Fonte: Prabhakaran et al., Stroke 2026: a diretriz AHA/ASA de manejo agudo
O que mudou em 2026
A diretriz da American Heart Association (AHA) e da American Stroke Association (ASA)
cobre do pré-hospitalar à reabilitação; aqui fica o que passa pelas mãos do radiologista no
plantão: quais exames, em quanto tempo, o que precisa estar no laudo e como cada achado muda
a conduta.
como ler as classesCOR (classe de recomendação): 1 = recomendado (benefício claro) · 2a =
razoável · 2b = pode ser considerado · 3: No Benefit = não recomendado ·
3: Harm = danoso. O nível de evidência: LOE (A, B-R (randomizado), B-NR (não randomizado), C-LD (dados limitados)); aparece ao lado
quando relevante.
Tema
Mudança
Trombolítico
Tenecteplase ou alteplase: a diretriz endossa os dois na janela de 4,5 h. TNK (tenecteplase) 0,25 mg/kg (máx. 25 mg) em bolus; alteplase 0,9 mg/kg
Trombólise rápida
Tratar déficit incapacitante independentemente do NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale) dentro de 4,5 h, sem exigir imagem avançada de seleção
Déficit não incapacitante
Ensaios não demonstraram benefício da trombólise (ex.: síndrome sensitiva isolada)
Janela estendida de trombólise
Seleção por imagem avançada: DWI-FLAIR (imagem ponderada em difusão e fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido) mismatch ou mismatch de perfusão: em despertar ou 4,5–9 h
Core grande
EVT (trombectomia endovascular) agora recomendada em ASPECTS (Alberta Stroke Program Early CT Score) 3–5 (e razoável em 0–2, com ressalvas)
Basilar
Recomendação forte de EVT em até 24 h com NIHSS ≥ 10
Pediatria
Pela primeira vez há recomendações de tratamento intervencionista em crianças
Pressão arterial
Redução intensiva da PAS (pressão arterial sistólica) para < 140 mmHg não melhora desfecho após trombólise e é danosa após EVT com recanalização (mTICI (modified Thrombolysis in Cerebral Infarction: escala de reperfusão na angiografia) 2b/2c/3): COR 3: Harm
Glicemia
Controle intensivo para 80–130 mg/dL não é recomendado, sem benefício e com hipoglicemia grave
Unidades móveis
Recomendações sobre unidades móveis de AVC e sobre transporte direto ao hospital com EVT quando não há transferência inter-hospitalar eficiente
A jornada do paciente, e as quatro estações da unidade de AVC organizada, o tratamento
que todo paciente recebe, com ou sem reperfusão.
Imagem inicial: o que o radiologista precisa entregar
meta de tempo
Protocolos institucionais devem permitir que a imagem cerebral de emergência seja
feita o mais rapidamente possível: a diretriz cita 25 minutos como referência da
porta à imagem (COR 1, LOE B-NR).
A imagem inicial tem duas tarefas, e ambas precedem qualquer reperfusão
(COR 1, LOE A): excluir hemorragia intracraniana e estimar a carga
isquêmica, que na prática é calcular o ASPECTS.
As regiões dos dois escores sobre uma TC de crânio do atlas do QRad. Os contornos
saem da segmentação do próprio exame; a cápsula interna e os territórios M1 a M6 são esquemáticos,
como a convenção do escore os define. No ASPECTS cada região alterada tira 1 ponto dos 10; no
PC-ASPECTS (ASPECTS da circulação posterior), mesencéfalo e ponte tiram 2 cada.
ASPECTS em uma linha
Escore de 10 pontos para o território da ACM (artéria cerebral média): subtrai-se 1 ponto por região com
alteração isquêmica precoce, em dois níveis axiais: gânglios da base (caudado,
putame, cápsula interna, ínsula, M1, M2, M3) e coroa radiada (M4, M5, M6). Dez =
normal.
No PC-ASPECTS, tálamos e occipitais valem 1 ponto cada, mesencéfalo e ponte
2 pontos cada, hemisférios cerebelares 1 ponto cada.
imagem vascular
Na suspeita de AVC com oclusão de grande vaso (LVO) em até 24 h do último momento
assintomático, TC/angio-TC ou RM/angio-RM dos vasos cervicais e intracranianos devem
ser feitas o mais rápido possível para seleção e planejamento da EVT (COR 1, LOE
A).
Não atrasar a angio-TC nem a perfusão para aguardar a creatinina sérica
(COR 1, LOE B-NR).
Na janela de 4,5 h, o trombolítico não deve esperar por imagem multimodal adicional
(angio-TC/RM, perfusão): COR 1.
+ complemento
Essa é a recomendação com maior impacto na rotina do plantão de radiologia: a angio-TC
não espera creatinina e a trombólise não espera a angio-TC. O risco renal do contraste
iodado nesse cenário foi considerado menor que o custo do atraso: coerente com o que o
manual do ACR (American College of Radiology) conclui sobre nefrotoxicidade (ver caderno 01).
pediatria: novidade de 2026
Suspeita de AVC isquêmico na criança: RM/angio-RM cervical e intracraniana é
razoável para identificar LVO e diferenciar AVC arterial de hemorragia e de imitadores
(COR 2a, C-LD). Se a RM não estiver disponível em até 25 minutos,
TC/angio-TC é razoável, com estratégias pediátricas de redução de dose
(COR 2a, C-LD).
Janela estendida: quando a imagem decide o tratamento
Fora da janela de 4,5 h, ou quando o horário de início é desconhecido, a imagem deixa de
ser apenas diagnóstica e passa a ser critério de elegibilidade.
Cenário
Seleção por imagem
Classe
Desperta com sintomas ou início desconhecido, > 4,5 h
DWI-FLAIR mismatch: lesão visível na difusão sem alteração correspondente no FLAIR
2a · B-R
Desperta ou início desconhecido, 4,5–24 h
CTP (perfusão por TC) ou DWI-PWI (difusão e perfusão por RM) com pós-processamento automatizado
2a · B-R
Desperta em até 9 h do ponto médio do sono, ou 4,5–9 h do último momento assintomático
Penumbra salvável em perfusão automatizada
2a
DWI-FLAIR mismatch: a lógica
A restrição à difusão aparece em minutos; o hipersinal no FLAIR leva cerca de
4,5 horas para surgir. Lesão brilhante na DWI e ainda invisível no FLAIR funciona como
um relógio biológico: o AVC provavelmente está dentro da janela terapêutica, mesmo sem
horário conhecido.
A difusão positiva em minutos e o FLAIR só por volta de 4,5 h: é essa defasagem que
transforma o par de sequências em relógio. Difusão positiva com FLAIR normal sugere AVC dentro da
janela, mesmo sem horário conhecido; os dois positivos tiram o paciente do critério.
Ensaio
Critério de imagem
WAKE-UP · THAWS
DWI/FLAIR mismatch: sinal anormal na DWI e sem alteração visível no FLAIR na região do AVC agudo
EPITHET
PWI/DWI mismatch: razão de volumes > 1,2 e PWI−DWI ≥ 10 mL (PWI definido por Tmax > 2 s)
ECASS-4
PWI/DWI mismatch: razão ≥ 1,2 e PWI ≥ 20 mL
EXTEND
Razão penumbra/core > 1,2 · penumbra−core > 10 mL · core < 70 mL
TIMELESS · TRACE-3
Razão penumbra/core > 1,8 · penumbra > 15 mL · core < 70 mL
+ complemento · definições que se repetem
Em todos esses estudos, o core é definido como a região com fluxo sanguíneo
cerebral < 30% do normal na CTP (ou o volume da lesão na DWI), e a penumbra como o
tecido com Tmax > 6 s, com exceção do EPITHET, que usou Tmax > 2 s. Guarde o
par “CBF (fluxo sanguíneo cerebral) < 30% / Tmax > 6 s”: é o vocabulário padrão
dos softwares automatizados.
Core e penumbra são volumes, e o que os ensaios pedem é a relação entre eles. Guarde o
par CBF < 30% e Tmax > 6 s: é o vocabulário dos softwares automatizados, e os cortes mudam de
ensaio para ensaio.
Trombólise intravenosa
agente e dose
Dentro de 4,5 h do início ou do último momento assintomático, tenecteplase
0,25 mg/kg (máximo 25 mg) ou alteplase 0,9 mg/kg (COR 1).
A diretriz organiza a elegibilidade em três blocos, e, para o radiologista, o que mais
importa é o primeiro item do bloco das absolutas: hipodensidade extensa na TC é
contraindicação absoluta. As tabelas abaixo condensam as três listas da diretriz.
O benefício geralmente SUPERA o risco
Leitura da diretriz
Dissecção cervical extracraniana
Razoavelmente segura em até 4,5 h: provavelmente recomendada
Risco baixo (hemorragia pós-trombólise em imitadores: ~0,5%); na incerteza, sem contraindicação absoluta, trate
Moyamoya
Sem aumento aparente de hemorragia: benefício provavelmente supera
Contraindicações relativas
Leitura da diretriz
Incapacidade ou fragilidade prévia
Benefício incerto: individualizar
DOAC (anticoagulante oral direto) nas últimas 48 h
Segurança desconhecida; dados observacionais emergentes permitem considerar após análise individual: tempo da última dose, função renal, gravidade, disponibilidade de EVT, reversores e ensaios específicos
AVC isquêmico nos últimos 3 meses
Risco de hemorragia aumentado: pesar tempo e tamanho do infarto prévio
Hemorragia intracraniana prévia
Risco maior; angiopatia amiloide pesa mais que hemorragia de causa modificável (hipertensão, coagulopatia corrigida)
Trauma grave não craniano (14 dias–3 meses)
Risco de hemorragia sistêmica: individualizar com a cirurgia
Cirurgia de grande porte ≤ 10 dias
Individualizar com a equipe cirúrgica
Sangramento digestivo/urinário ≤ 21 dias
Individualizar; confirmar se a fonte foi tratada
Dissecção arterial intracraniana
Segurança desconhecida
Malformação vascular intracraniana não tratada
Segurança desconhecida
Infarto com supra de ST ≤ 3 meses
Com a cardiologia; muito recente: risco de hemopericárdio
Pode ser considerada: tipo e gravidade do trauma, com a neurocirurgia
Neurocirurgia craniana/espinhal (14 dias–3 meses)
Individualizar com a neurocirurgia
Contraindicações absolutas
Leitura da diretriz
TC com hipodensidade extensa
Hipodensidade NÍTIDA que explique o quadro (mais hipodensa que a substância branca contralateral) veta a trombólise
Hemorragia intracraniana aguda na TC
Veta
TCE moderado/grave < 14 dias
Inconsciência > 30 min, Glasgow < 13 OU hemorragia/contusão/fratura na imagem
Neurocirurgia craniana/espinhal < 14 dias
Potencialmente danosa: não administrar
Trauma raquimedular < 3 meses
Provavelmente contraindicada
Neoplasia intracraniana intra-axial
Potencialmente danosa: não administrar
Endocardite infecciosa
Não administrar
Coagulopatia grave / plaquetopenia
Plaquetas < 100.000/mm³ · INR (razão normalizada internacional) > 1,7 · TTPa (tempo de tromboplastina parcial ativada) > 40 s · TP (tempo de protrombina) > 15 s. Sem uso recente de varfarina/heparina, pode-se INICIAR antes dos resultados, e suspender se vierem anormais
⚠ o item radiológico
A trombólise não deve ser administrada quando a imagem mostra regiões de
hipodensidade nítida que pareçam responsáveis pelo quadro clínico: “nítida” = mais
hipodensa que a substância branca contralateral. Traduzindo para o laudo: descrever a
extensão da hipodensidade não é detalhe estético, é o que sustenta uma contraindicação
absoluta. Hipodensidade franca também deve fazer revisitar o horário de início: pode
não ser um AVC de 4,5 h.
O que veta o trombolítico é a hipodensidade nítida, definida por comparação com a
substância branca contralateral e em topografia que explique o déficit. Alteração precoce leve ou
moderada não contraindica. Na trombectomia, o limiar exploratório do SELECT2 quantifica o que antes
era só impressão visual.
+ complemento · decisões vizinhas que caem juntoAlterações isquêmicas precoces leves/moderadas não contraindicam (COR 1, do NINDS (National Institute of Neurological Disorders and Stroke)).
Micro-hemorragias: não se pede RM para procurá-las antes de trombolisar (COR 1); com
1–10 conhecidas, tratar é razoável (2a); com > 10, a utilidade é incerta (2b).
Antiagregação prévia (simples ou dupla) não contraindica: o acréscimo de risco (0,9 e
1,2%) é menor que o benefício esperado (~8%).
Glicemia: medir antes da trombólise; se o déficit persistir após corrigir hipo ou
hiperglicemia grave, tratar (COR 1).
Trombectomia endovascular
A elegibilidade do adulto num quadro: oclusão + janela + imagem + estado prévio → classe
de recomendação. Na criança, LVO com tecido salvável tem EVT razoável (2a) de 0–24 h entre
6–17 anos e considerável (2b) de 28 dias a 5 anos.
o conceito que mudou
“Core” passou a ser lido com mais cautela: hipodensidade na TC sem contraste, alteração na
DWI ou queda do CBF são preditores de infarto, e não sinônimos de tecido
irreversivelmente perdido. Foi essa releitura que abriu a EVT para ASPECTS baixos.
+ complemento · o limiar do SELECT2
Em análise exploratória do SELECT2, hipodensidade grave ≥ 26 mL (definida como
densidade ≤ 26 UH (unidades Hounsfield), o limite inferior do IC (intervalo de confiança) 99% do tálamo contralateral) associou-se a
ausência de benefício da EVT e a mais complicações: edema cerebral e necessidade de
hemicraniectomia. É um número novo e útil para quantificar o que antes era só impressão
visual.
⚠ magnitude do efeito no core grande
Nos ensaios de core grande, 19,5% dos pacientes tratados alcançaram independência
funcional, contra 7,5% no tratamento clínico: mais que o dobro, mas bem abaixo dos
~50% dos ensaios iniciais com core pequeno. NNT (número necessário para tratar) de 8.
Em DAWN e DEFUSE-3, com core pequeno e penumbra grande, o NNT foi de 2,8 e
3,6. A seleção por imagem continua sendo o que separa um NNT de 3 de um NNT de 8.
Depois da reperfusão
COR 3: Harm
Em AVC por LVO da circulação anterior recanalizado com sucesso (mTICI 2b, 2c ou 3),
sem outra indicação para alvo pressórico, a redução intensiva da PAS para < 140 mmHg
nas primeiras 72 h é danosa e não deve ser feita.
A faixa 2b, 2c e 3 é o que a diretriz chama de recanalização bem-sucedida, e é ela que
aciona a recomendação de não baixar a pressão de forma intensiva nas primeiras 72 h.
COR 3: No Benefit
Insulina IV (intravenosa) para manter glicemia entre 80 e 130 mg/dL não melhora o desfecho
funcional em 3 meses, e aumenta o risco de hipoglicemia grave.
Antiagregação dupla (DAPT): no AVC não cardioembólico que não recebeu trombólise,
o par clopidogrel + AAS (ácido acetilsalicílico) substitui a monoterapia por um período curto, guiado pelos ensaios:
Cenário
Esquema
Classe · ensaio
AVC menor (NIHSS ≤ 3) ou AIT (ataque isquêmico transitório) de alto risco (ABCD2 (escore de idade, pressão arterial, clínica, duração e diabetes) ≥ 4), ≤ 24 h
Clopidogrel + AAS por 21–90 dias, depois monoterapia
1 · CHANCE, POINT
Mesmo cenário, alternativa
Ticagrelor + AAS por 30 dias
2b · THALES
Portador de perda de função do CYP2C19 (enzima hepática que ativa o clopidogrel)
Ticagrelor + AAS por 21 dias
2b · CHANCE-2
NIHSS 4–5, ≤ 24 h
Clopidogrel + AAS por 21 dias (aterosclerose presumida)
2a · INSPIRES
24–72 h, NIHSS ≤ 5 ou ABCD2 ≥ 4, com aterosclerose ≥ 50%
Clopidogrel + AAS por 21 dias
2a · INSPIRES
Fora desses cenários
Antiagregação simples
+ complemento
Note o papel da imagem nesse critério: quem define “causa presumidamente aterosclerótica”
é o achado de estenose ≥ 50% na angio-TC/RM ou o padrão dos infartos na
difusão. O laudo entra diretamente na decisão de antiagregar em dose dupla: mais uma razão
para quantificar a estenose (ver caderno 04).
Pontos de prova: alto rendimento
Meta porta-imagem
25 minutos para a imagem cerebral de emergência
As duas tarefas da TC inicial
Excluir hemorragia e estimar a carga isquêmica pelo ASPECTS, antes de qualquer reperfusão
ASPECTS
10 pontos, território da ACM, dois níveis: gânglios da base (caudado, putame, cápsula interna, ínsula, M1–M3) e coroa radiada (M4–M6)
PC-ASPECTS
Tálamos e occipitais 1 ponto cada; mesencéfalo e ponte 2 pontos cada; cerebelo 1 ponto cada
Creatinina
Não atrasa angio-TC nem perfusão
Imagem multimodal na janela de 4,5 h
Não deve atrasar a trombólise
Trombolítico
Tenecteplase 0,25 mg/kg (máx. 25 mg) ou alteplase 0,9 mg/kg, até 4,5 h
Déficit não incapacitante
Sem benefício demonstrado da trombólise
DWI-FLAIR mismatch
DWI positiva com FLAIR normal ≈ AVC com menos de 4,5 h: seleciona para trombólise em início desconhecido
Alvo 80–130 mg/dL com insulina IV não é recomendado
DAPT
AVC menor/AIT de alto risco com aterosclerose (estenose ≥ 50%): clopidogrel + AAS por 21 dias
Armadilhas e erros comuns
Na sala de exame
Aguardar creatinina antes da angio-TC, quando a diretriz é explícita em não atrasar
Completar perfusão e angio-TC antes de liberar a trombólise em paciente dentro de 4,5 h
Não reconstruir a angio-TC até os vasos cervicais: a origem do trombo e a dissecção ficam fora do campo
Esquecer o PC-ASPECTS quando a suspeita é de basilar: a pontuação não é a do ASPECTS da circulação anterior
Não olhar difusão e FLAIR no mesmo paciente de início desconhecido: o mismatch é o critério
No laudo
Descrever “sinais precoces de isquemia” sem quantificar o ASPECTS: o número é o que entra no critério
Não registrar a extensão da hipodensidade: é contraindicação absoluta à trombólise
Confundir core previsto com tecido perdido: hipodensidade, DWI e CBF são preditores, não sentença
Não mencionar efeito de massa significativo, critério explícito na janela de 6–24 h
Deixar de quantificar estenose ≥ 50% cervical ou intracraniana, que define a DAPT
Perfusão sem indicar o software e os limiares usados: os critérios dos ensaios são software-dependentes
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Plantão na sala vermelha: homem de 68 anos, déficit hemisférico direito há 2 horas, TC sem hemorragia, ASPECTS 9. A equipe decide trombólise e pergunta qual agente usar, já que a farmácia dispõe de tenecteplase e alteplase. Pela diretriz AHA/ASA 2026, o que está correto?
A diretriz endossa os dois trombolíticos na janela de 4,5 h (COR 1): tenecteplase 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em bolus ou alteplase 0,9 mg/kg. A novidade de 2026 foi justamente tirar a tenecteplase do papel de coadjuvante: ela vale na mesma janela e na mesma classe de recomendação. A alternativa que exige perfusão prévia inverte a lógica da diretriz: dentro de 4,5 h, a trombólise não deve esperar imagem multimodal adicional, e o déficit incapacitante se trata dentro da janela sem exigir seleção avançada.
Mulher de 74 anos com tetraparesia e rebaixamento do nível de consciência há 1 hora. A TC de crânio exclui hemorragia e a angio-TC mostra oclusão da basilar. Antes de liberar o laudo, você calcula o PC-ASPECTS. Qual é a pontuação correta das estruturas nesse escore?
No PC-ASPECTS, tálamos e occipitais valem 1 ponto cada, mesencéfalo e ponte 2 pontos cada e hemisférios cerebelares 1 ponto cada: a pontuação é diferente da do ASPECTS da circulação anterior, e esquecê-la é armadilha clássica quando a suspeita é de basilar. O escore importa de verdade na conduta: a EVT de basilar até 24 h exige PC-ASPECTS ≥6, junto com mRS prévio 0–1 e NIHSS ≥10. Reutilizar a lógica do ASPECTS da circulação anterior (10 pontos em dois níveis axiais) é o erro conceitual mais comum.
Homem de 66 anos acordou com hemiparesia esquerda há 40 minutos; o último momento assintomático foi ao deitar, 8 horas antes. RM mostra lesão restrita na DWI no território da ACM direita, sem alteração correspondente no FLAIR. Por que esse achado funciona como critério de elegibilidade para trombólise?
A lógica é temporal: a restrição à difusão aparece em minutos, enquanto o hipersinal no FLAIR leva cerca de 4,5 horas para surgir. Lesão visível na DWI e ainda invisível no FLAIR indica que o infarto provavelmente tem menos de 4,5 h: o DWI-FLAIR mismatch é critério de seleção para trombólise em pacientes que despertam com sintomas ou com início desconhecido (COR 2a, B-R). As alternativas que falam em sequela antiga ou reperfusão invertem a semiologia: na sequela, DWI e FLAIR são ambos positivos; e na janela de 4,5–24 h com início desconhecido, a seleção também pode ser por CTP ou DWI-PWI com pós-processamento automatizado.
Chega à sala vermelha um paciente de 71 anos com déficit hemisférico há 3h10min do último momento assintomático. Na TC sem contraste, você identifica região extensa de hipodensidade nítida no território da ACM esquerda, topografia que explica o quadro clínico. A equipe clínica pergunta se pode liberar o trombolítico. Qual a resposta pela diretriz?
O item radiológico do bloco de contraindicações absolutas é literal: a trombólise não deve ser administrada quando a TC mostra regiões de hipodensidade nítida que pareçam responsáveis pelo quadro clínico. Traduzindo para o plantão: descrever a extensão da hipodensidade não é detalhe estético, é o que sustenta uma contraindicação absoluta. A alternativa da penumbra é a tentadora: imagem avançada pode selecionar para trombectomia em core grande, mas não anula a contraindicação absoluta ao trombolítico.
Paciente de 76 anos, mRS prévio 0, NIHSS 17, oclusão de M1 à esquerda confirmada na angio-TC, último momento assintomático há 14 horas. TC sem contraste mostra ASPECTS 4, sem efeito de massa significativo. Pela diretriz AHA/ASA 2026, a trombectomia endovascular está indicada?
Na janela de 6–24 h, a EVT tem COR 1 em LVO anterior com idade <80 anos, NIHSS ≥6, mRS prévio 0–1, ASPECTS 3–5 e sem efeito de massa significativo: o paciente preenche todos os critérios. Essa é exatamente a mudança de 2026: a EVT agora é recomendada em ASPECTS 3–5 (e apenas razoável, COR 2a, em ASPECTS 0–2, com ressalvas), porque hipodensidade, DWI e queda do CBF são preditores de infarto, não sinônimos de tecido irreversivelmente perdido. O critério imagem-avançada do DAWN citado num distrator pertence à era anterior, não a esta diretriz.
Após trombectomia com recanalização bem-sucedida (mTICI 2b) de oclusão de M1, a equipe intensivista propõe iniciar infusão de nicardipina para manter a PAS <140 mmHg nas primeiras 72 horas, sem outra indicação pressórica. O que a diretriz AHA/ASA 2026 orienta?
Em AVC por LVO da circulação anterior recanalizado com sucesso (mTICI 2b, 2c ou 3), sem outra indicação para alvo pressórico, a redução intensiva da PAS para <140 mmHg nas primeiras 72 h é danosa e não deve ser feita: COR 3: Harm. É um dos pontos que mudaram em 2026 e cai em prova exatamente nesse detalhe do mTICI. A mesma lógica vale para a glicemia: controle intensivo para 80–130 mg/dL com insulina IV é COR 3: No Benefit, sem melhora do desfecho funcional em 3 meses e com risco de hipoglicemia grave.
Fonte: Prabhakaran S, Gonzalez NR, Zachrison KS, et al. 2026 Guideline
for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline From the
American Heart Association/American Stroke Association. Stroke 2026;57(8).
doi:10.1161/STR.0000000000000513. Conferido em 01/09/2026.
As tabelas de elegibilidade foram traduzidas e condensadas das tabelas da
diretriz. Os blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, voltados à
prova e ao plantão: a mecânica do DWI-FLAIR mismatch, o vocabulário de perfusão e o
limiar de hipodensidade do SELECT2.
Aviso: Este é material de estudo. Doses, janelas e critérios foram transcritos da
diretriz, mas a referência para uso assistencial é o documento original e o protocolo
institucional do seu serviço. A diretriz é norte-americana; alguns fluxos assistenciais não
correspondem à realidade brasileira.