Emergências genitais masculinas são incomuns, e por isso mesmo exigem suspeita alta e
resposta rápida: o que está em jogo é fertilidade, função hormonal e função erétil. Quase
tudo se resolve com US (linear de alta frequência, escala de cinza + Doppler
colorido, sempre comparando com o lado são); a TC entra na gangrena de Fournier, e a RM
como solucionadora de dúvida no trauma. As três famílias: infecciosa
(epididimite, orquite, abscesso, piocele, Fournier), vascular (torção, infarto
segmentar, priapismo, Mondor) e traumática (rotura testicular, fratura
peniana).
o gesto técnico que muda o exame
No escroto agudo, otimizar o Doppler para fluxo lento, e no pequeno paciente
considerar o power Doppler (independe do ângulo, ao custo de artefato de
movimento). O testículo contralateral é o controle interno de toda avaliação de
fluxo.
Anatomia que decide o laudo
Escroto e pênis: as túnicas que definem rotura, os três corpos penianos e as duas
veias dorsais.
as camadas que importam
No escroto: a túnica albugínea é a cápsula fibrosa do testículo (linha ecogênica fina; escura na RM), e a sua integridade define rotura; a túnica vaginal
tem dois folhetos, e hidrocele/piocele/hematocele moram entre eles; o mediastino
testis é a banda ecogênica central. No pênis: dois corpos cavernosos dorsais
(artéria cavernosa central em cada um) e o esponjoso ventral com a uretra, cada
qual com a sua albugínea, todos envoltos pela fáscia de Buck; a veia dorsal
superficial (do Mondor) corre fora da Buck, a profunda por baixo dela. O
epidídimo (cabeça em cima, corpo e cauda descendo) é iso/hipoecoico ao testículo.
Testículo e epidídimo normais ao US
Corte sagital: a túnica albugínea, linha ecogênica fina envolvendo o testículo de ecotextura uniforme (setas).Corte sagital: a cabeça do epidídimo (cursores) acima do testículo.Corte sagital: o mediastino testicular, faixa ecogênica longitudinal (setas), e o corpo do epidídimo (cursores) atrás do testículo.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 2. Ver artigo
Pênis normal na RM e no US
RM axial T2: corpos cavernosos com hipersinal (*), envolvidos pela fáscia de Buck e pela albugínea com hipossinal (setas pretas); artérias cavernosas (pontas de seta) e a uretra achatada no corpo esponjoso (seta branca).US transversal: ecotextura homogênea dos corpos cavernosos (*), a artéria cavernosa direita (ponta de seta) e a uretra (seta).Doppler colorido transversal: a artéria central de cada corpo cavernoso (pontas de seta).
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 17. Ver artigo
Infecção: da cauda do epidídimo à gangrena
Quadro
O que saber
Epididimite
Causa comum de escroto agudo · infecção RETRÓGRADA do trato urinário → a cauda adoece primeiro (varra o epidídimo inteiro!) · < 35 anos: gonococo e clamídia; criança e > 35: E. coli e afins · US: epidídimo grande, heterogêneo, hipoecoico, hiperemia ao Doppler (às vezes o ÚNICO achado)
Orquiepididimite
20–40% das epididimites progridem ao testículo · dor MELHORA elevando o testículo (sinal de Prehn): na torção não melhora · edema pode estrangular o retorno venoso → necrose
Abscesso e piocele
Complicam tratamento tardio/incompleto · abscesso: foco hipoecoico com liquefação central SEM fluxo · piocele: coleção complexa entre os folhetos da vaginal (ecos, septos) · gás intratesticular = necrose
Gangrena de Fournier
Fasciite necrosante perineal, homem 10:1, mortalidade 15–50% · diabetes e etilismo predispõem · fonte colorretal, urológica ou cutânea (oculta em ~10%) · polimicrobiana (sinergia aeróbio-anaeróbio) · TC é o método: gás nos planos fasciais + trajeto + a FONTE; varrer abdome e pelve INTEIROS até o períneo
Epididimite com abscesso da cauda, homem de 73 anos com infecção urinária por E. coli
US: cauda do epidídimo aumentada e heterogênea (setas), no polo inferior.Doppler colorido: fluxo aumentado na cauda e área central sem fluxo (*), o abscesso.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 3. Ver artigo
Orquiepididimite, homem de 31 anos com dor há 3 dias
US transversal dos dois testículos: o esquerdo levemente aumentado e heterogêneo (setas).Doppler colorido transversal: hiperemia acentuada do testículo esquerdo.Doppler colorido das cabeças dos epidídimos: fluxo muito aumentado e aumento de volume à esquerda (setas), comparado com a direita (pontas de seta).
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 4. Ver artigo
Orquiepididimite complicada em dois pacientes
Homem de 64 anos com 2 semanas de sintomas. US sagital: testículo heterogêneo (setas), sugerindo isquemia, e piocele complexa com ecos e septos (*).Mesmo paciente, Doppler colorido: sem fluxo no testículo e gás intratesticular, focos ecogênicos com sombra suja (seta).Homem de 65 anos com diabetes. US transversal: área hipoecogênica bem delimitada no testículo (setas), o abscesso, com hidrocele simples (*).Um mês depois, sem tomar o antibiótico: material heterogêneo no hemiescroto, sem testículo identificável.Focos ecogênicos múltiplos (setas), gás.TC axial sem contraste: gás no hemiescroto esquerdo, centrado no testículo (setas). A orquiectomia mostrou testículo necrótico e purulento.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Figs. 5, 6. Ver artigo
Gangrena de Fournier de origem cutânea, homem de 68 anos com diabetes
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 7. Ver artigo
Gangrena de Fournier de origem abdominal, homem de 87 anos
TC axial: ar no escroto (setas) envolvendo o testículo direito (*).TC axial, mais acima: abscesso diverticular retroperitoneal (setas), a origem da infecção escrotal.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 8. Ver artigo
as pegadinhas da infecção
1) Epidídimo normal na cabeça não exclui epididimite: a doença começa na
cauda. 2) Hiperemia isolada ao Doppler pode ser a única pista precoce. 3) Na
suspeita de Fournier, o US do períneo dói e subestima a profundidade (gás na fossa
isquioanal passa despercebido). Vá de TC com contraste, e não limite o campo à pelve:
a fonte pode ser um abscesso diverticular retroperitoneal.
Torção e infarto segmentar
A torção é mais comum no adolescente e a viabilidade cai com cada hora de isquemia. O
substrato é a deformidade em badalo de sino (12% dos homens, 80% bilateral, e por isso a orquipexia é dos dois lados): a vaginal envolve completamente testículo,
epidídimo e cordão distal, deixando o conjunto livre para girar.
Badalo de sino, o Doppler sem fluxo, a destorção em “livro aberto” e o infarto
segmentar em cunha.
o que o Doppler responde
Torção = ausência de fluxo no testículo (cor e power), com o contralateral de
controle. Na torção precoce a escala de cinza pode ser normal; heterogeneidade,
aumento e hipoecogenicidade sugerem inviabilidade. Confirmou? Urologia imediata. Se o
paciente vai ser transferido, a destorção manual ganha tempo: 2/3 torcem para
medial → girar para fora (“abrir o livro”) ~180°, repetindo se preciso; o alvo é o
alívio da dor como marcador de reperfusão, e a cirurgia com pexia bilateral continua
obrigatória.
A deformidade em badalo de sino (bell-clapper)
Desenho: a túnica vaginal normal (linha verde) não cobre a face posterior do testículo e do epidídimo, o que impede a rotação livre.Desenho: na deformidade em badalo, a túnica vaginal envolve todo o cordão distal, o epidídimo e o testículo, e o cordão pode torcer.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 12. Ver artigo
Torção com testículo viável, menino de 14 anos com 2 horas de dor
Doppler colorido transversal: sem fluxo no testículo direito (*), com ecotextura simétrica (torção precoce); o testículo está alongado e retraído para cima.Power Doppler: sem fluxo no polo inferior (* preto) e na cauda do epidídimo (* branco). A destorção manual deu certo, e a cirurgia achou deformidade em badalo bilateral.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 13. Ver artigo
Torção com testículo inviável, menino de 10 anos com 15 horas de dor
US sagital: testículo direito aumentado e heterogêneo no centro (setas), ao lado do esquerdo normal.Doppler colorido transversal: sem fluxo no testículo direito (*). Na cirurgia, testículo necrótico e torção de 360°.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 14. Ver artigo
Torção parcial, adolescente de 13 anos
Doppler colorido com a amostra numa artéria intratesticular.Doppler espectral em outro ramo: leve inversão do fluxo diastólico (seta).Modo B: torção do cordão espermático, o sinal do redemoinho (seta).Doppler espectral: perda do fluxo diastólico anterógrado (seta). Na torção parcial a artéria ainda passa, mas a veia não, e a diástole cai.
Fonte: Aswani Y et al. RadioGraphics 2025;45(12):e250071, apresentação, slide 31. Ver artigo
infarto segmentar ≠ tumor
Cunha avascular com vértice no mediastino = infarto segmentar (raro; trauma,
orquiepididimite, falciforme, vasculite). Quando é redondo e mal definido, imita tumor
hipovascular: a RM com contraste mostra a área avascular com anel realçante (T1 alto se
hemorragia), e o US de controle em curto prazo evita orquiectomia desnecessária.
Infarto testicular segmentar, homem de 22 anos
Doppler colorido sagital: lesão periférica hipoecogênica, de limites mal definidos e sem fluxo (setas).RM sagital T1: hipersinal na área, de hemorragia (seta).RM sagital T1 pós-contraste: área em cunha, bem definida, sem realce, com halo de realce (seta). Acompanhamento conservador confirmou infarto.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 15. Ver artigo
Veia testicular trombosada, homem de 53 anos que pode imitar torção
Modo B: estrutura tubular dilatada no canal inguinal, com ecos internos; Doppler colorido e power Doppler sem fluxo na veia (setas).
Fonte: Aswani Y et al. RadioGraphics 2025;45(12):e250071, apresentação, slide 35. Ver artigo
Trauma escrotal: a pergunta é a albugínea
Menos de 1% dos traumas; pico dos 10 aos 30 anos, em geral contuso, muitas vezes no esporte. O
direito sofre mais (posição alta, prensado contra o púbis/coxa). Romper a albugínea
normal exige ~50 kg de força, e rotura (com extrusão dos túbulos seminíferos) é
indicação de exploração cirúrgica imediata para salvar o testículo.
critérios de rotura no US
Ecotextura heterogênea + perda do contorno normal bastam para o
diagnóstico (sensibilidade 100%, especificidade 65–93,5%): a descontinuidade direta da
linha ecogênica da albugínea aumenta a confiança. Hematocele volumosa (> 5 cm) ou em
expansão também leva à exploração; hematoma menor pode ser conservador COM controle
seriado. Na dúvida, a RM mostra a interrupção da linha escura da albugínea (avaliar nos
três planos), mas não atrase a cirurgia por ela.
Fratura e rotura testicular, homem de 24 anos com trauma fechado
US sagital: testículo heterogêneo com área hipoecogênica focal (setas), contusão, e hematocele (*).Outro nível: descontinuidade da linha ecogênica da albugínea (setas) e extrusão de sangue e parênquima pelo defeito (pontas de seta). Confirmado e reparado na cirurgia.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 9. Ver artigo
Rotura da albugínea e hematoma testicular, homem de 52 anos que caiu da moto
Radiografia AP (anteroposterior) da pelve: alargamento da sínfise púbica (seta) e da sacroilíaca direita (pontas de seta), fratura por compressão anteroposterior.US sagital do testículo direito: contorno sem definição (setas) e sem a linha ecogênica da albugínea, rotura com avulsão completa.US sagital do testículo esquerdo: áreas hipoecogênicas mal definidas (pontas de seta), contusão; o polo superior (*) parece mais normal.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 10. Ver artigo
Hematoma e avulsão da albugínea em evolução, homem de 31 anos chutado no caratê
US sagital do testículo esquerdo: contorno anterior anormal focal (setas) e hematocele (*).RM coronal T2 duas horas depois: retração da albugínea esquerda com hipossinal (setas) e extrusão dos túbulos seminíferos (* branco); testículo direito normal (* preto).
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 11. Ver artigo
o que a revisão de 2025 acrescenta [B]Torção ao Doppler: além da falta de fluxo, o fluxo diastólico ausente ou invertido, muitas vezes junto do sinal do redemoinho do cordão torcido. Trauma: albugínea rompida com extrusão do conteúdo é rotura (emergência cirúrgica); albugínea íntegra é fratura, que pode ter conduta conservadora. Dor escrotal que não é do escroto: dor referida de hérnia, cólica renal e doença retroperitoneal. Veia testicular trombosada imita outras causas: veias dilatadas, não compressíveis e sem fluxo ao Doppler. RM como segunda linha quando o US é duvidoso; no infarto segmentar, a área em cunha não realça.
Fratura testicular, menino de 12 anos com trauma
Modo B: faixa linear hipoecogênica atravessando o parênquima (seta), com contorno liso e albugínea íntegra: fratura, não rotura.Doppler colorido: fluxo diminuído em volta da fratura (seta), sugerindo isquemia, que pode levar à cirurgia mesmo com a albugínea íntegra.
Fonte: Aswani Y et al. RadioGraphics 2025;45(12):e250071, apresentação, slide 21. Ver artigo
Dor escrotal referida, homem de 26 anos com doença de Crohn
Doppler colorido do testículo: normal.TC axial sem contraste: fleimão mesentérico na fossa ilíaca direita com espessamento da alça vizinha (seta), Crohn penetrante agudo.TC coronal: o mesmo fleimão (setas), que provavelmente comprimia o nervo genitofemoral direito.Doppler espectral do testículo: normal.
Fonte: Aswani Y et al. RadioGraphics 2025;45(12):e250071, apresentação, slide 45. Ver artigo
Pênis: priapismo, Mondor e fratura
Baixo × alto fluxo, o Mondor da veia dorsal superficial e a fratura da albugínea
cavernosa.
priapismo: um é emergência, o outro nãoBaixo fluxo (isquêmico, o mais comum): falha do escoamento venoso;
falciforme, medicamentos, neoplasia, lesão medular; ereção dolorosa e rígida, oxigênio
cavernoso baixo; pressão sustentada = fibrose e disfunção erétil permanente →
emergência (aspiração, fenilefrina, shunt; imagem tem papel limitado). Alto
fluxo: entrada arterial desregulada pós-trauma perineal/pélvico (fístula
artéria-lacunar, pseudoaneurisma); ereção parcial e indolor, arrastada, oxigênio
alto → não é emergência; o Doppler (inclusive transperineal) localiza a fístula e guia a
embolização.
Priapismo de baixo fluxo há 24 horas, menino de 7 anos com anemia falciforme
US transversal: corpos cavernosos com ecotextura grosseira e heterogênea (*), edema.Power Doppler transversal: fluxo na veia dorsal superficial (seta), mas não dentro dos corpos cavernosos.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 18. Ver artigo
Priapismo de alto fluxo há 3 dias, homem de 27 anos baleado no quadril
Doppler colorido transperineal: pseudoaneurisma de 1,5 cm (setas) e fístula arteriocavernosa na base do corpo cavernoso esquerdo.US: corpo cavernoso esquerdo heterogêneo, com inúmeros pequenos espaços císticos (setas), os sinusoides dilatados.Angiografia digital: blush anormal na base do pênis, pseudoaneurismas à direita (seta) e à esquerda (ponta de seta); o * é artefato do projétil.Depois da embolização com microespirais dos ramos pudendos (pontas de seta).
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 19. Ver artigo
Doença de Mondor peniana, homem de 38 anos
Doppler colorido transversal ampliado: sem fluxo na veia dorsal superficial do pênis (seta).Doppler pulsado sagital na veia dorsal superficial: sem fluxo.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 20. Ver artigo
fratura peniana
Pênis ereto (albugínea esticada e fina) + flexão lateral súbita → rotura de um
ou ambos os cavernosos: dor, estalo, detumescência imediata, hematoma. US mostra a
interrupção da linha ecogênica e o hematoma; a RM T2 mostra a falha na linha escura.
Uretra lesada em 10–20%: sangue no meato ou lesão bicavernosa pedem uretrografia
retrógrada (ar nos cavernosos ao US também sugere) · conduta = reparo cirúrgico
imediato; o conservador cobra placa, curvatura, ereção dolorosa, estenose e
disfunção. Já o Mondor (trombose da dorsal superficial, com cordão palpável e veia sem fluxo e incompressível) é autolimitado: calor local e anti-inflamatório.
Fratura peniana, homem de 36 anos com dor súbita durante a relação
US transversal: os dois corpos cavernosos (*) e abaulamento focal da face lateral do corpo cavernoso esquerdo (setas). Confirmado e suturado na cirurgia.
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 21. Ver artigo
Fratura peniana, homem de 50 anos com perda súbita da ereção
RM axial T2: interrupção focal da albugínea com hipossinal na face lateral esquerda (seta) e hematoma sobrejacente (pontas de seta).RM coronal T2: a mesma interrupção (setas) e o hematoma (pontas de seta).
Fonte: Avery LL et al. RadioGraphics 2013;33(3):721–740, Fig. 22. Ver artigo
Pontos de prova: alto rendimento
Técnica
US linear de alta frequência, sempre bilateral · Doppler otimizado p/ fluxo lento; power no pediátrico · RM = dúvida; TC = Fournier
Não varrer a cauda do epidídimo (é onde a epididimite começa)
Doppler sem otimizar para fluxo lento: “sem fluxo” falso no pediátrico
US para estadiar Fournier (dói e esconde o gás profundo): é TC
Limitar a TC de Fournier à pelve e perder a fonte abdominal
Erros de interpretação
Escala de cinza normal descartando torção (precoce só aparece no Doppler)
Chamar infarto segmentar arredondado de tumor (ou vice-versa) sem RM/controle
Exigir a descontinuidade da albugínea para diagnosticar rotura (heterogêneo + contorno bastam)
Tratar alto fluxo como emergência (ou baixo fluxo como eletivo)
Erros de conduta
Atrasar a exploração da rotura/torção por exames adicionais (RM é para a dúvida)
Esquecer a orquipexia BILATERAL (badalo de sino é bilateral em 80%)
Fratura peniana sem investigar a uretra (sangue no meato, bicavernosa)
Não seguir com US o hematoma tratado conservadoramente
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Adolescente de 14 anos com dor escrotal direita súbita há 2 horas. O US com Doppler colorido mostra ausência de fluxo no testículo direito, com ecotextura ainda simétrica à do esquerdo. Sobre esse quadro, qual alternativa está correta?
Na torção precoce, o testículo pode ser absolutamente normal na escala de cinza: o diagnóstico é do Doppler (ausência de fluxo, com o contralateral como controle interno). Ecotextura heterogênea, aumento e hipoecogenicidade são achados de isquemia avançada e sugerem inviabilidade; a simetria aqui é justamente o bom sinal de viabilidade, reforçando a urgência.
A RM fica para o caso duvidoso, e este não é: atrasaria a cirurgia de um órgão cuja viabilidade cai a cada hora. Orquiepididimite cursa com HIPERemia, não ausência de fluxo. E a orquipexia deve ser bilateral: o substrato é a deformidade em badalo de sino, presente em 12% dos homens e bilateral em 80% dos casos.
Homem de 68 anos, diabético, com dor escrotal, eritema e crepitação à palpação. Qual é a melhor estratégia de imagem?
Crepitação em escroto agudo de paciente diabético é gangrena de Fournier até prova em contrário (fasciite necrosante com mortalidade de 15–50%), e a TC é o método de escolha: mostra pequenas quantidades de gás e líquido nos planos fasciais profundos, o caminho da infecção e a fonte (colorretal, urológica ou cutânea). O campo deve cobrir abdome e pelve inteiros até o períneo: limitar à pelve pode perder uma fonte abdominal (como abscesso diverticular retroperitoneal) e levar a tratamento incompleto.
O US dói sobre o períneo inflamado e subestima a extensão profunda (gás na fossa isquioanal escapa). RM é lenta demais para uma emergência com indicação cirúrgica imediata. A radiografia pode até mostrar enfisema, mas não estadia nem acha a fonte; cintilografia não tem papel agudo.
Homem de 24 anos sofre trauma escrotal contuso jogando futebol. O US mostra testículo com ecotextura heterogênea e perda da definição do contorno, sem que se identifique claramente a descontinuidade da túnica albugínea, além de hematocele. Qual é a conduta?
Ecotextura heterogênea associada à perda do contorno normal é suficiente para o diagnóstico de rotura testicular (sensibilidade de 100% e especificidade de 65–93,5%), mesmo sem a visualização direta da descontinuidade da albugínea (que, quando vista, apenas aumenta a confiança). Rotura é indicação de reparo cirúrgico imediato, no interesse de preservar fertilidade e função hormonal; hematocele volumosa (> 5 cm) ou em expansão também leva à exploração.
Exigir a descontinuidade é o erro clássico que atrasa a cirurgia. A RM pode ajudar em caso duvidoso (que não é este) e mesmo assim sem atrasar a decisão (a espera pode custar tecido viável). Punção e antibiótico não tratam o problema mecânico.
Homem de 27 anos com ereção parcial, indolor e persistente há 3 dias, iniciada dias após ferimento por projétil na região do quadril. Sobre esse quadro, qual alternativa está correta?
Ereção parcial, indolor e arrastada após trauma genitoperineal/pélvico é o retrato do priapismo de alto fluxo (arterial): entrada arterial desregulada por fístula artéria-lacunar ou pseudoaneurisma. O oxigênio cavernoso é alto, e o Doppler colorido (inclusive transperineal, na base dos corpos) localiza a lesão e guia o tratamento, usualmente embolização superseletiva. Não é emergência: dor e disfunção erétil permanente são incomuns.
O baixo fluxo é o oposto (doloroso, rígido, agudo, oxigênio baixo) e esse sim exige aspiração, fenilefrina ou shunt imediatos. Mondor produz cordão palpável no dorso, não ereção persistente. Fratura peniana tem estalo, dor e detumescência imediata: o contrário do quadro.
Homem de 28 anos com dor escrotal progressiva há 2 dias. O US mostra cabeça do epidídimo normal; na porção inferior do hemiescroto, a cauda do epidídimo está aumentada e heterogênea, com hiperemia acentuada ao Doppler e pequeno foco central hipoecoico sem fluxo. Qual é a interpretação correta?
A infecção epididimária ascende de forma retrógrada a partir do trato urinário inferior: por isso a cauda adoece primeiro, antes de corpo e cabeça, e o exame precisa varrer o epidídimo inteiro (cabeça normal não exclui nada). Cauda aumentada, heterogênea e hiperêmica é epididimite; o foco central hipoecoico sem fluxo indica liquefação: abscesso em formação, que pode exigir drenagem se o antibiótico falhar.
No homem jovem sexualmente ativo, os agentes prováveis são gonococo e clamídia. Torção do apêndice testicular dá nódulo avascular junto ao polo superior, com hiperemia ao redor, não cauda hiperêmica. Tumor de epidídimo é raro e não explica a hiperemia inflamatória aguda com liquefação. Torção testicular reduziria o fluxo do TESTÍCULO, não aumentaria o do epidídimo.
Homem de 36 anos com dor peniana súbita, estalo audível e detumescência imediata durante o coito, evoluindo com hematoma. O US mostra interrupção focal da linha ecogênica que envolve o corpo cavernoso esquerdo. Além da indicação de reparo cirúrgico imediato, qual achado associado deve ser ativamente investigado?
O quadro é a fratura peniana: rotura da túnica albugínea de um corpo cavernoso no pênis ereto (a albugínea estica e afina na ereção), com dor, estalo, detumescência e hematoma. Junto com o reparo imediato, deve-se procurar ativamente a lesão uretral concomitante, presente em 10–20%: sangue no meato uretral e rotura dos DOIS cavernosos aumentam a suspeita, e ar nos corpos cavernosos ao US também sugere. Como o US avalia mal a uretra, a confirmação é por uretrografia retrógrada.
Trombose da dorsal superficial (Mondor) é outra doença: cordão palpável, sem trauma agudo. Fístula artéria-lacunar pertence ao priapismo de alto fluxo. Torção testicular e hérnia não fazem parte do espectro da fratura.
Fontes. [A] Avery LL, Scheinfeld MH. Imaging of Penile and Scrotal Emergencies.
RadioGraphics 2013;33(3):721–740. doi:10.1148/rg.333125158 [B] Aswani Y, Rajamohan N, Roberts J, Rao B, Mathur M. Multimodality Imaging in Evaluation of the Acute Scrotum. RadioGraphics 2025;45(12):e250071. doi:10.1148/rg.250071
O quadro “o que a revisão de 2025 acrescenta” vem de [B]; o restante, de [A]. Conferido em 01/09/2026.
Os diagramas são próprios. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do
autor, além do texto das fontes.