A Organ Injury Scale (OIS) da American Association for the Surgery of Trauma (AAST) nasceu
em 1989 como descrição anatômica: o que o cirurgião via ao abrir o abdome. Três décadas
depois, o manejo virou majoritariamente não operatório e o diagnóstico virou
tomográfico. A revisão de 2018 (baço, fígado e rim) assume isso: cada grau ganha
critérios de imagem, de cirurgia e de patologia, e a mudança central é a entrada da
lesão vascular vista na TC, que se associa a mais falha do tratamento
conservador (o principal preditor é o sangramento ativo).
as três regras transversaisO maior vale: o grau final é o MAIOR entre os três conjuntos de critérios (imagem,
cirurgia, patologia).
Múltiplas lesões somam: mais de uma lesão grau I ou II no mesmo órgão avança UM grau,
até o teto do grau III (no rim, a regra vale para lesões bilaterais).
O teto agora é V nos três órgãos: o grau VI hepático (avulsão) foi extinto por ser
insobrevivível.
o protocolo que a escala pressupõeFase arterial (25–30 s): a melhor para o pseudoaneurisma. O baço realça
heterogêneo nessa fase: não confundir com contusão ou laceração.
Fase portal (65–80 s): a melhor para o sangramento ativo e para o dano do
parênquima.
Fase tardia (~9 min após a portal): NÃO é rotina; entra quando há laceração renal grau II ou maior,
líquido junto à pelve renal, hematúria macroscópica, fratura pélvica ou suspeita de lesão de
bexiga. O radiologista revê as imagens na hora e decide.
Split-bolus: a injeção bifásica com aquisição única entrega qualidade comparável com menos radiação, o que pesa sobretudo no jovem.
As fases da TC no trauma
Fase arterial, 25 a 30 s depois do contraste: realce ótimo de tudo que é irrigado por artéria. Pequena lesão hipoatenuante no fígado, provável cisto.Fase portal: o parênquima hepático realça pela porta, com leve realce das veias hepáticas. O mesmo cisto, e lesão esplênica de grau moderado a alto.Fase tardia, cerca de 9 min depois da portal: indicada com laceração renal grau II ou mais, líquido em volta da pelve renal, hematúria macroscópica, fratura de pelve ou suspeita de lesão de bexiga.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 3. Ver artigo
+ complemento · antes e ao lado da TC
O rastreio inicial de todo trauma abdominal é o Extended Focused Assessment with Sonography
for Trauma (EFAST): líquido livre peritoneal, pericárdico, hemotórax e pneumotórax à beira do
leito, sobretudo em quem está instável demais para a TC. O US com contraste alcança
sensibilidade e especificidade acima de 90% no trauma isolado de baixa energia, mas enxerga
mal a via urinária. A TC de dupla energia melhora a detecção de lacerações e hematomas
(imagem seletiva de iodo). A RM fica para o seguimento e para dúvidas específicas: a
colangio-RM é o caminho das lesões biliares e pancreáticas.
A linguagem comum das lesões
Os três órgãos usam o mesmo vocabulário, e a revisão o definiu com precisão. A
lesão vascular contida é um pseudoaneurisma ou uma fístula arteriovenosa (FAV), e a TC
não separa os dois: ambos aparecem como foco de contraste que acompanha o pool arterial
e lava na fase tardia; a angiografia segue como padrão de referência. O
sangramento ativo é o oposto: contraste extravasado (80–95 UH, unidades Hounsfield) que cresce em
tamanho ou atenuação na fase tardia. A trombose vascular leva a infarto do órgão.
O comportamento do foco nas três fases separa a lesão vascular contida (lava) do
sangramento ativo (cresce e persiste): é essa distinção que muda o grau e a conduta.
Achado
Definição na TC
Hematoma subcapsular
Coleção entre o parênquima e a cápsula, medida em % da superfície do órgão
Hematoma intraparenquimatoso
Coleção dentro do órgão, medida em cm
Laceração
Rasgo do parênquima, medido em cm de profundidade
Lesão vascular contida
Foco de contraste que segue o pool e lava no tardio: pseudoaneurisma ou FAV, indistinguíveis
Sangramento ativo
Contraste (80–95 UH) que cresce no tardio: contido no órgão ou livre no peritônio
o termo que morreu
A palavra “expansivo” saiu da escala (baço, fígado e rim): um exame único não
consegue provar que um hematoma NÃO está expandindo. Também caiu o envolvimento de
vasos trabeculares na laceração esplênica: profundidade e tamanho passaram a ser os
únicos critérios entre os graus II e III.
Baço
O órgão mais lesado do trauma abdominal fechado: cerca de um terço das
lesões. Como a esplenectomia cobra o preço da infecção fulminante, a preservação
esplênica é o padrão: até 90% das lesões isoladas são tratadas sem cirurgia, e até
80% das lesões de alto grau se resolvem com embolização da artéria esplênica. A TC
prediz a necessidade de embolização com acurácia de 80–90%.
Grau
Critérios de imagem (TC)
I
Hematoma subcapsular < 10% da superfície · laceração < 1 cm · rotura capsular
II
Subcapsular 10–50% · intraparenquimatoso < 5 cm · laceração 1–3 cm
III
Subcapsular > 50% ou roto · intraparenquimatoso ≥ 5 cm ou roto · laceração > 3 cm
IV
Qualquer lesão com lesão vascular contida ou sangramento ativo dentro da cápsula · laceração de vasos segmentares/hilares com desvascularização > 25%
V
Lesão vascular com sangramento ativo para o peritônio · baço despedaçado · lesão hilar que desvasculariza o órgão
Baço grau I
TC axial com contraste, homem de 42 anos após queda de bicicleta: laceração esplênica pequena, com cerca de 1 cm de profundidade (seta). Artefato dos braços e ruído são comuns no trauma.TC coronal com contraste, homem de 28 anos após acidente de carro: pequeno hematoma subcapsular (seta vermelha), menos de 10% da superfície do baço, e pequeno hematoma subcapsular no polo inferior do rim esquerdo (seta branca).
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 5. Ver artigo
Baço grau II
TC axial com contraste, homem de 33 anos: hematoma intraparenquimatoso esplênico de 3,5 cm (círculo vermelho). O termo "expansivo" saiu da escala.TC axial com contraste em projeção de intensidade máxima, homem após queda de uma ponte: laceração esplênica de 2,8 cm (seta). A participação de vaso trabecular deixou de ser critério: só o tamanho separa o grau II (1 a 3 cm) do III (mais de 3 cm).TC axial com contraste, homem de 39 anos após acidente de moto: hematoma subcapsular (setas) em cerca de 30% da superfície.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 6. Ver artigo
Baço grau III
TC axial com contraste, homem de 37 anos após acidente de carro em alta velocidade: laceração esplênica de cerca de 6 cm (setas). A angiografia mostrou extravasamento num ramo superior, embolizado com molas.TC axial com contraste, homem de 45 anos: hematoma intraparenquimatoso (círculo vermelho) comunicando-se (seta azul) com hematoma subcapsular volumoso (setas brancas), em mais de 50% da superfície, roto, com sangue no peritônio.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 7. Ver artigo
Baço grau IV
TC coronal com contraste, mulher de 27 anos: extravasamento ativo de contraste (seta vermelha) contido pela cápsula esplênica (setas brancas). Lesão vascular e sangramento ativo dentro da cápsula foram a principal mudança de 2018.TC coronal com contraste, menino de 15 anos: laceração extensa do polo superior com lesão de vaso segmentar (seta) e mais de 25% de desvascularização.TC axial com contraste na fase arterial, homem de 47 anos: hematoma subcapsular volumoso (setas vermelhas) e pequeno foco com densidade de contraste no baço (seta branca).Fase portal do mesmo paciente: o foco acompanha o sangue em todas as fases e lavou na tardia, a lesão vascular contida; sangue peri-hepático (seta azul).
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 8. Ver artigo
Baço grau V, homem de 67 anos após acidente de carro
TC axial com contraste: destruição extensa do parênquima, hemoperitônio (seta branca) e extravasamento ativo para fora do baço, no peritônio (seta vermelha). Colaterais periportais (setas azuis) pela hipertensão portal. Tratado com esplenectomia.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 9. Ver artigo
o que 2018 mudou aqui
A lesão vascular contida e o sangramento ativo dentro da cápsula entraram no grau
IV; o sangramento que escapa para o peritônio, no grau V. Antes, só a
desvascularização subia o grau: agora é o comportamento do contraste que decide, e foi a
fase arterial que tornou esses achados visíveis.
No infarto pós-lesão: área hipodensa mal definida no agudo, que demarca e perde volume com o tempo; na fase crônica, pode haver fibrose ou calcificação.
as variantes que fingem laceração
Lóbulos, incisuras e fendas esplênicas são restos fetais sem significado: contorno
liso, sem hematoma ao redor. E o realce heterogêneo do arterial é fisiologia da polpa,
não contusão: confirme na fase portal antes de graduar.
Fígado
O segundo órgão mais lesado, e o que mais mata no trauma abdominal grave
(mortalidade de 5–15%). O lobo direito sofre três vezes mais que o esquerdo, e a
laceração é a lesão mais comum. A desaceleração rasga o parênquima contra os pontos
fixos; o trauma anteroposterior lacera na linha de Cantlie, ancorado pela cava.
Grau
Critérios de imagem (TC)
I
Subcapsular < 10% · laceração < 1 cm
II
Subcapsular 10–50% · intraparenquimatoso < 10 cm · laceração 1–3 cm de profundidade e ≤ 10 cm de extensão
III
Subcapsular > 50% ou roto · intraparenquimatoso > 10 cm · laceração > 3 cm · lesão vascular ou sangramento ativo CONTIDO no parênquima
IV
Ruptura de 25–75% de um lobo · sangramento ativo para o peritônio
V
Ruptura > 75% de um lobo · lesão venosa justa-hepática (cava retro-hepática, veias hepáticas centrais)
o que 2018 mudou aqui
O sangramento contido no parênquima entrou no grau III: um degrau ABAIXO do
equivalente esplênico; o que extravasa para o peritônio, no IV.
Os segmentos de Couinaud saíram da quantificação da ruptura lobar (fala-se em % do
lobo).
O grau VI (avulsão hepática) foi extinto: V é o teto.
Fígado grau I
TC axial com contraste, mulher de 21 anos após acidente de carro: pequeno hematoma subcapsular no segmento VI (seta), de 2,2 × 0,7 cm, menos de 10% da superfície, sem laceração.TC axial com contraste, mulher de 48 anos após acidente de carro: laceração hepática com menos de 1 cm de profundidade (seta).
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 11. Ver artigo
Fígado grau II
TC axial com contraste, homem de 35 anos após acidente de moto: hematoma intraparenquimatoso (oval vermelho) de cerca de 4 cm.TC axial com contraste, mulher de 29 anos que caiu da escada: laceração no lobo esquerdo (setas) com quase 3 cm de profundidade, sem hematoma subcapsular nem sangramento ativo.TC axial com contraste, homem de 47 anos após acidente de carro: hematoma subcapsular (setas) em cerca de 40% da superfície do fígado.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 12. Ver artigo
Fígado grau III
TC axial com contraste, homem de 45 anos após acidente de carro: hematoma intraparenquimatoso volumoso no lobo direito posterior (círculo vermelho), de 5,5 × 3,3 × 10,1 cm, com extravasamento ativo (seta) e cápsula íntegra. A revisão de 2018 passou a contar o sangramento contido no parênquima.TC coronal com contraste do mesmo paciente: o hematoma (oval vermelho).TC axial com contraste, mulher de 37 anos: laceração de cerca de 7 cm de extensão e mais de 3 cm de profundidade (setas).TC axial na fase arterial, mulher de 45 anos: várias lacerações extensas (setas brancas) e foco com densidade de contraste (seta vermelha); ar junto às costelas (seta azul) e hemoperitônio.Fase portal da mesma paciente: o foco lava em parte e não cresce, sugerindo lesão vascular contida. A primeira angiografia não a achou; a segunda, 2 dias depois, achou e embolizou.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 13. Ver artigo
Fígado grau IV
TC axial com contraste, homem de 46 anos atropelado: destruição importante do lobo direito, com extravasamento ativo no parênquima (setas brancas) e para o peritônio (setas vermelhas). Sangramento que sai do parênquima entrou na revisão.TC axial com contraste, homem de 21 anos que caiu da plataforma do trem: destruição de cerca de 50% do lobo direito (oval vermelho), com hemoperitônio. Os segmentos de Couinaud deixaram de ser usados para quantificar a destruição.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 14. Ver artigo
Fígado grau V
TC axial com contraste, homem de 43 anos após acidente de carro: destruição de mais de 75% do lobo direito (setas vermelhas), dreno de tórax à direita (seta azul) e enfisema subcutâneo (seta branca).TC axial com contraste, mulher de 35 anos baleada: trajeto do projétil da margem hepática direita ao hilo, seccionando a veia cava inferior, com extravasamento de contraste (seta), artefato dos fragmentos metálicos e ar ao longo do trajeto.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 15. Ver artigo
+ complemento · depois do trauma
O manejo não operatório serve à maioria dos graus I–III e a um terço dos IV–V; a
embolização reduz laparotomia e complicações. As complicações tardias são o território da
radiologia: pseudoaneurisma, hemobilia, biloma, fístula e estenose biliar; a colangio-RM confirma o vazamento de bile que a TC só sugere.
Rim
O sistema geniturinário entra em 10% dos traumas abdominais, e o rim é o seu órgão
mais atingido: 80–90% por mecanismo contuso, tipicamente no homem jovem. A pista clínica é a
hematúria, mas ela pode faltar exatamente nas lesões mais graves: junção
ureteropélvica (JUP), pedículo vascular e ureter.
Subcapsular (grau I) deforma o parênquima; perinefrético (grau II) espalha-se dentro da
fáscia de Gerota sem deformar, e é a Gerota que separa o sangramento grau III do grau
IV.
Grau
Critérios de imagem (TC)
I
Contusão (hipodensidade mal definida que some no tardio) · hematoma subcapsular sem laceração
II
Hematoma perinefrético contido na Gerota · laceração ≤ 1 cm sem extravasamento urinário
III
Laceração > 1 cm sem lesão da via excretora · qualquer lesão com vascular contida ou sangramento ativo DENTRO da Gerota
IV
Laceração alcançando a via excretora com urina extravasada · laceração da pelve ou ruptura completa da JUP · lesão de artéria/veia segmentar · infarto por trombose sem sangramento · sangramento ativo além da Gerota
V
Laceração da artéria/veia renal principal ou avulsão do hilo · rim desvascularizado com sangramento ativo · rim despedaçado, sem anatomia identificável
o que 2018 mudou aqui
A contusão virou achado de imagem (antes era diagnóstico clínico), e difere do
infarto segmentar, que é cunha nítida e persiste no tardio.
A laceração de exatamente 1 cm passou a ser grau II (antes, só a menor que 1 cm era); “retroperitônio renal” virou
“contido na fáscia de Gerota”.
TODA lesão da via excretora é grau IV, e o infarto por trombose ficou no IV (não
exige intervenção aguda), enquanto as demais lesões dos vasos principais são V.
Rim grau I
TC axial com contraste na fase portal, homem de 24 anos após acidente de moto: área hipoatenuante mal definida no rim esquerdo (seta).Fase tardia do mesmo paciente: a área fica quase isoatenuante (seta), a contusão renal, que agora é achado de imagem.TC axial com contraste, homem de 68 anos que caiu de bicicleta: hematoma subcapsular esquerdo (seta), sem laceração.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 17. Ver artigo
Rim grau II
TC axial com contraste, homem de 29 anos: laceração com menos de 1 cm de profundidade no rim esquerdo (seta), sem extravasamento de urina, que levaria a pelo menos grau IV. Laceração de exatamente 1 cm agora também é grau II.TC axial com contraste, mulher de 45 anos após acidente de carro: hematoma perirrenal (setas) contido pela fáscia de Gerota.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 18. Ver artigo
Rim grau III
TC axial com contraste em bolus dividido, homem de 28 anos após acidente de moto: laceração renal esquerda (setas vermelhas) sem extravasamento de urina na tardia, e pequeno hematoma perirrenal contido pela Gerota (seta branca).TC axial com contraste, homem de 37 anos: hematoma perirrenal esquerdo volumoso com sangramento ativo (seta) contido pela fáscia de Gerota. Pseudoaneurisma, fístula arteriovenosa e sangramento ativo contido agora são grau III.TC axial na fase tardia, menino de 15 anos com hematúria macroscópica depois de bater o abdome na quina de um degrau: estrutura globosa no rim direito (seta), do mesmo tamanho do foco com densidade de contraste da fase arterial, a lesão vascular contida. A angiografia confirmou pseudoaneurisma, embolizado com molas.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 19. Ver artigo
Rim grau IV
TC coronal com contraste, homem de 31 anos após acidente de carro: infarto do polo inferior do rim esquerdo (oval vermelho), por lesão vascular segmentar.TC axial na fase tardia, homem de 26 anos atropelado: laceração do rim direito da face anterior à posteromedial, atravessando a pelve, com contraste fora do sistema coletor (seta), o extravasamento de urina.TC axial com contraste, mulher de 45 anos após acidente de carro: infarto completo do rim esquerdo (setas), sem sangramento ativo. Sem recuperação funcional no seguimento.TC axial com contraste, menino de 16 anos atingido por um galho de árvore: lacerações graves do rim direito, sangue além da fáscia de Gerota e extravasamento de contraste dentro (seta amarela) e além da Gerota, para o retroperitônio (seta branca).TC axial na fase tardia, homem de 71 anos após queda: contraste no espaço perirrenal direito (oval azul) e descendo pelo retroperitônio, sem contraste no ureter distal: ruptura completa da junção ureteropélvica.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 20. Ver artigo
Rim grau V
TC axial com contraste, homem de 55 anos após colisão frontal: rim esquerdo estilhaçado, com dois pequenos fragmentos (setas vermelhas) e perda da anatomia, e sangue saindo da fáscia de Gerota (setas brancas) para o peritônio e o retroperitônio (setas azuis).TC axial com contraste, homem de 34 anos prensado entre dois veículos: avulsão do hilo renal direito, laceração da artéria renal (seta), hematoma retroperitoneal extenso e rim direito desvascularizado (oval branco). O pouco extravasamento se deve a vasoespasmo e compressão pelo hematoma.
Fonte: Dixe de Oliveira Santo I et al. RadioGraphics 2023;43(9):e230040, Fig. 21. Ver artigo
as duas leituras que salvam o laudo renal
Líquido perirrenal de baixa densidade no agudo não é hematoma até prova em contrário. Peça a fase tardia: se opacificar como a via excretora, é urina (grau IV). Na suspeita de lesão da JUP, procure urina medial a um cálice lateral íntegro; a ausência de contraste no ureter distal indica ruptura completa, mas pode aparecer também na parcial.
Hematoma subcapsular grande pode comprimir o rim e gerar hipertensão: o rim de
Page.
A mesma lesão, três endereços
A pegadinha central do sistema: o MESMO achado vascular cai em graus diferentes
conforme o órgão. A revisão uniformizou a linguagem, não os degraus.
A matriz que resolve a questão de prova: contido, além do órgão e vasos principais; em
cada órgão, um endereço.
a regra de bolso
O baço anda um degrau acima: a lesão vascular contida que vale III no fígado e no
rim, nele vale IV, e a que vale IV neles (sangramento além do órgão), nele vale V. No baço, o
sangramento ativo é o principal preditor de falha do tratamento
conservador, a lesão vascular contida também se associa a mais falha, e o grau maior tende a levar à embolização.
O que a validação já mostrou
A escala nova foi testada, e os números ensinam onde ela acerta e onde não.
Estudo
O que encontrou
Morell-Hofert (703 pacientes, baço + fígado)
A versão 2018 é melhor para prever cirurgia, porém pior para prever mortalidade hospitalar. Reclassificou 28,1% das lesões esplênicas, e só 1,9% das hepáticas
Hemachandran (527 pacientes, baço)
Mais de 40% das lesões vasculares esplênicas só aparecem na fase arterial; sua adição mudou o grau em 11,7%
Keihani (322 pacientes, rim)
Um terço dos antigos grau III subiu para IV: o grau IV renal de 2018 virou um grupo heterogêneo
+ complemento · as escalas irmãs
A OIS não nasceu sozinha. A Abbreviated Injury Scale (AIS, 1971) deu o léxico de gravidade
por lesão; o Injury Severity Score (ISS, 1974) combina os escores das três regiões corporais
mais atingidas para prever sobrevida no politraumatizado; o Abdominal Trauma Index (1981)
soma risco × gravidade por órgão: acima de 25, as complicações pós-operatórias sobem. Cada
grau da OIS carrega seu equivalente AIS, o elo entre as escalas.
Pontos de prova: alto rendimento
O maior vale
Grau final = o maior entre imagem, cirurgia e patologia
Múltiplas lesões I/II
Avançam um grau, até o teto do III (rim: bilaterais)
Grau máximo
V nos três órgãos: o VI hepático foi extinto
Lesão vascular contida
Pseudoaneurisma ou FAV: a TC não separa; segue o pool e lava no tardio
Sangramento ativo
80–95 UH, cresce em tamanho/atenuação no tardio
Fase arterial
25–30 s · a fase do pseudoaneurisma · baço heterogêneo fisiológico
Fase portal
65–80 s · a fase do sangramento ativo e do parênquima
Fase tardia
~9 min · só com indicação: laceração renal ≥ II, líquido na pelve, hematúria macro, fratura pélvica, bexiga
Baço: frequência
Órgão nº 1 do trauma fechado (~1/3 das lesões)
Baço: manejo
Até 90% das isoladas sem cirurgia · até 80% dos altos graus com embolização
Baço II × III
Só tamanho e profundidade: 10–50/>50% · <5/≥5 cm · 1–3/>3 cm
Baço IV
Vascular contida ou sangramento na cápsula · desvascularização > 25%
Baço V
Sangramento para o peritônio · despedaçado · lesão hilar
Fígado: letalidade
2º mais lesado, o que mais mata (5–15%) · lobo direito 3×
Fígado III
Inclui vascular contida/sangramento no parênquima: degrau abaixo do baço
Fígado IV
Ruptura 25–75% do lobo · sangramento para o peritônio
Saiu da quantificação em 2018: fala-se em % do lobo
Rim: contexto
10% dos traumas abdominais · 80–90% contuso · hematúria pode faltar (JUP, pedículo)
Rim I × II
Subcapsular (deforma) = I · perinefrético na Gerota (não deforma) = II
Rim II
Laceração ≤ 1 cm (agora inclusivo) sem urina extravasada
Rim III
Laceração > 1 cm sem via excretora · vascular/sangramento na Gerota
Rim IV
Via excretora/urina · pelve e JUP · vasos segmentares · trombose-infarto sem sangramento · sangramento além da Gerota
Rim V
Pedículo (laceração/avulsão) · desvascularizado com sangramento · despedaçado
Contusão × infarto
Mal definida que some no tardio × cunha nítida que persiste
Rim de Page
Subcapsular que comprime → hipertensão
Regra de bolso
O baço anda um degrau acima na lesão vascular
Validação: cirurgia
2018 prevê melhor a necessidade de cirurgia, pior a mortalidade
Validação: arterial
> 40% das lesões vasculares esplênicas só no arterial · muda o grau em 11,7%
Validação: rim
1/3 dos antigos III viraram IV: grau IV heterogêneo
EFAST
Rastreio à beira do leito: líquido livre, pericárdio, hemotórax, pneumotórax
US com contraste
Sens/espec > 90% no trauma isolado de baixa energia · enxerga mal a via urinária
Armadilhas e erros comuns
Erros de protocolo
Graduar sem a fase arterial: mais de 40% das lesões vasculares esplênicas somem
Ler o realce heterogêneo fisiológico do baço arterial como contusão
Dispensar a fase tardia com líquido junto à pelve renal: urina passa por hematoma
Chamar fenda ou lóbulo esplênico (variante fetal) de laceração
Erros de graduação
Aplicar o degrau vascular do baço ao fígado e ao rim: lá o contido vale III
Esquecer que múltiplas lesões I/II avançam um grau (teto III)
Graduar pelo critério de imagem quando a cirurgia viu pior: o maior vale
Usar “expansivo” ou vasos trabeculares: critérios extintos em 2018
Erros por órgão
Subir a trombose renal para V: ela é IV (não exige intervenção aguda)
Excluir lesão renal grave porque não há hematúria (JUP e pedículo cursam sem)
Não diferenciar subcapsular de perinefrético: muda de I para II
Chamar infarto segmentar (cunha nítida) de contusão (mal definida que some)
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Homem de 34 anos, colisão de moto. TC multifásica: no baço, foco de contraste de 8 mm, nítido no arterial, com a mesma atenuação do pool vascular, mesmo tamanho no portal, e que desaparece na fase tardia. Qual a interpretação?
O comportamento nas fases é a impressão digital: seguir o pool arterial, não crescer e lavar (washout) no tardio define a lesão vascular contida. A TC moderna não separa pseudoaneurisma de fístula arteriovenosa: o laudo usa o termo guarda-chuva, e a angiografia segue como padrão de referência (o realce venoso precoce sugere FAV, mas não fecha).
O sangramento ativo faria o oposto: contraste de 80–95 UH que cresce em tamanho e atenuação no tardio. A distinção importa porque muda o grau, e porque, no baço, a lesão vascular se associa a mais falha do manejo conservador (o principal preditor é o sangramento ativo).
Mulher de 27 anos, colisão de carro, estável. TC: laceração esplênica de 2 cm, hematoma subcapsular de 20% e pseudoaneurisma intraparenquimatoso, sem líquido além da cápsula. Qual o grau AAST-OIS 2018?
A regra esplênica de 2018 é que qualquer lesão parenquimatosa, na presença de lesão vascular contida ou sangramento ativo dentro da cápsula, vira grau IV, não importa que a laceração sozinha fosse II. Se o sangramento escapasse para o peritônio, seria V.
Esse é exatamente o degrau que difere do fígado e do rim (onde o equivalente contido vale III). O upgrade tem consequência prática: a lesão vascular se associa a mais falha do tratamento conservador (o principal preditor é o sangramento ativo), e o grau IV tende a levar à embolização da artéria esplênica, que resolve até 80% dos altos graus sem esplenectomia.
Homem de 45 anos, colisão frontal. TC: hematoma intraparenquimatoso hepático de 6 cm com foco de contraste que cresce na fase tardia, CONTIDO no parênquima, sem hemoperitônio, cápsula íntegra. Qual o grau?
A assimetria é o ponto da questão: no fígado, a lesão vascular contida e o sangramento ativo contido no parênquima entraram no grau III, enquanto no baço o mesmo achado vale IV. Só o extravasamento para o peritônio leva o fígado ao grau IV; as veias justa-hepáticas e a cava retro-hepática definem o V.
O hematoma de 6 cm isolado seria II (< 10 cm), mas o comportamento do contraste comanda. E a regra do avanço só vale para múltiplas lesões grau I/II, com teto no III: não é o caso.
Menino de 15 anos, queda de bicicleta com trauma em flanco. TC portal: laceração renal profunda e coleção perirrenal de baixa atenuação (12 UH) junto à pelve. Sem hematúria. Qual o próximo passo que define o grau?
Coleção perirrenal de baixa densidade no trauma agudo é a deixa da fase tardia (excretora): se o líquido ganhar a densidade da via excretora, é urina extravasada, e TODA lesão do sistema coletor é grau IV na revisão de 2018 (incluindo laceração da pelve e ruptura completa da junção ureteropélvica, que aparecem como urina medial a um cálice lateral íntegro; o ureter distal sem contraste sugere a ruptura completa).
A ausência de hematúria não exclui nada: as lesões de JUP e de pedículo são justamente as que cursam sem sangue na urina. Sem a fase tardia, essa coleção passaria por hematoma e o grau (e a conduta urológica) seriam subestimados.
Politraumatizado com TC mostrando: duas lacerações esplênicas de 2 cm cada (sem lesão vascular) e, na cirurgia realizada por outra indicação, o cirurgião descreve laceração esplênica mais profunda do que a TC sugeria, compatível com grau III operatório. Como fica o grau final do baço?
As duas regras transversais atuam juntas e chegam ao mesmo lugar. Primeira: múltiplas lesões grau I ou II no mesmo órgão avançam um grau, com teto no III; duas lacerações grau II viram III (nunca IV, porque o teto existe). Segunda: o grau final é o maior entre os três conjuntos de critérios (imagem, cirurgia e patologia), e o achado operatório de grau III confirma.
A hierarquia não é da imagem: a TC é o critério de entrada, mas quando a cirurgia ou a patologia veem pior, o grau sobe. No rim, a regra do avanço tem uma particularidade: vale para lesões bilaterais.
Um serviço faz TC de trauma abdominal só com fase portal, alegando economia de dose. À luz da validação da escala de 2018, qual o custo dessa escolha no baço?
Hemachandran (527 pacientes) mostrou o preço: mais de 40% das lesões vasculares esplênicas só aparecem na fase arterial, e a sua adição mudou o grau em 11,7%, e são justamente os upgrades para IV/V que indicam embolização. O par arterial + portal é o protocolo que a própria escala recomenda.
E a alternativa da mortalidade inverte a validação: Morell-Hofert mostrou que a versão 2018 prevê melhor a necessidade de cirurgia, porém pior a mortalidade hospitalar que a de 1994; ela foi reescrita para guiar conduta (quem embolizar, quem operar), não para ser escore prognóstico.
Fontes. [A] Kozar RA, Crandall M, Shanmuganathan K, et al. Organ injury scaling 2018
update: spleen, liver, and kidney. J Trauma Acute Care Surg 2018;85(6):1119–1122.
doi:10.1097/TA.0000000000002058 [B] Dixe de Oliveira Santo I, Sailer A, Solomon N, et al. Grading Abdominal Trauma:
Changes in and Implications of the Revised 2018 AAST-OIS for the Spleen, Liver, and
Kidney. RadioGraphics 2023;43(9):e230040. doi:10.1148/rg.230040
As tabelas de graduação e as regras transversais vêm de [A] (o documento oficial); o
protocolo, a validação, os mecanismos e as implicações práticas vêm de [B]. Conferido em
01/09/2026.
Os diagramas são próprios. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do
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