Mulher de 28 anos com surto clínico isolado sensitivo. RM de encéfalo mostra lesões ovoides perpendiculares à superfície ventricular no plano sagital, lesões que envolvem as fibras em U contatando o córtex e um foco periférico no tronco encefálico. Quanto ao preenchimento da DIS pelos critérios de McDonald 2024, qual afirmativa está correta?
Esclerose Múltipla: Critérios de McDonald 2024
Por que este caderno é diferente
Este artigo é uma revisão do AJR (American Journal of Roentgenology) feita explicitamente para radiologistas: pega os critérios de McDonald 2024 e traduz o que cada mudança significa na aquisição, na leitura e no laudo. É o caderno mais “de regra” da série depois do de contrastes, e, como lá, o valor está em ter os números certos à mão.
O que mudou de 2017 para 2024
| Categoria | 2017 | Atualização 2024 |
|---|---|---|
| DIS | Lesões em pelo menos duas de quatro topografias: justacortical/cortical, periventricular, infratentorial ou medular | O nervo óptico entra como quinta topografia. Nova exceção: DIS pode ser preenchida com ≥2 lesões medulares em paciente com sintomas progressivos por ≥12 meses |
| DIT e biomarcadores liquóricos | Lesões realçantes e não realçantes no mesmo exame, ou nova lesão no seguimento. Bandas oligoclonais (BOC) substituem DIT | Cadeias leves kappa livres (kFLC) no líquor passam a substituir DIT, como alternativa às BOC |
| Marcadores de suscetibilidade | Não incluídos | Sinal da veia central (CVS) e lesão com halo paramagnético (PRL) entram como critérios de suporte opcionais |
| Síndrome radiologicamente isolada (RIS) | Apenas fator de risco, não era EM | Pode ser diagnosticada como EM na presença de DIS e DIT, positividade liquórica (BOC e/ou kFLC), ou ≥6 lesões com CVS |
| >50 anos, fatores de risco vascular ou cefaleia | Acima de 50 anos, aconselhava-se RM de medula ou líquor. Fatores vasculares e cefaleia não eram mencionados | Fortemente recomendado exigir lesão medular, BOC e/ou kFLC, ou ≥6 lesões com CVS |
| Pediatria | Após ADEM (encefalomielite disseminada aguda), exigia novo ataque clínico típico antes de aplicar os critérios do adulto | A exigência também pode ser cumprida por novas lesões T2 em topografia típica >90 dias após o início da ADEM |
As cinco topografias: DIS
DIS exige lesões em pelo menos duas das cinco topografias: periventricular, justacortical/cortical, infratentorial, medula espinhal e nervo óptico. O acometimento de cada sítio pode ser estabelecido por imagem ou por evidência clínica objetiva (exame neurológico).





| Topografia | Características | Melhor sequência |
|---|---|---|
| Periventricular | Contatam a margem do ventrículo lateral; incluem lesões do corpo caloso. Formam os dedos de Dawson: lesões ovoides perpendiculares à superfície ventricular, no plano sagital | FLAIR 3D T2 |
| Justacortical / cortical | Justacorticais envolvem as fibras em U e contatam o córtex; corticais envolvem especificamente o córtex | FLAIR 3D para justacorticais; DIR (double inversion recovery: dupla inversão, que suprime o líquor e a substância branca) ou PSIR (phase-sensitive inversion recovery) para corticais |
| Infratentorial | Tronco encefálico e cerebelo. Tendem a ser periféricas; as isquêmicas costumam ser centrais | T2 FSE (fast spin echo: spin-eco rápido) 2D axial |
| Medula espinhal | Curtas (menos de dois segmentos vertebrais) e periféricas na secção transversal, sobretudo nas colunas lateral e dorsal | Ao menos duas sequências sagitais, com confirmação em axial |
| Nervo óptico (novo) | Distribuição unilateral e de segmento curto, hiperintensas em T2 em relação à substância branca; frequentemente com edema do nervo indicando inflamação ativa. O quiasma costuma ser poupado | T2 com saturação de gordura ou STIR (short tau inversion recovery: sequência com supressão de gordura por inversão), coronal 2D/3D das órbitas (ou DIR 3D de crânio e órbitas) |
| Substância branca profunda (não conta para DIS) | Poupa a substância branca imediatamente adjacente ao córtex e ao ventrículo. Comum na EM, porém inespecífica, sobretudo acima de 50 anos e com fatores vasculares | FLAIR 3D T2 |










DIT e seus substitutos
Diferentemente da DIS, a DIT não tem exigência de localização: pode ser demonstrada por lesões em qualquer lugar do encéfalo ou da medula, inclusive na substância branca profunda.


Os quatro caminhos que substituem a DIT radiológica
- Evidência clínica objetiva de um novo surto.
- Bandas oligoclonais específicas do líquor (já valiam em 2017).
- Cadeias leves kappa livres (kFLC) no líquor: novidade de 2024; medida quantitativa de inflamação intratecal crônica.
- Lesões típicas em quatro das cinco topografias (novidade de 2024): em paciente com apresentação clínica, isso basta para diagnosticar EM sem demonstrar DIT.
Realce e difusão
- O realce reflete inflamação aguda com ruptura da barreira hematoencefálica; pode ser nodular ou em anel, e nas lesões maiores aparece o sinal do anel aberto, característico de desmielinização.
- O realce pode persistir até 4 semanas após o episódio agudo.
- Na medula, as lesões ativas realçam com menos frequência que no encéfalo, e em geral com padrão nodular, não em anel.
- DWI (imagem ponderada em difusão) ajuda a excluir infarto agudo, mas não substitui o T1 pós-contraste. Lesões agudas de EM podem restringir transitoriamente, e a restrição não é critério de DIT nem de atividade.
CVS e PRL: os marcadores de suscetibilidade
Ambos podem ser avaliados em imagens de magnitude ou de fase filtrada, obtidas por pós-processamento de sequência EPI (echo planar imaging: aquisição ecoplanar) 3D T2* ou de SWI (imagem ponderada em suscetibilidade) eco-gradiente de eco único ou multieco; os dados-fonte do SWI multieco também permitem reconstruir mapas quantitativos de suscetibilidade (QSM). O efeito é maior em campos ultra-altos, mas as sequências funcionam a 1,5 e 3 T.
Sinal da veia central (CVS)
Reflete a distribuição perivenular característica da inflamação na EM.
Com limiar de apenas três lesões: sensibilidade maior (81%) mas especificidade bem menor (68%).
A atualização de 2024 incorporou a regra dos seis como ferramenta diagnóstica adicional.




Lesão com halo paramagnético (PRL)
Requisitos: visível em dois cortes consecutivos ou em dois planos ortogonais nas aquisições 3D · a lesão não deve realçar, para garantir que o halo represente inflamação crônica e não aguda · se não houver pós-contraste no exame que mostrou a PRL, deve-se comprovar que o núcleo já existia em RM obtida 6 meses ou mais antes.
PRLs são dinâmicas e podem persistir por anos conforme o estágio de ativação microglial; seu surgimento indica inflamação crônica. Em metanálise, a incidência foi de 23% por lesão em cerca de 1,5 ano e de 11% por paciente em cerca de 4,7 anos.







Os cinco cenários
| Cenário | Apresentação | O que mais é necessário |
|---|---|---|
| 1 | Sintomas típicos com DIS: síndrome clínica isolada com lesões em 2 a 5 topografias; ou EM primariamente progressiva com ≥2 lesões medulares e progressão ≥12 meses | Um ou mais: DIT (imagem ou clínica) · novo surto clínico · BOC e/ou kFLC · ≥6 lesões com CVS · lesões em 4 ou 5 topografias |
| 2 | Sintomas típicos sem DIS: lesão em apenas uma das cinco topografias | Um ou mais pares: DIT + ≥6 CVS · DIT + ≥1 PRL · BOC/kFLC + ≥6 CVS · BOC/kFLC + ≥1 PRL |
| 3 | RIS com DIS: focos T2 incidentais típicos em 2 a 5 topografias, sem sintomas | Um ou mais: DIT · BOC e/ou kFLC · ≥6 lesões com CVS Antes de 2024, EM não podia ser diagnosticada em RIS |
| 4 | Cenário 1 ou 2 em paciente ≥50 anos, com fatores de risco vascular (tabagismo, hipertensão, diabetes) ou distúrbio de cefaleia | Recomendação forte de exigir um ou mais: lesão medular · BOC e/ou kFLC · ≥6 lesões com CVS |
| 5 | Paciente pediátrico (<18 anos) com apresentação de ADEM | DIT deve ser demonstrada por novo surto clínico típico e/ou novas lesões T2 em topografia típica >90 dias após o início da ADEM, antes de aplicar os critérios do adulto |
Testar MOG-IgG (anticorpo contra a glicoproteína da mielina do oligodendrócito) em todos os pacientes com menos de 12 anos e naqueles com 12 anos ou mais que tenham apresentação atípica.
Quando fica indeterminado
Situações em que a EM permanece suspeita mas não pode ser diagnosticada: cenários 1 e 2 com lesões em 1 a 3 topografias sem DIT, sem ≥6 CVS e sem PRL; cenário 3 com DIS mas sem DIT e sem ≥6 CVS.
Protocolo de RM
Encéfalo: sequências essenciais
| Sequência | Plano | Finalidade | Observações |
|---|---|---|---|
| FLAIR 3D T2 | Sagital, reformatado em axial | Lesões periventriculares e justacorticais/corticais | Sequência de trabalho para detecção. Preferir voxel isotrópico de 1 mm; orientação subcalosa ou pelo plano CA-CP (da comissura anterior à comissura posterior). Sem 3D, usar 2D axial e sagital de boa qualidade, 3 mm sem gap |
| T2 FSE 2D (ou duplo eco T2/DP (densidade de prótons)) | Axial | Lesões infratentoriais | |
| T1 3D pós-contraste | Sagital, reformatado em axial | Lesões com inflamação ativa | Adquirir 5 minutos após o gadolínio. Sem 3D, considerar T1 2D axial pós-contraste |
| Magnitude de EPI 3D T2* ou SWI otimizado | Axial | Detectar CVS | Combinar ou sobrepor FLAIR e SWI pode ajudar. Campos maiores detectam mais. O grupo recomenda administrar o contraste imediatamente antes ou durante a aquisição, o que pode melhorar a detecção do CVS |
Encéfalo: sequências opcionais
| Sequência | Finalidade |
|---|---|
| Fase filtrada de EPI 3D T2*/SWI, ou QSM | Detectar PRL |
| DIR ou PSIR 3D | Lesões corticais (pouco usadas na prática) |
| DWI | Auxiliar no diferencial. Não substitui o T1 pós-contraste |
| T1 3D eco-gradiente sem contraste (MPRAGE) | Avaliar volume cerebral |
| T1 2D spin-eco sem contraste | Lesões T1-hipointensas (black holes) |
Medula espinhal
- Essenciais: sagital em T2 FSE 2D, DP FSE 2D, STIR 2D, PSIR 2D ou MPRAGE; T1 FSE pós-contraste sagital; e confirmação em axial (T2 FSE 2D, T2* GRE (gradiente-eco) 2D ou reformatação de MPRAGE).
- A lesão deve estar presente em pelo menos duas sequências sagitais, para garantir que não é artefato.
- PSIR tem sensibilidade superior a T2 e STIR para lesões medulares, sobretudo cervicais, e vem sendo cada vez mais incorporada.
Nervo óptico
Com a entrada do nervo óptico como topografia para DIS, a imagem do nervo óptico passou a ser considerada essencial: T2 com saturação de gordura ou STIR, 2D ou 3D, no plano coronal.
Pontos de prova: alto rendimento
| As cinco topografias | Periventricular · justacortical/cortical · infratentorial · medula · nervo óptico (novo em 2024). |
| DIS | Lesões em ≥2 de 5 topografias, por imagem ou evidência clínica objetiva. |
| Exceção da PPMS | ≥2 lesões medulares + progressão ≥12 meses satisfaz DIS. |
| Tamanho mínimo | A atualização não define limiar; a prática aplica ≥3 mm. |
| Dedos de Dawson | Lesões ovoides perpendiculares à superfície ventricular, vistas no sagital. |
| Infratentoriais | Tendem a ser periféricas; as isquêmicas costumam ser centrais. |
| Lesões medulares | <2 segmentos vertebrais, periféricas, colunas lateral e dorsal. PSIR é a mais sensível. |
| Nervo óptico | Unilateral, segmento curto, com edema na fase ativa; quiasma poupado. |
| Substância branca profunda | Não conta para DIS, mas pode satisfazer DIT. Não usar o termo “subcortical”. |
| DIT por imagem | Realçante + não realçante no mesmo exame, ou nova lesão T2 no seguimento. |
| Substitutos da DIT | Novo surto clínico · BOC · kFLC (novo) · lesões em 4 de 5 topografias (novo). |
| Duração do realce | Pode persistir até 4 semanas. |
| Realce medular | Menos frequente que no encéfalo e geralmente nodular. |
| CVS: definição | Veia central <2 mm, visível em 2 planos perpendiculares e linear em um deles. |
| Regra dos seis | ≥6 lesões com CVS: sens. 65%, espec. 98%. Com 3 lesões: 81% e 68%. |
| PRL: definição | Halo hipointenso cobrindo ≥2/3 do perímetro; visível em 2 cortes consecutivos ou 2 planos; a lesão não realça. |
| Origem do halo | Macrófagos e micróglia carregados de ferro na periferia da lesão. |
| PRL sem pós-contraste | Comprovar que o núcleo já existia em RM de ≥6 meses antes. |
| RIS | Passa a poder ser EM se houver DIT, BOC/kFLC ou ≥6 lesões com CVS. |
| Cenário 4 | ≥50 anos, fatores vasculares ou cefaleia → exigir lesão medular, BOC/kFLC ou ≥6 CVS. |
| Pediatria após ADEM | Novo surto ou novas lesões T2 típicas >90 dias do início. |
| MOG-IgG | Todos os menores de 12 anos; e ≥12 anos com apresentação atípica. |
| Protocolo de crânio | Quatro essenciais: FLAIR 3D · T2 FSE axial · T1 3D pós-contraste (5 min) · sequência de suscetibilidade. |
| Truque do CVS | Administrar o contraste imediatamente antes ou durante a sequência de suscetibilidade pode melhorar a detecção. |
| Se indeterminado | Completar o SNC não avaliado e/ou líquor; persistindo dúvida, RM sem contraste em 6–12 meses. |
Armadilhas e erros comuns
Na aquisição
- SWI padrão com TE ou flip angle inadequados apaga o halo da PRL.
- Não fazer imagem de órbitas: o nervo óptico agora é topografia essencial.
- Fazer apenas uma sequência sagital de medula: a lesão precisa aparecer em duas para não ser artefato.
- Adquirir o T1 pós-contraste cedo demais: a recomendação é 5 minutos após o gadolínio.
- FLAIR 2D com gap em vez de 3D isotrópico, perdendo lesões pequenas.
Na interpretação
- Contar lesões de substância branca profunda para DIS: elas não contam.
- Chamar de justacortical uma lesão que não contata o córtex.
- Usar restrição à difusão como marcador de atividade: o padrão de referência é o realce.
- Aplicar a “regra dos seis” com três lesões: a especificidade cai de 98% para 68%.
- Chamar de PRL uma lesão que realça: o halo tem de ser de inflamação crônica.
- Diagnosticar EM em paciente acima de 50 anos com fatores vasculares sem lesão medular, líquor ou ≥6 CVS.
- Esquecer que EM é diagnóstico de exclusão, e que MOG e AQP4 (aquaporina-4) precisam ser considerados.
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6Homem de 58 anos, tabagista e hipertenso, com parestesias transitórias. RM mostra focos T2 periventriculares e justacorticais, ou seja, DIS aparentemente preenchida. Segundo a atualização de McDonald 2024, qual é a conduta correta antes de considerar o diagnóstico de EM?
Em uma RM de suspeita de EM com sequência de suscetibilidade, o radiologista identifica uma lesão com núcleo hiperintenso em T2 circundado por halo hipointenso cobrindo todo o perímetro, visível em dois cortes consecutivos, mas a lesão realça após o gadolínio. Como classificar esse achado?
Paciente com apresentação clínica típica realiza RM única de encéfalo e medula: há lesões em quatro das cinco topografias, sem lesões realçantes e sem exames prévios. Qual afirmativa reflete os critérios de McDonald 2024?
Você está montando o protocolo de RM de crânio para suspeita de EM segundo o MAGNIMS-CMSC-NAIMS alinhado a 2024. Sobre os componentes essenciais e a técnica, qual afirmativa está correta?
Criança de 7 anos internada com encefalomielite aguda disseminada (ADEM), tratada e recuperada. A família pergunta sobre o risco de EM. Segundo os critérios de McDonald 2024, como se estabelece DIT nesse contexto antes de aplicar os critérios do adulto?
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Aviso: Material de estudo. O diagnóstico de esclerose múltipla é clínico-radiológico-laboratorial integrado e permanece diagnóstico de exclusão; o laudo radiológico descreve o que a imagem demonstra em termos dos critérios, sem fechar o diagnóstico sozinho.