Cadernos QRad 40 · Física e Proteção Radiológica
Transversal · 1ª etapa, eliminatória

Física e Proteção Radiológica

Fontes: IAEA, Diagnostic Radiology Physics (2014) · ANVISA, RDC 611/2022 e INs 90–97

A matéria que é eliminatória

Física e proteção radiológica é a área do edital com o pior retorno por hora estudada, até o momento em que reprova. Ela é exclusiva da primeira etapa, que é eliminatória, e cobra um tipo de conteúdo diferente do resto da coleção: em vez de raciocínio diagnóstico, números fechados. Tolerância de teste, limite de dose, valor de referência, limiar de efeito.

A boa notícia é que conteúdo fechado é conteúdo finito. Este caderno separa as duas metades que a prova mistura: a física, que explica por que os números são o que são, e a norma brasileira, que diz quais números valem aqui.

as duas fontes A física vem do handbook da IAEA (Agência Internacional de Energia Atômica): Diagnostic Radiology Physics: A Handbook for Teachers and Students, que é a referência de onde saem as tabelas de limite de dose, de fatores de peso e de limiares determinísticos.

A norma vem da RDC (Resolução da Diretoria Colegiada) ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) 611/2022 e das oito Instruções Normativas 90 a 97, de 27 de maio de 2021. É nas INs (Instruções Normativas) que estão as tolerâncias, as periodicidades e os valores representativos de dose, e é de lá que sai quase toda questão de norma.
leia esta distinção antes de tudo Limite de dose não se aplica ao paciente: aplica-se a trabalhador e a público. O paciente é protegido por justificação e otimização, e por níveis de referência de diagnóstico, que são valores para auditar o serviço, não tetos para o indivíduo. Essa é a confusão mais cobrada da matéria inteira.

Produção de raios X

Elétrons são acelerados do catodo ao anodo por uma diferença de potencial e freiam no alvo de tungstênio. Dessa frenagem saem duas coisas diferentes, e a prova gosta de separá-las.

energia do fóton (keV) nº de fótons 20 40 60 80 100 120 58 keV 67 keV 120 kVp 80 kVp sem filtração cada curva termina no seu próprio kVp
O espectro de saída. O contínuo é bremsstrahlung: radiação de freamento, que existe em qualquer energia até o limite imposto pelo kVp. Os dois picos são radiação característica do tungstênio, em 58 e 67 keV, e só aparecem quando o kVp supera a energia de ligação da camada K (69,5 keV). A curva tracejada mostra o que existiria sem filtração: uma montanha de fótons de baixa energia que seriam absorvidos na pele sem nunca chegar ao detector.
ControleO que muda no espectroEfeito na imagem e na dose
kVpDesloca o limite superior de energia e a energia médiaMais penetração, menos contraste, mais Compton. Dose ao paciente cai para a mesma imagem, e é a base da regra dos 15% (subir 15% o kVp equivale a dobrar o mAs)
mAsMultiplica a altura da curva sem mudar seu formatoMais fótons: menos ruído, dose proporcionalmente maior. Não muda contraste
FiltraçãoCorta a cauda de baixa energia: endurece o feixeNão melhora a imagem; reduz dose de pele. Mínimo de 2,5 mm de alumínio equivalente
ColimaçãoNão muda o espectro; reduz o volume irradiadoMenos espalhamento, mais contraste, menos dose. O único ajuste que melhora tudo
as três grandezas de qualidade de feixe Camada semirredutora (CSR): espessura de alumínio que reduz o kerma no ar à metade. É a medida prática de quão "duro" está o feixe, e a IN 90 traz uma tabela de valores mínimos por kVp e por tipo de gerador. A 80 kVp em alta frequência, o mínimo recomendado é 2,9 mm de Al.

Rendimento do tubo: kerma no ar por mAs a 1 metro. A IN 90 exige 30 ≤ R ≤ 65 µGy/mAs a 80 kV com filtração total entre 2,5 e 5 mm de Al.

Radiação de fuga: o que escapa do cabeçote fora do feixe útil. Limite de 1,0 mGy/h a 1 metro, tanto na IN 90 quanto na IN 93.
erro clássico Aumentar o kVp reduz a dose do paciente para a mesma qualidade de imagem: o feixe penetra mais e menos energia fica no corpo. Quem responde "mais kVp, mais dose" está pensando em manter o mAs fixo, o que não é o cenário da pergunta. O preço real do kVp alto é contraste, não dose.

Interações com a matéria

energia do fóton (keV) probabilidade relativa 30 50 75 100 125 fotoelétrico ∝ Z³ / E³: faz contraste Compton quase indiferente ao Z: faz véu
As duas interações que importam em energias diagnósticas. O fotoelétrico despenca com a energia e depende fortemente do número atômico: é ele que diferencia osso de partes moles e é ele que faz o iodo funcionar. O Compton é quase indiferente ao número atômico e passa a dominar nas energias mais altas: é a fonte do espalhamento que degrada a imagem e irradia a equipe. Sobre essa curva descendente do fotoelétrico incide ainda a borda K, tratada logo abaixo.
FotoelétricoCompton
Dependência≈ Z³ / E³: muito sensível a ambosDepende da densidade eletrônica; quase indiferente ao Z
Destino do fótonAbsorvido por completoDesviado, com perda parcial de energia
Papel na imagemCria o contrasteCria véu e reduz o contraste
Papel na doseDeposita toda a energia localmenteDeposita parte; o resto sai do paciente e vira dose ocupacional
Domina emEnergias baixas e meios de Z alto: mamografia, contraste iodadoEnergias altas e partes moles: a maior parte da radiografia e da TC
a borda K, em uma frase A absorção cai com a energia, mas salta bruscamente logo acima da energia de ligação da camada K. É por isso que o iodo (33,2 keV) e o bário (37,4 keV) rendem muito contraste, por que a mamografia trabalha em 26–30 kVp com anodo de molibdênio ou ródio, e por que a imagem espectral consegue separar materiais.
+ complemento · por que a grade existe A grade antidifusora fica entre o paciente e o detector e absorve fótons que chegam em ângulo, ou seja, os espalhados. Melhora contraste e aumenta a dose, porque parte do feixe primário também é barrada e o mAs precisa subir. Por isso a grade é a primeira coisa a sair em pediatria e em extremidades: pouco espalhamento a remover, muita dose a economizar.

Grandezas dosimétricas

A CADEIA CONCEITUAL Kerma no ar Gy energia cedida Dose absorvida Gy = J/kg energia depositada ×wR Dose equivalente Sv tipo de radiação ×wT Dose efetiva Sv órgão irradiado Em raios X, wR = 1: dose absorvida e dose equivalente têm o mesmo número. A dose efetiva é estimada, nunca medida. O QUE O EQUIPAMENTO EXIBE DEP dose de entrada na pele mGy radiografia · IN 90 PKA (DAP) kerma no ar × área Gy·cm² fluoroscopia · IN 91 CTDIvol e DLP medidos em fantoma mGy · mGy·cm tomografia · IN 93 DGM dose glandular média mGy mamografia · IN 92
Em cima, a cadeia conceitual: o feixe cede energia (kerma no ar), o tecido absorve (dose absorvida), corrige-se pelo tipo de radiação (dose equivalente) e pela sensibilidade do órgão (dose efetiva). Embaixo, o que o equipamento de fato exibe: grandezas que descrevem a máquina, não o paciente.
GrandezaUnidadeO que éOnde aparece
Kerma no arGyEnergia cinética cedida a partículas carregadas por massa de arSaída do tubo, levantamento radiométrico
Dose absorvidaGyEnergia depositada por massa de tecidoBase de tudo
Dose equivalenteSvDose absorvida × wR. Em raios X, wR = 1Limites de órgão: cristalino, pele, extremidades
Dose efetivaSvSoma das doses de órgão × wT. Estimada, nunca medidaComparar exames e justificar condutas
DEPmGyDose de entrada na peleRadiografia: Anexo II da IN 90
PKA (DAP)Gy·cm²Kerma no ar × área do campo; não muda com a distânciaFluoroscopia e intervenção
CTDIvol (computed tomography dose index) · DLP (dose-length product)mGy · mGy·cmÍndice medido em fantoma de acrílico padrãoTC: Anexo II da IN 93
DGMmGyDose glandular médiaMamografia: Anexo II da IN 92
fatores de peso de tecido (wT, ICRP 103) 0,12: medula óssea, cólon, pulmão, estômago, mama e tecidos remanescentes
0,08: gônadas
0,04: bexiga, esôfago, fígado, tireoide
0,01: superfície óssea, cérebro, glândulas salivares, pele

O que mudou da ICRP (Comissão Internacional de Proteção Radiológica) 60 para a 103 e costuma ser cobrado: a mama subiu de 0,05 para 0,12, e as gônadas caíram de 0,20 para 0,08. A soma de todos é 1,00.
a armadilha do sievert Gray e sievert têm a mesma dimensão física (J/kg). Em raios X diagnósticos, com wR = 1, dose absorvida e dose equivalente têm o mesmo número. Trocar de unidade não significa trocar de valor, e sim de pergunta: gray mede energia depositada, sievert mede detrimento biológico.
dose efetiva não é dose do paciente Ela usa fatores de peso médios para uma população de referência, sem sexo e sem idade. Serve para dizer que uma TC de abdome equivale a tantos anos de radiação natural, ou para comparar protocolos. Não serve para estimar o risco de um indivíduo, e não deve aparecer em laudo.

Dose em tomografia

fantoma de acrílico 16 cm cabeça · 32 cm corpo CTDIw = ⅓ centro + ⅔ periferia a periferia pesa o dobro CTDIvol = CTDIw ÷ pitch pitch maior, dose menor DLP = CTDIvol × comprimento entra a extensão irradiada E ≈ DLP × k k varia com a região O que o CTDI não sabe o tamanho do paciente : daí existir o SSDE
A cadeia da dose em TC. Tudo começa numa medida feita em cilindro de acrílico com cinco furos (um central e quatro periféricos), e não no paciente.
PassoFórmulaO que ele acrescenta
CTDIw⅓ × centro + ⅔ × periferiaCompensa o fato de que a periferia do fantoma recebe mais que o centro
CTDIvolCTDIw ÷ pitchLeva em conta o espaçamento entre as voltas da hélice
DLPCTDIvol × comprimento irradiadoLeva em conta quanto se irradiou: é aqui que a extensão da varredura entra
Dose efetiva≈ DLP × kConverte para risco comparável; k depende da região anatômica
o que muda a dose em TC, na ordem em que costuma ser cobrado mAs: relação direta e linear.
kVp: relação aproximadamente quadrática; baixar o kVp em angio-TC ainda aumenta o contraste do iodo, porque aproxima a energia média da borda K.
Pitch: pitch maior espaça as voltas e reduz o CTDIvol; pitch menor sobrepõe e o aumenta.
Modulação automática de corrente: exigida pela IN 93 em equipamentos comercializados após 2021, e sua ausência inabilita o uso.
Reconstrução iterativa: permite aceitar mais ruído bruto e, portanto, menos dose.
Número de fases: a alavanca mais grosseira de todas, porque cada fase extra é uma dose inteira.
CTDIvol não corrige por tamanho Dois pacientes de tamanhos muito diferentes, no mesmo protocolo, recebem o mesmo CTDIvol no relatório, e doses reais bem diferentes. A grandeza que corrige isso é o SSDE (size-specific dose estimate), calculado a partir do diâmetro efetivo do paciente. Em pediatria, ignorar essa diferença é o erro que mais superestima segurança.
+ complemento · o fantoma de 16 e o de 32 O fantoma de 16 cm é o de cabeça; o de 32 cm, o de corpo. O mesmo protocolo reportado contra fantomas diferentes gera números que diferem por um fator de aproximadamente dois, e por isso o relatório DICOM (Digital Imaging and Communications in Medicine: padrão de arquivo e transmissão de imagens médicas) informa qual fantoma foi usado, e por isso comparar CTDIvol entre serviços sem checar esse detalhe não significa nada.

Qualidade de imagem e o preço dela

Toda decisão de protocolo é uma troca entre três coisas que não podem melhorar juntas de graça. Entender qual delas a queixa clínica exige é o que separa otimizar de simplesmente baixar a dose.

AtributoDo que dependeComo se paga
RuídoNúmero de fótons que chegam ao detector, ou seja, mAsReduzir o ruído pela metade exige quadruplicar o mAs: o ruído cai com a raiz do número de fótons
ContrasteDiferença de atenuação: favorecido por kVp baixo e por meio de contrastekVp baixo entrega mais contraste e mais dose
Resolução espacialTamanho do ponto focal, do pixel do detector e do kernelKernel mais nítido amplifica o ruído; matriz mais fina reduz fótons por pixel
as siglas que a prova usa SNR: razão sinal-ruído.
CNR: razão contraste-ruído; é a que descreve detectabilidade, porque uma lesão só aparece se seu contraste superar o ruído. A IN 92 traz uma tabela de CNR relativa mínima por espessura de PMMA (polimetilmetacrilato, o acrílico) para a mamografia digital.
DQE (eficiência quântica de detecção): quanto da informação que chega ao detector ele de fato aproveita. Detector com DQE maior entrega a mesma imagem com menos dose: é o argumento técnico por trás da troca de CR (radiografia computadorizada, com placa de fósforo) por DR (radiografia digital direta).
Resolução espacial é medida em pares de linha: por milímetro na radiografia (a IN 90 exige ≥ 2,5 pl/mm) e por centímetro na TC (a IN 93 exige ≥ 6 pl/cm em resolução normal).
a armadilha da imagem digital No sistema tela-filme, superexpor escurecia o filme e o erro se denunciava sozinho. No digital, o processamento normaliza a aparência: uma imagem com o dobro da dose necessária sai bonita. É a dose creep, e é por isso que a IN 90 exige o teste de exatidão do indicador de dose do detector, com tolerância de 20%. O índice de exposição é o único termômetro que sobrou.

Efeitos biológicos

Determinístico : tem limiar dose gravidade limiar Estocástico : sem limiar dose probabilidade a reta parte da origem
À esquerda, o efeito determinístico: existe um limiar abaixo do qual nada acontece, e acima dele a gravidade cresce com a dose. À direita, o estocástico: sem limiar, a dose muda a probabilidade de o efeito ocorrer, nunca sua gravidade.
Determinístico (reação tecidual)Estocástico
LimiarSimNão: modelo linear sem limiar
O que a dose mudaA gravidadeA probabilidade
MecanismoMorte celular em massaMutação em célula que sobrevive
ExemplosEritema, epilação, descamação, catarata, esterilidadeCâncer e efeito hereditário
Onde importaIntervenção prolongada, fluoroscopia, TC de perfusão repetidaTodo exame, somado ao longo da vida
Efeito de pele após exposição únicaLimiarInício
Eritema transitório precoce2 Gyhoras
Epilação temporária3 Gy~3 semanas
Eritema principal6 Gy~10 dias
Epilação permanente7 Gy~3 semanas
Descamação seca10 Gy~4 semanas
Descamação úmida15 Gy~4 semanas
Eritema tardio15 Gy~6–10 semanas
Ulceração secundária20 Gy> 6 semanas
o número que organiza o risco estocástico Há evidência de um patamar prático em torno de 100 mGy: abaixo dessa dose, o excesso de risco de câncer não é distinguível do risco de base numa população. Isso não transforma o modelo em um modelo com limiar: significa que, na faixa de dose de um exame diagnóstico, o risco individual é estimado, não observado.

O coeficiente de referência para a população geral é da ordem de 5% por sievert de dose efetiva para câncer fatal.
onde isto vira conduta Numa intervenção longa, a pergunta não é "qual o risco de câncer": é se houve dose de pele suficiente para lesão. Procedimento com dose de pele acumulada alta exige registro, aviso ao paciente e seguimento cutâneo. O achado costuma aparecer semanas depois, num sítio que o paciente não relaciona ao exame, e é confundido com dermatite ou celulite.

Os três princípios

PrincípioO que exigeAplica-se a
JustificaçãoO benefício tem que superar o detrimento. Todo exame, e depois todo indivíduoTodos, inclusive o paciente
OtimizaçãoDose tão baixa quanto razoavelmente exequível (ALARA), mantida a informação diagnósticaTodos, inclusive o paciente
Limitação de doseTeto numérico anualTrabalhador e público apenas: nunca o paciente
por que o paciente não tem limite de dose Porque na exposição médica há benefício e detrimento na mesma pessoa. Nas exposições ocupacional e do público existe apenas detrimento: quem recebe a dose não recebe o benefício, e por isso cabe um teto. Impor um teto ao paciente significaria interromper um exame necessário no meio, o que é pior do que a dose. O controle do paciente se faz antes (justificação) e durante (otimização).
+ complemento · os três degraus da justificação A justificação opera em três níveis, e a prova costuma citar o segundo:
Nível 1: o uso de radiação em medicina é justificado como prática.
Nível 2: um procedimento específico para uma indicação específica é justificado. É o nível dos critérios de indicação e dos appropriateness criteria.
Nível 3: a aplicação àquele paciente, naquele momento, é justificada.
níveis de referência não são limites O nível de referência de diagnóstico é um valor contra o qual se compara a mediana do serviço para um exame padronizado. Se o serviço fica acima, investiga-se o protocolo. Um paciente individual acima do valor não configura irregularidade: pacientes grandes recebem mais dose, e isso é esperado. Confundir o valor de referência com teto individual é erro frequente.

Limites de dose

LimiteOcupacionalPúblico
Dose efetiva20 mSv/ano, em média em períodos definidos de 5 anos: com a ressalva de que não pode ultrapassar 50 mSv em um único ano1 mSv/ano
Cristalino20 mSv/ano15 mSv/ano
Pele500 mSv/ano: média em 1 cm² de pele, qualquer que seja a área exposta50 mSv/ano
Mãos e pés500 mSv/ano
o limite do cristalino mudou, e a prova ainda cobra o antigo Era 150 mSv/ano. Foi reduzido para 20 mSv/ano em média em 5 anos porque a catarata radioinduzida mostrou-se ter limiar muito menor do que se supunha: hoje estimado em torno de 0,5 Gy. Para quem faz intervenção, essa é a mudança normativa com maior impacto prático, e é o argumento por trás dos óculos plumbíferos.
gestante ocupacionalmente exposta Uma vez notificada a gravidez, a proteção passa a mirar o embrião ou feto, com restrição adicional para que a dose seja comparável à de um membro do público: o valor de referência é de 1 mSv ao embrião ou feto durante o restante da gestação; na prática, dose abaixo de 2 mSv no abdome da trabalhadora garante isso.

Dois pontos que caem: no Brasil a gravidez, confirmada ou suspeita, deve ser notificada ao responsável legal (RDC 611, arts. 23 e 46), para que as condições de trabalho sejam revistas; e a conduta correta não é afastar a profissional, e sim reavaliar tarefas, dosimetria e blindagem. Afastamento automático é resposta errada.
+ complemento · a área livre e a área controlada No Brasil, os níveis que aparecem no levantamento radiométrico (o teste que mede a radiação nas áreas vizinhas à sala) são de 0,5 mSv/ano para área livre e 5,0 mSv/ano para área controlada, com níveis de restrição em 1,0 e 10,0 mSv/ano respectivamente. Esses valores entraram com a RDC 440/2020 e foram consolidados na RDC 611/2022; aparecem tanto no Anexo I da IN 90 quanto no da IN 93.

Proteção da equipe

paciente tubo detector fique aqui lado do detector não aqui lado do tubo o paciente é a fonte o espalhamento nasce dentro dele, não no cabeçote dobrar a distância divide a exposição por quatro
A geometria que decide a dose da equipe. O feixe primário atravessa o paciente e é barrado pelo detector; o que sobra na sala é espalhamento gerado dentro do paciente. Por isso o campo é mais intenso do lado de onde o feixe entra (o lado do tubo) e mais fraco do lado do detector.
as três alavancas, em ordem de eficiência Distância: obedece à lei do inverso do quadrado: dobrar a distância divide a exposição por quatro. É a medida mais barata e a mais esquecida.
Blindagem: avental de 0,25 a 0,5 mm de chumbo equivalente, protetor de tireoide, óculos plumbíferos e, sobretudo, a cortina suspensa e a saia lateral da mesa, que atenuam o espalhamento antes que ele chegue ao operador.
Tempo: fluoroscopia pulsada em baixa taxa, last image hold, retirar o pé do pedal enquanto se pensa.
Aumenta a dose de todosPor quê
Paciente obesoMais material espalhador e mais mAs para atravessar
Projeção oblíqua acentuadaTrajeto maior no paciente; o tubo se aproxima do operador
Ampliação (magnificação)Concentra o feixe num campo menor com mais dose por área
Alta taxa de pulsoMais exposições por segundo
Detector afastado do pacienteExige mais saída do tubo para o mesmo sinal
Colimação abertaMais volume irradiado, mais espalhamento: o inverso vale igual
dosimetria individual Um dosímetro sob o avental, no tronco, estima a dose efetiva. Quando há risco relevante para cristalino e extremidades, acrescenta-se um segundo dosímetro sobre o avental, na altura da tireoide ou da gola. O dosímetro é individual, intransferível, e a RDC 611 é explícita quanto a usá-lo estritamente conforme as instruções do laboratório de monitoração individual: foi exatamente essa a correção que a RDC 440/2020 fez ao texto original, trocando "fabricante" por "laboratório de monitoração individual".
o avental que não protege nada Avental guardado dobrado racha na dobra, e a fissura não aparece na inspeção visual. A IN 90 e a IN 91 exigem o teste de integridade dos acessórios e equipamentos de proteção individual, semestral na fluoroscopia, e o nível de restrição é literalmente “não possui ou todos estão danificados”. Pendurar, nunca dobrar.

A arquitetura normativa brasileira

A norma sanitária brasileira para radiologia diagnóstica e intervencionista tem dois andares. Em cima, a RDC nº 611, de 9 de março de 2022, que estabelece os requisitos de organização e funcionamento do serviço e regulamenta o controle das exposições médicas, ocupacionais e do público. Embaixo, oito Instruções Normativas, todas de 27 de maio de 2021, uma por modalidade, que carregam os testes, as tolerâncias e os valores de dose.

o que a RDC 611 é, exatamente Ela é uma consolidação: reuniu a RDC 330/2019 e a RDC 440/2020 em um texto só e revogou as duas, sem alteração de mérito. Ou seja, o conteúdo já valia: mudou o endereço.

O que a RDC 440/2020 havia acrescentado à 330/2019, e que a 611 carregou consigo: os níveis anuais de dose equivalente de 0,5 mSv para áreas livres e 5 mSv para áreas controladas (na 330 esses valores não estavam definidos, apenas remetidos à CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear)), e a correção do artigo sobre uso do dosímetro.

As INs 90 a 97 não foram alteradas pela consolidação.
INModalidade
90Radiografia médica convencional
91Fluoroscopia e radiologia intervencionista
92Mamografia
93Tomografia computadorizada médica
94Radiologia odontológica extraoral
95Radiologia odontológica intraoral
96Ultrassom diagnóstico ou intervencionista
97Ressonância magnética nuclear
+ complemento · a divisão de competências ANVISA regula o serviço de saúde: é dela a RDC 611 e as INs. A CNEN regula a proteção radiológica como matéria nuclear, e é de onde vêm os limites de dose para trabalhador e público (norma CNEN NN (Norma Nuclear) 3.01). Questão que pergunta "qual órgão" costuma explorar essa divisão: o teste de constância do mamógrafo é ANVISA; o limite de 20 mSv/ano é CNEN.
limitação deste caderno O articulado completo da RDC 611: responsabilidades do responsável legal e do supervisor de proteção radiológica, conteúdo do Programa de Proteção Radiológica, requisitos de projeto de sala e de blindagem: não está desdobrado aqui. Este caderno cobre o que as Instruções Normativas trazem, que é onde estão os números. Para o articulado, leia a resolução no Diário Oficial da União de 16/03/2022.

Testes, tolerâncias e níveis de restrição

Cada Instrução Normativa traz um Anexo I com a mesma estrutura: teste · periodicidade · tolerância · nível de restrição. A tolerância é onde o serviço deve estar; o nível de restrição é o ponto em que o uso fica comprometido. Vale entender a lógica antes de decorar: quase todo nível de restrição é o dobro da tolerância.

Radiografia convencional: IN 90

TestePeriodicidadeTolerânciaNível de restrição
Exatidão do indicador de tensão do tuboAceitação, anual ou após reparos≤ 10%> 20%
Reprodutibilidade da tensãoAceitação, anual ou após reparos≤ 5%> 10%
Exatidão do tempo de exposiçãoAceitação, anual ou após reparos≤ 10%> 30%
Linearidade do kerma com o mAsAceitação, anual ou após reparos≤ 20%> 40%
Rendimento do tuboAceitação, anual ou após reparos30 ≤ R ≤ 65 µGy/mAs a 1 m, 80 kVR < 20 ou R > 80 µGy/mAs
Resolução espacialAceitação, anual ou após reparos≥ 2,5 pl/mm< 1,5 pl/mm
Exatidão do indicador de campo luminosoAceitação, semestral ou após reparos≤ 2% da distância foco-receptor> 4%
Alinhamento do eixo central do feixeAceitação, semestral ou após reparos≤ 3°> 5°
Exatidão do indicador de dose do detectorAceitação, anual ou após reparos≥ 20%> 40%
Luminância do monitor de laudoAceitação, anual ou após reparos≥ 170 cd/m²
Luminância do negatoscópioAceitação, anual ou após reparos≥ 1500 cd/m²
Iluminância da sala de laudosAceitação, anual ou após reparos≤ 50 lx
Radiação de fuga do cabeçoteAceitação, quadrienal ou após modificações≤ 1,0 mGy/h a 1 m> 2,0 mGy/h a 1 m
Levantamento radiométricoAceitação, quadrienal ou após modificaçõesÁrea livre ≤ 0,5 mSv/ano; controlada ≤ 5,0Livre > 1,0; controlada > 10,0 mSv/ano

Fluoroscopia e intervenção: IN 91

TestePeriodicidadeTolerânciaNível de restrição
Mínima distância foco-peleAceitação e após manutenções≥ 30 cm em fixos; ≥ 20 cm em móveis
Máxima taxa de kerma no arAceitação, anual ou após reparos≤ 88 mGy/min em modo normal> 176 mGy/min para qualquer espessura
Integridade dos EPI (equipamentos de proteção individual) e proteção coletivaAceitação, semestral ou após reparosÍntegrosNão possui ou todos danificados
Sinal sonoro no modo cineAceitação, anual e após manutençõesExistente
Exatidão do indicador de PKA e do kerma no ponto de referênciaAceitação, anual ou após reparos≤ 20%> 40%
Resolução espacial em fluoroscopiaAceitação, semestral ou após reparos> 1,0 pl/mm para campos > 25 cm; > 1,2 pl/mm para ≤ 25 cm< 0,6 e < 0,8 pl/mm respectivamente
Resolução de baixo contraste em fluoroscopiaAceitação, semestral ou após reparos< 4% para campos > 25 cm; < 3% para ≤ 25 cm> 6% e > 5% respectivamente

Tomografia computadorizada: IN 93

TestePeriodicidadeTolerânciaNível de restrição
Exatidão do número de CT (computed tomography)Aceitação, semanal ou após reparos−1000 ± 10 (ar); 0 ± 5 (água)> −980 ou < −1020 (ar); e −10 (água)
Uniformidade do número de CTAceitação, semanal ou após reparos≤ 5 HU (unidades Hounsfield)> 10 HU
RuídoAceitação, semanal ou após reparos≤ 15% acima da referência> 20% acima da referência
Exatidão do indicador de tensão do tuboAceitação e após reparos≤ 5%> 10%
Resolução espacialAceitação, anual ou após reparos≥ 6 pl/cm normal; ≥ 10 pl/cm alta resolução< 3 e < 5 pl/cm respectivamente
Exatidão da espessura do corteAceitação, anual ou após reparos± 1 mm para nominal > 2 mm; ± 50% para ≤ 2 mm> 2 mm
Exatidão do indicador de dose em TCAceitação, anual ou após reparos≤ 20%> 40%
Compensação da modulação de correnteAceitação, anual ou após reparos≤ 20%> 40%
as periodicidades, que é o que se esquece Diária: só na mamografia (IN 92): qualidade da imagem com a ferramenta de teste e, onde há filme, sensitometria e temperatura da processadora.
Semanal: só na TC, e só nos três testes de constância do número de CT: exatidão, uniformidade e ruído.
Semestral: campo luminoso, alinhamento do eixo central e alinhamento de grade na radiografia; integridade dos EPI e resolução espacial de alto e de baixo contraste na fluoroscopia.
Anual: a maioria esmagadora.
Quadrienal: levantamento radiométrico e radiação de fuga, ou sempre que houver modificação em sala, equipamento ou procedimento.
o que inabilita o uso de um tomógrafo A IN 93 lista quatro condições que inabilitam o equipamento, e todas valem para aparelhos comercializados após a publicação da norma: ausência de modulação automática de corrente; ausência de protocolos pediátricos, se usado em pediatria; ausência de indicação de CTDIw ou CTDIvol e DLP; e ausência de relatório de dose em padrão DICOM.

Níveis de referência de dose no Brasil

São os valores contra os quais o serviço compara sua própria mediana. Estão nos Anexos II das Instruções Normativas, e são a parte mais decorável da matéria.

Radiografia: dose de entrada na pele, adulto típico (IN 90)

ExameIncidênciaDEP de referência (mGy)
TóraxPA (posteroanterior)0,4
TóraxLAT (lateral)1,4
CrânioAP (anteroposterior)5
CrânioLAT3
Coluna torácicaAP7
Coluna torácicaLAT20
Coluna lombarAP10
Coluna lombarLAT30
Coluna lombarjunção lombossacra40
Abdome, urografia e colecistografiaAP10
PelveAP10
BaciaAP10

Tomografia: CTDIvol máximo de referência (IN 93)

ExameCTDIvol (mGy)
Cabeça, adulto típico70
Abdome, adulto típico25
Abdome, pediátrico20

Mamografia: dose glandular média (IN 92)

PMMA (cm)Mama equivalente (cm)DGM de referência (mGy)Tolerância
2,02,10,6< 1,0
3,03,21,0< 1,5
4,04,51,6< 2,0
4,55,32,0< 2,5
5,06,02,4< 3,0
6,07,53,6< 4,5
as definições que dão sentido às tabelas Adulto típico: indivíduo com 60 a 75 kg e 1,60 a 1,75 m. Não é um paciente qualquer: é o padrão contra o qual o serviço deve levantar sua mediana.

Pediátrico, no Anexo II da IN 93: criança de 5 anos, com aproximadamente 20 kg.

A DGM da mamografia é dada por espessura de PMMA porque a dose depende da compressão: mama mais espessa exige mais mAs. Comparar DGM sem informar espessura não significa nada.
+ complemento · a razão contraste-ruído da IN 92 O Anexo III da IN 92 traz a CNR relativa mínima, também por espessura de PMMA: ≥ 115% a 2 cm, ≥ 110% a 3 cm, ≥ 105% a 4 cm, ≥ 103% a 4,5 cm, ≥ 100% a 5 cm, ≥ 95% a 6 cm e ≥ 90% a 7 cm. Repare no desenho: a exigência de contraste cai conforme a mama engrossa, porque manter a CNR numa mama espessa custaria dose demais. É o compromisso dose × imagem escrito dentro da norma.
o número que mais confunde DEP de tórax PA é 0,4 mGy: não 4, não 0,04. É a menor dose da tabela e a mais fácil de errar por ordem de grandeza. Para comparar: tórax em lateral custa três vezes e meia mais, e uma lombar em lateral custa 75 vezes mais que um tórax PA.

Gestante e criança

gestante: as doses que organizam a resposta Praticamente nenhum exame diagnóstico isolado atinge o patamar de risco fetal determinístico. Os números de referência:

< 50 mGy ao útero: nenhum aumento detectável de malformação ou perda gestacional. Aqui cabem todos os exames que não irradiam diretamente o abdome e a pelve: tórax, crânio, extremidades, mamografia.
50 a 100 mGy: faixa em que a discussão começa, ainda sem indicação de interrupção.
> 100–150 mGy: patamar historicamente citado para discussão individualizada.

Uma TC de abdome e pelve entrega tipicamente 10 a 35 mGy ao útero: abaixo do primeiro patamar.
o que muda de verdade a conduta na gestante Iodado: atravessa a placenta. Uso quando indicado; a recomendação de dosar TSH (hormônio tireoestimulante) neonatal foi flexibilizada nas diretrizes mais recentes, mas a conduta local costuma mantê-la.
Gadolínio: é a restrição que permanece firme. Atravessa a placenta, entra no líquido amniótico e recircula; evita-se na gestação, salvo benefício que supere claramente o risco. RM sem contraste não tem restrição em nenhum trimestre.
Ultrassom, sem efeito comprovado nas intensidades diagnósticas, mas vale o princípio ALARA: Doppler espectral tem maior saída acústica e deve ser evitado como rastreio no primeiro trimestre.
criança: por que a mesma dose pesa mais Maior radiossensibilidade: tecidos em proliferação.
Maior expectativa de vida: mais anos para um efeito estocástico se manifestar.
Menor diâmetro: o mesmo protocolo entrega dose maior por unidade de volume, e o CTDIvol reportado esconde essa diferença.

Daí a IN 93 exigir protocolos pediátricos em equipamento usado em pediatria, sob pena de inabilitação, e daí o valor de referência pediátrico de abdome ser 20 mGy contra 25 do adulto.
+ complemento · a pergunta do balcão "Fiz uma radiografia sem saber que estava grávida." A resposta correta quase sempre é tranquilizar com números, não pedir novo exame nem sugerir interrupção. Radiografia de tórax entrega ao útero uma fração de microgray: ordens de grandeza abaixo de qualquer patamar. O erro grave aqui não é a dose: é a ansiedade induzida por uma resposta vaga.

Ultrassom e ressonância

As INs 96 e 97 existem porque a RDC 611 cobre o serviço de radiologia como um todo. Não há dose a limitar, mas há desempenho a garantir, e, na ressonância, há riscos que não são radiológicos.

ultrassom: os dois índices Índice mecânico (IM): risco de cavitação; é o que preocupa em contraste ultrassônico e em interfaces com gás.
Índice térmico (IT): aquecimento tecidual, com variantes para partes moles, osso e osso craniano.

A referência prática em obstetrícia: manter IT ≤ 0,7 em exposição fetal prolongada, e limitar o tempo em Doppler espectral. O modo B é o de menor saída acústica; Doppler espectral, o de maior.
ressonância: os riscos que a prova cobra Projétil ferromagnético: o risco mais letal da sala, e o motivo das zonas de acesso controlado (I a IV). O campo não desliga: o ímã é supercondutor e permanece energizado.
SAR (taxa de absorção específica, em W/kg): é o aquecimento por radiofrequência. Sobe com campo maior, com ângulo de inversão e com sequências turbo spin-echo.
Ruído acústico: pode ultrapassar 100 dB; proteção auricular é obrigatória.
Queimadura: por alça condutora (cabos, eletrodos, contato pele-pele).
Quench: evaporação abrupta do hélio, com risco de asfixia; daí o sensor de oxigênio e a ventilação de emergência.
o que a IN 97 exige Segurança da sala: ambientes classificados em zonas I a IV; sistema de detecção de metais no acesso às zonas III e IV; sistema de evacuação massiva de gases criogênicos e, na sala com tubo de quench, porta que abre para fora; isolamento acústico e proteção auditiva para paciente e acompanhante; sinalização de risco nas portas; comunicação audiovisual com o paciente durante todo o exame.

Desempenho de imagem (testes de aceitação e de controle de qualidade): resolução espacial (com FOV (field of view: campo de visão) de 25 cm e matriz 256 × 256, deve-se resolver ao menos o objeto de 1 mm), razão sinal-ruído avaliada conforme a geometria da bobina, uniformidade e ausência de artefatos.

Pontos de prova: alto rendimento

Limite ocupacional de dose efetiva20 mSv/ano em média em 5 anos, sem ultrapassar 50 mSv em um único ano
Limite para o público1 mSv/ano de dose efetiva
Cristalino20 mSv/ano ocupacional (era 150) · 15 mSv/ano público
Pele e extremidades500 mSv/ano ocupacional · pele do público 50 mSv/ano
PacienteNão tem limite de dose: só justificação e otimização
Áreas, no levantamento radiométricoLivre ≤ 0,5 mSv/ano · controlada ≤ 5,0 mSv/ano
Radiação de fuga do cabeçote≤ 1,0 mGy/h a 1 metro
Filtração total mínima2,5 mm de alumínio equivalente
Taxa de kerma em fluoroscopia≤ 88 mGy/min em modo normal
Distância foco-pele mínima30 cm em equipamento fixo · 20 cm em móvel
CTDIvol de referênciaCabeça 70 · abdome adulto 25 · abdome pediátrico 20 mGy
DEP de referência: tórax PA0,4 mGy (lateral 1,4)
DEP de referência: lombarAP 10 · lateral 30 · junção lombossacra 40 mGy
DGM de referência a 4,5 cm de PMMA2,0 mGy, tolerância < 2,5
Testes semanaisSó na TC: exatidão, uniformidade do número de CT e ruído
Picos característicos do tungstênio58 e 67 keV: exigem kVp > 69,5
Borda KIodo 33,2 keV · bário 37,4 keV
wT da mama (ICRP 103)0,12: subiu de 0,05 na ICRP 60
Limiar de eritema principal6 Gy · descamação úmida 15 Gy · ulceração 20 Gy
Patamar prático de risco estocástico100 mGy

Armadilhas e erros comuns

Confusões de conceito

  • Achar que o paciente tem limite de dose: não tem; tem justificação e otimização
  • Tratar nível de referência de diagnóstico como teto individual: ele se compara à mediana do serviço, não a um paciente
  • Achar que CTDIvol é a dose do paciente: é dose num fantoma de acrílico, sem correção por tamanho
  • Responder que subir o kVp aumenta a dose (para a mesma imagem, ela cai; o que se perde é contraste)
  • Usar dose efetiva para estimar risco de um indivíduo; ela é grandeza populacional

Erros de número

  • Usar o limite antigo do cristalino (150 mSv/ano): hoje é 20
  • Esquecer a ressalva dos 50 mSv em um único ano dentro da média quinquenal
  • Trocar a ordem de grandeza do DEP de tórax PA (0,4 mGy)
  • Somar fase extra de TC como se fosse acréscimo pequeno: cada fase é uma dose inteira
  • Confundir pl/mm (radiografia, ≥ 2,5) com pl/cm (TC, ≥ 6)

Erros de prática

  • Dobrar o avental plumbífero em vez de pendurar: racha na dobra e a falha não aparece
  • Ficar do lado do tubo em fluoroscopia; o espalhamento é maior de onde o feixe entra
  • Deixar a colimação aberta: é o único ajuste que piora dose de paciente e de equipe ao mesmo tempo
  • Afastar automaticamente a gestante ocupacionalmente exposta: o correto é reavaliar tarefa, dosimetria e blindagem
  • Não perceber a dose creep: no digital, a imagem superexposta sai bonita

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Numa reunião do serviço, discute-se o que fazer com um residente que ultrapassou 22 mSv de dose efetiva no ano, e com um paciente que fez três TCs de abdome no mesmo período. Qual leitura está correta?

Duas ideias diferentes moram nesta questão.

Do lado do trabalhador, o limite de dose efetiva é 20 mSv/ano em média em períodos definidos de 5 anos, com a ressalva de que não pode ultrapassar 50 mSv em um único ano. Um ano de 22 mSv, portanto, não é por si só violação: depende da média do quinquênio. O que ele exige é investigação de causa, não afastamento automático.

Do lado do paciente, não existe limite de dose. A razão é a assimetria entre benefício e detrimento: na exposição médica os dois recaem sobre a mesma pessoa, enquanto nas exposições ocupacional e do público há só detrimento. O paciente é protegido por justificação e otimização.

E o nível de referência de diagnóstico não é teto individual: compara-se a mediana do serviço para um exame padronizado. Paciente grande recebendo mais dose é esperado, não irregular.
↑revisar esta parte do caderno · Limites de dose
Questão 2

Uma radiografia de abdome sai com ruído aceitável, mas o físico do serviço sugere subir o kVp e reduzir o mAs para manter a mesma densidade. Qual a consequência correta dessa troca?

Subir o kVp desloca a mistura de interações do fotoelétrico para o Compton. As três consequências vêm juntas:

Menos dose: o feixe penetra mais e menos energia fica depositada no paciente para produzir a mesma imagem. É a lógica da regra dos 15%: subir 15% o kVp equivale a dobrar o mAs.
Menos contraste: o fotoelétrico é quem separa os tecidos, porque depende de Z³; o Compton é quase indiferente ao número atômico.
Mais espalhamento, e o fóton Compton desviado chega ao detector fora de lugar, criando véu, além de virar dose ocupacional.

A alternativa de que mais kVp significa mais dose é o erro mais comum da matéria: ela só valeria mantendo o mAs fixo, que não é o cenário. O preço real do kVp alto é contraste, não dose.
↑revisar esta parte do caderno · Produção de raios X
Questão 3

Uma criança de 5 anos e um adulto de 110 kg fazem TC de abdome com o mesmo protocolo. O relatório DICOM mostra CTDIvol idêntico nos dois. Como interpretar?

O CTDIvol descreve a máquina, não o paciente. Ele é medido num fantoma cilíndrico de acrílico: 16 cm para cabeça, 32 cm para corpo, com um furo central e quatro periféricos, e a periferia pesa o dobro do centro (CTDIw = ⅓ centro + ⅔ periferia). Depois divide-se pelo pitch.

Como a medida é sempre no mesmo cilindro, dois pacientes de tamanhos opostos no mesmo protocolo recebem o mesmo número no relatório e doses reais bem diferentes. A grandeza que corrige isso é o SSDE, calculado a partir do diâmetro efetivo.

É por isso que a IN 93 exige protocolos pediátricos em equipamento usado em pediatria, e sua ausência inabilita o uso do aparelho.
↑revisar esta parte do caderno · Dose em tomografia
Questão 4

O físico do serviço monta o calendário de controle de qualidade a partir das Instruções Normativas da ANVISA. Quais testes têm periodicidade semanal?

A periodicidade semanal aparece em um lugar só: os três testes de constância da tomografia (exatidão do número de CT (−1000 ± 10 no ar; 0 ± 5 na água), uniformidade do número de CT (≤ 5 HU) e ruído, ≤ 15% acima do valor de referência).

As demais periodicidades da IN 90, 91 e 93:
Semestral: campo luminoso, alinhamento do eixo central e alinhamento de grade na radiografia; integridade dos EPI e resolução espacial de alto e de baixo contraste na fluoroscopia. (E há periodicidade diária na mamografia, pela IN 92.)
Anual: a maioria esmagadora, incluindo luminância de monitores e iluminância da sala de laudos.
Quadrienal: levantamento radiométrico e radiação de fuga, ou sempre que houver modificação de sala, equipamento ou procedimento.
↑revisar esta parte do caderno · Testes e tolerâncias
Questão 5

Procedimento em arco em C, tubo sob a mesa. Um residente pergunta de que lado deve ficar e por quê. Qual orientação e qual justificativa estão corretas?

O que irradia a equipe não é o tubo: é o paciente. O feixe primário atravessa o paciente e é barrado pelo detector; o que fica na sala é o espalhamento gerado dentro do corpo, e ele é mais intenso do lado por onde o feixe entra. Com o tubo sob a mesa, esse é o lado de baixo e o campo é maior junto ao tubo.

Daí a hierarquia das medidas: distância primeiro (dobrar a distância divide a exposição por quatro), depois blindagem, com destaque para a cortina suspensa e a saia lateral da mesa, que atenuam o espalhamento antes que ele chegue ao operador, e por fim tempo.

A alternativa do avental é sedutora e errada por omissão: ele não cobre cristalino nem mãos, e o limite do cristalino é justamente o mais apertado; 20 mSv/ano.
↑revisar esta parte do caderno · Proteção da equipe
Questão 6

Paciente retorna três semanas após embolização prolongada com uma placa eritematosa e depilada no dorso, de bordas retas, que o dermatologista tratou como dermatite de contato. Qual a leitura correta?

Bordas retas são a assinatura de um campo de irradiação: pele não adoece em linha reta por conta própria. E o quadro é determinístico: existe limiar, e acima dele a gravidade cresce com a dose.

Os limiares após exposição única: eritema transitório precoce em 2 Gy, em horas; epilação temporária em 3 Gy, em cerca de 3 semanas; eritema principal em 6 Gy, por volta de 10 dias; descamação seca em 10 Gy; descamação úmida em 15 Gy; ulceração secundária em 20 Gy.

É justamente o atraso que faz o diagnóstico ser perdido: a lesão aparece semanas depois, num sítio que o paciente não relaciona ao exame, e vira dermatite ou celulite. O risco de câncer, esse sim estocástico, é outra conversa, e não é a que importa aqui.
↑revisar esta parte do caderno · Efeitos biológicos
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Fontes.
Física, limites de dose, fatores de peso e limiares determinísticos: Dance DR, Christofides S, Maidment ADA, McLean ID, Ng KH (eds.). Diagnostic Radiology Physics: A Handbook for Teachers and Students. Viena: IAEA; 2014. Tabela 24.1 (limites de dose), Tabela 22.1 (fatores de peso de tecido, ICRP 103) e Tabela 20.3 (efeitos de pele).

Norma brasileira: ANVISA. Resolução RDC nº 611, de 9 de março de 2022 (consolidação da RDC 330/2019 e da RDC 440/2020). E as Instruções Normativas nº 90 a 97, de 27 de maio de 2021: radiografia convencional (90), fluoroscopia e radiologia intervencionista (91), mamografia (92), tomografia computadorizada (93), radiologia odontológica extraoral (94) e intraoral (95), ultrassom (96) e ressonância magnética (97). Todas as tolerâncias, periodicidades e valores de referência deste caderno foram transcritos dos Anexos dessas Instruções Normativas, conferidos no texto completo e vigente da ANVISA Legis (anvisalegis.datalegis.net) em 29/09/2026.

Limitação conhecida: O articulado da RDC 611 (responsabilidades, Programa de Proteção Radiológica e requisitos de projeto de sala) não está desdobrado neste caderno; o que está aqui vem das Instruções Normativas e do texto de consolidação. Ver a seção arquitetura normativa.

Os diagramas são próprios, desenhados para este caderno. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.