Cadernos QRad 05 · AVC Isquêmico: Diretriz AHA/ASA 2026
Neurorradiologia · Emergência

AVC Isquêmico: Diretriz AHA/ASA 2026

Fonte: Prabhakaran et al., Stroke 2026: a diretriz AHA/ASA de manejo agudo

O que mudou em 2026

A diretriz da American Heart Association (AHA) e da American Stroke Association (ASA) cobre do pré-hospitalar à reabilitação; aqui fica o que passa pelas mãos do radiologista no plantão: quais exames, em quanto tempo, o que precisa estar no laudo e como cada achado muda a conduta.

como ler as classes COR (classe de recomendação): 1 = recomendado (benefício claro) · 2a = razoável · 2b = pode ser considerado · 3: No Benefit = não recomendado · 3: Harm = danoso. O nível de evidência: LOE (A, B-R (randomizado), B-NR (não randomizado), C-LD (dados limitados)); aparece ao lado quando relevante.
TemaMudança
TrombolíticoTenecteplase ou alteplase: a diretriz endossa os dois na janela de 4,5 h. TNK (tenecteplase) 0,25 mg/kg (máx. 25 mg) em bolus; alteplase 0,9 mg/kg
Trombólise rápidaTratar déficit incapacitante independentemente do NIHSS (National Institutes of Health Stroke Scale) dentro de 4,5 h, sem exigir imagem avançada de seleção
Déficit não incapacitanteEnsaios não demonstraram benefício da trombólise (ex.: síndrome sensitiva isolada)
Janela estendida de trombóliseSeleção por imagem avançada: DWI-FLAIR (imagem ponderada em difusão e fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido) mismatch ou mismatch de perfusão: em despertar ou 4,5–9 h
Core grandeEVT (trombectomia endovascular) agora recomendada em ASPECTS (Alberta Stroke Program Early CT Score) 3–5 (e razoável em 0–2, com ressalvas)
BasilarRecomendação forte de EVT em até 24 h com NIHSS ≥ 10
PediatriaPela primeira vez há recomendações de tratamento intervencionista em crianças
Pressão arterialRedução intensiva da PAS (pressão arterial sistólica) para < 140 mmHg não melhora desfecho após trombólise e é danosa após EVT com recanalização (mTICI (modified Thrombolysis in Cerebral Infarction: escala de reperfusão na angiografia) 2b/2c/3): COR 3: Harm
GlicemiaControle intensivo para 80–130 mg/dL não é recomendado, sem benefício e com hipoglicemia grave
Unidades móveisRecomendações sobre unidades móveis de AVC e sobre transporte direto ao hospital com EVT quando não há transferência inter-hospitalar eficiente
A JORNADA: E ONDE O RELÓGIO APERTA pré-hospitalar reconhecimento, triagem e destino certo; unidade móvel onde existe porta → imagem ≤ 25 minutos excluir hemorragia + ASPECTS reperfusão trombólise ≤ 4,5 h (estendida por imagem) EVT até 24 h unidade de AVC o tratamento que TODO paciente recebe: as 4 estações abaixo prevenção secundária antiagregação · estatina · etiologia AS 4 ESTAÇÕES DA UNIDADE DE AVC ORGANIZADA 1 · avaliação e monitorização diagnóstico e mecanismo por equipe especializada; enfermagem com treinamento contínuo em AVC 2 · manejo clínico: os 5 primeiros dias protocolos padronizados; complicações guiadas por diretriz; time multidisciplinar com reuniões semanais 3 · reabilitação precoce metas e início precoces: fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia integradas à equipe 4 · planejamento de alta necessidades avaliadas cedo; paciente e cuidadores educados; seguimento coordenado
A jornada do paciente, e as quatro estações da unidade de AVC organizada, o tratamento que todo paciente recebe, com ou sem reperfusão.

Imagem inicial: o que o radiologista precisa entregar

meta de tempo Protocolos institucionais devem permitir que a imagem cerebral de emergência seja feita o mais rapidamente possível: a diretriz cita 25 minutos como referência da porta à imagem (COR 1, LOE B-NR).

A imagem inicial tem duas tarefas, e ambas precedem qualquer reperfusão (COR 1, LOE A): excluir hemorragia intracraniana e estimar a carga isquêmica, que na prática é calcular o ASPECTS.

ASPECTS · CIRCULAÇÃO ANTERIOR IC C L I M1 M2 M3 nível dos gânglios da base M4 M5 M6 nível da coroa radiada PC-ASPECTS · CIRCULAÇÃO POSTERIOR ponte ×2 cbl cbl ponte e cerebelos mes ×2 occ occ mesencéfalo e occipitais tál tál tálamos C caudado L lentiforme IC cápsula interna I ínsula M1–M6 córtex da ACM, nos dois níveis ×2 mesencéfalo e ponte valem 2 pontos cada
As regiões dos dois escores sobre uma TC de crânio do atlas do QRad. Os contornos saem da segmentação do próprio exame; a cápsula interna e os territórios M1 a M6 são esquemáticos, como a convenção do escore os define. No ASPECTS cada região alterada tira 1 ponto dos 10; no PC-ASPECTS (ASPECTS da circulação posterior), mesencéfalo e ponte tiram 2 cada.
ASPECTS em uma linha Escore de 10 pontos para o território da ACM (artéria cerebral média): subtrai-se 1 ponto por região com alteração isquêmica precoce, em dois níveis axiais: gânglios da base (caudado, putame, cápsula interna, ínsula, M1, M2, M3) e coroa radiada (M4, M5, M6). Dez = normal.

No PC-ASPECTS, tálamos e occipitais valem 1 ponto cada, mesencéfalo e ponte 2 pontos cada, hemisférios cerebelares 1 ponto cada.
imagem vascular Na suspeita de AVC com oclusão de grande vaso (LVO) em até 24 h do último momento assintomático, TC/angio-TC ou RM/angio-RM dos vasos cervicais e intracranianos devem ser feitas o mais rápido possível para seleção e planejamento da EVT (COR 1, LOE A).

Não atrasar a angio-TC nem a perfusão para aguardar a creatinina sérica (COR 1, LOE B-NR).

Na janela de 4,5 h, o trombolítico não deve esperar por imagem multimodal adicional (angio-TC/RM, perfusão): COR 1.
+ complemento Essa é a recomendação com maior impacto na rotina do plantão de radiologia: a angio-TC não espera creatinina e a trombólise não espera a angio-TC. O risco renal do contraste iodado nesse cenário foi considerado menor que o custo do atraso: coerente com o que o manual do ACR (American College of Radiology) conclui sobre nefrotoxicidade (ver caderno 01).
pediatria: novidade de 2026 Suspeita de AVC isquêmico na criança: RM/angio-RM cervical e intracraniana é razoável para identificar LVO e diferenciar AVC arterial de hemorragia e de imitadores (COR 2a, C-LD). Se a RM não estiver disponível em até 25 minutos, TC/angio-TC é razoável, com estratégias pediátricas de redução de dose (COR 2a, C-LD).

Janela estendida: quando a imagem decide o tratamento

Fora da janela de 4,5 h, ou quando o horário de início é desconhecido, a imagem deixa de ser apenas diagnóstica e passa a ser critério de elegibilidade.

CenárioSeleção por imagemClasse
Desperta com sintomas ou início desconhecido, > 4,5 hDWI-FLAIR mismatch: lesão visível na difusão sem alteração correspondente no FLAIR2a · B-R
Desperta ou início desconhecido, 4,5–24 hCTP (perfusão por TC) ou DWI-PWI (difusão e perfusão por RM) com pós-processamento automatizado2a · B-R
Desperta em até 9 h do ponto médio do sono, ou 4,5–9 h do último momento assintomáticoPenumbra salvável em perfusão automatizada2a
DWI-FLAIR mismatch: a lógica A restrição à difusão aparece em minutos; o hipersinal no FLAIR leva cerca de 4,5 horas para surgir. Lesão brilhante na DWI e ainda invisível no FLAIR funciona como um relógio biológico: o AVC provavelmente está dentro da janela terapêutica, mesmo sem horário conhecido.
O RELÓGIO BIOLÓGICO: QUANDO CADA SEQUÊNCIA POSITIVA DWI + / FLAIR − · provavelmente < 4,5 h DWI + / FLAIR + · sem mismatch DWI FLAIR ≈ 4,5 h 0 2 h 4 h 6 h 8 h mismatch presente: seleciona DWI FLAIR restrição já visível e FLAIR ainda normal: trombólise razoável (COR 2a, B-R) os dois positivos DWI FLAIR fora da janela do mismatch, ou lesão antiga: nesta, DWI e FLAIR positivam juntos
A difusão positiva em minutos e o FLAIR só por volta de 4,5 h: é essa defasagem que transforma o par de sequências em relógio. Difusão positiva com FLAIR normal sugere AVC dentro da janela, mesmo sem horário conhecido; os dois positivos tiram o paciente do critério.
EnsaioCritério de imagem
WAKE-UP · THAWSDWI/FLAIR mismatch: sinal anormal na DWI e sem alteração visível no FLAIR na região do AVC agudo
EPITHETPWI/DWI mismatch: razão de volumes > 1,2 e PWI−DWI ≥ 10 mL (PWI definido por Tmax > 2 s)
ECASS-4PWI/DWI mismatch: razão ≥ 1,2 e PWI ≥ 20 mL
EXTENDRazão penumbra/core > 1,2 · penumbra−core > 10 mL · core < 70 mL
TIMELESS · TRACE-3Razão penumbra/core > 1,8 · penumbra > 15 mL · core < 70 mL
+ complemento · definições que se repetem Em todos esses estudos, o core é definido como a região com fluxo sanguíneo cerebral < 30% do normal na CTP (ou o volume da lesão na DWI), e a penumbra como o tecido com Tmax > 6 s, com exceção do EPITHET, que usou Tmax > 2 s. Guarde o par “CBF (fluxo sanguíneo cerebral) < 30% / Tmax > 6 s”: é o vocabulário padrão dos softwares automatizados.
O VOCABULÁRIO DA PERFUSÃO core penumbra core = CBF < 30% do normal (ou o volume da lesão na DWI) penumbra = Tmax > 6 s, o tecido ainda salvável a conta que o software entrega mismatch = penumbra − core razão = penumbra ÷ core Exemplo: penumbra 90 mL e core 20 mL dão mismatch de 70 mL e razão de 4,5. Quanto maior a razão, mais tecido a salvar. OS CORTES QUE OS ENSAIOS USARAM EXTEND razão > 1,2 · mismatch > 10 mL · core < 70 mL TIMELESS · TRACE-3 razão > 1,8 · penumbra > 15 mL · core < 70 mL Os limiares são software-dependentes: o laudo registra qual programa e quais cortes foram usados.
Core e penumbra são volumes, e o que os ensaios pedem é a relação entre eles. Guarde o par CBF < 30% e Tmax > 6 s: é o vocabulário dos softwares automatizados, e os cortes mudam de ensaio para ensaio.

Trombólise intravenosa

agente e dose Dentro de 4,5 h do início ou do último momento assintomático, tenecteplase 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) ou alteplase 0,9 mg/kg (COR 1).

A diretriz organiza a elegibilidade em três blocos, e, para o radiologista, o que mais importa é o primeiro item do bloco das absolutas: hipodensidade extensa na TC é contraindicação absoluta. As tabelas abaixo condensam as três listas da diretriz.

O benefício geralmente SUPERA o riscoLeitura da diretriz
Dissecção cervical extracranianaRazoavelmente segura em até 4,5 h: provavelmente recomendada
Neoplasia intracraniana extra-axialRisco baixo; benefício provavelmente supera: considerar
AVC durante ou logo após angiografiaConsiderar: benefício provavelmente supera
Aneurisma intracraniano não rotoRisco baixo: considerar
Sangramento digestivo/urinário remoto e estávelCandidato; avaliar caso a caso com o especialista
Infarto do miocárdio remotoBenefício provavelmente maior que o risco
Uso de drogas recreativasConsiderar na maioria dos pacientes
Dúvida AVC × imitadorRisco baixo (hemorragia pós-trombólise em imitadores: ~0,5%); na incerteza, sem contraindicação absoluta, trate
MoyamoyaSem aumento aparente de hemorragia: benefício provavelmente supera
Contraindicações relativasLeitura da diretriz
Incapacidade ou fragilidade préviaBenefício incerto: individualizar
DOAC (anticoagulante oral direto) nas últimas 48 hSegurança desconhecida; dados observacionais emergentes permitem considerar após análise individual: tempo da última dose, função renal, gravidade, disponibilidade de EVT, reversores e ensaios específicos
AVC isquêmico nos últimos 3 mesesRisco de hemorragia aumentado: pesar tempo e tamanho do infarto prévio
Hemorragia intracraniana préviaRisco maior; angiopatia amiloide pesa mais que hemorragia de causa modificável (hipertensão, coagulopatia corrigida)
Trauma grave não craniano (14 dias–3 meses)Risco de hemorragia sistêmica: individualizar com a cirurgia
Cirurgia de grande porte ≤ 10 diasIndividualizar com a equipe cirúrgica
Sangramento digestivo/urinário ≤ 21 diasIndividualizar; confirmar se a fonte foi tratada
Dissecção arterial intracranianaSegurança desconhecida
Malformação vascular intracraniana não tratadaSegurança desconhecida
Infarto com supra de ST ≤ 3 mesesCom a cardiologia; muito recente: risco de hemopericárdio
Pericardite aguda · trombo atrial/ventricular esquerdoPode ser razoável no AVC grave: consulta cardiológica emergencial
Neoplasia sistêmica ativaDesconhecida: com a oncologia (tipo, estágio, complicações)
Gestação e puerpérioPode ser considerada no AVC moderado/grave: com a obstetrícia
Punção dural ≤ 7 diasPode ser considerada caso a caso
Punção arterial em sítio não compressível ≤ 7 diasSegurança desconhecida
TCE (traumatismo cranioencefálico) moderado/grave (14 dias–3 meses)Pode ser considerada: tipo e gravidade do trauma, com a neurocirurgia
Neurocirurgia craniana/espinhal (14 dias–3 meses)Individualizar com a neurocirurgia
Contraindicações absolutasLeitura da diretriz
TC com hipodensidade extensaHipodensidade NÍTIDA que explique o quadro (mais hipodensa que a substância branca contralateral) veta a trombólise
Hemorragia intracraniana aguda na TCVeta
TCE moderado/grave < 14 diasInconsciência > 30 min, Glasgow < 13 OU hemorragia/contusão/fratura na imagem
Neurocirurgia craniana/espinhal < 14 diasPotencialmente danosa: não administrar
Trauma raquimedular < 3 mesesProvavelmente contraindicada
Neoplasia intracraniana intra-axialPotencialmente danosa: não administrar
Endocardite infecciosaNão administrar
Coagulopatia grave / plaquetopeniaPlaquetas < 100.000/mm³ · INR (razão normalizada internacional) > 1,7 · TTPa (tempo de tromboplastina parcial ativada) > 40 s · TP (tempo de protrombina) > 15 s. Sem uso recente de varfarina/heparina, pode-se INICIAR antes dos resultados, e suspender se vierem anormais
Dissecção do arco aórticoPotencialmente danosa: não administrar
ARIA (amyloid-related imaging abnormalities) / imunoterapia anti-amiloideRisco desconhecido: evitar
⚠ o item radiológico A trombólise não deve ser administrada quando a imagem mostra regiões de hipodensidade nítida que pareçam responsáveis pelo quadro clínico: “nítida” = mais hipodensa que a substância branca contralateral. Traduzindo para o laudo: descrever a extensão da hipodensidade não é detalhe estético, é o que sustenta uma contraindicação absoluta. Hipodensidade franca também deve fazer revisitar o horário de início: pode não ser um AVC de 4,5 h.
O ITEM RADIOLÓGICO: O QUE VETA O TROMBOLÍTICO hipodensidade nítida hipodensa normal mais hipodensa que a substância branca contralateral e em topografia que explica o déficit hipodensidade franca também manda revisitar o horário contraindicação ABSOLUTA à trombólise alteração precoce leve ou moderada tênue perda discreta da diferenciação entre branca e cinzenta, ou apagamento de sulcos achado precoce, não é carga isquêmica consolidada não contraindica (COR 1, do NINDS) A HIPODENSIDADE TAMBÉM PESA NA TROMBECTOMIA SELECT2, em análise exploratória: volume ≥ 26 mL com densidade ≤ 26 UH associou-se a ausência de benefício da EVT, com mais edema cerebral e mais hemicraniectomia. Os 26 UH são o limite inferior do IC 99% do tálamo contralateral. Fora desse limiar, hipodensidade, DWI e queda do CBF são preditores de infarto, não sinônimo de tecido já perdido.
O que veta o trombolítico é a hipodensidade nítida, definida por comparação com a substância branca contralateral e em topografia que explique o déficit. Alteração precoce leve ou moderada não contraindica. Na trombectomia, o limiar exploratório do SELECT2 quantifica o que antes era só impressão visual.
+ complemento · decisões vizinhas que caem junto Alterações isquêmicas precoces leves/moderadas não contraindicam (COR 1, do NINDS (National Institute of Neurological Disorders and Stroke)).

Micro-hemorragias: não se pede RM para procurá-las antes de trombolisar (COR 1); com 1–10 conhecidas, tratar é razoável (2a); com > 10, a utilidade é incerta (2b).

Antiagregação prévia (simples ou dupla) não contraindica: o acréscimo de risco (0,9 e 1,2%) é menor que o benefício esperado (~8%).

Glicemia: medir antes da trombólise; se o déficit persistir após corrigir hipo ou hiperglicemia grave, tratar (COR 1).

Trombectomia endovascular

TROMBECTOMIA NO ADULTO: OCLUSÃO · JANELA · IMAGEM · ESTADO PRÉVIO → CLASSE ACI ou M1 · 0–6 h ASPECTS 6–10 · mRS prévio 0–1 COR 1 ACI ou M1 · 0–6 h · core grande ASPECTS 3–5 · mRS 0–1 (NIHSS ≥ 6) COR 1 ACI ou M1 · 0–6 h · core muito grande ASPECTS 0–2 · mRS 0–1 · < 80 anos · sem efeito de massa significativo COR 2a ACI ou M1 · 0–6 h · incapacidade prévia ASPECTS 6–10 com mRS prévio 2 → 2a · mRS 3–4 → 2b COR 2a COR 2b ACI ou M1 · 6–24 h ASPECTS 3–10 · mRS 0–1 (no 3–5: < 80 anos, NIHSS ≥ 6, sem efeito de massa) COR 1 M2 dominante · 0–6 h ASPECTS 6–10 · mRS 0–1 COR 2a M2 não dominante ou oclusão distal · 0–24 h EVT não recomendada 3: No Benefit Basilar · 0–24 h PC-ASPECTS ≥ 6 · mRS 0–1 · NIHSS ≥ 10 → COR 1 · NIHSS 6–9 → 2b COR 1 COR 2b fora dessas células (> 24 h, mRS pior, ASPECTS 3–5 com mRS ≥ 2): dados insuficientes; decisão individualizada
A elegibilidade do adulto num quadro: oclusão + janela + imagem + estado prévio → classe de recomendação. Na criança, LVO com tecido salvável tem EVT razoável (2a) de 0–24 h entre 6–17 anos e considerável (2b) de 28 dias a 5 anos.
o conceito que mudou “Core” passou a ser lido com mais cautela: hipodensidade na TC sem contraste, alteração na DWI ou queda do CBF são preditores de infarto, e não sinônimos de tecido irreversivelmente perdido. Foi essa releitura que abriu a EVT para ASPECTS baixos.
+ complemento · o limiar do SELECT2 Em análise exploratória do SELECT2, hipodensidade grave ≥ 26 mL (definida como densidade ≤ 26 UH (unidades Hounsfield), o limite inferior do IC (intervalo de confiança) 99% do tálamo contralateral) associou-se a ausência de benefício da EVT e a mais complicações: edema cerebral e necessidade de hemicraniectomia. É um número novo e útil para quantificar o que antes era só impressão visual.
⚠ magnitude do efeito no core grande Nos ensaios de core grande, 19,5% dos pacientes tratados alcançaram independência funcional, contra 7,5% no tratamento clínico: mais que o dobro, mas bem abaixo dos ~50% dos ensaios iniciais com core pequeno. NNT (número necessário para tratar) de 8.

Em DAWN e DEFUSE-3, com core pequeno e penumbra grande, o NNT foi de 2,8 e 3,6. A seleção por imagem continua sendo o que separa um NNT de 3 de um NNT de 8.

Depois da reperfusão

COR 3: Harm Em AVC por LVO da circulação anterior recanalizado com sucesso (mTICI 2b, 2c ou 3), sem outra indicação para alvo pressórico, a redução intensiva da PAS para < 140 mmHg nas primeiras 72 h é danosa e não deve ser feita.
mTICI: O QUE QUER DIZER “RECANALIZADO COM SUCESSO” 0 sem perfusão 1 penetra, sem perfusão distal 2a < 50% do território 2b ≥ 50% do território 2c quase completa, êmbolo distal mínimo 3 completa 2b · 2c · 3 = recanalização bem-sucedida
A faixa 2b, 2c e 3 é o que a diretriz chama de recanalização bem-sucedida, e é ela que aciona a recomendação de não baixar a pressão de forma intensiva nas primeiras 72 h.
COR 3: No Benefit Insulina IV (intravenosa) para manter glicemia entre 80 e 130 mg/dL não melhora o desfecho funcional em 3 meses, e aumenta o risco de hipoglicemia grave.

Antiagregação dupla (DAPT): no AVC não cardioembólico que não recebeu trombólise, o par clopidogrel + AAS (ácido acetilsalicílico) substitui a monoterapia por um período curto, guiado pelos ensaios:

CenárioEsquemaClasse · ensaio
AVC menor (NIHSS ≤ 3) ou AIT (ataque isquêmico transitório) de alto risco (ABCD2 (escore de idade, pressão arterial, clínica, duração e diabetes) ≥ 4), ≤ 24 hClopidogrel + AAS por 21–90 dias, depois monoterapia1 · CHANCE, POINT
Mesmo cenário, alternativaTicagrelor + AAS por 30 dias2b · THALES
Portador de perda de função do CYP2C19 (enzima hepática que ativa o clopidogrel)Ticagrelor + AAS por 21 dias2b · CHANCE-2
NIHSS 4–5, ≤ 24 hClopidogrel + AAS por 21 dias (aterosclerose presumida)2a · INSPIRES
24–72 h, NIHSS ≤ 5 ou ABCD2 ≥ 4, com aterosclerose ≥ 50%Clopidogrel + AAS por 21 dias2a · INSPIRES
Fora desses cenáriosAntiagregação simples
+ complemento Note o papel da imagem nesse critério: quem define “causa presumidamente aterosclerótica” é o achado de estenose ≥ 50% na angio-TC/RM ou o padrão dos infartos na difusão. O laudo entra diretamente na decisão de antiagregar em dose dupla: mais uma razão para quantificar a estenose (ver caderno 04).

Pontos de prova: alto rendimento

Meta porta-imagem25 minutos para a imagem cerebral de emergência
As duas tarefas da TC inicialExcluir hemorragia e estimar a carga isquêmica pelo ASPECTS, antes de qualquer reperfusão
ASPECTS10 pontos, território da ACM, dois níveis: gânglios da base (caudado, putame, cápsula interna, ínsula, M1–M3) e coroa radiada (M4–M6)
PC-ASPECTSTálamos e occipitais 1 ponto cada; mesencéfalo e ponte 2 pontos cada; cerebelo 1 ponto cada
CreatininaNão atrasa angio-TC nem perfusão
Imagem multimodal na janela de 4,5 hNão deve atrasar a trombólise
TrombolíticoTenecteplase 0,25 mg/kg (máx. 25 mg) ou alteplase 0,9 mg/kg, até 4,5 h
Déficit não incapacitanteSem benefício demonstrado da trombólise
DWI-FLAIR mismatchDWI positiva com FLAIR normal ≈ AVC com menos de 4,5 h: seleciona para trombólise em início desconhecido
Perfusão: vocabulárioCore = CBF < 30% · penumbra = Tmax > 6 s
EXTENDRazão > 1,2 · mismatch > 10 mL · core < 70 mL
TIMELESS e TRACE-3Razão > 1,8 · penumbra > 15 mL · core < 70 mL
EVT 0–6 hACI (artéria carótida interna) ou M1 · NIHSS ≥ 6 · mRS (escala de Rankin modificada) 0–1 · ASPECTS 3–10 → COR 1
EVT 6–24 hIdade < 80 · NIHSS ≥ 6 · mRS 0–1 · ASPECTS 3–5 · sem efeito de massa → COR 1
EVT basilarAté 24 h · NIHSS ≥ 10 · PC-ASPECTS ≥ 6 · mRS 0–1 → COR 1
M2 não dominante / vaso distalEVT não recomendada (COR 3: No Benefit)
Contraindicação absoluta radiológicaHipodensidade extensa na TC correspondente ao déficit: mais hipodensa que a substância branca contralateral
Extra × intra-axialNeoplasia extra-axial: benefício supera · intra-axial: contraindicação absoluta
Micro-hemorragiasNão pedir RM antes de trombolisar · 1–10: razoável tratar · > 10: incerto
CoagulopatiaPlaquetas < 100.000 · INR > 1,7 · TTPa > 40 s · TP > 15 s, sem suspeita, inicia antes do resultado
Limiar SELECT2Hipodensidade ≥ 26 mL com ≤ 26 UH → sem benefício da EVT e mais complicações
NNTCore pequeno (DAWN 2,8 · DEFUSE-3 3,6) × core grande (8)
PA (pressão arterial) após EVT recanalizadaPAS < 140 mmHg por 72 h é danosa (COR 3: Harm)
GlicemiaAlvo 80–130 mg/dL com insulina IV não é recomendado
DAPTAVC menor/AIT de alto risco com aterosclerose (estenose ≥ 50%): clopidogrel + AAS por 21 dias

Armadilhas e erros comuns

Na sala de exame

  • Aguardar creatinina antes da angio-TC, quando a diretriz é explícita em não atrasar
  • Completar perfusão e angio-TC antes de liberar a trombólise em paciente dentro de 4,5 h
  • Não reconstruir a angio-TC até os vasos cervicais: a origem do trombo e a dissecção ficam fora do campo
  • Esquecer o PC-ASPECTS quando a suspeita é de basilar: a pontuação não é a do ASPECTS da circulação anterior
  • Não olhar difusão e FLAIR no mesmo paciente de início desconhecido: o mismatch é o critério

No laudo

  • Descrever “sinais precoces de isquemia” sem quantificar o ASPECTS: o número é o que entra no critério
  • Não registrar a extensão da hipodensidade: é contraindicação absoluta à trombólise
  • Confundir core previsto com tecido perdido: hipodensidade, DWI e CBF são preditores, não sentença
  • Não mencionar efeito de massa significativo, critério explícito na janela de 6–24 h
  • Deixar de quantificar estenose ≥ 50% cervical ou intracraniana, que define a DAPT
  • Perfusão sem indicar o software e os limiares usados: os critérios dos ensaios são software-dependentes

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Plantão na sala vermelha: homem de 68 anos, déficit hemisférico direito há 2 horas, TC sem hemorragia, ASPECTS 9. A equipe decide trombólise e pergunta qual agente usar, já que a farmácia dispõe de tenecteplase e alteplase. Pela diretriz AHA/ASA 2026, o que está correto?

A diretriz endossa os dois trombolíticos na janela de 4,5 h (COR 1): tenecteplase 0,25 mg/kg (máximo 25 mg) em bolus ou alteplase 0,9 mg/kg. A novidade de 2026 foi justamente tirar a tenecteplase do papel de coadjuvante: ela vale na mesma janela e na mesma classe de recomendação. A alternativa que exige perfusão prévia inverte a lógica da diretriz: dentro de 4,5 h, a trombólise não deve esperar imagem multimodal adicional, e o déficit incapacitante se trata dentro da janela sem exigir seleção avançada.
↑revisar esta parte do caderno · O que mudou em 2026
Questão 2

Mulher de 74 anos com tetraparesia e rebaixamento do nível de consciência há 1 hora. A TC de crânio exclui hemorragia e a angio-TC mostra oclusão da basilar. Antes de liberar o laudo, você calcula o PC-ASPECTS. Qual é a pontuação correta das estruturas nesse escore?

No PC-ASPECTS, tálamos e occipitais valem 1 ponto cada, mesencéfalo e ponte 2 pontos cada e hemisférios cerebelares 1 ponto cada: a pontuação é diferente da do ASPECTS da circulação anterior, e esquecê-la é armadilha clássica quando a suspeita é de basilar. O escore importa de verdade na conduta: a EVT de basilar até 24 h exige PC-ASPECTS ≥6, junto com mRS prévio 0–1 e NIHSS ≥10. Reutilizar a lógica do ASPECTS da circulação anterior (10 pontos em dois níveis axiais) é o erro conceitual mais comum.
↑revisar esta parte do caderno · Imagem inicial: o que o radiologista precisa entregar
Questão 3

Homem de 66 anos acordou com hemiparesia esquerda há 40 minutos; o último momento assintomático foi ao deitar, 8 horas antes. RM mostra lesão restrita na DWI no território da ACM direita, sem alteração correspondente no FLAIR. Por que esse achado funciona como critério de elegibilidade para trombólise?

A lógica é temporal: a restrição à difusão aparece em minutos, enquanto o hipersinal no FLAIR leva cerca de 4,5 horas para surgir. Lesão visível na DWI e ainda invisível no FLAIR indica que o infarto provavelmente tem menos de 4,5 h: o DWI-FLAIR mismatch é critério de seleção para trombólise em pacientes que despertam com sintomas ou com início desconhecido (COR 2a, B-R). As alternativas que falam em sequela antiga ou reperfusão invertem a semiologia: na sequela, DWI e FLAIR são ambos positivos; e na janela de 4,5–24 h com início desconhecido, a seleção também pode ser por CTP ou DWI-PWI com pós-processamento automatizado.
↑revisar esta parte do caderno · Janela estendida: quando a imagem decide o tratamento
Questão 4

Chega à sala vermelha um paciente de 71 anos com déficit hemisférico há 3h10min do último momento assintomático. Na TC sem contraste, você identifica região extensa de hipodensidade nítida no território da ACM esquerda, topografia que explica o quadro clínico. A equipe clínica pergunta se pode liberar o trombolítico. Qual a resposta pela diretriz?

O item radiológico do bloco de contraindicações absolutas é literal: a trombólise não deve ser administrada quando a TC mostra regiões de hipodensidade nítida que pareçam responsáveis pelo quadro clínico. Traduzindo para o plantão: descrever a extensão da hipodensidade não é detalhe estético, é o que sustenta uma contraindicação absoluta. A alternativa da penumbra é a tentadora: imagem avançada pode selecionar para trombectomia em core grande, mas não anula a contraindicação absoluta ao trombolítico.
↑revisar esta parte do caderno · Trombólise intravenosa
Questão 5

Paciente de 76 anos, mRS prévio 0, NIHSS 17, oclusão de M1 à esquerda confirmada na angio-TC, último momento assintomático há 14 horas. TC sem contraste mostra ASPECTS 4, sem efeito de massa significativo. Pela diretriz AHA/ASA 2026, a trombectomia endovascular está indicada?

Na janela de 6–24 h, a EVT tem COR 1 em LVO anterior com idade <80 anos, NIHSS ≥6, mRS prévio 0–1, ASPECTS 3–5 e sem efeito de massa significativo: o paciente preenche todos os critérios. Essa é exatamente a mudança de 2026: a EVT agora é recomendada em ASPECTS 3–5 (e apenas razoável, COR 2a, em ASPECTS 0–2, com ressalvas), porque hipodensidade, DWI e queda do CBF são preditores de infarto, não sinônimos de tecido irreversivelmente perdido. O critério imagem-avançada do DAWN citado num distrator pertence à era anterior, não a esta diretriz.
↑revisar esta parte do caderno · Trombectomia endovascular
Questão 6

Após trombectomia com recanalização bem-sucedida (mTICI 2b) de oclusão de M1, a equipe intensivista propõe iniciar infusão de nicardipina para manter a PAS <140 mmHg nas primeiras 72 horas, sem outra indicação pressórica. O que a diretriz AHA/ASA 2026 orienta?

Em AVC por LVO da circulação anterior recanalizado com sucesso (mTICI 2b, 2c ou 3), sem outra indicação para alvo pressórico, a redução intensiva da PAS para <140 mmHg nas primeiras 72 h é danosa e não deve ser feita: COR 3: Harm. É um dos pontos que mudaram em 2026 e cai em prova exatamente nesse detalhe do mTICI. A mesma lógica vale para a glicemia: controle intensivo para 80–130 mg/dL com insulina IV é COR 3: No Benefit, sem melhora do desfecho funcional em 3 meses e com risco de hipoglicemia grave.
↑revisar esta parte do caderno · Depois da reperfusão
0/6acertos
Responda as questões acima para ver o desempenho.
Praticar no QRad →
Teclas 1–5 respondem a questão visível · → ou Enter avança · ← volta · Shift+número ou botão direito risca uma alternativa.

Cadernos relacionados

Fonte: Prabhakaran S, Gonzalez NR, Zachrison KS, et al. 2026 Guideline for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke 2026;57(8). doi:10.1161/STR.0000000000000513. Conferido em 01/09/2026.

As tabelas de elegibilidade foram traduzidas e condensadas das tabelas da diretriz. Os blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, voltados à prova e ao plantão: a mecânica do DWI-FLAIR mismatch, o vocabulário de perfusão e o limiar de hipodensidade do SELECT2.

Aviso: Este é material de estudo. Doses, janelas e critérios foram transcritos da diretriz, mas a referência para uso assistencial é o documento original e o protocolo institucional do seu serviço. A diretriz é norte-americana; alguns fluxos assistenciais não correspondem à realidade brasileira.