Cadernos QRad 24 · Hipocampo
Neurorradiologia · anatomia e diagnóstico diferencial

Hipocampo

Fonte: Alves et al, RadioGraphics 2022;42(3):822–840

Três perguntas antes do diagnóstico

O diagnóstico diferencial do hipocampo é largo e as doenças se parecem: a mesma doença pode dar padrões diferentes, e padrões iguais aparecem em doenças distintas. O artigo resolve isso com um algoritmo que não tenta adivinhar a doença: ele estreita o campo a partir da morfologia.

as três clivagens do algoritmo 1. A lesão é nodular (ocupa espaço) ou não nodular?
2. Se não nodular, é unilateral ou bilateral?
3. E o padrão é de alteração volumétrica ou de alteração na difusão?

Sendo nodular, a divisão é outra: cística, não cística ou hiperintensa em T1.
o que a lateralidade sugere Bilateral aponta causa sistêmica: tóxico-metabólica, degenerativa, inflamatória (autoimune) ou infecciosa (encefalite herpética).

Unilateral aponta neoplasia, causa degenerativa (degeneração frontotemporal), esclerose mesial temporal, isquemia ou amnésia global transitória.

Mas o texto qualifica: degeneração frontotemporal, encefalite herpética e encefalite autoimune são mais comumente bilaterais e assimétricas, embora possam ser unilaterais; e esclerose mesial temporal e AGT (amnésia global transitória) são geralmente unilaterais, embora possam ser bilaterais.
a síndrome clínica não separa as doenças As manifestações clínicas dos distúrbios hipocampais se dividem em três tipos: síndromes epilépticas, manifestações amnésticas e manifestações neuropsiquiátricas.

Como doenças muito diferentes se apresentam pelas mesmas síndromes, é a imagem que tem papel de guiar o diagnóstico final, e não o contrário.

Anatomia

as duas definições que se confundem Hipocampo: composto por quatro partes (CA1, CA2, CA3 e CA4), os cornos de Amon (CA, do latim cornu Ammonis).

Formação hipocampal: é maior, com giro denteado + plexo subicular + o próprio hipocampo.

E, ao longo do eixo, o hipocampo se divide em cabeça, corpo e cauda.
EstruturaO que é
SRLMEstrato radiado, lacunoso e molecular. É o marco crítico na avaliação da arquitetura interna do hipocampo (AIH): a linha hipointensa dentro do hipocampo nos cortes coronais. A AIH é o aspecto laminar de substância cinzenta e branca, com diferenciação clara de todos os segmentos do corno de Amon e continuidade do SRLM
AmígdalaEm contato direto e anterior com o hipocampo, mas não faz parte dele
SubículoLiga o corno de Amon ao córtex entorrinal
ÁlveoTrato compacto de substância branca na superfície hipocampal, que protrui no corno temporal e é contínuo com a fímbria
FímbriaSepara-se do hipocampo como a cruz do fórnice. É a via de saída: recebe do álveo e do subículo e leva, pelo fórnice, aos corpos mamilares
UncoPequena projeção na superfície medial da extremidade anterior do giro para-hipocampal
Girações (digitações)Presentes na cabeça, corpo e cauda, mas mais proeminentes em CA1 e no giro denteado (dentação)
Anatomia do hipocampo
Desenho coronal: sulco hipocampal (seta) e camadas radiada, lacunosa e molecular, a SRLM (ponta de seta). 1 = fímbria, 2 = giro denteado, 3 = corno de Ammon (CA
Desenho coronal: sulco hipocampal (seta) e camadas radiada, lacunosa e molecular, a SRLM (ponta de seta). 1 = fímbria, 2 = giro denteado, 3 = corno de Ammon (CA1 a CA4), 4 = álveo, 5 = subículo, 6 = córtex entorrinal, 7 = giro para-hipocampal, 8 = corno temporal do ventrículo lateral.
RM coronal T2: a SRLM (ponta de seta), linha de hipossinal que separa o corno de Ammon do giro denteado, com os mesmos números do desenho.
RM coronal T2: a SRLM (ponta de seta), linha de hipossinal que separa o corno de Ammon do giro denteado, com os mesmos números do desenho.
RM axial T1: cabeça (9, à frente do mesencéfalo), corpo (10, ao lado do mesencéfalo) e cauda (11, atrás do mesencéfalo) do hipocampo.
RM axial T1: cabeça (9, à frente do mesencéfalo), corpo (10, ao lado do mesencéfalo) e cauda (11, atrás do mesencéfalo) do hipocampo.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 1. Ver artigo
a vascularização, em três artérias Artéria hipocampal anterior: ramo da PCA (artéria cerebral posterior) ou da coroidea anterior → irriga a cabeça.
Artéria hipocampal média: ramo da PCA ou da coroidea anterior → irriga o corpo.
Artéria hipocampal posterior: ramo da PCA ou da coroidea posterolateral → irriga a cauda.

A drenagem venosa vai pelas veias intra-hipocampais às superficiais, formando dois arcos, que drenam para a veia basal e daí para a veia de Galeno.
A vascularização do hipocampo
RM axial de 7 T com desenho das artérias sobreposto. 1 = carótida interna, 2 = cerebral média, 3 = coroideia anterior, 4 = hipocampal anterior, 5 = hipocampal m
RM axial de 7 T com desenho das artérias sobreposto. 1 = carótida interna, 2 = cerebral média, 3 = coroideia anterior, 4 = hipocampal anterior, 5 = hipocampal média, 6 = coroideia posterolateral, 7 = hipocampal posterior, 8 = cerebral posterior, 9 = comunicante posterior.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 3. Ver artigo
+ complemento · função e desenvolvimento Função: O hipocampo posterior parece codificar informação espacial e sensitivo-motora de ordem inferior (os detalhes da memória); o anterior codifica informação de ordem superior, construindo a memória de essência. O hemisfério direito relaciona-se mais à memória visual e o esquerdo à verbal.

Desenvolvimento: Surge da parte dorsal da lâmina terminal e é identificável já na 7ª a 9ª semana gestacional. A formação sofre rotação progressiva e, pela 18ª a 20ª semana, já lembra a forma adulta.

Inversão hipocampal incompleta: quando a rotação não se completa, o hipocampo mantém a forma arredondada, fica mais vertical e mais medial que o normal. Pode ser achado de paciente assintomático.
Inversão hipocampal incompleta, paciente sem sintomas
RM coronal T2: inversão hipocampal incompleta à esquerda (seta); o hipocampo direito é normal.
RM coronal T2: inversão hipocampal incompleta à esquerda (seta); o hipocampo direito é normal.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 2. Ver artigo

Protocolo e medicina nuclear

CenárioSequências dedicadas
EpilepsiaDeve sempre incluir a sequência T2 e o plano coronal perpendicular ao corpo do hipocampo · acrescentam-se coronal T2, coronal T1 e coronal FLAIR (fluid-attenuated inversion recovery: T2 com o sinal do líquor suprimido)
DemênciaO mesmo posicionamento coronal, com a sequência T2 · e a T1 sagital volumétrica quando se quer volumetria
Amnésia global transitóriaDWI (imagem ponderada em difusão) coronal e axial com cortes finos, de 3 mm, e valor de b = 2000 s/mm²
SequênciaTR, tempo de repetição (ms)TE, tempo de eco (ms)Espessura
DWI coronal e axial290080–1403,0 mm
T2 coronal5280893,0 mm
T1 coronal22002,641,5 mm
FLAIR coronal7800843,0 mm
T1 sagital para volumetria24002,291,2 mm
a recomendação da ILAE (International League Against Epilepsy), e a controvérsia da volumetria A Força-Tarefa de Neuroimagem da ILAE recomenda que o paciente com primeira crise de causa desconhecida faça RM de crânio.

A volumetria quantitativa ainda é ponto de discórdia. Na demência, pode ser um adjunto útil e eficiente na prática. Na epilepsia, a análise visual parece ter sensibilidade maior que a volumetria automatizada, porque as alterações morfológicas dos subcampos costumam preceder a alteração volumétrica.
medicina nuclear: o que cada método faz PET (tomografia por emissão de pósitrons) com FDG (fluordesoxiglicose) tem, em geral, acurácia maior que o SPECT (tomografia por emissão de fóton único) de perfusão nos distúrbios relacionados ao hipocampo, e é superior ao SPECT como adjunto à RM no diferencial das doenças neurodegenerativas.

Estudo ictal só é possível com SPECT. É obrigatório monitorizar com vídeo-EEG, com o traçador injetado no momento exato da crise; as imagens são adquiridas depois, com o paciente já estabilizado.

Para subtração de SPECT ictal e interictal, o SISCOM (SPECT ictal subtraído e corregistrado à RM) eleva a acurácia da análise visual e é o padrão de referência.

Nas neurodegenerativas, recomenda-se somar à análise visual a avaliação por projeção de superfície estereotáxica tridimensional (SSP).
+ complemento · o repouso antes do traçador Nos estudos de repouso, o paciente deve descansar por ao menos 10 minutos (SPECT) ou 30 minutos (PET) em sala silenciosa, com pouca luz e olhos abertos, antes da injeção do radiofármaco, e mais 30 minutos nas mesmas condições depois dela.

O algoritmo: nodular ou não nodular

NÃO NODULAR UNILATERAL BILATERAL Alterações volumétricas Redução: degenerativa, MTLE com esclerose hipocampal, sequelas Aumento: neoplasia, encefalite infecciosa ou autoimune, ictal Alterações volumétricas Redução: degenerativa, MTLE com esclerose hipocampal Aumento: NF-1, encefalite infecciosa ou autoimune Alterações na difusão encefalite autoimune ou infecciosa alterações ictais, tóxico-metabólico amnésia global transitória, isquemia Alterações na difusão encefalite autoimune ou infecciosa tóxico-metabólico amnésia global transitória: menos que no unilateral
O ramo não nodular: primeiro a lateralidade, depois o padrão; volume ou difusão.
NODULAR CÍSTICO NÃO CÍSTICO HIPERINTENSO EM T1 cisto da fissura coroide cisto remanescente do sulco hipocampal tumor neuronal multinodular e vacuolizante: MVNT espaço perivascular tumefeito neoplasia malformação vascular malformação do desenvolvimento cortical neurofibromatose tipo 1 calcificações neoplasia melanose neurocutânea malformações vasculares glioma angiocêntrico
O ramo nodular, isto é, das lesões que ocupam espaço: cística, não cística ou hiperintensa em T1.
como usar o algoritmo Ele não entrega o diagnóstico: entrega a lista curta. A partir dela, o que fecha o caso é a correlação clínica e laboratorial somada aos achados associados: mudança volumétrica, restrição à difusão, aspecto cístico, hiperintensidade em T1, realce ou calcificação.
as duas listas que se repetem nos dois lados Repare que encefalite autoimune e encefalite infecciosa aparecem em todas as quatro caixas do ramo não nodular: uni e bilateral, volume e difusão. Elas são o coringa do algoritmo, e é por isso que a clínica pesa tanto aqui.

O que é exclusivo de cada caixa é mais útil: sequelas só na redução unilateral · NF-1 (neurofibromatose tipo 1) só no aumento bilateral · isquemia só na difusão unilateral.

Redução volumétrica

DoençaPadrão de imagem
Doença de AlzheimerO padrão mais precoce é atrofia do córtex entorrinal e, eventualmente, do hipocampo, seguida de envolvimento previsível do precúneo, com poupança da faixa sensitivo-motora. É bilateral, mas nem sempre simétrico: a atrofia progride mais rápido à esquerda. Na variante posterior, há atrofia parieto-occipital com relativa poupança dos lobos temporais mediais
Degeneração lobar frontotemporalAtrofia frontal e temporal com preservação relativa das áreas posteriores: é o selo do grupo. Às vezes com aspecto em lâmina de faca. Padrão assimétrico, ou mais anterior que posterior, sugere DLFT (degeneração lobar frontotemporal)
LATE: encefalopatia por TDP-43 (proteína que forma agregados nos neurônios) relacionada à idade, de predomínio límbicoProteinopatia de TDP-43 que envolve principalmente a amígdala e as estruturas temporais mediais. Atrofia hipocampal frequentemente assimétrica, com progressão em gradiente rostrocaudal. Comum em pessoas de 80 anos ou mais com quadro amnéstico
Esclerose mesial temporalAtrofia + hiperintensidade em T2/FLAIR + perda da clareza da arquitetura interna + escassez de digitações, em distribuição predominantemente unilateral. Sem restrição à difusão e sem realce
Doença de Alzheimer, homem de 70 anos com perda de memória e de orientação
RM coronal, pelos escores MTA (medial temporal atrophy, atrofia temporal medial) e ERICA (entorhinal cortex atrophy, atrofia do córtex entorrinal): hipocampo direito com volume normal (MTA 1) e redução à esquerda (MTA 2), com leve atrofia do córtex entorrinal esquerdo (ERICA 1) e alargamento de
RM coronal, pelos escores MTA (medial temporal atrophy, atrofia temporal medial) e ERICA (entorhinal cortex atrophy, atrofia do córtex entorrinal): hipocampo direito com volume normal (MTA 1) e redução à esquerda (MTA 2), com leve atrofia do córtex entorrinal esquerdo (ERICA 1) e alargamento de sulcos, fissuras e ventrículos.
PET-FDG axial: hipometabolismo temporoparietal bilateral, pior à direita (setas), e no cíngulo posterior e pré-cúneo, também pior à direita (ponta de seta).
PET-FDG axial: hipometabolismo temporoparietal bilateral, pior à direita (setas), e no cíngulo posterior e pré-cúneo, também pior à direita (ponta de seta).
PET-FDG em projeção de superfície 3D comparada com banco de normais: hipometabolismo no córtex associativo temporoparietal, no pré-cúneo e no cíngulo posterior
PET-FDG em projeção de superfície 3D comparada com banco de normais: hipometabolismo no córtex associativo temporoparietal, no pré-cúneo e no cíngulo posterior direitos (setas). É o padrão típico do Alzheimer, em que o hipometabolismo cortical aparece antes e é mais específico que a atrofia temporal medial.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 5. Ver artigo
Degeneração lobar frontotemporal simulando Alzheimer, homem de 75 anos
RM axial T1: atrofia temporal neocortical e medial à direita.
RM axial T1: atrofia temporal neocortical e medial à direita.
RM coronal T2: atrofia temporal medial direita (MTA 3, ERICA 2) e redução do hipocampo esquerdo (MTA 2), com alargamento de sulcos, fissuras e ventrículos.
RM coronal T2: atrofia temporal medial direita (MTA 3, ERICA 2) e redução do hipocampo esquerdo (MTA 2), com alargamento de sulcos, fissuras e ventrículos.
PET-FDG: hipometabolismo temporal direito acentuado, com hipometabolismo frontal e temporoparietal moderado (setas); cíngulo posterior e pré-cúneo relativamente
PET-FDG: hipometabolismo temporal direito acentuado, com hipometabolismo frontal e temporoparietal moderado (setas); cíngulo posterior e pré-cúneo relativamente preservados (ponta de seta). O padrão levantou a suspeita de DLFT.
RM axial T1 um ano depois: progressão da atrofia dos lobos temporais.
RM axial T1 um ano depois: progressão da atrofia dos lobos temporais.
PET-RM com marcador de amiloide (PiB): captação normal na substância branca e ausência de amiloide cortical, o que exclui Alzheimer e confirma a suspeita de DLF
PET-RM com marcador de amiloide (PiB): captação normal na substância branca e ausência de amiloide cortical, o que exclui Alzheimer e confirma a suspeita de DLFT.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 6. Ver artigo
as escalas de atrofia temporal medial A escala de Scheltens avalia fissura coroide, corno temporal do ventrículo lateral e hipocampo, numa escala de 0 a 4.

Os pontos de corte seguem controversos, mas a proposta original é ajustada por idade:
MTA (medial temporal atrophy, a escala de Scheltens) ≥ 2 em qualquer hemisfério é anormal abaixo de 75 anos.
MTA ≥ 3 é anormal acima de 75 anos.

Existe também o escore ERICA, de atrofia do córtex entorrinal.
os sinais secundários da esclerose mesial Corroboram o diagnóstico: atrofia do tálamo, do fórnice ipsilateral ou dos corpos mamilares, todos ligados às vias aferentes e eferentes do hipocampo.

E há uma variante a conhecer: a MTLE (epilepsia do lobo temporal mesial) com aumento da amígdala, em que a amígdala isolada e aumentada é potencialmente o foco epiléptico, sem alteração definida de sinal à RM. É um padrão morfológico distinto da MTLE com esclerose hipocampal, em que a atrofia é o achado proeminente.
Esclerose mesial temporal em investigação de epilepsia
RM coronal T2: hipocampo direito reduzido, com hipersinal (seta).
RM coronal T2: hipocampo direito reduzido, com hipersinal (seta).
RM coronal T2: redução do fórnix do mesmo lado (ponta de seta).
RM coronal T2: redução do fórnix do mesmo lado (ponta de seta).
RM axial T2: redução do corpo mamilar do mesmo lado (seta).
RM axial T2: redução do corpo mamilar do mesmo lado (seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 7. Ver artigo
o aviso mais importante desta seção O diagnóstico de esclerose hipocampal não deve ser feito levianamente com base em alterações mínimas à imagem: isso leva a mau prognóstico de crises após a cirurgia. Em vez disso, o neurorradiologista deve procurar cuidadosamente outras lesões epileptogênicas.

E a volumetria isolada não identifica adequadamente cerca de 10% dos casos confirmados, que mostram apenas alteração discreta de sinal. Some-se a isso que mesmo em hipocampos normais há diferença de 10% de volume entre os lados.
+ complemento · os três tipos de esclerose hipocampal da ILAE Tipo 1: padrão clássico, perda neuronal em CA1 e CA4.
Tipo 2: predomínio em CA1.
Tipo 3: esclerose do end folium (CA4).

Perda neuronal grave em CA1 associou-se a lesão precipitante inicial antes dos 7 anos; dano mais difuso, compreendendo todos os subcampos, a lesão antes dos 3 anos. O melhor desfecho pós-cirúrgico a longo prazo é o do tipo 1.

No PET com FDG e no SPECT interictal há hipometabolismo e hipoperfusão temporais marcados.

Alterações na difusão

CausaChave de imagem
Encefalite autoimuneA RM pode ser normal (especialmente na doença por anti-NMDAr), mostrar alterações inespecíficas, ou espessamento cortical com lesões hiperintensas em T2/FLAIR nas estruturas límbicas. Grupo I: antígenos intracelulares, fortemente associado a malignidade. Grupo II: antígenos de superfície neuronal, responde a imunoterapia
Encefalite herpéticaRestrição à difusão predominantemente cortical com hiperintensidade em T2 nas porções mesiais dos lobos temporais. O HSV-2 (herpes-vírus simples tipo 2) causa encefalite neonatal, com envolvimento parenquimatoso difuso e sem predileção temporal
NeurossífilisDistribuição tipicamente meningovascular; pode dar hiperintensidade mesiotemporal e atrofia em T2/FLAIR, com realce leptomeníngeo
HHV-6 (herpes-vírus humano tipo 6)Causa mais comum de encefalite límbica aguda pós-transplante (PALE) após transplante de células-tronco hematopoéticas: em geral com hiperintensidade hipocampal bilateral
Alterações ictaisHipocampo é estrutura vulnerável à crise. A incidência de alterações peri-ictais é muito menor após crise única ou agrupada do que após estado de mal
Amnésia global transitóriaLesões puntiformes pequenas em DWI e T2/FLAIR na porção lateral do hipocampo: quase todas no setor CA1. Solitárias ou múltiplas, mais comumente unilaterais
AVC hipocampalRestrição verdadeira. O suprimento vem sobretudo da PCA e da coroidea anterior: examine esses territórios
Encefalite autoimune anti-CV2, mulher de 76 anos com quadro neuropsiquiátrico e coreia
RM axial FLAIR: hipersinal no estriado (setas).
RM axial FLAIR: hipersinal no estriado (setas).
RM axial FLAIR: hipersinal no hipocampo (ponta de seta). A TC de tórax mostrou massa pulmonar, um carcinoma de pequenas células.
RM axial FLAIR: hipersinal no hipocampo (ponta de seta). A TC de tórax mostrou massa pulmonar, um carcinoma de pequenas células.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 9. Ver artigo
Encefalite herpética, paciente com rebaixamento de consciência e febre
Difusão axial: restrição predominantemente cortical nas porções mesiais dos lobos temporais (setas).
Difusão axial: restrição predominantemente cortical nas porções mesiais dos lobos temporais (setas).
RM axial T2: hipersinal nas mesmas regiões (pontas de seta).
RM axial T2: hipersinal nas mesmas regiões (pontas de seta).
RM coronal T2: hipersinal temporal mesial (pontas de seta). Não havia realce.
RM coronal T2: hipersinal temporal mesial (pontas de seta). Não havia realce.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 11. Ver artigo
Neurossífilis com atrofia hipocampal bilateral, mulher de 30 anos com crises e alteração de comportamento
RM coronal T2: perda difusa de parênquima com dilatação ventricular e atrofia temporal mesial acentuada.
RM coronal T2: perda difusa de parênquima com dilatação ventricular e atrofia temporal mesial acentuada.
RM axial FLAIR pós-contraste: realce leptomeníngeo difuso, mais evidente nos sulcos temporais (setas).
RM axial FLAIR pós-contraste: realce leptomeníngeo difuso, mais evidente nos sulcos temporais (setas).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 12. Ver artigo
Alteração pós-ictal
Difusão axial: discreto aumento de sinal no hipocampo esquerdo (seta).
Difusão axial: discreto aumento de sinal no hipocampo esquerdo (seta).
Difusão axial: aumento de sinal associado no tálamo esquerdo (seta).
Difusão axial: aumento de sinal associado no tálamo esquerdo (seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 13. Ver artigo
Amnésia global transitória, paciente com confusão mental súbita
Difusão coronal: foco puntiforme de restrição no hipocampo direito (seta).
Difusão coronal: foco puntiforme de restrição no hipocampo direito (seta).
Mapa ADC (coeficiente de difusão aparente) coronal: ADC baixo no mesmo ponto (seta).
Mapa ADC (coeficiente de difusão aparente) coronal: ADC baixo no mesmo ponto (seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 15. Ver artigo
AVC hipocampal
Difusão axial: restrição verdadeira em todo o hipocampo esquerdo (seta).
Difusão axial: restrição verdadeira em todo o hipocampo esquerdo (seta).
Angio-RM: redução abrupta do calibre do segmento P1 da cerebral posterior esquerda (seta).
Angio-RM: redução abrupta do calibre do segmento P1 da cerebral posterior esquerda (seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 16. Ver artigo
a janela temporal da amnésia global transitória Detectabilidade máxima entre 48 e 72 horas do início dos sintomas.

E o seguimento entre 10 e 20 dias após o evento não mostra lesão residual. Isso quer dizer duas coisas: uma RM feita cedo demais pode ser normal, e uma feita tarde demais também.
os quatro estágios do ADC durante uma crise Estágio 1: hiperperfusão inicial, sem alteração definida do ADC.
Estágio 2: edema vasogênico extracelular predominante, com ADC aumentado.
Estágio 3: edema citotóxico predominante, com ADC reduzido.
Estágio 4: perda neuronal e gliose relacionadas ao ictus, com ADC aumentado.

Por isso o momento da aquisição e a duração da crise mudam o que se vê. E o diagnóstico de alteração ictal exige seguimento clínico e de imagem para confirmar a resolução: relatada já a partir de 1 semana. Não há consenso sobre o intervalo.
Tóxico-metabólicoSítios de envolvimento
HipoglicemiaLobos temporal e occipital e córtex insular, com hipocampo e estriado, poupando os tálamos
EtilenoglicolBilateral e simétrico: núcleos da base, tálamos, amígdala, hipocampo e tronco
Monóxido de carbonoGlobo pálido bilateral, às vezes com hipocampos, caudados, putames, tálamos, cerebelo, corpo caloso e córtex
Encefalopatia hipóxico-isquêmicaNúcleos da base, tálamos, córtices, hipocampos e cerebelo
Síndrome SESA (subacute encephalopathy with seizures in alcoholics)Encefalopatia subaguda com crises em alcoolistas: lobo temporal, sobretudo hipocampo, progredindo à atrofia
Encefalopatia hipóxico-isquêmica após intoxicação por monóxido de carbono com parada cardíaca
Difusão axial: restrição no corpo dos dois hipocampos (setas).
Difusão axial: restrição no corpo dos dois hipocampos (setas).
Mapa ADC axial: restrição nos córtices parieto-occipitais (setas).
Mapa ADC axial: restrição nos córtices parieto-occipitais (setas).
RM axial FLAIR: hipersinal acentuado, bilateral e simétrico, nos caudados, putames (setas) e tálamos (pontas de seta), e mais sutil em todo o córtex.
RM axial FLAIR: hipersinal acentuado, bilateral e simétrico, nos caudados, putames (setas) e tálamos (pontas de seta), e mais sutil em todo o córtex.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 14. Ver artigo
+ complemento · o que a medicina nuclear acrescenta aqui Na encefalite infecciosa, há hipermetabolismo ao PET com FDG e aumento de perfusão ao SPECT nas áreas acometidas.

No período ictal, a medicina nuclear identifica o foco por hiperperfusão; no pós-ictal, mostra hipoperfusão nas áreas afetadas e funcionalmente conectadas (diásquise funcional). Daí a exigência do vídeo-EEG: sem ele, um estudo pós-ictal pode ser interpretado como ictal.

Lesões nodulares

LesãoAchados
Cisto da fissura coroide e cisto remanescente do sulco hipocampalCistos intracranianos benignos, isointensos ao líquor. O primeiro ocorre em qualquer ponto do trajeto da fissura; o segundo forma-se entre o corno de Amon e o giro denteado. Em geral sem relevância clínica: são as lesões “no touch”
MVNT: tumor neuronal multinodular e vacuolizanteNódulos ou bolhas redondas ou ovoides de 1 a 5 mm no córtex profundo ou na substância branca subcortical, bem marginados, frequentemente delineando um sulco. Hiperintenso em T2/FLAIR, em geral sem realce. Alto sinal em DWI com ADC alto, por T2 shine-through. OMS grau 1, geralmente assintomático e incidental
Espaço perivascular tumefeitoLesão focal isointensa ao líquor com um pequeno vaso dentro, e alteração de sinal variável ao redor em T2/FLAIR, refletindo gliose. Pode mimetizar neoplasia cística
GangliogliomaTumor glioneuronal de baixo grau, frequente no lobo temporal. Classicamente massa cística com nódulo mural em 40% dos casos, mas massa sólida não é incomum. Realce do componente sólido é variável; calcificação em 30%. Pouco efeito de massa ou edema
DNET (tumor neuroepitelial disembrioplásico)Segundo tumor mais comum nos casos ressecados de epilepsia intratável. Lesão predominantemente cortical e bem demarcada, hiperintensa em T2 e de sinal misto em FLAIR, com aspecto “em bolhas”. Sem edema perilesional nem efeito de massa. Podem ocorrer realce focal, hemossiderina e calcificação · expansão da calota sobrejacente e sinal do halo brilhante no FLAIR. Frequentemente concomitante a displasia cortical
Xantoastrocitoma pleomórficoOMS grau 2, raro e de crescimento lento, em crianças e adultos jovens. Metade ocorre nos lobos temporais. Típico: nódulo sólido com realce e componente cístico periférico. Envolvimento leptomeníngeo é comum, podendo haver espessamento dural
Glioma difuso e glioblastomaCerca de 30% de todos os gliomas ocorrem no lobo temporal. Lesão grande e heterogênea, margens de realce irregular, centro necrótico ou líquido, cercada por edema vasogênico ou infiltração
Lesões "não toque" do hipocampo
RM coronal T2: cisto da fissura coroide, lesão cística arredondada e bem definida, com hipersinal, ao longo da fissura coroide direita (seta), sem edema nem gli
RM coronal T2: cisto da fissura coroide, lesão cística arredondada e bem definida, com hipersinal, ao longo da fissura coroide direita (seta), sem edema nem gliose em volta.
RM coronal T2: cisto remanescente do sulco hipocampal, pequena formação cística dentro do hipocampo direito (ponta de seta).
RM coronal T2: cisto remanescente do sulco hipocampal, pequena formação cística dentro do hipocampo direito (ponta de seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 17. Ver artigo
Ganglioglioma, homem de 40 anos com a primeira crise
RM axial FLAIR: lesão expansiva sólida e infiltrativa, de contornos lobulados e bem definidos, com hipersinal, centrada no hipocampo direito.
RM axial FLAIR: lesão expansiva sólida e infiltrativa, de contornos lobulados e bem definidos, com hipersinal, centrada no hipocampo direito.
RM coronal T1 pós-contraste: sem realce. Não havia restrição à difusão.
RM coronal T1 pós-contraste: sem realce. Não havia restrição à difusão.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 18. Ver artigo
DNET, paciente de 55 anos com crises refratárias
RM axial T2: lesão intra-axial multinodular no hipocampo e na amígdala esquerdos (seta), com hipersinal e aspecto bolhoso.
RM axial T2: lesão intra-axial multinodular no hipocampo e na amígdala esquerdos (seta), com hipersinal e aspecto bolhoso.
RM axial T1 pós-contraste: sem realce (seta).
RM axial T1 pós-contraste: sem realce (seta).
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 19. Ver artigo
as não císticas: as três que se reconhecem de longe Malformações vasculares: Anomalia venosa do desenvolvimento, telangiectasia capilar, cavernoma e MAV (malformação arteriovenosa). Têm blooming na sequência de suscetibilidade; o sinal em T1 e T2 varia com a idade dos produtos de sangue: nas fases subagudas, hiperintensas em T1 (metemoglobina).

Displasia cortical focal: Espessamento ou afinamento cortical focal, borramento da junção córtico-subcortical e alteração de sinal cortical ou subcortical. O sinal do transmanto (hipersinal em T2/FLAIR radial, apontando para o ventrículo) é sinal de displasia tipo II.

Heterotopia de substância cinzenta: Aglomerado de neurônios normais em local anormal; periventricular e subcortical são os tipos mais comuns. A cauda do núcleo caudado não deve ser confundida com heterotopia periventricular no lobo temporal mesial.
neurofibromatose tipo 1 no hipocampo As lesões focais hiperintensas em T2 são a alteração cerebral mais comum na NF-1, e localizam-se predominantemente nos núcleos cinzentos profundos, tronco, hipocampo e substância branca cerebelar.

Num estudo prospectivo de 103 pacientes, 80% tinham hiperintensidades hipocampais difusas e bilaterais, mais bem demonstradas em FLAIR.

Atribuem-se em geral à vacuolização de mielina, que costuma surgir na 1ª década e regredir ao fim da 2ª, mas as lesões hipocampais são controversas: alguns estudos sugerem redução, outros não encontram mudança, o que insinua base patológica diferente.
Neurofibromatose tipo 1
RM coronal T2: hipersinal e leve aumento de volume das duas amígdalas e dos dois hipocampos, com focos menores no núcleo da base esquerdo (seta). Sem efeito de
RM coronal T2: hipersinal e leve aumento de volume das duas amígdalas e dos dois hipocampos, com focos menores no núcleo da base esquerdo (seta). Sem efeito de massa e sem realce.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 20. Ver artigo
as calcificações Calcificação hipocampal é prevalente em mais de 30% dos pacientes com doença cerebrovascular e associa-se a fatores de risco cardiovascular: 45% nos de 80 anos ou mais, o que sugere origem aterosclerótica.

Proteinose lipoide (doença de Urbach-Wiethe): dermatose autossômica recessiva por mutação no gene ECM1. A calcificação parenquimatosa seletiva é o selo: a lesão em forma de chifre envolvendo a amígdala é considerada patognomônica. Outros sítios: hipocampo, giro para-hipocampal e estriado.

CAPNON (pseudoneoplasia calcificante do neuroeixo): calcificações densas sem edema vasogênico; benigna, mas pode causar epilepsia focal.

PLNTY (tumor neuroepitelial polimorfo de baixo grau do jovem): lesão bem circunscrita com calcificação macroscópica, componente cístico e realce infrequente. 67% no lobo temporal.
Proteinose lipoide, menina de 12 anos com cefaleia há 2 anos
TC axial sem contraste: calcificações temporais mesiais bilaterais e simétricas, em forma de chifre (setas).
TC axial sem contraste: calcificações temporais mesiais bilaterais e simétricas, em forma de chifre (setas).
RM coronal T2: as calcificações aparecem como áreas sem sinal (setas) no lobo temporal mesial, nas amígdalas.
RM coronal T2: as calcificações aparecem como áreas sem sinal (setas) no lobo temporal mesial, nas amígdalas.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 21. Ver artigo
+ complemento · as duas que brilham em T1 Melanose neurocutânea: Facomatose congênita rara, com depósitos de melanócitos nas meninges e no parênquima, mais frequentemente na amígdala. Lesões hiperintensas em T1, hipo ou isointensas em T2/FLAIR, sem efeito de suscetibilidade, sem supressão de gordura e sem realce. As leptomeninges podem realçar intensamente. Recomenda-se RM periódica para detectar progressão e hidrocefalia.

Glioma angiocêntrico: Tumor de crescimento lento, em crianças e adultos jovens com crises intratáveis; 32% no lobo temporal, embora seja mais comum no frontal. Envolve substância cinzenta e branca corticais, sem calcificação e sem realce. O aspecto descrito como específico: extensão subcortical hiperintensa em haste até o ventrículo em T2/FLAIR e hiperintensidade intrínseca em anel em T1.
Glioma angiocêntrico, menino de 15 anos com crises
RM coronal FLAIR: lesão expansiva sólido-cística no hipocampo esquerdo (seta).
RM coronal FLAIR: lesão expansiva sólido-cística no hipocampo esquerdo (seta).
RM coronal T1: hipersinal espontâneo da lesão (seta), com componente cístico que se estende à amígdala.
RM coronal T1: hipersinal espontâneo da lesão (seta), com componente cístico que se estende à amígdala.
Fonte: Alves IS et al. RadioGraphics 2022;42(3):822–840, Fig. 22. Ver artigo

Pontos de prova: alto rendimento

As três clivagensNodular × não nodular · uni × bilateral · volume × difusão
Bilateral sugereCausa sistêmica: tóxico-metabólica, degenerativa, autoimune, infecciosa
Unilateral sugereNeoplasia, degenerativa, esclerose mesial, isquemia, AGT
HipocampoCA1 a CA4: os cornos de Amon
Formação hipocampalGiro denteado + plexo subicular + hipocampo
SRLMEstrato radiado, lacunoso e molecular · marco da arquitetura interna
AmígdalaNão faz parte do hipocampo: está em contato anterior
Via de saídaFímbria → fórnice → corpos mamilares
DigitaçõesMais proeminentes em CA1 e no giro denteado
VascularizaçãoHipocampal anterior (cabeça), média (corpo), posterior (cauda) · da PCA, coroidea anterior e coroidea posterolateral
Inversão hipocampal incompletaForma arredondada, mais vertical e medial · pode ser assintomática
Protocolo de epilepsiaSempre T2 e coronal perpendicular ao corpo do hipocampo
Protocolo de AGTDWI coronal e axial, cortes de 3 mm, b = 2000
VolumetriaDiscutível · na epilepsia a análise visual é mais sensível
PET com FDG × SPECTO PET é superior como adjunto à RM nas neurodegenerativas
Estudo ictalSó com SPECT, e com vídeo-EEG obrigatório
Escala de ScheltensFissura coroide, corno temporal e hipocampo · 0 a 4
Corte da MTA≥ 2 abaixo de 75 anos · ≥ 3 acima de 75
Alzheimer, padrão precoceAtrofia do córtex entorrinal, depois hipocampo e precúneo
DLFTAtrofia frontotemporal com preservação posterior · “lâmina de faca”
LATETDP-43 · amígdala e temporal medial · ≥ 80 anos · gradiente rostrocaudal
Esclerose mesialAtrofia + T2/FLAIR alto + perda da AIH + poucas digitações · sem difusão e sem realce
Sinais secundáriosAtrofia de tálamo, fórnice e corpos mamilares ipsilaterais
Tipos ILAE de esclerose1 CA1 e CA4 (melhor prognóstico) · 2 CA1 · 3 end folium
Volume normal entre os ladosDiferença de até 10%
AGTLesões puntiformes laterais, setor CA1 · pico em 48 a 72 h · sem resíduo em 10 a 20 dias
ADC na crise1 sem mudança · 2 alto · 3 baixo · 4 alto
HerpéticaRestrição cortical mesiotemporal · HSV-2 é neonatal e difusa
PALE pós-transplanteHHV-6, bilateral
HipoglicemiaTemporal, occipital, insular, hipocampo e estriado: poupa tálamos
Lesões “no touch”Cisto da fissura coroide e cisto remanescente do sulco
MVNTBolhas de 1 a 5 mm · OMS 1 · ADC alto por shine-through
GangliogliomaCisto com nódulo mural em 40% · calcificação em 30%
DNETBolhas corticais · sem edema · halo brilhante no FLAIR
Sinal do transmantoDisplasia cortical focal tipo II
NF-180% com hiperintensidade hipocampal bilateral no FLAIR
Proteinose lipoideCalcificação em chifre na amígdala: patognomônica
Hiperintensos em T1Melanose neurocutânea, malformações vasculares, glioma angiocêntrico

Armadilhas e erros comuns

Erros de anatomia e de leitura

  • Chamar de formação hipocampal só o hipocampo: ela inclui giro denteado e plexo subicular
  • Incluir a amígdala no hipocampo
  • Confundir a cauda do caudado com heterotopia periventricular temporal
  • Ler inversão hipocampal incompleta como doença
  • Deixar de olhar a continuidade do SRLM ao avaliar a arquitetura interna

Erros de diagnóstico

  • Diagnosticar esclerose hipocampal a partir de alteração mínima: piora o prognóstico cirúrgico
  • Confiar só na volumetria: ~10% dos casos têm apenas alteração discreta de sinal, e há 10% de diferença normal entre os lados
  • Atribuir atrofia hipocampal automaticamente a Alzheimer: ela é inespecífica
  • Ver restrição hipocampal e não pensar em crise recente
  • Interpretar um SPECT pós-ictal como ictal, sem vídeo-EEG
  • Chamar de neoplasia cística um espaço perivascular tumefeito

Erros de protocolo e de janela

  • Pedir RM de epilepsia sem coronal perpendicular ao corpo do hipocampo
  • Investigar AGT sem DWI de 3 mm e b = 2000
  • Fazer a RM da AGT antes de 48 h ou depois de 10 dias e concluir normalidade
  • Deixar de seguir uma alteração ictal até documentar resolução
  • Não examinar os territórios da PCA e da coroidea anterior numa suspeita de AVC

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Homem de 66 anos com amnésia anterógrada de início súbito, já resolvida. A RM feita 60 horas após o início mostra foco puntiforme de restrição na porção lateral do hipocampo direito. Qual o diagnóstico e o que esperar do seguimento?

O quadro é a amnésia global transitória, e cada detalhe do enunciado é um critério de imagem descrito no artigo.

Onde: lesões puntiformes pequenas em DWI e T2/FLAIR na porção lateral do hipocampo. Numa série de casos, quase todas estavam na área correspondente ao setor CA1; apenas uma em CA3. Podem ser solitárias ou múltiplas, e são mais comumente unilaterais.

Quando: a detectabilidade é máxima entre 48 e 72 horas do início dos sintomas. Isso significa que uma RM feita cedo demais pode ser normal.

Depois: o primeiro seguimento, 10 a 20 dias após o evento, não mostra lesão residual. Não evolui para encefalomalácia nem para esclerose.

Daí a exigência de protocolo: a investigação de AGT é feita com DWI coronal e axial, cortes finos de 3 mm e valor de b = 2000 s/mm²; sem isso, o foco puntiforme passa despercebido.

O AVC hipocampal dá restrição em território vascular, e o artigo lembra que o envolvimento de todo um lobo temporal provavelmente tem outra causa. A esclerose mesial, por definição, não tem restrição à difusão nem realce.
↑revisar esta parte do caderno · Alterações na difusão
Questão 2

Paciente com epilepsia do lobo temporal em investigação pré-cirúrgica. Quais são os achados de RM da esclerose hipocampal, e qual advertência o artigo faz sobre esse diagnóstico?

Os selos da esclerose hipocampal à RM são quatro: atrofia, hiperintensidade em T2 ou FLAIR, perda da clareza da arquitetura interna e escassez de digitações, em distribuição predominantemente unilateral. E há duas ausências que também são critério: não há restrição à difusão nem realce.

Os sinais secundários corroboram: atrofia do tálamo, do fórnice ipsilateral ou dos corpos mamilares, todos ligados às vias aferentes e eferentes do hipocampo. A assimetria da arquitetura interna pode ser preditor independente do lado de início das crises em pacientes com RM de resto normal.

A advertência é a parte que muda conduta: o diagnóstico não deve ser feito levianamente com base em alterações mínimas, porque isso leva a mau prognóstico de crises após a cirurgia. Em vez disso, cabe ao neurorradiologista procurar cuidadosamente outras lesões epileptogênicas: displasia cortical, DNET, ganglioglioma.

Sobre a volumetria: ela não é o padrão de referência aqui. Na epilepsia, a análise visual parece ter sensibilidade maior, porque alterações morfológicas dos subcampos precedem a perda de volume. E a volumetria isolada não identifica cerca de 10% dos casos confirmados, que mostram só alteração discreta de sinal, sem contar que há 10% de diferença normal de volume entre os dois lados.
↑revisar esta parte do caderno · Redução volumétrica
Questão 3

Ao laudar uma RM de hipocampo, você quer descrever a arquitetura interna. Qual estrutura é o marco crítico dessa avaliação, e o que compõe a formação hipocampal?

Duas definições que a prova gosta de cruzar.

O marco é o SRLM: estrato radiado, lacunoso e molecular. A arquitetura interna do hipocampo é o aspecto laminar de substância cinzenta e branca nos cortes coronais, com diferenciação clara de todos os segmentos do corno de Amon e continuidade do SRLM, que aparece como uma linha hipointensa dentro do hipocampo.

A formação hipocampal é maior que o hipocampo: é o giro denteado + o plexo subicular + o próprio hipocampo. E o hipocampo, por sua vez, é composto por quatro partes: CA1, CA2, CA3 e CA4.

As demais estruturas do enunciado têm papéis distintos:

Álveo: trato compacto de substância branca na superfície hipocampal, que protrui no corno temporal e é contínuo com a fímbria.
Fímbria: separa-se do hipocampo como a cruz do fórnice; é a via de saída, levando aos corpos mamilares.
Subículo: liga o corno de Amon ao córtex entorrinal.
Amígdala: está em contato direto e anterior com o hipocampo, mas não faz parte dele.

Fixe também as digitações: presentes na cabeça, corpo e cauda, mas mais proeminentes em CA1 e no giro denteado. A escassez delas é um dos quatro selos da esclerose hipocampal.
↑revisar esta parte do caderno · Anatomia
Questão 4

RM mostra alteração hipocampal não nodular e bilateral, com aumento de volume. Segundo o algoritmo do artigo, quais diagnósticos entram na lista curta?

O algoritmo separa o ramo não nodular primeiro por lateralidade e depois por padrão: volume ou difusão. Dentro do volume, ainda separa redução de aumento.

Na caixa bilateral com aumento volumétrico estão exatamente três entradas: NF-1, encefalite infecciosa e encefalite autoimune.

As demais alternativas correspondem a outras caixas, e vale localizar cada uma:

Bilateral com redução: degenerativa e MTLE com esclerose hipocampal. É onde moram Alzheimer, DLFT e LATE.
Unilateral com redução: degenerativa, MTLE com esclerose hipocampal e sequelas. Note que sequelas é exclusiva do lado unilateral.
Unilateral na difusão: encefalite autoimune ou infecciosa, alterações ictais, tóxico-metabólico, AGT e isquemia. Isquemia é exclusiva desta caixa.
Nodular cístico: cisto da fissura coroide, cisto remanescente do sulco hipocampal, MVNT, espaço perivascular tumefeito e neoplasia.

A lógica de fundo, que o texto explicita: bilateral sugere causa sistêmica (tóxico-metabólica, degenerativa, inflamatória ou infecciosa), enquanto unilateral aponta neoplasia, degenerativa, esclerose mesial, isquemia ou AGT. Com a ressalva de que encefalite herpética, encefalite autoimune e degeneração frontotemporal são mais comumente bilaterais e assimétricas, e de que esclerose mesial e AGT, embora geralmente unilaterais, podem ser bilaterais.
↑revisar esta parte do caderno · O algoritmo: nodular ou não nodular
Questão 5

Achado incidental em RM: agrupamento de nódulos ou bolhas de 1 a 5 mm no córtex profundo e na substância branca subcortical, bem marginados, hiperintensos em T2 e FLAIR, sem realce, com alto sinal em DWI e ADC alto. Qual o diagnóstico e como interpretar a difusão?

A descrição é a do MVNT: tumor neuronal multinodular e vacuolizante. O artigo o descreve como nódulos ou bolhas redondas ou ovoides de 1 a 5 mm no córtex profundo ou na substância branca subcortical, nitidamente marginados e frequentemente delineando um sulco. Hiperintenso em T2 e FLAIR, e geralmente sem realce.

O ponto da difusão é a armadilha: há alto sinal em DWI, mas com ADC alto, isto é, T2 shine-through, e não restrição. Ler isso como restrição levaria a pensar em lesão celular ou abscesso.

Duas notas de classificação. O MVNT foi redefinido como tipo tumoral distinto na classificação da OMS, e não como um padrão; está na categoria dos tumores neuronais e mistos neuronais-gliais, grau 1. E, embora não seja verdadeiramente cístico, ele é considerado no diferencial das lesões císticas: por isso aparece nessa caixa do algoritmo.

Clinicamente, é geralmente assintomático e detectado incidentalmente.

O DNET também tem aspecto em bolhas, mas é predominantemente cortical e bem demarcado, com sinal misto em FLAIR, sinal do halo brilhante e, às vezes, expansão da calota, e aparece em epilepsia intratável, não como achado incidental. O glioma angiocêntrico tem extensão subcortical em haste até o ventrículo e hiperintensidade em anel no T1.
↑revisar esta parte do caderno · Lesões nodulares
Questão 6

Mulher de 78 anos com queixa de memória. A RM mostra escore MTA de 2 à esquerda e 1 à direita, pela escala de Scheltens. Como interpretar?

A escala de Scheltens avalia três estruturas: fissura coroide, corno temporal do ventrículo lateral e hipocampo, numa escala de 0 a 4.

Os pontos de corte seguem controversos, mas a proposta original é ajustada por idade:

MTA ≥ 2 em qualquer hemisfério é anormal abaixo de 75 anos.
MTA ≥ 3 é anormal acima de 75 anos.

Com 78 anos e MTA 2, o achado está dentro do esperado pelo corte proposto.

Dois cuidados de interpretação que o artigo reforça. Primeiro: atrofia hipocampal é inespecífica para Alzheimer e pode ocorrer em condições neuropatológicas não Alzheimer; a LATE, por exemplo, cursa com atrofia hipocampal ainda maior que a do Alzheimer puro, é comum em pessoas de 80 anos ou mais com quadro amnéstico, e sua atrofia é tipicamente assimétrica com gradiente rostrocaudal. Segundo: no Alzheimer o padrão é bilateral, mas nem sempre simétrico (a atrofia progride mais rápido à esquerda), de modo que a assimetria vista aqui não é, por si, diagnóstica.

Existe ainda o escore ERICA, que avalia especificamente o córtex entorrinal: cuja atrofia é o padrão de imagem mais precoce do Alzheimer, antes mesmo do hipocampo.
↑revisar esta parte do caderno · Redução volumétrica
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Fonte: Alves IS, Coutinho AMN, Vieira APF, et al. Imaging Aspects of the Hippocampus. RadioGraphics. 2022;42(3):822–840. doi:10.1148/rg.210153

O algoritmo de diagnóstico diferencial é original dos autores (Figura 4 do artigo) e foi transcrito integralmente. Anatomia, protocolos, escalas e achados foram tirados do texto, da Figura 1 e das Tabelas 1 e 2.

Trata-se de revisão, não de diretriz: não há versão a conferir. As classificações que ele cita seguem vigentes: os três tipos de esclerose hipocampal da ILAE e a classificação da OMS para MVNT, DNET, ganglioglioma, xantoastrocitoma pleomórfico e glioma angiocêntrico: conferido em 24/08/2026.

Os diagramas são próprios. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.