léxico.
O volume pelo elipsoide existe, mas não é o que o O-RADS US pede.
Cisto ovariano de 7 cm com quatro lóculos, paredes e septações internas lisas, sem componente sólido, mas com fluxo muito intenso ao Doppler colorido (color score 4). Qual o escore?
No cisto multilocular sem componente sólido, três variáveis decidem: parede, tamanho e color score.
Liso, < 10 cm, CS 1 a 3 → O-RADS 3. Liso, ≥ 10 cm, CS 1 a 3 → 4. Liso, qualquer tamanho, CS 4 → 4. Irregular, qualquer tamanho → 4.
Aqui a parede é lisa e o tamanho é < 10 cm, o que sozinho daria 3, mas o color score 4 sobe a lesão para O-RADS 4, e ele faz isso independentemente do tamanho.
Note que o multilocular é a única família de cistos sem componente sólido em que o color score entra na conta. No unilocular e no bilocular o fluxo não pontua: o que decide é parede e tamanho. É por isso que o glossário registra que cistos biloculares lisos têm risco menor, independentemente do tamanho ou do color score.
Quatro lóculos, aqui, é multilocular: a partir de 3 lóculos, ou seja, com duas ou mais septações completas. Septações incompletas não contariam.
Para chegar a 5 seria preciso componente sólido com CS 3 ou 4, ou ascite e/ou nódulos peritoneais. Fluxo intenso, sozinho, não leva um cisto sem componente sólido ao alto risco.
Cisto unilocular com uma protrusão de tecido sólido a partir da parede interna. A protrusão tem 2 mm de altura, mas sua base mede 4 mm. Pelo consenso IOTA de 2026, como classificá-la?
O consenso IOTA de 2026 separou dois conceitos que costumavam andar juntos, e as duas definições atualizadas são complementares:
Componente sólido: precisa ter ao menos um diâmetro ≥ 3 mm. Aqui a base mede 4 mm, então é componente sólido. Projeção papilar: é um componente sólido que protrui para a cavidade do cisto com altura ≥ 3 mm. Aqui a altura é 2 mm, então não é projeção papilar.
O texto descreve exatamente este caso: se uma protrusão de tecido sólido com altura < 3 mm tiver qualquer diâmetro de 3 mm ou mais (isto é, base de 3 mm ou mais), ela é componente sólido, mas não projeção papilar.
A distinção não é acadêmica: o ADNEX tem como variável o número de projeções papilares (0, 1, 2, 3 ou ≥ 4), e contar esta como papilar mudaria o risco calculado. Ela entra na conta, sim, mas como maior diâmetro do maior componente sólido, que é outra variável do modelo.
Sobre o Doppler: sinal colorido dentro de uma estrutura confirma que ela é tecido sólido, exceto septos, septos incompletos e estroma ovariano normal. Mas a ausência de sinal não exclui tecido sólido, porque pode ser problema técnico; na dúvida, o consenso manda classificar como componente sólido.
No léxico do ACR, a régua do componente sólido é outra: protrusão de ≥ 3 mm em altura, e a irregularidade de parede de um cisto é a que tem menos de 3 mm de altura. Por esse léxico, esta protrusão de 2 mm contaria como irregularidade de parede, e não como componente sólido. A projeção papilar do ACR é o componente sólido cercado por líquido em três lados.
Fonte: Strachowski LM, Jha P, Phillips CH, et al. O-RADS US v2022: An Update
from the American College of Radiology's Ovarian-Adnexal Reporting and Data System US Committee.
Radiology. 2023;308(3):e230685. doi:10.1148/radiol.230685; inclui as tabelas oficiais do ACR com
data de lançamento de novembro de 2022.
Atualização de terminologia: Timmerman D, Valentin L, Testa AC, et al. Terms, definitions and
measurements to describe the sonographic features of adnexal tumors: updated consensus opinion from
the International Ovarian Tumor Analysis (IOTA) Group. Ultrasound Obstet Gynecol.
2026;67(5):702–724. doi:10.1002/uog.70191
Preditores clínicos do ADNEX: Van Calster B, Van Hoorde K, Valentin L, et al. Evaluating the risk of ovarian cancer before surgery using the ADNEX model to differentiate between benign, borderline, early and advanced stage invasive, and secondary metastatic tumours. BMJ. 2014;349:g5920. doi:10.1136/bmj.g5920
Todos os escores, descritores, cortes e condutas foram transcritos das Figuras 1A a 1C e das
Tabelas 1 a 5 do artigo do ACR, e das Tabelas 1 e 2 do consenso IOTA. A v2022 segue vigente (conferido em 24/08/2026).
Os diagramas são próprios. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.