Com 24 semanas, a borda inferior da placenta está a 1,5 cm do orifício interno, sem cobri-lo. Como se descreve?
Placenta, Cordão e Espectro do Acretismo
Onde está, como se prende e o que leva o sangue
A placenta aparece por volta de 10 semanas, chega a 2 a 4 cm de espessura e cerca de 500 g no termo. O cordão tem duas artérias e uma veia na geleia de Wharton, 50 a 60 cm e até 40 voltas. No dia a dia o radiologista responde a três perguntas: onde a placenta está (prévia, baixa), como o cordão se insere (velamentosa, vasa prévia) e se ela invade o útero (espectro do acretismo).
| Placenta normal | O que ver |
|---|---|
| US | Homogênea e ecogênica no 1º trimestre, mais lobulada e heterogênea depois · zona clara retroplacentária hipoecogênica (some com a compressão do transdutor, o miométrio não) |
| RM | Sinal T2 moderadamente alto e homogêneo · septos finos escuros são normais · miométrio trilaminar no 2º trimestre, que no fim da gestação vira uma linha escura fina |
| Contração | Espessamento focal escuro que some nas sequências seguintes |













Localização e variantes
| Localização | Definição |
|---|---|
| Normal | Borda inferior a 2 cm ou mais do orifício interno |
| Baixa | Borda a menos de 2 cm do orifício, sem cobri-lo |
| Prévia | Cobre o orifício interno, em parte ou todo · não diagnosticar antes de 15 semanas (a placenta “migra”) · evitar “marginal”, “completa” e “central” |
| Riscos da prévia | Cesárea prévia, tabagismo, idade, multiparidade, gemelaridade · acretismo, hemorragia, prematuridade |
| Quando usar via vaginal | Borda pouco clara, bexiga vazia, obesidade, contração |





| Variante | O que é | Risco |
|---|---|---|
| Bilobada | Dois lobos quase iguais ligados por uma ponte | Vasa prévia, hemorragia pós-parto |
| Sucenturiada | Lobo acessório pequeno nas membranas · Doppler mostra a ligação | Vasa prévia, lobo retido |
| Circunvalada | Borda espessa e elevada por dobra das membranas | Em geral bom prognóstico |
| Inserção marginal | Cordão a 1 a 2 cm da borda | Mais restrição de crescimento |
| Inserção velamentosa | Vasos nas membranas sem geleia de Wharton · 1% das gestações únicas, até 15% dos gêmeos monocoriônicos | Rotura, compressão, sangramento fetal |
| Vasa prévia | Vasos fetais desprotegidos sobre o orifício interno (a menos de 2 cm) · tipo 1 velamentosa, tipo 2 entre lobos, tipo 3 vasos na borda | Exsanguinação fetal no trabalho de parto |





O cordão umbilical
| Cordão | O que saber |
|---|---|
| Artéria umbilical única | Doppler ao lado da bexiga fetal: vaso de um lado só · ligada a anomalias e restrição de crescimento · armadilha: a ilíaca externa fora do plano |
| Vasos a mais | Em geral duas veias (veia umbilical direita persistente) · trissomia 18 |
| Cistos | No 1º trimestre, benignos e transitórios · depois, mais anomalias e trissomia 18 |
| Espiralamento | Voltas ÷ comprimento · abaixo do p10 ou acima do p90 se ligam a sofrimento e restrição |
| Nó verdadeiro | Alça apertada por outra · sofrimento e óbito |
| Circular | Uma volta é comum · várias aumentam o risco · registrar perto do termo |







Hematomas, mola e massas
| Lesão | O que saber |
|---|---|
| Hematomas | Iso ou hiperecogênico agudo, hipoecogênico crônico, sem fluxo · subamniótico (raro), subcoriônico (o mais comum, sangramento do 1º trimestre) e retrocoriônico (entre a decídua basal e o córion; abortamento, descolamento) |
| Descolamento | Depois de 20 semanas · hipertensão, trauma, tabagismo, cocaína · o US vê menos de 50%: o diagnóstico é clínico |
| Mola completa | 46,XX · útero aumentado cheio de cistos de 1 a 30 mm, sem embrião · hCG (gonadotrofina coriônica humana) muito alto · cistos tecaluteínicos em cerca de 20% |
| Mola parcial | Triploide · placenta aumentada e cística com feto anormal · hCG menor |
| Corioangioma | O tumor benigno mais comum (cerca de 1%) · nódulo sólido na face fetal perto do cordão · acima de 4 a 5 cm com fluxo: polidrâmnio, anemia, hidropisia |
| Mioma | Hipoecogênico · degeneração vermelha: halo claro no T1 |
| DIU (dispositivo intrauterino) | Gestação com DIU em 0,2 a 0,8% das usuárias · corioamnionite, abortamento tardio |













Espectro do acretismo: risco e US
O espectro do acretismo (PAS) é a placenta que não se separa: um defeito da interface entre endométrio e miométrio, quase sempre numa cicatriz. A incidência subiu cerca de 10 vezes em 50 anos; metade das pacientes precisa de histerectomia. Os termos atuais são miaderente (acreta) e mioinvasivo (increta, percreta).
| Espectro do acretismo | 1 cesárea | 2 | 3 | 4 | 5 |
|---|---|---|---|---|---|
| Sem prévia | 0,2% | 0,3% | 0,6% | 2,1% | 2,3% |
| Com prévia | 3% | 11% | 40% | 61% | 67% |





| Sinal no US | Definição |
|---|---|
| Perda da zona clara | Plano hipoecogênico retroplacentário apagado ou irregular (bexiga cheia e compressão imitam) |
| Lacunas | Espaços grandes e irregulares com fluxo turbulento (“queijo suíço”) · os lagos normais são poucos, pequenos e lentos |
| Miométrio fino | Menor que 1 mm ou invisível sobre a placenta |
| Interrupção da parede da bexiga | Quebra da linha ecogênica entre serosa e bexiga · muito específica |
| Hipervascularização útero-bexiga e vasos em ponte | Vasos perpendiculares atravessando o miométrio até a serosa |
| Abaulamento e massa exofítica | Placenta deformando ou passando a serosa, em geral para a bexiga |
RM do acretismo (SAR-ESUR)
| RM do acretismo | Como |
|---|---|
| Quando | 28 a 32 semanas |
| Preparo | Bexiga moderadamente cheia · decúbito dorsal, ou lateral esquerdo se desconforto |
| Sequências | T2 meio-Fourier sem supressão em três planos e oblíquo perpendicular à interface · T1 com supressão (sangue) · difusão e SSFP (steady-state free precession: sequência rápida em que líquido e vasos ficam claros) opcionais |
| Gadolínio | Não usar na gestação |
| Regra | Confirmar cada achado em dois planos |
| Sinal na RM | Definição e armadilha |
|---|---|
| Bandas escuras em T2 | Faixas irregulares de 6 a 20 mm a partir da face materna · o sinal mais sensível · septos finos normais e vasos (claros no SSFP) não contam |
| Abaulamento útero-placentário | Serosa desviada pela placenta, útero em ampulheta · com outros sinais, prediz invasão |
| Miométrio fino | Menor que 1 mm ou ausente · só vale com outros sinais (normal depois de 32 semanas) |
| Perda da linha escura retroplacentária | Equivale à perda da zona clara do US |
| Interrupção da parede da bexiga | Linha escura da bexiga irregular ou interrompida |
| Massa exofítica | Placenta passando a serosa · especificidade de 98,9% |
| Vascularização anômala do leito | Vazios de fluxo irregulares no leito, na serosa e na interface com a bexiga |
























| Conduta e seguimento | O que saber |
|---|---|
| Laudo | Os 7 sinais (e os 4 incertos), profundidade, topografia, bexiga, paramétrio, parede pélvica, ureteres, colo |
| Topografia | S1 corpo, S2 segmento inferior, colo e vagina: invasão em S2 dá mais morbidade |
| Parto | Cesárea-histerectomia programada com 34 a 36 semanas, sem tentar descolar a placenta |
| Alternativa | Histerectomia tardia (3 a 12 semanas) com a placenta deixada no lugar · RM acompanha a involução |













Pontos de prova: alto rendimento
| Placenta baixa | Menos de 2 cm do orifício |
| Prévia | Cobre o orifício · não antes de 15 sem |
| Vasa prévia | Vasos fixos sobre o orifício, Doppler TV (transvaginal) |
| Inserção velamentosa | 1% únicas, 15% monocoriônicos |
| Artéria umbilical única | Um vaso ao lado da bexiga |
| Hematoma mais comum | Subcoriônico |
| Descolamento no US | Menos de 50% |
| Mola completa | 46,XX, cistos, hCG alto |
| Corioangioma | Benigno mais comum, >4–5 cm complica |
| PAS: prévia + 3 cesáreas | 40% |
| US mais específico | Lacunas, parede da bexiga |
| RM do acretismo | 28–32 semanas |
| Gadolínio | Não |
| Sinal mais sensível | Bandas escuras em T2 |
| Massa exofítica | Especificidade 98,9% |
| Parto no PAS | Cesárea-histerectomia 34–36 sem |
Armadilhas e erros comuns
Erros
- Chamar de prévia antes de 15 semanas
- Não fazer Doppler transvaginal com inserção velamentosa
- Chamar de perda da zona clara o efeito da compressão
- Fazer a RM do acretismo depois de 32 semanas sem motivo
- Chamar septo fino ou vaso de banda escura
- Diagnosticar acretismo com um sinal só
- Dar gadolínio na gestação
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6No Doppler transvaginal, vasos fetais cruzam o orifício interno e não mudam de lugar com a posição da mãe. O diagnóstico é:
Gestante com suspeita clínica de descolamento de placenta e US normal. A conduta correta é:
Gestante com placenta prévia e três cesáreas anteriores. Qual o risco aproximado de espectro do acretismo?
Qual a melhor idade gestacional para a RM do espectro do acretismo, quando não há urgência?
Qual sinal da RM do acretismo é o mais sensível, embora pouco específico isolado?
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Leal PV, Brock MF, Brandão AC, et al. Imaging of the Placenta and Umbilical Cord: What Radiologists in Common Practice Need to Know. RadioGraphics 2026;46(6):e250044. doi:10.1148/rg.250044
Patel-Lippmann KK, Planz VB, Phillips CH, et al. Placenta Accreta Spectrum Disorders: Update and Pictorial Review of the SAR-ESUR Joint Consensus Statement for MRI. RadioGraphics 2023;43(5):e220090. doi:10.1148/rg.220090
Divergências: o miométrio fino é “menor que 1 cm” numa tabela do primeiro artigo e “menor que 1 mm” no consenso (o caderno usa 1 mm); a inserção marginal é “1 a 2 cm da borda” no texto e “menos de 1 cm” numa legenda. Os quadros e esquemas com texto em inglês e as fotos de peça e cirurgia foram tirados. Conferido em 07/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados das mesmas fontes.