Cadernos QRad 16 · Crânio Pós-operatório e TC de Seios
Neurorradiologia · Cabeça e pescoço

Crânio Pós-operatório e TC de Seios

1. Sinclair AG, Scoffings DJ. Imaging of the Post-operative Cranium. RadioGraphics 2010;30(2):461–482.
2. O’Brien WT et al. The Preoperative Sinus CT: Avoiding a “CLOSE” Call with Surgical Complications. Radiology 2016;281(1):10–21.

Três laudos: antes e depois da cirurgia

As duas referências deste caderno parecem distantes, mas compartilham a mesma premissa: existe um conjunto de achados que muda a conduta cirúrgica e que costuma faltar no laudo. Na parte I, o pós-operatório do crânio: o que é esperado, o que é complicação e o que é emergência. Na parte II, a TC pré-operatória de seios e o mnemônico CLOSE (Cribriform plate, Lamina papyracea, Onodi cell, Sphenoid sinus pneumatization, Ethmoidal artery: as cinco áreas críticas a documentar), que existe justamente porque as variantes críticas não vinham sendo documentadas.

o fio condutor Em ambos, o radiologista não está apenas descrevendo: está entregando ao cirurgião a informação que evita uma complicação, ou reconhecendo, no pós-operatório, a que já aconteceu.

Anatomia que define onde a coleção fica

a regra das camadas Coleções subgaleais podem ser extensas e cruzam suturas, como as coleções subdurais intracranianas. Já o pericrânio adere firmemente ao osso nas linhas de sutura e frouxamente no resto: por isso hematomas subperiosteais levantam o periósteo mas são limitados pelas suturas, de forma análoga aos hematomas extradurais intracranianos.

As quatro camadas superficiais do escalpo são distinguíveis na TC; o pericrânio em geral não é visível como estrutura separada, a menos que haja hematoma subjacente.

Calvária e díploe

Tábuas interna e externa de osso cortical, com a díploe entre elas. Na TC, as tábuas são bem definidas e muito densas, e a díploe tem atenuação um pouco menor. Na RM, as tábuas têm sinal muito baixo em qualquer sequência; a díploe depende da idade: sinal baixo em T1 nas duas primeiras décadas e alto depois, quando a medula diploica sofre conversão gordurosa.

Anatomia normal do escalpo na TC
TC axial na fossa temporal: pele, linha hiperatenuante (ponta de seta); subcutâneo, faixa de gordura mais espessa (seta reta branca); fáscia temporal, linha fin
TC axial na fossa temporal: pele, linha hiperatenuante (ponta de seta); subcutâneo, faixa de gordura mais espessa (seta reta branca); fáscia temporal, linha fina hiperatenuante (seta ondulada); camada subgaleal de tecido areolar frouxo, com gordura (seta emplumada); e músculo temporal (seta preta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 1. Ver artigo

Trepanação, craniotomia e craniectomia

Trepanação (burr hole)

Orifício pequeno feito com broca cirúrgica, geralmente para inserir dispositivo (dreno ventricular, cateter de derivação, endoscópio, monitor de pressão intracraniana, eletrodo de estimulação cerebral profunda), dar acesso a biópsia estereotáxica, drenar hematoma subdural crônico, ou como preparo para o retalho de craniotomia.

Além das complicações de qualquer neurocirurgia (infecção, fratura e hemorragia), a trepanação tem uma que é própria e temida: o “mergulho” da broca (plunging), que rompe a dura-máter e causa hemorragia intracraniana. É mais comum com a broca manual do que com a automática, que para sozinha ao atravessar a tábua interna.

aspecto normal Defeitos bem definidos nas tábuas interna e externa. Coleções podem ocorrer no espaço subgaleal sobre o orifício, dentro dele ou no espaço extradural profundo a ele. Nível hidroaéreo dentro do orifício não é incomum no pós-operatório precoce. Na RM com contraste, pode realçar só a margem ou de forma mais difusa, preenchendo o orifício.
Orifícios de trepanação no pós-operatório
Mulher de 67 anos, duas semanas após drenagem de hematoma subdural crônico: orifícios frontal e parietal bem definidos, da tábua externa até a díploe (pontas de
Mulher de 67 anos, duas semanas após drenagem de hematoma subdural crônico: orifícios frontal e parietal bem definidos, da tábua externa até a díploe (pontas de seta).
Homem de 72 anos, dois dias após drenagem de hematoma subdural esquerdo: orifício parietal com líquido (ponta de seta) e nível hidroaéreo no orifício frontal (s
Homem de 72 anos, dois dias após drenagem de hematoma subdural esquerdo: orifício parietal com líquido (ponta de seta) e nível hidroaéreo no orifício frontal (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Figs. 2, 3. Ver artigo
Realce do orifício de trepanação, três semanas após biópsia estereotáxica
T1 sem contraste: orifício de trepanação frontal direito.
T1 sem contraste: orifício de trepanação frontal direito.
T1 após gadolínio: realce linear e liso das margens do orifício (seta).
T1 após gadolínio: realce linear e liso das margens do orifício (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 4. Ver artigo

Craniotomia e craniectomia

Na craniotomia o retalho ósseo é reposicionado; na craniectomia ele não é, e é justamente essa diferença que gera um conjunto próprio de complicações tardias. Em alguns casos a dura-máter é deixada aberta.

⚠ o realce dural que assusta O realce dural pós-operatório quase sempre ocorre na dura profunda ao retalho, frequentemente é mais extenso, e pode durar até 40 anos. Não confunda com doença. Quando a cirurgia inclui ressecção de tecido cerebral, as margens cirúrgicas podem começar a realçar precocemente.
Realce dural seis meses após craniotomia
T1 coronal após gadolínio: realce liso da dura-máter espessada (seta) sob o retalho. Note o artefato do clipe de titânio.
T1 coronal após gadolínio: realce liso da dura-máter espessada (seta) sob o retalho. Note o artefato do clipe de titânio.
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 11. Ver artigo
Coleção extradural dois dias após craniotomia
T2 axial: craniotomia parietal posterior com coleção extradural em hipersinal (*) sob o retalho, limitada medialmente pela dura-máter hipointensa (ponta de seta
T2 axial: craniotomia parietal posterior com coleção extradural em hipersinal (*) sob o retalho, limitada medialmente pela dura-máter hipointensa (ponta de seta), e outra coleção no espaço subgaleal (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 10. Ver artigo

Complicações comuns a qualquer craniotomia

Pneumocefalia hipertensiva

emergência neurocirúrgica Sinal do “pico” (peaking): coleções aéreas subdurais comprimindo os lobos frontais.
Sinal do Monte Fuji: compressão e separação dos lobos frontais, alargando o espaço inter-hemisférico.

Ressalva importante: achados semelhantes podem aparecer em pacientes assintomáticos, e o diagnóstico só deve ser feito se houver deterioração clínica acompanhando a imagem.
Tratamento: conservador (oxigênio a 100%) ou cirúrgico (aspiração ou drenagem).
Pneumocefalia hipertensiva, homem de 80 anos
TC axial após drenagem de hematomas subdurais crônicos bilaterais, com rebaixamento do nível de consciência: pneumocefalia subdural bilateral com efeito de mass
TC axial após drenagem de hematomas subdurais crônicos bilaterais, com rebaixamento do nível de consciência: pneumocefalia subdural bilateral com efeito de massa sobre os lobos frontais, afastados da foice.
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 14. Ver artigo

Infecção

As infecções neurocirúrgicas pós-operatórias manifestam-se mais comumente como meningite, abscesso extradural, empiema subdural ou abscesso cerebral. Duas séries retrospectivas grandes relataram prevalência de infecção pós-craniotomia inferior a 1%.

o papel da imagem A infecção costuma começar na linha de fechamento da pele e a celulite é diagnóstico clínico. O papel da imagem é identificar a extensão profunda: retalho ósseo, espaços extra-axiais, meninges e encéfalo. Considerar também trombose de seio venoso como complicação associada.
Retalho ósseo infectado quatro meses após craniotomia
TC axial: pequenos focos líticos no retalho de craniotomia frontal esquerdo, mais marcados na margem posterior.
TC axial: pequenos focos líticos no retalho de craniotomia frontal esquerdo, mais marcados na margem posterior.
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 15. Ver artigo
Abscesso extradural sob o retalho
TC com contraste, dois meses após revisão cirúrgica de retalho: coleção hipoatenuante sob o retalho (ponta de seta), com dura-máter realçando medialmente (seta)
TC com contraste, dois meses após revisão cirúrgica de retalho: coleção hipoatenuante sob o retalho (ponta de seta), com dura-máter realçando medialmente (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 16. Ver artigo
Abscesso extradural 12 anos após cranioplastia
T2 axial: coleção em hipersinal (*) por fora da dura-máter (ponta de seta).
T2 axial: coleção em hipersinal (*) por fora da dura-máter (ponta de seta).
T1 após gadolínio: realce periférico (seta).
T1 após gadolínio: realce periférico (seta).
Difusão (b = 1000): hipersinal dentro da coleção, restrição. Lembre que, no pós-operatório, a ausência de restrição não exclui infecção.
Difusão (b = 1000): hipersinal dentro da coleção, restrição. Lembre que, no pós-operatório, a ausência de restrição não exclui infecção.
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 30. Ver artigo
TC × RM A TC é rápida, barata e acessível para a primeira linha. A RM tem sensibilidade maior para infecção e isquemia pós-operatórias, mas a difusão é menos sensível no pós-operatório: falso-negativo de 47% nos abscessos extradurais e 29% nos empiemas subdurais. A ausência de restrição numa coleção pós-operatória não exclui infecção, e os produtos de degradação do sangue também confundem a leitura.

Complicações próprias da craniectomia

Tamponamento cerebral externo

Complicação rara, mas potencialmente fatal, causada por coleção subgaleal sob pressão. Na imagem, retalho cutâneo abaulado com coleção subgaleal que comprime o encéfalo no sítio da craniectomia. Critérios diagnósticos: retalho tenso, deterioração neurológica, coleção subgaleal com efeito de massa sobre o encéfalo e melhora neurológica após a drenagem. Mecanismos propostos: pressão intracraniana elevada, efeito de válvula no reparo dural, ou gradientes de pressão que favorecem o acúmulo no espaço subgaleal.

Tamponamento cerebral externo três semanas após craniectomia descompressiva
TC axial: grande coleção subgaleal hipoatenuante comprimindo o lobo frontal esquerdo no sítio da craniectomia (seta).
TC axial: grande coleção subgaleal hipoatenuante comprimindo o lobo frontal esquerdo no sítio da craniectomia (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 22. Ver artigo

Síndrome do trefinado

números e prazo Ocorreu em 13% de 108 pacientes submetidos a craniectomia descompressiva, entre 28 e 188 dias após a cirurgia.

Quadro: cefaleia, crises, tontura, fadiga desproporcional, alterações do humor e, frequentemente, aspecto afundado do retalho cutâneo.
Mecanismo: exposição do conteúdo intracraniano à pressão atmosférica, que altera a hidrodinâmica liquórica, deforma o encéfalo e reduz a perfusão cerebral.
Imagem: retalho deprimido no sítio da craniectomia e deformidade côncava do encéfalo adjacente.
Conduta: parte dos pacientes melhora após cranioplastia, e o aumento do fluxo sanguíneo cerebral pós-cranioplastia já foi demonstrado por TC com xenônio e por perfusão por TC.
Síndrome do trefinado, quatro meses após craniectomia
TC axial: retalho cutâneo afundado, com o complexo meningogaleal apoiado sobre o encéfalo deformado.
TC axial: retalho cutâneo afundado, com o complexo meningogaleal apoiado sobre o encéfalo deformado.
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 23. Ver artigo

Herniação paradoxal

⚠ o mecanismo invertido Complicação incomum da craniectomia descompressiva, uma síndrome de herniação mesodiencefálica. Ocorre em paciente com grande defeito de craniectomia que é submetido a drenagem liquórica (punção lombar, derivação ventricular externa ou ventriculoperitoneal): a pressão intracraniana cai, a pressão atmosférica empurra o conteúdo craniano e o encéfalo hernia sob a foice e pela incisura tentorial.

Imagem: retalho afundado com herniação do encéfalo para longe do defeito da craniectomia, resultando em desvio de linha média, compressão do mesencéfalo e apagamento das cisternas basais.

É emergência neurocirúrgica, e a conduta é o oposto da drenagem: elevar a pressão intracraniana (Trendelenburg, fechar derivações e drenos, hidratação venosa, cranioplastia precoce); o tampão sanguíneo peridural lombar também já a reverteu.
Herniação paradoxal cinco semanas após craniectomia descompressiva
FLAIR (fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido) axial: retalho afundado e desvio dos vazios de fluxo das artérias cerebrais ante
FLAIR (fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido) axial: retalho afundado e desvio dos vazios de fluxo das artérias cerebrais anteriores (seta), herniação subfalcina.
FLAIR axial: compressão do mesencéfalo por herniação transtentorial do úncus (ponta de seta) e contusão temporal esquerda em resolução (seta).
FLAIR axial: compressão do mesencéfalo por herniação transtentorial do úncus (ponta de seta) e contusão temporal esquerda em resolução (seta).
Fonte: Sinclair AG, Scoffings DJ. RadioGraphics 2010;30(2):461–482, Fig. 24. Ver artigo

TC de seios: o mnemônico CLOSE

o problema que o mnemônico resolve As áreas críticas dos seios paranasais não são documentadas de forma rotineira nem consistente nos laudos pré-operatórios. O CLOSE dá um roteiro simples do que precisa constar:

Cribriform plate: lâmina cribriforme
Lamina papyracea: lâmina papirácea
Onodi cell: célula de Onodi
Sphenoid sinus pneumatization: pneumatização do seio esfenoidal
Ethmoidal artery (anterior): artéria etmoidal anterior
EstruturaPlano idealO que avaliar e documentar
Lâmina cribriformeCoronalClassificação de Keros (I–III) · assimetria de Keros · deiscência óssea da base do crânio
Lâmina papiráceaCoronal e axialFratura orbitária antiga · prolapso orbitário para o seio etmoidal · presença de célula de Haller · processo uncinado contatando a parede orbitária
Célula de OnodiCoronalPresença ou ausência · deiscência do nervo óptico dentro dela
Pneumatização do esfenoideSagital e axialPadrão (conchal, preselar, selar) · pneumatização para a base do crânio e o processo clinoide anterior · deiscência do canal carotídeo · septação do seio inserindo no canal carotídeo · deiscência do nervo óptico dentro do esfenoide
Artéria etmoidal anteriorCoronalIdentificar o entalhe etmoidal · presença de pneumatização supraorbitária
TC de seios: o mnemônico CLOSE e as estruturas críticas.

C: lâmina cribriforme e a classificação de Keros

A fossa olfatória é delimitada inferiormente pela lâmina cribrosa horizontal, superiormente pela fóvea etmoidal horizontal, lateralmente pela lâmina lateral vertical e medialmente pela crista galli.

por que a lâmina lateral é o ponto frágil É a porção óssea mais fina e mais vulnerável da base do crânio para lesão intraoperatória: agravada pela inserção da concha média ao longo da margem lateral da lâmina cribriforme. Quanto maior a profundidade da fossa olfatória, mais vulnerável fica a lâmina lateral, seja por lesão direta, seja por manipulação durante turbinectomia ou etmoidectomia. Sua ruptura cria comunicação direta entre o seio e a fossa craniana anterior, com risco de fístula liquórica, pseudomeningocele e meningoencefalocele.
KerosProfundidadeFrequência e risco
Tipo I≤ 3 mmSegundo mais comum
Tipo II4 – 7 mmO mais comum
Tipo III> 7 mmO menos comum, e o de maior risco de lesão da base do crânio na cirurgia endoscópica
a assimetria também é laudo Diferença de profundidade entre os lados é importante: o planejamento precisa ser ajustado a cada lado, e a lâmina lateral mais inferior é a de maior risco.
Classificação de Keros nas reformatações coronais: fossa olfatória delimitada pela lâmina cribrosa, fóvea etmoidal, lâmina lateral e crista galli.
Assimetria de Keros
TC coronal: fossa olfatória direita com cerca de 2 mm (Keros I) e esquerda com cerca de 8 mm (Keros III). A lâmina lateral mais baixa, aqui a direita, é a de ma
TC coronal: fossa olfatória direita com cerca de 2 mm (Keros I) e esquerda com cerca de 8 mm (Keros III). A lâmina lateral mais baixa, aqui a direita, é a de maior risco na cirurgia endoscópica.
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 9. Ver artigo

L, O e S: lâmina papirácea, Onodi e esfenoide

L: lâmina papirácea

Lâmina fina do osso etmoide que compõe a parede orbitária medial; avaliada em coronal e axial. Quando deiscente por lesão prévia, a margem óssea está deslocada medialmente para o seio etmoidal, junto com gordura intraorbitária e, ocasionalmente, porções do músculo reto medial.

⚠ o erro que isso causa O desvio para dentro do seio etmoidal deixa a lâmina papirácea e as estruturas orbitárias sob risco de penetração intraoperatória, porque a lâmina pode ser confundida com uma septação do seio etmoidal durante a cirurgia.
Deiscência da lâmina papirácea
TC coronal: fratura antiga da parede orbitária medial direita, com desvio da lâmina (seta) e gordura intraorbitária (*) dentro do seio etmoidal. Espessamento mu
TC coronal: fratura antiga da parede orbitária medial direita, com desvio da lâmina (seta) e gordura intraorbitária (*) dentro do seio etmoidal. Espessamento mucoso lobulado no seio maxilar direito.
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 10. Ver artigo
Aposição da lâmina papirácea com o processo uncinado
TC coronal: seio maxilar direito hipoplásico (*) com o processo uncinado desviado lateralmente, encostado na lâmina papirácea (seta). Conchas médias bolhosas bi
TC coronal: seio maxilar direito hipoplásico (*) com o processo uncinado desviado lateralmente, encostado na lâmina papirácea (seta). Conchas médias bolhosas bilaterais.
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 11. Ver artigo

O: célula de Onodi

definição e risco Célula aérea esfenoetmoidal situada acima e lateralmente ao seio esfenoidal. O que importa é a possibilidade de o nervo óptico estar deiscente dentro dela: o cirurgião que acredita estar no seio esfenoidal pode estar numa célula que contém o nervo óptico exposto.
Células de Onodi com os nervos ópticos
TC coronal: células etmoidais posteriores bilaterais estendendo-se sobre os seios esfenoidais, as células de Onodi (*). Os nervos ópticos passam por elas, separ
TC coronal: células etmoidais posteriores bilaterais estendendo-se sobre os seios esfenoidais, as células de Onodi (*). Os nervos ópticos passam por elas, separados só por osso fino (setas).
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 12. Ver artigo

S: pneumatização do seio esfenoidal

Avaliada no plano sagital, em relação ao clivo e à sela.

PadrãoDescrição
ConchalPouco pneumatizado, com margem óssea espessa entre o seio anteriormente e a sela posteriormente
PreselarPneumatização estendendo-se posteriormente até a margem anterior da sela
SelarO mais comum; pneumatização inferior e posterior à sela, deixando margem óssea posterior do clivo fina
⚠ por que o padrão selar importa A margem posterior fina do clivo fica sob risco de perfuração inadvertida, favorecida pelo decúbito dorsal do paciente, com a força da gravidade dirigida posteriormente.

Documentar também: deiscência do canal carotídeo, septação do seio inserindo sobre o canal carotídeo (porque a remoção dessa septação pode lacerar a carótida) e deiscência do nervo óptico dentro do esfenoide.

Padrões de pneumatização do seio esfenoidal
TC sagital: padrão conchal.
TC sagital: padrão conchal.
Padrão preselar.
Padrão preselar.
Padrão selar: a margem óssea posterior do clivo fica fina, mais exposta a lesão na cirurgia (seta).
Padrão selar: a margem óssea posterior do clivo fica fina, mais exposta a lesão na cirurgia (seta).
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 13. Ver artigo
Deiscência do canal carotídeo
TC axial: pneumatização posterior excessiva do esfenoide, com deiscência do canal da carótida cavernosa direita (seta); osso fino sobre a carótida esquerda (pon
TC axial: pneumatização posterior excessiva do esfenoide, com deiscência do canal da carótida cavernosa direita (seta); osso fino sobre a carótida esquerda (ponta de seta).
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 14. Ver artigo
Nervo óptico exposto no seio esfenoidal
TC coronal: pneumatização do esfenoide até o processo clinoide anterior, com o canal do nervo óptico direito exposto dentro do seio (seta).
TC coronal: pneumatização do esfenoide até o processo clinoide anterior, com o canal do nervo óptico direito exposto dentro do seio (seta).
Fonte: O’Brien WT et al. Radiology 2016;281(1):10–21, Fig. 15. Ver artigo

E: artéria etmoidal anterior

como localizar No coronal, identificando o entalhe etmoidal anterior ao longo da parede orbitária medial, no nível do seio etmoidal anterior. Estudos mostram que o entalhe é identificável bilateralmente em 95–100% dos casos e unilateralmente nos demais.
SituaçãoRisco
Entalhe encostado na fóvea etmoidal ou a lâmina lateralArtéria relativamente protegida
Pneumatização supraorbitária das células etmoidais acima do entalheArtéria trafega livremente dentro do seio → risco aumentado de lesão
⚠ variante comum e negligenciada A pneumatização supraorbitária ocorre em 26 a 35% dos pacientes: é comum e frequentemente esquecida.

A lesão inadvertida da artéria etmoidal anterior pode causar hematoma retro-orbitário de crescimento rápido, porque o vaso seccionado se retrai para dentro da órbita.
Entalhe etmoidal anterior no coronal. Quando encosta na fóvea etmoidal, a artéria está protegida; com pneumatização supraorbitária, ela corre livre no seio e fica sob risco.
o que mais entra no laudo pré-operatório A seção final do laudo avalia o restante das estruturas visualizadas: órbitas, conteúdo intracraniano, partes moles do pescoço alto, base do crânio e as porções visualizadas da junção craniocervical e da coluna cervical. Isso interessa particularmente ao cirurgião de seios, que não é treinado para identificar patologia fora dos seios.

Pontos de prova: alto rendimento

Coleção subgalealCruza suturas, como a subdural intracraniana.
Hematoma subperiostealLimitado pelas suturas, como o extradural intracraniano.
Díploe na RMT1 baixo nas duas primeiras décadas; alto depois, por conversão gordurosa.
Nível hidroaéreo em trepanaçãoAchado normal no pós-operatório precoce.
Realce dural pós-operatórioProfundo ao retalho; pode durar até 40 anos.
Sinal do picoAr subdural comprimindo os lobos frontais.
Sinal do Monte FujiCompressão e separação dos frontais, alargando o espaço inter-hemisférico.
Pneumocefalia hipertensiva: a ressalvaSó é diagnóstico com deterioração clínica; a imagem isolada pode ocorrer em assintomáticos.
Infecção pós-craniotomiaPrevalência <1%; começa na linha de sutura da pele.
Difusão no pós-operatórioFalso-negativo de 47% (abscesso extradural) e 29% (empiema subdural): restrição ausente não exclui infecção.
Tamponamento cerebral externoRetalho abaulado com coleção subgaleal comprimindo o encéfalo.
Síndrome do trefinado13% das craniectomias descompressivas, entre 28 e 188 dias; retalho afundado; melhora com cranioplastia.
Herniação paradoxalCraniectomia grande + drenagem liquórica; encéfalo hernia para longe do defeito. Emergência: elevar a PIC (pressão intracraniana; Trendelenburg, fechar a drenagem).
CLOSECribriform plate (lâmina cribriforme) · Lamina papyracea (lâmina papirácea) · Onodi cell (célula de Onodi) · Sphenoid sinus (esfenoide) · Ethmoidal artery (etmoidal anterior).
Keros I / II / III≤3 mm / 4–7 mm / >7 mm. Tipo II é o mais comum; tipo III é o de maior risco.
Lâmina lateralPorção mais fina e vulnerável da base do crânio.
Assimetria de KerosA lâmina lateral mais inferior é a de maior risco.
Lâmina papirácea deiscentePode ser confundida com septação etmoidal e penetrada.
Célula de OnodiCélula esfenoetmoidal acima e lateral ao esfenoide; procurar nervo óptico deiscente.
Pneumatização esfenoidalConchal · preselar · selar (a mais comum): esta deixa o clivo posterior fino.
Septação esfenoidal na carótidaRemover essa septação pode lacerar a carótida: sempre reportar.
Entalhe etmoidal anteriorIdentificável bilateralmente em 95–100% no coronal.
Pneumatização supraorbitária26–35%; deixa a artéria etmoidal anterior livre no seio.
Lesão da etmoidal anteriorHematoma retro-orbitário de crescimento rápido: o vaso se retrai para a órbita.

Armadilhas e erros comuns

Crânio pós-operatório

  • Interpretar realce dural pós-operatório como recidiva ou infecção: ele pode durar décadas.
  • Chamar de complicação o nível hidroaéreo na trepanação recente.
  • Diagnosticar pneumocefalia hipertensiva só pela imagem, sem deterioração clínica.
  • Confiar na difusão para excluir infecção no leito cirúrgico.
  • Não distinguir retalho abaulado (tamponamento externo) de retalho afundado (trefinado ou herniação paradoxal): as condutas são opostas.
  • Não considerar trombose de seio venoso na infecção pós-operatória.

TC pré-operatória de seios

  • Laudar “seios com sinusopatia” sem percorrer o CLOSE: as variantes críticas ficam de fora.
  • Não medir a profundidade da fossa olfatória dos dois lados.
  • Esquecer a assimetria de Keros, que muda o planejamento lado a lado.
  • Não procurar deiscência do nervo óptico dentro da célula de Onodi.
  • Deixar de reportar septação esfenoidal inserindo no canal carotídeo.
  • Ignorar a pneumatização supraorbitária, que é comum e deixa a artéria etmoidal exposta.
  • Não avaliar as estruturas fora dos seios: o cirurgião não é treinado para isso.

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Paciente no 3º dia pós-craniotomia, com TC mostrando pneumocefalia subdural bilateral com compressão e separação dos lobos frontais, alargando o espaço inter-hemisférico. O paciente está assintomático, com exame neurológico estável. Conduta e interpretação corretas?

O sinal do Monte Fuji é a pneumocefalia subdural bilateral comprimindo e separando os lobos frontais, alargando o espaço inter-hemisférico. A ressalva central do tema é que achados semelhantes podem aparecer em pacientes assintomáticos: o diagnóstico de pneumocefalia hipertensiva, que é emergência neurocirúrgica, só deve ser feito se houver deterioração clínica acompanhando a imagem. O tratamento, quando indicado, é conservador (oxigênio a 100%) ou cirúrgico (aspiração ou drenagem); a derivação ventricular não é o tratamento.
↑revisar esta parte do caderno · Complicações comuns a qualquer craniotomia
Questão 2

Homem de 51 anos, há 3 meses de craniectomia descompressiva, retorna com cefaleia, tontura, fadiga desproporcional e alterações do humor. Na TC, retalho cutâneo afundado com deformidade côncava do encéfalo adjacente. Qual afirmativa está correta?

A síndrome do trefinado ocorreu em 13% de 108 pacientes submetidos a craniectomia descompressiva, entre 28 e 188 dias após a cirurgia, com quadro de cefaleia, crises, tontura, fadiga desproporcional, alterações do humor e retalho afundado. O mecanismo é a exposição do conteúdo intracraniano à pressão atmosférica, que altera a hidrodinâmica liquórica: não o efeito de válvula do reparo dural, que é mecanismo do tamponamento externo. A distinção morfológica é decisiva: retalho abaulado sugere tamponamento externo, e retalho afundado, trefinado ou herniação paradoxal, com condutas opostas. Parte dos pacientes melhora após cranioplastia.
↑revisar esta parte do caderno · Complicações próprias da craniectomia
Questão 3

RM com contraste de paciente há três semanas de biópsia estereotáxica mostra realce difuso da dura-máter profunda ao sítio cirúrgico, extenso, além de nível hidroaéreo dentro do orifício de trepanação. Como interpretar?

O nível hidroaéreo dentro do orifício de trepanação não é incomum no pós-operatório precoce: chamar isso de complicação é armadilha clássica. O realce dural pós-operatório quase sempre ocorre na dura profunda ao retalho, frequentemente é mais extenso do que se imagina e pode durar até 40 anos: interpretá-lo como recidiva ou infecção é o erro mais comum do tema. Vale lembrar: quando a cirurgia inclui ressecção de tecido cerebral, as margens cirúrgicas podem começar a realçar precocemente, achado esperado.
↑revisar esta parte do caderno · Trepanação, craniotomia e craniectomia
Questão 4

Na TC pré-operatória de seios, a medida da profundidade da fossa olfatória resultou em Keros tipo II à direita e tipo III à esquerda. Sobre o significado desses achados, qual afirmativa está correta?

Keros I ≤ 3 mm (segundo mais comum), II 4–7 mm (o mais comum) e III > 7 mm (o menos comum, e o de maior risco de lesão da base do crânio na cirurgia endoscópica). Quanto maior a profundidade da fossa olfatória, mais vulnerável fica a lâmina lateral, a porção óssea mais fina e vulnerável da base do crânio. A assimetria também é laudo: a lâmina lateral mais inferior é a de maior risco e o planejamento precisa ser ajustado a cada lado; não medir os dois lados é armadilha clássica.
↑revisar esta parte do caderno · C: lâmina cribriforme e a classificação de Keros
Questão 5

Em TC pré-operatória de seios, no coronal, o entalhe etmoidal anterior está identificado bilateralmente, mas há pneumatização das células etmoidais acima do entalhe. Qual a consequência prática desse achado?

Quando o entalhe etmoidal abuta a fóvea etmoidal ou a lâmina lateral, a artéria etmoidal anterior está relativamente protegida. Com pneumatização supraorbitária (presente em 26 a 35% dos pacientes, comum e frequentemente esquecida), a artéria trafega livremente dentro do seio, com risco aumentado de lesão. A complicação típica é o hematoma retro-orbitário de crescimento rápido, porque o vaso seccionado se retrai para dentro da órbita. O entalhe é identificável bilateralmente em 95–100% dos casos no coronal.
↑revisar esta parte do caderno · E: artéria etmoidal anterior
Questão 6

Laudando TC pré-operatória de seios, você identifica septação do seio esfenoidal inserindo sobre o canal carotídeo e, em outro plano, margem óssea da parede orbitária medial deslocada medialmente para o seio etmoidal, junto com gordura intraorbitária. O que documentar?

Dois pontos de alto rendimento do CLOSE: a septação do seio esfenoidal inserindo sobre o canal carotídeo deve ser sempre reportada porque sua remoção pode lacerar a carótida. E a lâmina papirácea deiscente por lesão prévia mostra margem óssea deslocada medialmente para o seio etmoidal, junto com gordura intraorbitária e, ocasionalmente, porções do músculo reto medial: o desvio deixa a lâmina e as estruturas orbitárias sob risco porque pode ser confundida com uma septação do seio etmoidal durante a cirurgia. Laudar apenas “sinusopatia” sem percorrer o CLOSE é justamente o erro que o mnemônico existe para evitar.
↑revisar esta parte do caderno · L, O e S: lâmina papirácea, Onodi e esfenoide
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Fontes. Parte I: Sinclair AG, Scoffings DJ. Imaging of the Post-operative Cranium. RadioGraphics 2010;30(2):461–482. doi:10.1148/rg.302095115. Parte II: O’Brien WT et al. The Preoperative Sinus CT: Avoiding a “CLOSE” Call with Surgical Complications. Radiology 2016;281(1):10–21 (série How I Do It). doi:10.1148/radiol.2016152230.

Nota: O artigo de crânio pós-operatório é de 2010. As técnicas cirúrgicas evoluíram, mas os padrões de imagem normal e as complicações descritas permanecem válidos: o que mudou foi sobretudo a frequência relativa de cada procedimento.