Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. Primary Tumors of the Pituitary Gland:
Radiologic-Pathologic Correlation. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046. DOI: 10.1148/rg.2021200203.
Como o artigo está organizado
Este é um artigo da coleção radiologia-patologia da RadioGraphics, o que significa que cada entidade
vem com a correlação histológica e molecular ao lado da imagem. A organização não é por aparência, e sim por
origem embriológica: adeno-hipófise, bolsa de Rathke e neuro-hipófise, da categoria mais comum para
a mais rara. Seguir essa ordem é o que torna a lista de diferenciais da região selar administrável.
nota de classificação
O artigo usa a 4ª edição da classificação da OMS de tumores endócrinos (2017) para os adenomas e a
classificação de tumores do SNC de 2016 para os tumores da região selar. Os adenomas hipofisários são
classificados como tumores endócrinos, e não do SNC. Depois do artigo, três mudanças de nome:
· a OMS de tumores endócrinos de 2022 adotou oficialmente tumor neuroendócrino hipofisário (PitNET) no lugar de adenoma;
· o “carcinoma hipofisário” passou a se chamar PitNET metastático;
· a OMS do SNC de 2021 tornou os craniofaringiomas adamantinomatoso e papilífero dois tipos tumorais distintos, e não subtipos.
Este caderno mantém “adenoma”, como o artigo e como a rotina de laudo ainda falam; conheça os dois nomes.
A embriologia organiza a classificação
o ponto de partida
Apenas a neuro-hipófise é uma evaginação embriológica do hipotálamo/diencéfalo. A
adeno-hipófisenão vem do neuroectoderma: forma-se por um divertículo de ectoderma oral
a partir da boca primitiva, o estomodeu. Essa evaginação, descrita por Martin Heinrich Rathke em 1839, é a
bolsa de Rathke.
É essa diferença de origem que estrutura o artigo (e este caderno) em três categorias, da mais comum para
a mais rara.
Hipófise normal e síndrome da interrupção da haste
T1 sagital, adulto jovem: adeno-hipófise isointensa e neuro-hipófise com hipersinal pelo conteúdo proteico (seta).T1 sagital, criança com baixa estatura: neuro-hipófise ectópica (seta), sem haste e com adeno-hipófise muito hipoplásica, a síndrome da interrupção da haste hipofisária.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 1. Ver artigo
+ complemento · por que o TTF-1 aparece aqui
Pituicitoma, tumor de células granulares e oncocitoma de células fusiformes expressam TTF-1 no núcleo,
o que levou a considerá-los um espectro de uma única entidade derivada dos pituícitos: células gliais
especializadas da hipófise posterior. O oncocitoma de células fusiformes já foi atribuído a células
foliculoestreladas da hipófise anterior; hoje se acredita que os três venham da neuro-hipófise.
Números que situam o tema
frequência
Os tumores primários da hipófise são a segunda categoria histológica mais comum entre os tumores
primários do SNC em todas as faixas etárias, e a mais comum em adolescentes e adultos jovens.
Isso vindo de uma glândula “do tamanho de uma ervilha”.
Parâmetro
Valor
Prevalência de adenomas clinicamente significativos
De 1:865 a 1:2688. A maioria dos adenomas é incidental e sem significado clínico
Microadenoma × macroadenoma
<10 mm = microadenoma · ≥10 mm = macroadenoma · ≥40 mm = adenoma gigante
Esporádicos × hereditários
~95% esporádicos; ~5% em condições familiares
Distribuição entre os adenomas clinicamente evidentes
Incidência de 0,13 por 100.000 pessoas-ano. ACP (craniofaringioma adamantinomatoso) 90% dos casos, PCP (craniofaringioma papilífero) 10%
Carcinoma hipofisário
<0,5% de todos os tumores hipofisários
síndromes hereditáriasMEN 1 (neoplasia endócrina múltipla tipo 1): tumores hipofisários mais precoces, mais agressivos e invasivos, resistentes à terapia e com
maior taxa de recidiva. FIPA (adenoma hipofisário familiar isolado): autossômico dominante, mutações no gene AIP,
manifestando-se em geral como macroadenoma na infância ou no adulto jovem. DICER1 (gene de uma enzima que processa microRNA): associado ao blastoma hipofisário.
Apoplexia hipofisária
definição e gatilhos
Infarto ou hemorragia aguda dentro da glândula, ocorrendo mais comumente em macroadenomas preexistentes.
Quadro agudo de cefaleia intensa, perda visual, oftalmoplegia ou disfunção endócrina, todos refletindo
expansão tumoral súbita.
Fatores predisponentes: hipertensão, gestação, cirurgia de grande porte, hipotensão,
terapia com agonista dopaminérgico e anticoagulação.
Adenomas por linhagem
a regra de ouro do realce
Adenomas hipofisários mostram realce e washout tardios em relação à glândula normal. Uma sequência
dinâmica pós-contraste adicional pode acentuar esse diferencial e delinear o tumor, especialmente na
suspeita clínica de microadenoma.
Lactotrofo (prolactinoma)
O adenoma funcionante mais comum. Costuma ser microadenoma na porção lateral e posterior da
adeno-hipófise em mulheres jovens (pico entre 20 e 40 anos), mas pode ser macroadenoma em homens e
crianças. Sintomas: galactorreia e amenorreia secundária na mulher; disfunção erétil, redução da libido,
hipopituitarismo e defeitos campimétricos no homem; puberdade atrasada e amenorreia primária na criança.
correlação tamanho × prolactina100–250 ng/mL: típico de microadenoma. >250 ng/mL: sugere macroadenoma. >10.000 ng/mL: comum em macroadenomas grandes (>3 cm).
Tratamento clínico com agonistas dopaminérgicos: cabergolina 85–90% eficaz, bromocriptina 75%.
Falha de resposta indica adenoma mais agressivo e exige mudança de dose ou droga, ou cirurgia com possível
radioterapia. Subtipos: esparsamente granulado (o mais comum), densamente granulado e de células-tronco
acidófilas.
Adenomas lactotrofos (prolactinomas)
T1 coronal pós-contraste: lesão sutil hipocaptante à direita na adeno-hipófise (seta), num homem com hiperprolactinemia.Sequência dinâmica: realce tardio e diferente da lesão (seta), o que reforça o microprolactinoma.Depois da cabergolina: a lesão regrediu (seta).Outro homem, T2 coronal: macroadenoma gigante isointenso invadindo os seios cavernosos e envolvendo as carótidas (setas), sem comprimir o quiasma.T1 pós-contraste: realce leve e homogêneo do macroprolactinoma; o pouco de hipófise normal residual realça bem mais (seta).T2 depois da cabergolina: tumor bem menor, com aumento do sinal T2 (setas), sinal de resposta e menor celularidade.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 2. Ver artigo
Somatotrofo (somatotropinoma)
Segundo funcionante mais comum; secreta GH e responde por mais de 95% dos casos de gigantismo ou
acromegalia. Qualquer idade, média de 47 anos, sem predileção por sexo. A maioria se apresenta como
macroadenoma.
os dois subtipos e a imagemDensamente granulado (DGSA): tende a microadenoma em adultos mais velhos, é a causa mais comum
de acromegalia, tende a ser mais hipointenso em T2 e responde melhor a análogos de somatostatina. Esparsamente granulado (SGSA): tende a macroadenoma em mulheres jovens, é mais hiperintenso
em T2, com invasão suprasselar ou do seio cavernoso.
Sem adenoma evidente em paciente jovem com acromegalia, suspeitar de acrogigantismo ligado ao X.
Cirurgia curativa em até 90% dos microadenomas, contra apenas 50% dos macroadenomas.
Adenomas mamossomatotrofos cossecretam GH e prolactina: acromegalia com amenorreia e galactorreia.
Somatotropinoma, mulher com acromegalia
T1 coronal pós-contraste: massa hipocaptante expandindo a adeno-hipófise lateral esquerda (seta).Corte mais anterior: a massa passa por baixo do vazio de fluxo da carótida cavernosa e um pouco além da margem lateral dela (seta), provável invasão do seio cavernoso (Knosp 3).
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 3. Ver artigo
Corticotrofo (corticotropinoma)
Incomum. Quando a síndrome de Cushing é causada por corticotropinoma, chama-se doença de Cushing, com prevalência de 3 a 10 casos por milhão, mais comum em mulheres de 30 a 50 anos. É o adenoma
mais comum (55%) em crianças abaixo de 11 anos.
a frase que resume
“Tumor pequeno, Cushing grande… tumor grande, Cushing pequeno.” A maioria é microadenoma com
manifestações floridas; macroadenomas associam-se a sintomas mais cíclicos ou leves.
85–90% dos pacientes com doença de Cushing têm adenoma hipofisário; 10–15% decorrem de adenoma
extrasselar ectópico. A falha em localizar o microcorticotropinoma não é rara (9%), mesmo com RM de 3 T
e amostragem do seio petroso inferior.
Corticotropinoma silencioso, homem idoso com cefaleia e perda visual
T2 coronal: massa intra e suprasselar lobulada e heterogênea, apagando o quiasma e o terceiro ventrículo anteroinferior (seta).T1 sagital pós-contraste: realce sólido da massa (seta). Sem excesso hormonal, o diagnóstico mais provável era macroadenoma não funcionante; a imuno-histoquímica mostrou ACTH.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 4. Ver artigo
Adenoma silencioso e null cell
Adenomas silenciosos têm características histopatológicas e imuno-histoquímicas de uma linhagem
específica, mas sem evidência clínica de hipersecreção: respondem pela maior parte dos adenomas não
funcionantes. Os Pit-1 recém-definidos têm alta taxa de recidiva e baixa sobrevida livre de doença.
Apoplexia de macroadenoma de células nulas
T1 sagital: grande massa intra e suprasselar com hipersinal em placas (seta), hemorragia intratumoral.T1 coronal: hipersinal espontâneo (seta) e compressão do quiasma. Sem realce pela hemorragia extensa.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 5. Ver artigo
Corticotropinoma ectópico com doença de Cushing
T1 sagital: massa lobulada na junção da rinofaringe com o corpo do esfenoide, separada da hipófise normal acima (seta).T1 coronal pós-contraste: realce homogêneo da massa, separada da hipófise (seta).Sequência dinâmica: realce tardio do adenoma ectópico, como num adenoma de localização habitual, em comparação com a hipófise acima (seta).
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 6. Ver artigo
Macroadenoma: o que descrever
achados a procurar
Contorno hipofisário expandido · desvio do infundíbulo · extensão suprasselar · compressão do
quiasma e/ou nervos ópticos · invasão do seio cavernoso · erosão da margem selar.
As classificações de Hardy e de Knosp são usadas para quantificar o grau de invasão selar e
parasselar, e entram no laudo porque orientam o planejamento cirúrgico.
+ complemento · Knosp em uma linha
A classificação de Knosp gradua a invasão do seio cavernoso pela relação do tumor com as linhas que unem os
contornos das porções intra e supracavernosa da carótida interna: quanto mais lateralmente o tumor ultrapassa
essas linhas, maior o grau, e menor a chance de ressecção completa. O caso da Figura 3 do artigo é descrito
como Knosp grau 3, exatamente por passar da margem lateral do sifão carotídeo.
⚠ hipófise aumentada de forma simétrica
Aumento simétrico da adeno-hipófise deve levantar causas não neoplásicas: hiperplasia hipofisária (falência de órgão-alvo, por exemplo hipotireoidismo), hipofisite linfocítica (periparto) ou hipofisite medicamentosa (imunoterapia com ativação de células T
(por exemplo no melanoma). Metástase e linfoma da adeno-hipófise também são possíveis, porém relativamente
raros. A decisão entre biópsia e observação depende do contexto clínico, incluindo alterações visuais ou
hormonais.
Cisto da bolsa de Rathke e craniofaringiomas
Cisto da bolsa de Rathke
Se a bolsa não se oblitera completamente, persiste um remanescente cístico na fenda entre a pars distalis e
a pars intermedia, ou na pars tuberalis: um cisto não neoplásico, selar ou suprasselar, na margem
anterior da neuro-hipófise ou do infundíbulo.
números
Em série de 1000 autópsias, encontrado incidentalmente em 11,3%, em todas as faixas etárias,
em geral medindo menos de 2 mm. Em RM de 232 hipófises pediátricas, cisto ou estrutura cística
incidental em quase 60%, com volume médio inferior a 19 mm³.
Cistos >10 mm têm maior chance de ser sintomáticos: cefaleia, alteração visual, disfunção endócrina.
Apresentação mais comum por volta dos 35 anos; tratamento por drenagem do cisto.
o achado que fecha o diagnósticoAusência de realce sólido ou nodular: sugere cisto não neoplásico em vez de neoplasia vascularizada.
O nódulo intracístico hipointenso em T2 é característico, mas não está presente em todos os casos.
Realce parietal, quando existe, é ausente ou fino (<2 mm).
Cisto da bolsa de Rathke sintomático
T1 sagital: lesão ovoide intra e suprasselar com leve hipersinal (seta), conteúdo proteico.T1 sagital pós-contraste: sem realce sólido ou nodular (seta), o que favorece cisto e não neoplasia.T2 coronal: leve compressão do quiasma e pequeno nódulo intracístico com hipossinal (seta), característico do cisto de Rathke, embora não apareça em todos.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 7. Ver artigo
Adamantinomatoso × papilífero
Adamantinomatoso (ACP)
Papilífero (PCP)
Frequência
90%
10%
Idade
Bimodal: crianças <18 anos e adultos de 40–60 anos
Quase sempre adulto
Morfologia
Lobulado e aderente às estruturas adjacentes; margens infiltrativas ou irregulares
Discreto, encapsulado, esférico e sólido
Cistos
Em >90%, frequentemente com fluido tipo “óleo de cárter” e cristais de colesterol
Ocasionais, com conteúdo menos proteináceo: T1 hipo e T2 hiperintenso
Calcificação
Na maioria dos casos pediátricos; ~40% dos adultos
Rara
Sinal em T1
Hiperintensidade intrínseca pelo conteúdo proteico
Sem essa característica
Histologia
Retículo estrelado central, epitélio em paliçada periférica e nódulos de “ghost cells” (queratina úmida): patognomônicos
Epitélio escamoso papilífero
Genética
Mutação de β-catenina (CTNNB1), com acúmulo nuclear e citoplasmático
BRAF V600E (mutação do oncogene BRAF no códon 600; anticorpo VE1)
Vasos
Pode englobar vasos subaracnóideos na cisterna suprasselar
Raro
os dois discriminadores práticosCalcificação tumoral e hiperintensidade intrínseca em T1 associam-se significativamente ao
subtipo adamantinomatoso. Componentes sólidos do papilífero mostram realce ávido, frequentemente
heterogêneo e com alto sinal em T2.
Craniofaringioma adamantinomatoso na criança
FLAIR (fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido) sagital: grande massa muito heterogênea na cisterna suprasselar (seta), apagando o terceiro ventrículo e o hipotálamo; hipófise normal embaixo.T1 axial: massa quase toda isointensa, com pequena bolsa de hipersinal à esquerda, líquido proteico (seta).T1 axial pós-contraste: tumor sólido-cístico, com realce central (seta) e cistos periféricos sem realce, incluindo o de líquido em óleo de motor.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 8. Ver artigo
Fig 9. Correlação histológica do craniofaringioma adamantinomatoso. · ver figura original
Craniofaringioma adamantinomatoso, mulher idosa
T2 coronal: grande massa cística da região selar estendendo-se ao lobo frontal direito, com nódulos na porção inferior (seta), acima de hipófise normal.T1 sagital pós-contraste: massa cístico-sólida com componente nodular que realça (seta). Massa suprasselar com cistos ou calcificações deve lembrar craniofaringioma adamantinomatoso.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 9. Ver artigo
TC axial: massa heterogênea e parcialmente cística na cisterna suprasselar, com pequenas calcificações periféricas (seta).T1 coronal pós-contraste: massa sólido-cística arredondada acima da hipófise normal (seta). Calcificação e localização favorecem craniofaringioma sobre adenoma.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 10. Ver artigo
Craniofaringioma papilífero, homem adulto jovem
T2 axial: massa suprasselar quase toda sólida com pequeno componente cístico periférico (seta), causando hidrocefalia.T1 sagital pós-contraste: componente sólido central que realça e cisto periférico sem realce, apagando o terceiro ventrículo (seta). Sem calcificação nem líquido proteico, no adulto, o subtipo papilífero é possível.
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 11. Ver artigo
Tumores da neuro-hipófise
A classificação da OMS de 2016 lista quatro entidades em “tumores da região selar” (os adenomas hipofisários são categorizados como tumores endócrinos, e não do SNC): craniofaringioma,
pituicitoma, tumor de células granulares e oncocitoma de células fusiformes.
Entidade
Localização e aspecto
Pituicitoma
Massa sólida com realce na neuro-hipófise ou no infundíbulo
Tumor de células granulares
Massa sólida com realce no infundíbulo
Oncocitoma de células fusiformes
Massa infiltrativa intrasselar-suprasselar
Os três expressam TTF-1 e são hoje considerados um possível espectro de uma mesma entidade, derivada
dos pituícitos.
Pituicitoma, homem idoso
TC axial: massa arredondada e homogênea na cisterna suprasselar, isoatenuante à substância cinzenta (seta), achado incidental.T1 sagital pós-contraste: massa sólida com realce homogêneo, centrada na haste hipofisária (seta).
Fonte: Shih RY, Schroeder JW, Koeller KK. RadioGraphics 2021;41(7):2029–2046, Fig. 12. Ver artigo
Carcinoma e blastoma hipofisários
carcinoma hipofisário
Raro: menos de 0,5% de todos os tumores hipofisários. Não há características de imagem que o
distingam do adenoma: o que define o diagnóstico é a presença de metástases extrasselares.
blastoma hipofisário
Neoplasia maligna primitiva rara, da hipófise anterior fetal. Lactente com síndrome de Cushing e massa
hipofisária deve levantar essa hipótese. Mais comum abaixo de 2 anos (idade mediana de
8 meses) e associado à síndrome DICER1, condição autossômica dominante com lesões
hamartomatosas, hiperplásicas ou neoplásicas em cabeça, pescoço, tórax e abdome.
Pontos de prova: alto rendimento
Origem embriológica
Só a neuro-hipófise vem do diencéfalo. A adeno-hipófise vem do ectoderma oral (bolsa de Rathke).
Frequência entre tumores do SNC
Segunda categoria histológica mais comum em todas as idades; a mais comum em adolescentes e adultos jovens.
Calcificação e hiperintensidade em T1 apontam para o adamantinomatoso.
Neuro-hipófise
Pituicitoma, tumor de células granulares e oncocitoma de células fusiformes: todos TTF-1 positivos.
Carcinoma hipofisário
<0,5%; o que define é a metástase extrasselar, não a imagem.
Blastoma hipofisário
Lactente <2 anos (mediana 8 meses) com Cushing; síndrome DICER1.
Armadilhas e erros comuns
Microadenoma
Não fazer sequência dinâmica quando há suspeita clínica: o realce do adenoma é tardio.
Considerar exame negativo como exclusão: a falha de localização chega a 9% na doença de Cushing.
Confundir variação normal de realce ou artefato de fluxo com lesão: atenção ao falso-positivo.
Esquecer a possibilidade de adenoma ectópico extrasselar em 10–15% da doença de Cushing.
Massas selares e suprasselares
Não medir a invasão do seio cavernoso nem citar Knosp: é o dado que o cirurgião usa.
Chamar de adenoma um aumento simétrico da glândula: pense em hipofisite, sobretudo em imunoterapia ou periparto.
Não procurar calcificação na TC diante de massa suprasselar: é o que separa ACP de PCP.
Interpretar cisto com conteúdo proteináceo como neoplasia: procure realce sólido antes.
Esquecer que craniofaringioma adamantinomatoso pode englobar vasos da cisterna suprasselar.
Não considerar blastoma diante de lactente com Cushing.
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Homem de 52 anos com cefaleia e defeito campimétrico bitemporal. A RM mostra massa selar com extensão suprasselar e invasão do seio cavernoso, medindo 43 mm. Qual a classificação correta quanto ao tamanho?
A classificação é puramente dimensional: abaixo de 10 mm é microadenoma, ≥10 mm é macroadenoma e ≥40 mm é adenoma gigante, sem exigência de invasão ou de função hormonal. Um tumor de 43 mm é, portanto, um macroadenoma gigante. Para situar o tema: os tumores primários da hipófise são a segunda categoria histológica mais comum entre os tumores primários do SNC em todas as idades, e a mais comum em adolescentes e adultos jovens.
Mulher de 28 anos com galactorreia e amenorreia secundária; prolactina de 180 ng/mL. A RM hipofisária com cortes finos coronais e sagitais mostra apenas sutil área hipocaptante na porção lateral posterior da glândula. Qual a conduta de protocolo correta?
O adenoma hipofisário tem realce e washout tardios em relação à glândula normal: por isso a sequência dinâmica pós-contraste adicional acentua o diferencial e delineia o tumor, especialmente na suspeita clínica de microadenoma. O microadenoma lactotrofo é típico da porção lateral e posterior da adeno-hipófise em mulheres jovens (pico entre 20 e 40 anos), e prolactina de 100–250 ng/mL é típica de microadenoma. Descartar o caso como artefato de fluxo é o falso-positivo clássico, e considerar exame negativo como exclusão também é armadilha.
Mulher de 31 anos com acromegalia confirmada laboratorialmente. A RM mostra macroadenoma hiperintenso em T2 com extensão suprasselar e invasão do seio cavernoso. Qual subtipo e comportamento esperado?
O sinal em T2 do componente sólido orienta o subtipo: o SGSA tende a macroadenoma em mulheres jovens, é mais hiperintenso em T2 e mostra invasão suprasselar ou do seio cavernoso. O DGSA é o espelho: tende a microadenoma em adultos mais velhos, é mais hipointenso em T2, é a causa mais comum de acromegalia e responde melhor aos análogos de somatostatina. O somatotropinoma responde por mais de 95% dos casos de gigantismo ou acromegalia, e a cirurgia é curativa em até 90% dos microadenomas contra apenas 50% dos macroadenomas. O mamossomatotrofo cossecreta GH e prolactina: acromegalia com amenorreia e galactorreia, sem relação obrigatória com tamanho.
Homem de 57 anos com macroadenoma em acompanhamento, em uso de varfarina, evolui com cefaleia súbita e intensa, oftalmoplegia e perda visual. Sobre a apoplexia hipofisária, qual afirmativa está correta?
A apoplexia é infarto ou hemorragia aguda dentro da glândula, mais comum em macroadenomas preexistentes; o quadro agudo de cefaleia intensa, perda visual, oftalmoplegia ou disfunção endócrina reflete a expansão tumoral súbita. Os fatores predisponentes descritos são hipertensão, gestação, cirurgia de grande porte, hipotensão, terapia com agonista dopaminérgico e anticoagulação. Note que hipertensão e hipotensão figuram juntas na lista, e o agonista dopaminérgico é gatilho, não proteção.
Homem idoso com cefaleia episódica. RM: lesão intrasselar-suprasselar com discreta hiperintensidade em T1 (conteúdo proteináceo) e nódulo intracístico hipointenso em T2. Qual achado consolida o diagnóstico de cisto da bolsa de Rathke?
O achado que fecha o diagnóstico é a ausência de realce sólido ou nodular, que sugere cisto não neoplásico em vez de neoplasia vascularizada; o realce parietal, quando existe, é ausente ou fino, menor que 2 mm. O nódulo intracístico hipointenso em T2 é característico, mas não está presente em todos os casos. Cistos maiores que 10 mm têm maior chance de ser sintomáticos (cefaleia, alteração visual, disfunção endócrina) e o achado é incidental em 11,3% de uma série de 1000 autópsias. Diante de massa suprasselar, procure calcificação na TC: é o que separa o craniofaringioma adamantinomatoso do papilífero.
No laudo de um macroadenoma com extensão lateral, além do contorno expandido, do desvio do infundíbulo, da relação com o quiasma e nervos ópticos e da erosão da margem selar, você mede a invasão do seio cavernoso. Por que o grau de Knosp entra no laudo?
As classificações de Hardy e Knosp quantificam o grau de invasão selar e parasselar e entram no laudo porque orientam o planejamento cirúrgico. O Knosp gradua a invasão do seio cavernoso pela relação do tumor com as linhas que unem os contornos das porções intra e supracavernosas da carótida interna: quanto mais lateralmente o tumor ultrapassa essas linhas, maior o grau, e menor a chance de ressecção completa; passar da margem lateral do sifão carotídeo corresponde ao grau 3, como no caso da Figura 3 do artigo. A invasão local não define carcinoma: ele é menos de 0,5% dos tumores hipofisários e o que o define são as metástases extrasselares.