Fontes: Chung et al: 2016 e Swift et al: 2018, RadioGraphics
Massa abdominal na criança
Uma criança pequena com massa no flanco quase sempre tem um de dois tumores: o Wilms
(nefroblastoma), que responde por 90% dos tumores renais da infância, ou o neuroblastoma, o
tumor sólido extracraniano mais comum da infância, que nasce na adrenal ou na cadeia simpática.
Os dois têm a mesma idade e o mesmo lugar. O primeiro passo é dizer de que órgão a massa
nasce; o segundo, olhar a idade.
Idade
Pense primeiro em
Feto e primeiros 3 meses
Nefroma mesoblástico congênito (rim) · neuroblastoma congênito (adrenal), que muitas vezes regride sozinho
Até 5 anos
Wilms (75 a 80% antes dos 5 anos, pico aos 2 a 3) · neuroblastoma (mediana de 19 meses)
Segunda década
Carcinoma de células renais passa a ser mais comum que o Wilms
o sinal da garra
Parênquima renal abraçando a massa (a garra) quer dizer que ela nasce do rim. Tumor da adrenal
empurra o rim, em geral para baixo, sem garra.
Tumor de Wilms
Nasce do metanefro (o tecido que forma o rim). Costuma chegar como massa sem sintoma, achada
pelos pais; dor, hipertensão e hematúria aparecem em 20 a 30%. Quase 12% são multifocais num rim e
cerca de 7% são bilaterais. Cerca de 10% têm anaplasia (histologia desfavorável, pior
prognóstico).
Método
Wilms
US (triagem)
Massa sólida heterogênea com áreas hipoecogênicas e anecoicas (hemorragia, necrose, cistos) · cálcio em 9% · Doppler sensível para extensão à veia cava
TC (fase portal basta)
Massa grande, intrarrenal, que realça menos que o rim · necrose e hemorragia antiga · gordura às vezes · macrolobulada, nódulos satélites · cálcio em cerca de 15%
RM
Hipossinal em T1, sinal igual ou hipersinal em T2 · focos de hipersinal em T1 (hemorragia) · realça menos que o rim · a mais sensível para lesão no outro rim e para extensão venosa (mas exige sedação ou anestesia)
PET (tomografia por emissão de pósitrons) com FDG (fluordesoxiglicose)
Não estadia · serve para resposta à quimioterapia e para guiar a biópsia ao tecido ativo · SUV (valor de captação padronizado) maior na anaplasia e em quem responde mal
Wilms, lactente de 12 semanas
US longitudinal: tumor grande, bem delimitado e quase homogêneo (*), discretamente hipoecogênico em relação ao córtex vizinho (seta).
Wilms com histologia desfavorável, menina de 2 anos
RM T2: cápsula escura (seta); tumor heterogêneo, com áreas de sinal igual ao rim (K), hemorragia com hipossinal (ponta de seta) e cistos.T1: sinal igual ao do rim, com hemorragia em hipersinal (ponta de seta).T1 com gadolínio e supressão de gordura: realce difuso, com necrose hemorrágica sem realce (ponta de seta).
o que o laudo precisa dizerO outro rim (lesão sincrônica muda o tratamento) · veia renal e cava (4 a 10% se
estendem a elas, às vezes até o coração) · linfonodos regionais · órgãos vizinhos · peritônio ·
metástases. E sinais de ruptura, que sobe o estádio e é difícil de ver antes da cirurgia:
margens mal definidas, gordura perirrenal borrada, líquido retroperitoneal, derrame pleural do mesmo
lado, líquido peritoneal além do fundo de saco.
Wilms com trombo até o coração, menino de 12 anos
TC com contraste: tumor discretamente heterogêneo (seta branca reta), hipoatenuante em relação ao córtex (seta curva); trombo tumoral na cava, cercado de contraste (ponta de seta); linfonodo regional aumentado (seta preta).Angio-TC de tórax: trombo no ventrículo direito (seta) e na artéria do lobo inferior esquerdo (ponta de seta).
Restrito ao rim, cápsula íntegra, ressecado por completo
II
Além da cápsula (inclusive vasos fora do rim), ressecado por completo
III
Tumor residual no abdome, inclusive contaminação do peritônio pela biópsia
IV
Metástase hematogênica
V
Bilateral ao diagnóstico · cada lado é estadiado à parte
+ complemento · Europa × EUA
Nos EUA o estádio é cirúrgico: opera primeiro, quimioterapia depois, sem biópsia (a anaplasia
pode ser focal e a biópsia cirúrgica conta como extravasamento). Na Europa (SIOP, Sociedade Internacional de Oncologia Pediátrica), a
quimioterapia vem antes, para encolher o tumor e reduzir ruptura e sangramento na cirurgia, e o
tratamento começa pelo diagnóstico de imagem: a imagem faz o estadiamento inicial. A SIOP é quase
igual, mas a biópsia por agulha não sobe o estádio. No Reino Unido se biopsia antes, porque o
diagnóstico presumido erra em 5,7 a 12%.
Metástase
O que saber
Pulmão (85%)
TC é mais sensível que a radiografia, mas nódulos pequenos podem ser benignos, e quem só tinha nódulo visível na TC não evoluiu diferente com tratamento de doença localizada · TC recomendada na histologia desfavorável e no estádio III
Fígado (20%)
O segundo lugar mais comum
Osso
Raro no Wilms: pense em sarcoma de células claras
Sobrevida em 5 anos acima de 90% na doença restrita ao abdome; 70% no estádio IV. Recidiva
precoce: 15% na histologia favorável, 50% na anaplásica.
Restos nefrogênicos e nefroblastomatose
Restos nefrogênicos são blastema metanéfrico que persiste depois de 36 semanas de gestação;
muitos ou difusos formam a nefroblastomatose. São precursores: estão em até 40% dos rins
operados por Wilms (contra 1% das necropsias de lactentes), em 30 a 40% dos Wilms e em quase todos
os bilaterais. Cerca de 10% dos pacientes com Wilms têm predisposição genética, e o Wilms
sindrômico chega mais cedo (mediana de 12 a 15 meses) e é mais vezes bilateral (38% contra 5%).
Resto
Perilobar
Intralobar
Onde
Periférico, no córtex ou nas colunas de Bertin
Central (origem mais precoce: o rim cresce do centro para fora)
Frequência
O tipo mais comum
Menos comum, mas transforma mais
Gene
WT2 (11p15): síndromes de supercrescimento
WT1 (11p13)
Síndromes
Beckwith-Wiedemann, hemi-hipertrofia (o maior risco do grupo, cerca de 3%), Perlman, Sotos, trissomia do 18
Aniridia esporádica e WAGR (Wilms, aniridia, anomalias geniturinárias, déficit intelectual; risco de cerca de 33%), Denys-Drash (pseudo-hermafroditismo masculino, glomerulopatia)
Imagem do resto
Como aparece
Forma
Foco periférico redondo, oval ou irregular, que realça pouco, cercado de rim normal · a forma difusa é uma casca periférica que empurra o rim normal para o centro
US
O método menos sensível · rim grande e ecogênico na forma difusa
TC
Mais sensível: o resto realça menos que o rim · casca grossa com realce estriado
RM
Hipossinal em T1, sinal igual ou discreto hipersinal em T2 · melhor no T1 com gadolínio · em geral homogêneo
Nefroblastomatose difusa com Wilms, menina de 2 anos
RM coronal T2: casca periférica (setas) com hipossinal em relação ao rim comprimido no centro; o Wilms (ponta de seta) é heterogêneo, com hipersinal e pequenos cistos.T1 com gadolínio: a casca (seta) realça menos que o rim central; o Wilms (ponta de seta) realça menos ainda.
Resto intralobar, menino de 3 meses com Denys-Drash
US: massa central bem delimitada, discretamente hiperecogênica (pontas de seta), com pequenos cistos anecoicos (setas); K = rim.RM coronal T2: massa (ponta de seta) com discreto hipossinal, exceto os cistos; edema da parede pela síndrome nefrótica.
US: várias massas periféricas redondas e ovais (*), hipoecogênicas em relação ao rim central.TC coronal com contraste: as massas (*) são hipoatenuantes e comprimem o rim para o centro.
o resto que vira Wilms
No seguimento, crescimento, heterogeneidade ou forma esférica sugerem que o resto
virou tumor. Achou nefroblastomatose? Procure a síndrome. E nas síndromes de risco, o rastreio é
US a cada 3 meses, dos 6 meses aos 8 anos (quando a incidência de Wilms cai muito).
Nefroma cístico e nefroblastoma cístico
O nefroma cístico e o nefroblastoma cístico parcialmente diferenciado (NCPD) só se
separam no microscópio (o NCPD tem blastema nos septos). Formam um espectro com o Wilms, como
ganglioneuroma, ganglioneuroblastoma e neuroblastoma. De 3 meses a 4 anos, mais em meninos (2:1);
há forma familiar com o blastoma pleuropulmonar cístico (DICER1).
Massa cística multilocular
Como é
Forma
Encapsulada, bem delimitada, multisseptada, 5 a 10 cm · rim comprimido em volta
Septos
A única parte sólida são septos finos · nenhum nódulo · lóculos de milímetros a 4 cm · lóculos muito pequenos podem parecer sólidos
Pelve
Hérnia para o sistema coletor é característica (pode dar hematúria)
US
O melhor para os septos · conteúdo anecoico, algum fluxo nos septos
TC e RM
Conteúdo igual ou pouco acima da água · cápsula e septos realçam pouco, o líquido não · septos com hipossinal em T1 e T2
Conduta
Cirurgia cura · poupar néfrons quando se suspeita antes · seguir o NCPD
Nefroma cístico, menina de 11 meses
US: muitos cistos anecoicos no polo inferior esquerdo (seta reta) e calicectasia (seta curva); onde os cistos são minúsculos, a lesão parece sólida (ponta de seta).Doppler colorido: algum fluxo nos septos.TC coronal com contraste: só os septos realçam; hérnia para a pelve (ponta de seta).
RM coronal T2: cistos com sinal de líquido; cápsula e septos com hipossinal (ponta de seta).T1 com gadolínio: os septos realçam (ponta de seta), o conteúdo dos cistos não.
Nódulo sólido na parede ou nos septos (só 10% dos Wilms formam cistos)
Hidronefrose grave
Cistos que se comunicam em volta de um grande central (a pelve)
Rim displásico multicístico
Cistos que não se comunicam e substituem o rim todo, sem rim comprimido · diagnóstico pré-natal ou ao nascer (o tumor não aparece no período perinatal)
Displasia cística segmentar
Rim duplo (ureterocele ectópica ajuda)
Cistos múltiplos
Doença renal cística hereditária: examinar os pais
Wilms cístico, menino de 3 anos
US: tumor quase todo cístico (seta reta) com nódulo sólido (ponta de seta); seta curva = rim; S = baço.TC: massa renal esquerda com densidade de líquido (seta) e nódulo de partes moles (ponta de seta).
+ complemento · Bosniak adaptado para criança
Proposta ao US, ainda não validada: tumor cístico multilocular seria classe III (parede e septos
de 1 mm ou mais, fluxo no Doppler, talvez cálcio) e o Wilms cístico, classe IV (nódulo ou
componente sólido). Classes III e IV ao US seguem para TC ou RM e, confirmado cisto complexo,
cirurgia.
Nefroma mesoblástico congênito
É só 3 a 6% dos tumores renais da infância, mas é o mais comum do recém-nascido: quase
sempre nos 3 primeiros meses, 90% até 1 ano, cada vez mais visto no pré-natal (desde o 2º trimestre).
Depois dos 2 anos, duvide do diagnóstico. Polidrâmnio, hidropisia e parto prematuro em 71%.
Tipo
Clássico
Celular
Paciente
Mais novo
Um pouco mais velho (mais de 3 meses)
Equivalente
Fibromatose infantil
Fibrossarcoma infantil visceral (ETV6-NTRK3)
Imagem
Homogêneo, sólido · hilo envolvido sem invadir vasos · sinal do anel no US: halos concêntricos hiper e hipoecogênicos em volta (vasos dilatados) · realce periférico
Heterogêneo, com hemorragia, necrose e cistos · maior, cruza a linha média, às vezes envolve vasos e invade vizinhos
Comportamento
Benigno
Recidiva ou metástase (5 a 10%) só nos que têm componente celular
Nefroma mesoblástico clássico, menina de 14 dias
US transversal: tumor quase homogêneo no polo superior, com halo de faixas hipo e hiperecogênicas alternadas (ponta de seta), o sinal do anel.TC com contraste: homogêneo, hipoatenuante em relação ao rim, com realce periférico fino (seta).
Nefroma mesoblástico clássico, recém-nascido (gestação com polidrâmnio)
RM sagital T2: massa homogênea com discreto hipossinal em relação ao rim (ponta de seta) e hidronefrose (seta).T1 com gadolínio: tumor homogêneo (ponta de seta), com sinal igual ao do outro rim.
RM T2: quase todo com sinal igual ao do outro rim; cisto com nível líquido-hematócrito (ponta de seta) e halo escuro de hemossiderina em outro (seta).T1 coronal: discreto hipossinal em relação ao músculo, com foco central de hemorragia em hipersinal (ponta de seta).T1 com gadolínio: realça menos que o rim; cistos sem realce (ponta de seta).
Doppler colorido: tumor heterogêneo com cistos anecoicos evidentes (ponta de seta).TC com contraste: cisto grande com densidade de líquido na parte medial da massa (ponta de seta); seta = rim.
Wilms ou mesoblástico?
Na imagem o mesoblástico celular e o Wilms são iguais. O que decide é a idade (lactente
pequeno: mesoblástico). Tumores bilaterais, invasão venosa ou metástase pulmonar
falam a favor do Wilms. Neuroblastoma congênito cruza a linha média, envolve vasos, entra no canal e
quase sempre calcifica.
Tratamento: nefrectomia com margem ampla (as bordas são infiltrativas). Melhor prognóstico se
operado antes dos 6 meses; sobrevida bem acima de 90%. No tipo celular, US de controle por 1 ano
(quase todas as recidivas são no primeiro ano).
Sarcoma de células claras, rabdoide e outros
Tumor
Quem
Pista de imagem
Sarcoma de células claras
4 a 5% · o 2º maligno renal · média de 36 meses, raro antes dos 6 meses · meninos (2:1)
Sólido heterogêneo com cistos · cálcio infrequente · linfonodos em 30% · metástase óssea (13 a 20% ao diagnóstico; lítica, esclerótica ou mista): cintilografia óssea depois do diagnóstico
Tumor rabdoide
Menos de 2% · média de 11 meses, 80% antes dos 2 anos · o pior prognóstico
Coleção subcapsular em crescente (71% contra 12% dos outros) · lobulado, central (medular), invade hilo e pelve · cálcio em 66%, curvilíneo, desenhando os lóbulos · tumor cerebral sincrônico em 15% (fossa posterior)
Tumor renal ossificante da infância
Raríssimo, benigno, meninos, até 30 meses, hematúria
Preso à papila, cresce para dentro da pelve · parece cálculo coraliforme: muito ecogênico com sombra, mas realça e tem fluxo
Linfoma
Burkitt, depois dos 5 anos
Massas corticais hipoecogênicas ou hipoatenuantes bilaterais, rim com a forma preservada · linfonodos ou massa mediastinal
Carcinoma de células renais
Von Hippel-Lindau na 1ª década
Parece Wilms
Angiomiolipoma
Esclerose tuberosa
Gordura e áreas de realce intenso
Sarcoma de células claras, menina de 2 anos
TC: massa grande (seta branca) hipoatenuante em relação ao outro rim, com pequenas calcificações e necrose sem realce (ponta de seta); linfonodos (*) afastam a cava, desviada para a esquerda (seta preta), da aorta.RM T2: quase toda com hipersinal, septos escuros (seta); pequenos cistos mediais (ponta de seta); linfonodos (*).T1 com gadolínio: tumor e linfonodos (*) realçam menos que o rim; cistos sem realce (ponta de seta).RM coronal T2: tumor posterior no rim direito (seta) e fratura vertebral torácica por metástase (ponta de seta).
Sarcoma de células claras quase todo cístico, menina de 10 meses
Doppler colorido: focos císticos anecoicos num tumor sólido (ponta de seta), com pouco fluxo.TC com contraste: tumor do rim direito (seta reta) quase todo cístico, com densidade próxima da água; seta curva = rim.
Doppler colorido: ecotextura heterogênea (seta), com algum fluxo.TC: massa discretamente heterogênea (seta) que realça menos que o rim (ponta de seta).
coleção subcapsular não fecha rabdoide
Ela sugere rabdoide, mas o rabdoide é raro: um tumor com coleção subcapsular ainda é, mais
provavelmente, um Wilms. O achado que fecha é o tumor cerebral. A neuroimagem não é rotina
antes da cirurgia: faça se houver sintoma neurológico e depois, se o diagnóstico for rabdoide.
Tumor rabdoide, menino de 11 semanas
RM T2: massa renal esquerda discretamente heterogênea (seta reta) com crescente de líquido em volta (ponta de seta); seta curva = rim.RM com gadolínio: tumor da fossa posterior (seta) com realce discreto e necrose central; hidrocefalia.
Tumor renal ossificante, menino de 3 semanas com hematúria
US: massa discretamente hiperecogênica (seta) com foco muito hiperecogênico e sombra (ponta de seta).TC coronal com contraste: massa heterogênea no polo superior (seta) com espículas de cálcio (ponta de seta).
infecção que parece tumor
Pielonefrite focal com efeito de massa (nefrite bacteriana aguda) também realça menos que o rim, e o
abscesso parece tumor necrótico. A favor de infecção: febre, dor no flanco (o Wilms não dói), sintoma
urinário, realce estriado, áreas em cunha.
Neuroblastoma
Tumor do sistema nervoso simpático, da crista neural, no mesmo espectro do ganglioneuroblastoma e
do ganglioneuroma. É o câncer mais diagnosticado no lactente (41% nos 3 primeiros meses, mediana de
19 meses) e responde por cerca de 15% das mortes por câncer na infância. Quem é diagnosticado antes
de 1 ano vive mais.
Onde nasce
%
Adrenal
46%
Abdome fora da adrenal
18%
Mediastino posterior
14%
Pescoço, pelve, outros
O resto
Neuroblastoma de alto risco, menina de 10 anos
TC coronal: massa grande, de realce heterogêneo, na adrenal direita (pontas de seta); adrenal esquerda normal (círculo).
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 2. Ver artigo
Neuroblastoma estádio IV de risco intermediário, menina de 5 meses com fígado grande
US: inúmeras massas substituindo o fígado (pontas de seta).TC coronal: incontáveis metástases hipoatenuantes, de realce heterogêneo, num fígado muito aumentado.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 3. Ver artigo
Neuroblastoma × Wilms
Neuroblastoma
Wilms
Origem
Adrenal, empurra o rim
Rim, sinal da garra
Cálcio na TC
80 a 90%
Cerca de 15%
Vasos
Envolve e desloca (não invade)
Invade veia renal e cava
Linha média
Cruza, sobretudo atrás da aorta
Raro
Canal vertebral
Entra pelos forames
Não
Metástase
Osso, medula, fígado, pele
Pulmão, fígado
Apresentação
O que saber
Abdome
Massa, distensão, constipação, hipertensão (compressão dos vasos renais)
Paravertebral
Entra no canal: dor, déficit motor ou sensitivo, Horner · tórax: escoliose, compressão de via aérea
Olhos de guaxinim
Metástase orbitária com equimose e proptose · confundida com maus-tratos ou coagulopatia
Opsoclonia-mioclonia
2 a 3% · movimentos oculares caóticos, abalos, ataxia (autoimune) · tumor pequeno, bom para cirurgia · até 69% ficam com sequela, mesmo sem tumor
VIP (peptídeo intestinal vasoativo)
Diarreia aquosa e distúrbio eletrolítico, resolve com a ressecção
Neuroblastoma no canal, menina de 16 meses que parou de andar
RM coronal T2: massa paravertebral torácica baixa à direita passando por vários forames (pontas de seta).RM axial T2: invade e comprime o canal (seta).
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 4. Ver artigo
Olhos de guaxinim: menina de 22 meses com proptose, inchaço e equimose à esquerda
TC (janela óssea): lesão na parede lateral da órbita esquerda (círculo) com componente de partes moles comprimindo o cone.RM T1 com contraste: infiltração extraconal e proptose (pontas de seta); erosão das lâminas pterigoides e invasão dos seios posteriores.TC coronal (janela óssea): base do crânio acometida (pontas de seta) e lesão no ramo esquerdo da mandíbula (círculo).
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 5. Ver artigo
Opsoclonia-mioclonia, menina de 27 meses com ataxia, tremor e emagrecimento
TC: massa de partes moles de 2,3 cm entre o rim direito e a aorta (pontas de seta): o tumor é pequeno.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 6. Ver artigo
Opsoclonia-mioclonia, menina de 14 meses
US sagital: massa pararrenal esquerda (pontas de seta) com calcificações puntiformes.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 7. Ver artigo
o diagnóstico
Histologia inequívoca, ou células tumorais na medula óssea (aspirado de dois lugares) com
catecolaminas urinárias altas (ácido vanilmandélico e homovanílico, elevados em cerca de 75%).
Genética entra no risco: amplificação do MYCN (cerca de 20%) é doença avançada e pior prognóstico;
perdas de 1p36 e 11q e ganho de 17q também pioram; hiperdiploidia é melhor abaixo de 18 meses.
Método
Papel
US
Primeiro exame · massa sólida heterogênea, cálcio em 30 a 90%, rim deslocado para baixo · Doppler: vasos envolvidos ou deslocados
TC
Rápida, melhor para cálcio
RM
Melhor para o canal vertebral, sem radiação · muitas vezes as duas, no tumor paravertebral
+ complemento · o neuroblastoma congênito
Massa adrenal no pré-natal: neuroblastoma, hemorragia adrenal ou sequestro pulmonar
extralobar. Mais de 90% dos congênitos são adrenais (35% depois do nascimento), com fluxo e cálcio,
quase sempre favoráveis, e muitos regridem sozinhos no 1º ano: a conduta pode ser só observar.
Rastrear lactentes não reduziu a mortalidade.
Neuroblastoma congênito, massa adrenal vista no pré-natal
US no 23º dia: massa adrenal esquerda heterogênea de 3,5 cm, pouco vascularizada (pontas de seta).SPECT-TC (tomografia por emissão de fóton único acoplada à TC) com MIBG (metaiodobenzilguanidina) com 1 mês: a massa capta (seta).US com 2 meses: menor (pontas de seta).US 4 meses e meio depois: sem massa. Só observação, sem tratamento.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 8. Ver artigo
Estadiamento pela imagem: INRGSS e IDRF
O INSS (International Neuroblastoma Staging System) é pós-cirúrgico. O INRGSS (International Neuroblastoma Risk Group Staging System, 2008) é feito antes do tratamento, pela imagem: TC
ou RM do tumor primário para os fatores de risco definidos por imagem (IDRF) e MIBG obrigatória.
Os dois são usados em paralelo.
INRGSS
Definição
L1
Localizado, sem IDRF, num só compartimento
L2
Locorregional com um ou mais IDRF
M
Metástase à distância
MS
Metástase só em pele, fígado e/ou medula óssea, abaixo de 18 meses (o 4S do INSS ia até 12)
Termo
É IDRF?
Envolvimento (mais de 50% da circunferência do vaso)
Sim
Contato (menos de 50%)
Não
Vaso achatado, com luz visível
Não
Infiltração (sem plano de gordura com a estrutura vizinha)
Sim
Região
IDRF
Dois compartimentos
Pescoço-tórax, tórax-abdome, abdome-pelve, do mesmo lado
Pescoço
Envolve carótida, vertebral ou jugular interna · chega à base do crânio · comprime a traqueia
Transição cervicotorácica
Envolve raízes do plexo braquial, subclávia, vertebral ou carótida · comprime a traqueia
Tórax
Envolve a aorta ou ramos maiores · comprime traqueia ou brônquios principais · tumor do mediastino inferior que infiltra a junção costovertebral de T9 a T12
Toracoabdominal
Envolve aorta ou cava
Abdome e pelve
Infiltra o hilo hepático ou o ligamento hepatoduodenal · envolve ramos da mesentérica superior na raiz do mesentério, a origem do tronco celíaco ou da mesentérica · invade o pedículo renal · envolve aorta, cava ou ilíacas · tumor pélvico que cruza a incisura isquiática
Canal vertebral
Ocupa mais de 1/3 do canal no axial, apaga os espaços leptomeníngeos ou altera o sinal da medula
RM coronal T2 (o caso dos olhos de guaxinim): tumor chega à base do crânio (pontas de seta) e envolve a carótida esquerda (seta); os dois são IDRF.RM axial T2: envolvimento da aorta torácica (* branco, pontas de seta); pequeno derrame pleural à direita (* preto), anotado mas não é IDRF.TC de tórax: tumor que envolve e comprime os brônquios principais (pontas de seta), IDRF.TC de abdome: envolvimento (pontas de seta) da mesentérica superior (setas); * = aorta.TC axial: massa grande no quadrante superior direito envolvendo a artéria renal direita (setas), a cava (*) e a aorta (ponta de seta).TC coronal: a mesma massa infiltra o fígado (pontas de seta). Todos são IDRF.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 14. Ver artigo
registre, mas não conte
Tumor primário multifocal, derrame pleural e ascite (com ou sem células malignas) são
anotados no laudo, mas não são IDRF. E cruzar a linha média não conta mais para o
estadiamento.
MIBG, RM de corpo inteiro e risco
Exame
Papel no neuroblastoma
MIBG (¹²³I, imagem em 24 h)
Análogo da noradrenalina, captado em até 90% · o exame de escolha para metástases (muito específico) · SPECT-TC localiza melhor · captação fisiológica: glândulas salivares, orofaringe, fígado, coração, bexiga
RM de corpo inteiro
Sem radiação, numa sedação · mais sensível que a MIBG para osso, menos específica (doença tratada × ativa) · mais usada no seguimento
PET-TC com FDG
Tumor que não capta MIBG ou discordância entre MIBG e anatomia · complementa em partes moles
Cintilografia óssea
Quando o tumor não capta MIBG · captação metafisária difusa e simétrica, fácil de passar como normal
Análogos da somatostatina
⁶⁸Ga-DOTATATE: mais resolução, num dia só · ¹¹¹In-pentetreotida ficou para trás
MIBG ao diagnóstico, menina de 4 anos
Corpo inteiro com ¹²³I-MIBG em 24 h: massa adrenal esquerda (*) e metástases ósseas difusas (pontas de seta). Captação normal nas glândulas salivares, orofaringe, fígado, coração e bexiga.SPECT-TC: melhor localização (*, pontas de seta).
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 11. Ver artigo
RM de corpo inteiro, menino de 3 anos
STIR (short tau inversion recovery, sequência com supressão de gordura por inversão) coronal: massa grande no mediastino superior esquerdo (*), metástases ósseas nos úmeros proximais, no fêmur direito e na tíbia direita (pontas de seta) e linfonodos cervicais à esquerda.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 9. Ver artigo
Neuroblastoma refratário, menino de 3 anos e meio
MIBG (projeção de intensidade máxima): várias metástases ósseas (pontas de seta).RM sagital T1: lesões ósseas multifocais (pontas de seta).RM coronal STIR: as mesmas lesões.PET-TC com FDG: doença ativa em alguns focos (pontas de seta).PET (projeção de intensidade máxima): outros focos não captam, doença já tratada.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 10. Ver artigo
Neuroblastoma que não capta MIBG
MIBG: sem captação anormal.Cintilografia óssea: captação metafisária difusa discreta (pontas de seta), sobretudo nos fêmures e úmeros proximais, padrão difícil de reconhecer.PET-TC com FDG: massa retroperitoneal esquerda (*), metástases hepáticas (pontas de seta) e foco vertebral torácico (seta): tumor viável.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 13. Ver artigo
Escore de Curie
Como se conta
Segmentos
9 esqueléticos + 1 de partes moles
Nota por segmento
0 sem lesão · 1 um foco · 2 dois ou mais focos, menos de 50% do segmento · 3 mais de 50%
Máximo
30
Prognóstico
Curie de 2 ou mais no fim da indução no alto risco: sobrevida livre de evento de cerca de 15%, contra 46% abaixo de 2
Escore de Curie na MIBG
Menina de 14 meses com opsoclonia-mioclonia: captação paravertebral esquerda isolada (ponta de seta), Curie 1.Menina de 22 meses: captação extensa (calota frontal direita, esfenoide, mandíbula esquerda, fêmures, partes moles do abdome e da pelve; pontas de seta), Curie 12.
Fonte: Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. RadioGraphics 2018;38(2):566–580, Fig. 12. Ver artigo
Risco
Tratamento
Sobrevida livre de evento
Baixo
Cirurgia (ressecção completa muitas vezes desnecessária) · congênito: observar
Mais de 95%
Intermediário
Quimioterapia, às vezes antes da cirurgia
80 a 95%
Alto
Quimioterapia, cirurgia, alta dose com resgate de células-tronco, radioterapia, imunoterapia anti-GD2 (dinutuximabe)
Abaixo de 50% historicamente; 66% em 2 anos com dinutuximabe
+ complemento · tratar com o que se usa para ver
¹³¹I-MIBG terapêutica (resposta de até 66% no alto risco novo e 37% na recidiva; efeitos:
mielossupressão, hipertensão transitória, tireoide), e a MIBG diagnóstica é que diz quem pode receber.
¹⁷⁷Lu-DOTATATE está em estudo no tumor refratário.
Pontos de prova: alto rendimento
Rim × adrenal
Sinal da garra = rim
Recém-nascido
Nefroma mesoblástico
Wilms
90% · pico 2–3 anos · cálcio ~15%
Wilms: laudo
Outro rim, veia renal e cava, ruptura
Wilms: metástase
Pulmão 85%, fígado 20%
NWTSG (National Wilms Tumor Study Group)
Estádio cirúrgico · biópsia = III
SIOP
Quimioterapia antes da cirurgia
Restos bilaterais
Quase todo Wilms bilateral
Perilobar
Periférico · Beckwith-Wiedemann, hemi-hipertrofia
Intralobar
Central · WT1, aniridia, WAGR (33%)
Rastreio
US a cada 3 meses, 6 meses a 8 anos
Resto virando tumor
Cresce, heterogêneo, esférico
Nefroma cístico
Só septos, sem nódulo · hérnia na pelve
Nódulo sólido
Wilms cístico
Displásico multicístico
Sem rim comprimido, pré-natal
Mesoblástico clássico
Sinal do anel
Mesoblástico celular
Fibrossarcoma infantil · heterogêneo
Células claras
Metástase óssea
Rabdoide
Crescente subcapsular, tumor cerebral
Ossificante
Parece coraliforme, mas realça
Linfoma renal
Massas corticais bilaterais
Neuroblastoma
Adrenal 46% · cálcio 80–90%
Vasos
Neuroblastoma envolve · Wilms invade
Olhos de guaxinim
Não é maus-tratos
Opsoclonia-mioclonia
Tumor pequeno
MYCN
Amplificado = pior
INRGSS
Antes do tratamento · L1, L2, M, MS
MS
< 18 meses · pele, fígado, medula
Envolvimento
> 50% = IDRF
Derrame e ascite
Anotar, não é IDRF
MIBG
Escolha para metástase · 24 h
Curie
≥ 2 no fim da indução = pior
Congênito
Pode regredir: observar
Armadilhas e erros comuns
Erros
Esquecer de olhar o outro rim e a cava no Wilms
Chamar de Wilms uma massa adrenal que empurra o rim
Chamar de nefroma cístico uma massa cística com nódulo sólido
Fechar rabdoide só pela coleção subcapsular
Confundir tumor ossificante com cálculo coraliforme
Pensar em Wilms num recém-nascido antes do mesoblástico
Atribuir olhos roxos a maus-tratos sem procurar neuroblastoma
Contar contato vascular (menos de 50%) ou derrame como IDRF
Esquecer o canal vertebral no tumor paravertebral
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Criança de 3 anos com massa renal sólida à direita na TC. Qual item é o mais importante no laudo para o planejamento?
No Wilms, o laudo precisa olhar o outro rim (lesão sincrônica muda o tratamento, e cerca de 7% são bilaterais) e a veia renal e a cava (extensão em 4 a 10%, às vezes até o coração), além de linfonodos, peritônio, sinais de ruptura e metástases. O cálcio aparece em só cerca de 15%.
Criança com aniridia esporádica. Sobre o risco de Wilms e o seguimento, é correto:
A aniridia esporádica e a WAGR se ligam ao WT1 e aos restos intralobares (centrais), que transformam mais: risco de cerca de 33%. O rastreio é por US a cada 3 meses, dos 6 meses aos 8 anos. Os perilobares e o WT2 são das síndromes de supercrescimento (hemi-hipertrofia, cerca de 3%).
Massa renal multisseptada de 8 cm num menino de 2 anos, herniando para a pelve. Qual achado tornaria o nefroma cístico improvável?
No nefroma cístico e no nefroblastoma cístico parcialmente diferenciado, a única parte sólida são septos finos, sem nódulo. Nódulo sólido aponta para Wilms cístico. Septos com realce e fluxo, lóculos variados e rim comprimido em volta são esperados.
Recém-nascido de 10 dias com massa renal sólida homogênea e halos concêntricos hiper e hipoecogênicos em volta no US. O diagnóstico mais provável é:
O nefroma mesoblástico é o tumor renal mais comum do recém-nascido, e o sinal do anel (halos concêntricos, que são vasos dilatados) é característico do tipo clássico, homogêneo. O sarcoma de células claras é raro antes dos 6 meses.
Massa renal sólida de 7 cm numa criança de 3 anos, com fratura vertebral patológica. Qual tumor fica mais provável?
O sarcoma de células claras do rim (média de 36 meses) é conhecido pela metástase óssea, rara no Wilms. Depois do diagnóstico, faz-se cintilografia óssea. Tumor cerebral sincrônico, por outro lado, aponta para o rabdoide.
Neuroblastoma adrenal localizado. Qual achado é um fator de risco definido por imagem (IDRF)?
Envolvimento (mais de 50% da circunferência) da origem do tronco celíaco ou da mesentérica superior é IDRF e faz o tumor L2. Contato com menos de 50% não é. Derrame pleural e ascite são anotados, mas não contam, e cruzar a linha média deixou de importar no INRGSS.
Fontes.
Chung EM, Graeber AR, Conran RM. Renal Tumors of Childhood: Radiologic-Pathologic Correlation
Part 1. The 1st Decade. RadioGraphics 2016;36(2):499–522. doi:10.1148/rg.2016150230
Swift CC, Eklund MJ, Kraveka JM, Alazraki AL. Updates in Diagnosis, Management, and Treatment of
Neuroblastoma. RadioGraphics 2018;38(2):566–580. doi:10.1148/rg.2018170132
As peças cirúrgicas e as lâminas de histologia do primeiro artigo ficaram de fora (o caderno é de
imagem). Os números de cálcio variam conforme a fonte e o método (no neuroblastoma, 80 a 90% na TC e
30 a 90% no US). Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas
fontes.