Fontes: ACR, BI-RADS v2025 What’s New · CBR/SBM/FEBRASGO, Radiol Bras 2023;56(4):207–214
O léxico mudou em novembro de 2025
O BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System) deixou de ser Atlas e passou a ser Manual. Deixou de ser numerado por
edição (a 5ª, de 2013) e passou a ser numerado por ano, v2025, alinhado ao restante do
programa RADS® (Reporting and Data System) do ACR (American College of Radiology). E, com isso, um punhado de termos que estavam na ponta da língua de todo
mundo deixou de existir.
os quatro termos aposentados que mais aparecem no dia a diaMicrolobulada como margem: passa a ser descrita como indistinta. “Pipoca”: incorporada a grosseira, junto com distrófica. Leite de cálcio: vira em camadas (layering). Assimetria em desenvolvimento: descontinuada como descritor.
o que este caderno cobre e o que não cobre
O Manual BI-RADS é um produto pago. O documento aberto do ACR é o What’s New do v2025, que
compara a 5ª edição com a nova versão item a item, e é dele que vem tudo que este caderno
afirma como mudança. As categorias de 0 a 6, a densidade e o léxico consolidado são tratados
como conhecimento estabelecido. Para o léxico completo, ilustrado, não há substituto para o
Manual.
As categorias
A escada do BI-RADS. As faixas de probabilidade de malignidade e as condutas seguem as da 5ª
edição; o que o v2025 mexeu foi nas pontas: a categoria 0 e a categoria 6.
categoria 0: agora são duas
A 5ª edição tinha uma frase só: “Incompleto: necessita de avaliação por imagem adicional
e/ou exame prévio para comparação”.
O v2025 separou em duas, para refletir as emendas de 2024 ao MQSA (Mammography Quality Standards Act) da FDA (Food and Drug Administration: agência reguladora dos Estados Unidos): ·Categoria 0: Incompleto; necessita de avaliação por imagem adicional ·Categoria 0: Incompleto; necessita de exame prévio para comparação
categoria 6: a conduta e um uso novoA conduta mudou de redação: era “excisão cirúrgica quando clinicamente apropriado”.
Passou a ser “seguimento clínico com cirurgião e/ou oncologista, e terapia local definitiva
(geralmente cirurgia) quando clinicamente apropriado”, em reconhecimento a terapias
definitivas emergentes que podem não envolver excisão.
E ganhou um uso novo, na ressonância, em que a categoria 6 pode ser aplicada a achados
adicionais próximos (suspeitos, mas não definitivamente malignos) quando as três
condições se cumprem: estão a menos de 2 cm da malignidade comprovada; não aumentam a
extensão total em mais de 2 cm; e não mudariam a conduta, como levar a uma cirurgia
significativamente maior.
a armadilha da categoria 3
BI-RADS 3 significa mais que 0% e no máximo 2% de probabilidade de malignidade: é uma
faixa estreita, e a categoria só se aplica depois de avaliação diagnóstica completa e, na
mamografia, nunca direto de um exame de rastreamento. Novidade do v2025 na auditoria: os desfechos das categorias
3 iniciais passaram a integrar a auditoria clinicamente relevante básica.
Densidade mamária
As quatro categorias. A troca de nome é do v2025: onde se lia “composição mamária”,
lê-se “densidade mamária”, e os descritores foram padronizados para casar com as exigências
da FDA.
por que a letra importa
A densidade faz duas coisas ao mesmo tempo, e é por isso que ela virou informação obrigatória
de laudo em vários países: reduz a sensibilidade da mamografia (o tecido fibroglandular
denso e o tumor têm atenuação parecida) e é, por si só, fator de risco para câncer de
mama.
A categorização é visual e qualitativa, não uma medida de porcentagem: o que importa é a
chance de o tecido obscurecer um nódulo pequeno, e por isso uma área densa focal pode elevar a
categoria de uma mama globalmente adiposa.
+ complemento · a novidade regulatória de 2025
O v2025 descreve as atualizações de 2024 da FDA sobre notificação de densidade, e o
padrão alternativo de 2025, que permite usar fraseado no singular ao reportar
mamografia unilateral: detalhe pequeno, mas é o tipo de item que aparece em prova de
atualização.
Léxico de mamografia
5ª edição (2013)
v2025
Por quê
Margem microlobulada
Removida: descreva como indistinta
Evitar confusão com o termo de forma lobulada
Forma lobular: eliminada em 2013
Lobulada volta ao léxico
Devolve nuance à descrição de forma; “lobulada” evita confusão com o subtipo lobular do carcinoma
Assimetria em desenvolvimento
Descontinuada como descritor
Coerência com o resto do léxico, em que mudança ao longo do tempo não fica embutida no termo
Linfonodo intramamário como achado isolado
Linfonodos como achado único, com subachados intramamário e axilar
Discussão unificada de linfonodos normais e anormais
Ducto dilatado solitário é suspeito salvo etiologia benigna demonstrada
Pode ser considerado benigno se assintomática e sem achado suspeito associado
Se estiver em exame basal, em mulher sintomática, ou junto de nódulo, distorção ou microcalcificações, aí sim investiga
Múltiplos ductos dilatados entra como achado tipicamente benigno
Novo no léxico
Nódulo exige duas incidências para preencher a definição
Na tomossíntese, todos os requisitos podem estar aparentes em uma única projeção
A DBT (tomossíntese digital de mama) resolve a sobreposição que exigia a segunda incidência
achados secundários: um conceito novo
A 5ª edição tinha “características associadas”. O v2025 introduz os achados
secundários: anormalidades adicionais presentes junto de um achado primário (nódulo, assimetria ou calcificações).
Três itens saíram de características associadas e viraram achados secundários:
distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar, esta última migrando para a seção de linfonodos.
+ complemento · localização e profundidade
O v2025 flexibilizou a descrição de localização: pode-se usar quadrante e/ou horário do
relógio, e ou a profundidade (anterior, médio, posterior) ou a distância à papila.
E corrigiu um detalhe de método: na incidência MLO (mediolateral oblíqua), a profundidade passa a ser determinada
por divisões imaginárias paralelas ao ângulo do músculo peitoral maior, e não mais por
linhas verticais.
Calcificações
5ª edição
v2025
Motivo
Grosseira ou “pipoca”
Grosseira
“Pipoca” foi incorporada a grosseira: parte do afastamento geral da radiologia dos descritores culinários
Distrófica, descritor separado
Incorporada a grosseira
Simplificar, e enfatizar a aparência em vez da histopatologia presumida
Redonda (puntiforme é subconjunto)
Redonda, sem o parêntese
Ambos os termos descrevem partículas redondas, e não é prático medir calcificações na faixa de 0,5 mm
Leite de cálcio
Em camadas (layering)
Enfatiza a aparência morfológica (sedimentação do cálcio em micro ou macrocistos) em vez da composição fisiológica
Vascular
Vascular, com nota nova
A literatura recente associa calcificação vascular mamária a maior risco cardiovascular, e o Manual passa a registrar isso
a tabela que sumiu
A 5ª edição trazia duas tabelas de probabilidade de malignidade por descritor de calcificação:
uma por morfologia e outra por distribuição.
No v2025, a de morfologia permanece e foi atualizada com literatura mais recente, e agora se chama tabela de valor preditivo positivo de malignidade; a de distribuição foi removida.
+ complemento · o que não mudou e segue sendo o essencial
A hierarquia de suspeição por morfologia continua a mesma: tipicamente benignas (cutâneas,
vasculares, grosseiras, em bastão, redondas, em camadas, de sutura); suspeitas (amorfas, grosseiras heterogêneas, pleomórficas finas e lineares finas ou lineares finas ramificadas, estas as de maior valor preditivo).
E a distribuição, embora sem tabela própria, segue pesando: agrupada, linear e segmentar
preocupam; difusa e regional, menos.
Léxico de ultrassom
lesão não nodular: a maior novidade do léxico de US
Achado discreto, identificável como distintamente diferente do tecido normal,
visto em três dimensões, mas que não tem a margem definida de um nódulo e ao qual
não se pode atribuir forma específica.
Costuma ser sutil, e muitas vezes só é detectado porque o tecido de fundo aparece
desorganizado. É o equivalente ultrassonográfico do que a ressonância chama de realce não
nodular.
5ª edição
v2025
Orientação: não paralela
Não-paralela: revisão de terminologia
Margem: não circunscrita
Não-circunscrita: revisão de terminologia
Padrão ecogênico: cístico e sólido complexo
Misto sólido e cístico
Características posteriores: padrão combinado
Removido: se o nódulo mostra qualquer sombra, caracteriza-se como sombra acústica
Vascularização: ausente
Avascular
Vascularização: vasos no halo
Vascularização periférica
Calcificações em nódulo / fora de nódulo
Macrocalcificações e microcalcificações; e as categorias passam a admitir lesão não nodular, além de nódulo, como sítio
Pseudocápsula ecogênica e halo ecogênico entram como características associadas
Composição tecidual
Padrão tecidual e componente de tecido glandular (GTC)
Casos especiais: corpo estranho incluindo implantes
Corpo estranho e implantes separados; entra abscesso e alterações pós-traumáticas não cirúrgicas
+ complemento · o que a nova seção geral discute
O v2025 abre a seção de ultrassom com considerações que antes não existiam: manual versus
automatizado (com imagens e exemplos de ABUS, o ultrassom automatizado de mama) e realizado pelo médico versus pelo
técnico. E acrescentou pressão do transdutor ao item de qualidade de imagem, ao lado da
frequência.
Léxico de ressonância
Foco foi eliminado como achado
Era a categoria para o realce puntiforme, menor que 5 mm, sem correspondente em T1 ou T2 e cuja
morfologia não podia ser caracterizada. Deixou de existir no v2025.
5ª edição
v2025
Foco
Eliminado como achado
Realce parenquimatoso de fundo (BPE): mínimo
Mínimo (inclui ausência de realce)
Margem: não circunscrita / irregular
Não-circunscrita / indistinta: “irregular” some daqui para não duplicar o termo de forma
Realce interno: realce em anel
Realce em anel espesso
Realce não nodular: distribuição em múltiplas regiões
Removido como descritor
Avaliação da curva cinética
Cinética de realce; fase inicial vira fase precoce
Sinal em T2 entra como subachado do nódulo: hiperintenso ou não hiperintenso
Características associadas: invasão de pele, papila, peitoral, parede torácica
Envolvimento: “invasão” virou “envolvimento”. Entra edema peritumoral; sai distorção arquitetural
Lesões contendo gordura como subcategoria
Descontinuada: necrose gordurosa e hamartoma migram para “outros achados, tipicamente benignos”
Achados sem realce
Outros achados, tipicamente benignos, categoria ampliada
protocolo abreviado e difusão
A subseção de parâmetros de aquisição foi reescrita e passou a trazer protocolos
abreviados e difusão: dois temas que não existiam na 5ª edição e que hoje estão no
centro da discussão sobre rastreamento por RM em escala.
Mamografia contrastada
A CEM (mamografia com realce por contraste) era um suplemento da 5ª edição. No v2025 ela
é seção intrínseca do Manual, com léxico e organização de laudo próprios, alinhados às
demais modalidades.
o que a seção padronizouDensidade: os descritores foram padronizados para os termos da mamografia e para as
exigências da FDA: (A) quase toda adiposa, (B) áreas esparsas de densidade fibroglandular,
(C) heterogeneamente densa, que pode obscurecer nódulos pequenos, (D) extremamente densa, o que
reduz a sensibilidade da mamografia.
Forma e margem: lobulada volta; não-circunscrita/indistinta substitui
irregular, pelas mesmas razões da RM.
Características associadas: “invasão” vira envolvimento, alinhando com a RM.
Realce não nodular: a distribuição em múltiplas regiões foi removida, como na RM.
+ complemento · onde a CEM entra na prática
A CEM é uma alternativa à RM quando esta não está disponível, é contraindicada ou não é tolerada. Usa iodado e um mamógrafo com aquisição de dupla energia, e o laudo descreve densidade e BPE, este último como na ressonância. As recomendações brasileiras de rastreamento de 2023
não mencionam a CEM.
A organização do laudo
Mamografia: 5ª edição
Mamografia: v2025
1. Indicação
1. Indicação
2. Composição mamária
2. Comparação com exames anteriores
3. Achados
3. Técnica
4. Comparação, se o médico julgar apropriado
4. Densidade mamária
5. Avaliação
5. Achados
6. Conduta
6. Avaliação
7. Recomendações de conduta
as três mudanças estruturais1. A comparação subiu para o segundo item e deixou de ser opcional a critério do
médico. 2. A técnica entrou como item próprio. 3. A ordem passou a ser a mesma em todas as modalidades, no que é aplicável. Na
ressonância, os itens 4 e 5 são tecido fibroglandular (FGT) e realce parenquimatoso de
fundo (BPE); no ultrassom, o item 4 é composição tecidual, com padrão e componente
glandular.
+ complemento · indicação estruturada
O v2025 introduziu fraseado padronizado de indicação do exame, para ser usado em todas as
modalidades. É a peça que faltava para que a auditoria consiga separar automaticamente exame de
rastreamento de exame diagnóstico: o que nos leva à seção seguinte.
Auditoria e monitoramento
Era “Seguimento e Monitoramento de Desfechos”. Virou “Auditoria e Monitoramento de
Desfechos”, e o conteúdo mudou junto.
as definições que foram reescritasRastreamento e diagnóstico agora são definidos de forma neutra quanto à modalidade, para
comportar tecnologias atuais e futuras.
Exame de rastreamento positivo passou a ser definido, com ênfase, como a aquisição de
imagens adicionais além das prescritas pelo protocolo padrão de rastreamento, com qualquer
modalidade, para avaliar melhor qualquer achado.
A definição de câncer foi ampliada: antes era o diagnóstico tecidual de DCIS (carcinoma ductal in situ) ou de qualquer câncer de mama primário (não metastático), e passou a ser o de DCIS, carcinoma lobular in situ pleomórfico ou florido, ou qualquer carcinoma de mama invasor primário (não metastático).
os desfechos das categorias 3 entraram na auditoria
Novidade do v2025: os desfechos das avaliações iniciais de categoria 3 passam a fazer
parte da auditoria clinicamente relevante básica. Se o serviço classifica como
provavelmente benigno, precisa demonstrar que a taxa de malignidade nesse grupo fica de fato
dentro de 2%.
+ complemento · os benchmarks
As tabelas de referência foram todas atualizadas: mamografia de rastreamento (BCSC, Breast Cancer Surveillance Consortium, e NMD, o National Mammography Database), ultrassom de rastreamento (agora restrita a ensaios multi-institucionais que avaliaram o US independentemente da mamografia), RM de rastreamento e mamografia diagnóstica. As duas de mamografia passaram a trazer faixas aceitáveis definidas por consenso de especialistas, e as duas tabelas que antes traziam essas faixas separadas foram eliminadas, com os dados incorporados às tabelas principais.
Rastreamento no Brasil
A recomendação brasileira de 2023, por grupo de risco. As letras entre parênteses são as
categorias de força da própria diretriz: A e B são recomendações fortes a favor,
com evidência de alta e de moderada qualidade; C é fraca a favor; D se apoia só em
consenso; E é recomendação contra.
risco habitual: a regra e o porquêMamografia anual dos 40 aos 74 anos, preferencialmente digital (categoria A). A
partir dos 75, mantém-se se não houver comorbidade que reduza a expectativa de vida e se
esta for de ao menos sete anos(categoria D).
US e RM não entram como rastreamento suplementar nem isolado no risco habitual, e a
diretriz é explícita ao classificar isso como categoria E, recomendação contra.
Tomossíntese combinada à mamografia 2D, sintetizada ou padrão, deve ser considerada
quando disponível (categoria B).
+ complemento · os números que sustentam a idade de 40 anos
Iniciar aos 40 reduz em 25% a mortalidade em 10 anos, ao custo de elevar o falso-positivo
de 4,8% para 7%. E há um argumento brasileiro: pelo estudo AMAZONA, 41,1% das
mulheres com diagnóstico de câncer de mama no Brasil têm menos de 50 anos; e, abaixo dos 40, a proporção no Brasil é de
17% (AMAZONA III), contra cerca de 7% na literatura.
Sobre o intervalo: o rastreamento bienal associa-se a maior risco de tumores avançados
(RR, risco relativo, 1,28), maiores que 15 mm e com piores fatores prognósticos. Daí o anual.
E abaixo dos 40 não se rastreia, mas a diretriz recomenda que o médico assistente faça
estimativa de risco por modelo matemático em toda mulher acima de 30 anos, para identificar
quem se beneficiaria de rastreamento diferenciado.
Os grupos de risco aumentado
Grupo
Mamografia
Complementar
Mamas densas
Anual, 40–74 anos (A)
US anual pode ser adjunta (B), exceto quando se faz RM. RM bienal pode ser considerada nas extremamente densas (C)
HLA (hiperplasia lobular atípica), CLIS (carcinoma lobular in situ) clássico ou HDA (hiperplasia ductal atípica)
Risco < 20%: anual a partir dos 40 (A). Risco ≥ 20%: anual desde o diagnóstico, não antes dos 30 (B)
Risco 15–20%: US pode ser adjunta (D). Risco ≥ 20%: RM anual adjunta, não antes dos 25 (B); US é a alternativa para quem não pode fazer RM (B)
Câncer de mama tratado
Conservadora: anual, iniciando no mínimo 6 meses após o fim da radioterapia (A). Mastectomia: anual só da contralateral, a partir de 1 ano(A)
RM anual se o diagnóstico foi antes dos 50 anos ou se as mamas são densas, iniciando 1 ano após o tratamento (C)
Radioterapia torácica antes dos 30 anos
Anual a partir do 8º ano após a radioterapia, não antes dos 30(A)
RM anual a partir do 8º ano, não antes dos 25(A)
BRCA1 (gene de suscetibilidade hereditária ao câncer de mama e de ovário), ou não testada com parente de 1º grau portadora
Anual desde o diagnóstico da mutação, não antes dos 35(A)
RM anual, não antes dos 25(A)
TP53 (gene supressor de tumor p53), ou não testada com parente de 1º grau portadora
Anual, não antes dos 30(A)
RM anual, não antes dos 20(A)
BRCA2 e demais genes de risco moderado ou alto
Anual, não antes dos 30(A)
RM anual, não antes dos 30(A)
Risco ≥ 20% por modelo matemático
Anual 10 anos antes da idade do diagnóstico do parente mais jovem, não antes dos 30(A)
RM anual, mesma regra dos 10 anos antes, não antes dos 30(A)
a regra que atravessa todos os gruposO ultrassom é o plano B da ressonância, não um adjunto paralelo. Nos grupos de alto risco (mutação, forte história familiar, radioterapia torácica), a US só entra quando a RM, por qualquer motivo, não puder ser feita. As exceções são a mama densa, onde a US anual pode ser adjunta por si só, e ainda assim exceto quando a RM for realizada, e o risco de 15–20% após HLA, CLIS ou HDA, em que a US pode ser adjunta (categoria D).
os pares de idade que se confundemBRCA1: MG (mamografia) aos 35, RM aos 25.TP53: MG aos 30, RM aos 20.BRCA2 e demais: MG e
RM aos 30. A lógica é a mesma nos três: a RM nunca começa depois da mamografia (na BRCA2, as duas começam juntas), porque em mama jovem
e densa a mamografia enxerga pouco e a dose importa mais, e o TP53 é o mais precoce de todos porque o
pico de incidência vem antes: 20–35 anos, contra 30–39 no BRCA1 e 30–49 no BRCA2.
Qualidade do mamógrafo
A mamografia é a modalidade com o controle de qualidade mais apertado, porque é rastreamento em
população assintomática: a dose é entregue a muita gente saudável, e a lesão a detectar é pequena.
No Brasil, quem fixa os valores é a Instrução Normativa nº 92 da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Espessura de PMMA (cm)
Mama equivalente (cm)
DGM (dose glandular média) de referência (mGy)
Tolerância
2,0
2,1
0,6
< 1,0
3,0
3,2
1,0
< 1,5
4,0
4,5
1,6
< 2,0
4,5
5,3
2,0
< 2,5
5,0
6,0
2,4
< 3,0
6,0
7,5
3,6
< 4,5
razão contraste-ruído mínima, por espessura
A CNR (razão contraste-ruído) relativa exigida cai conforme a mama engrossa, porque mantê-la numa mama espessa
custaria dose demais. É o compromisso dose × imagem escrito dentro da norma:
≥ 115% a 2 cm · ≥ 110% a 3 cm · ≥ 105% a 4 cm · ≥ 103% a 4,5 cm ·
≥ 100% a 5 cm · ≥ 95% a 6 cm · ≥ 90% a 7 cm
+ complemento · por que a compressão não é maldade
Comprimir reduz a espessura e, com ela, a dose e o espalhamento; separa estruturas
sobrepostas, aumentando o contraste; e imobiliza, eliminando borramento. A força de compressão é
item de teste da IN 92, aferida em newtons, e a conversão que costuma aparecer é
9,8 N = 1 kgf.
a leitura que a dose exige
A DGM depende da espessura comprimida: comparar dose glandular entre serviços sem informar a
espessura não significa nada. É o mesmo raciocínio do CTDIvol (computed tomography dose index) em tomografia: o
número descreve uma condição de medida, não o paciente.
Pontos de prova: alto rendimento
Nome e versão
Deixou de ser Atlas 5ª edição e passou a ser Manual v2025, numerado por ano
Categoria 0
Foi separada em duas: precisa de imagem adicional · precisa de exame prévio
Categoria 3
> 0% e ≤ 2% de malignidade · controle em intervalo curto · desfechos agora entram na auditoria
Categoria 4
4A > 2 e ≤ 10% · 4B > 10 e ≤ 50% · 4C > 50 e < 95%
Categoria 5
≥ 95%
Categoria 6
Conduta agora é seguimento com cirurgião/oncologista e terapia local definitiva · na RM cabe para achado próximo, < 2 cm, que não aumente a extensão em mais de 2 cm nem mude a conduta
Margem microlobulada
Aposentada: descreva como indistinta
Forma lobulada
Voltou ao léxico das três modalidades
“Pipoca” e distrófica
Incorporadas a grosseira
Leite de cálcio
Virou em camadas (layering)
Redonda
Perdeu o parêntese “puntiforme”
Calcificação vascular
Passa a ser associada a maior risco cardiovascular
Assimetria em desenvolvimento
Descontinuada como descritor
Achados secundários
Conceito novo: distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar saíram de características associadas
Nódulo na tomossíntese
Pode preencher todos os requisitos em uma única projeção
Profundidade na MLO
Divisões paralelas ao ângulo do peitoral maior
Lesão não nodular ao US
Achado novo: discreto, visto em 3D, sem margem definida e sem forma atribuível
Foco na RM
Eliminado como achado
Sinal em T2 na RM
Entrou como subachado: hiperintenso ou não hiperintenso
Invasão na RM e CEM
Virou envolvimento; entrou edema peritumoral
CEM
Deixou de ser suplemento e virou seção intrínseca
Composição mamária
Virou densidade mamária, com descritores alinhados à FDA
Definição de câncer na auditoria
Passou a incluir CLIS pleomórfico ou florido, além de DCIS e carcinoma invasor
Rastreamento no Brasil: risco habitual
MG anual dos 40 aos 74; a partir dos 75, se a expectativa de vida for ≥ 7 anos
US e RM no risco habitual
Categoria E: recomendação contra
Mamas densas
US anual pode ser adjunta (B); RM bienal nas extremamente densas (C)
BRCA1
MG não antes dos 35 · RM não antes dos 25
TP53
MG não antes dos 30 · RM não antes dos 20
BRCA2 e demais genes
MG e RM não antes dos 30
Radioterapia torácica < 30 anos
MG e RM anuais a partir do 8º ano; MG não antes dos 30, RM não antes dos 25
Pós-tratamento conservador
MG anual a partir de 6 meses do fim da radioterapia
Pós-mastectomia
MG anual só da contralateral, a partir de 1 ano
DGM de referência a 4,5 cm de PMMA (polimetilmetacrilato, o acrílico)
2,0 mGy, tolerância < 2,5 (IN 92)
Armadilhas e erros comuns
Usar termo que não existe mais
Descrever margem como microlobulada: hoje é indistinta
Escrever “calcificações em pipoca” ou distróficas: tudo virou grosseiras
Escrever leite de cálcio: hoje é em camadas
Laudar assimetria em desenvolvimento: descontinuada como descritor
Descrever um foco na ressonância: eliminado como achado
Erros de categoria
Dar BI-RADS 3 direto de um exame de rastreamento, sem avaliação diagnóstica completa
Achar que BI-RADS 4 é uma faixa só: são três, e a diferença entre 4A e 4C muda a conversa com a paciente
Usar a categoria 6 para achado distante ou que mudaria a extensão da cirurgia: os três critérios são cumulativos
Reportar categoria 0 sem dizer qual das duas: falta imagem ou falta exame prévio
Erros de rastreamento
Oferecer US ou RM suplementar a mulher de risco habitual: é recomendação contra, categoria E
Tratar a US como adjunta à RM nos grupos de alto risco: ela é alternativa para quem não pode fazer RM
Iniciar a RM da BRCA1 junto com a mamografia: a RM começa 10 anos antes, aos 25
Rastrear a mama ipsilateral após mastectomia: a MG anual é só da contralateral
Começar a mamografia pós-conservadora antes de 6 meses do fim da radioterapia
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Residente lauda uma mamografia com calcificações grosseiras arredondadas num nódulo circunscrito e escreve “calcificações em pipoca, típicas de fibroadenoma em involução”. O que o léxico v2025 tem a dizer sobre a descrição?
O v2025 fez uma limpeza nos descritores tipicamente benignos, e “pipoca” foi uma das vítimas: foi incorporada a “grosseiras”, tanto para simplificar quanto por um movimento da radiologia como um todo de abandonar descritores de comida.
No mesmo passe, “distróficas” deixou de ser descritor separado e também entrou em “grosseiras”: a justificativa do ACR é enfatizar a aparência do achado, e não a histopatologia presumida.
Outros dois termos do mesmo grupo mudaram: “leite de cálcio” virou “em camadas” (layering), pela mesma lógica de descrever morfologia em vez de composição; e “redonda” perdeu o parêntese “puntiforme”, já que ambos descrevem partículas redondas e não é prático medir calcificações na faixa de 0,5 mm.
E uma novidade que não é de nomenclatura: a calcificação vascular passou a ser registrada como associada a maior risco cardiovascular.
RM de mama em paciente com carcinoma ductal invasor comprovado no quadrante superolateral direito. Há um segundo realce suspeito a 1,5 cm da lesão índice, que não estende a doença além de 2 cm e não mudaria o porte da cirurgia. Como classificar esse segundo achado no v2025?
Essa é uma extensão nova da categoria 6 na ressonância. Ela pode ser aplicada a achados adicionais próximos (suspeitos, mas não definitivamente malignos) quando as três condições se cumprem: estão a menos de 2 cm da malignidade comprovada; não aumentam a extensão total em mais de 2 cm; e não mudariam a conduta clínica, como levar a uma cirurgia significativamente maior.
Os critérios são cumulativos: falhando um deles, o achado volta a ser tratado por si só.
A outra mudança da categoria 6 é de redação: a conduta era “excisão cirúrgica quando clinicamente apropriado” e passou a ser “seguimento clínico com cirurgião e/ou oncologista, e terapia local definitiva (geralmente cirurgia) quando clinicamente apropriado”, em reconhecimento a terapias definitivas que podem não envolver excisão.
Mulher de 44 anos, sem fatores de risco, mamas de densidade B, mamografia anual normal. Ela pergunta se deveria fazer também ultrassom “para garantir”. Qual a resposta segundo a recomendação conjunta CBR (Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem), SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia) e FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia)?
A diretriz brasileira classifica suas recomendações de A a E, e a letra E significa recomendação contra, por evidência insuficiente para apoiar o uso. É exatamente a categoria que US e RM recebem como rastreamento suplementar ou isolado em mulheres de risco habitual.
O que é recomendado nesse grupo: mamografia anual dos 40 aos 74 anos, preferencialmente digital (categoria A), continuando a partir dos 75 se a expectativa de vida for de ao menos sete anos (categoria D). E a tomossíntese combinada à 2D deve ser considerada quando disponível (categoria B).
A idade de início não é arbitrária: começar aos 40 reduz em 25% a mortalidade em 10 anos, e no Brasil 41,1% das mulheres diagnosticadas têm menos de 50 anos, proporção maior que a dos países onde as diretrizes internacionais foram desenhadas.
Mulher de 26 anos acaba de receber o resultado de mutação patogênica em BRCA1. Quando começa o rastreamento por imagem, e com quê?
Na BRCA1, a recomendação brasileira separa as duas idades: mamografia anual não antes dos 35 e ressonância anual não antes dos 25 (as duas, categoria A). Aos 26 anos, portanto, começa a ressonância.
A lógica se repete nos outros grupos, com a RM começando antes da mamografia ou junto com ela, porque em mama jovem e densa a mamografia enxerga pouco, e a dose pesa mais. Os pares que caem em prova: BRCA1: MG aos 35, RM aos 25. TP53: MG aos 30, RM aos 20, a mais precoce de todas, pela radiossensibilidade da síndrome de Li-Fraumeni. BRCA2 e demais genes: MG e RM aos 30.
E o ultrassom não entra aqui: nos grupos de alto risco ele é alternativa para quem não pode fazer RM, não adjunto paralelo.
Ao comparar a mamografia atual com a de dois anos atrás, você identifica uma assimetria focal que não existia antes. Como o v2025 orienta descrevê-la, e o que mudou em relação à 5ª edição?
Assimetria em desenvolvimento foi descontinuada como descritor. A justificativa do ACR é de coerência interna: no resto do léxico, a delineação de mudança ao longo do tempo não fica embutida na terminologia do descritor. A mudança continua sendo relevante e deve ser relatada, só que não como um termo do léxico.
Cuidado com a alternativa dos achados secundários: é um conceito realmente novo no v2025, mas significa outra coisa; são anormalidades adicionais presentes junto de um achado primário, e três itens migraram para lá vindos de “características associadas” (distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar, esta última indo para a nova seção de linfonodos).
Outra novidade que vale registrar na mesma seção: na tomossíntese, todos os requisitos que definem um nódulo podem estar aparentes em uma única projeção; a 5ª edição exigia duas incidências.
US de mama mostra uma área nitidamente diferente do tecido vizinho, identificável nos três planos, mas sem margem definida e sem forma que se possa nomear: percebida sobretudo porque o tecido de fundo parece desorganizado. Que termo do v2025 descreve isso?
A lesão não nodular é a maior novidade do léxico de ultrassom do v2025. A definição do ACR tem quatro elementos, e o enunciado traz os quatro: achado discreto, identificável como distintamente diferente do tecido normal, visto em três dimensões, mas que não tem a margem definida de um nódulo e ao qual não se pode atribuir forma específica. Costuma ser sutil e muitas vezes só é detectado porque o tecido de fundo aparece desorganizado.
É o equivalente ultrassonográfico do realce não nodular da ressonância, mas o termo é próprio do US, e o v2025 já a incorporou nas categorias de calcificação, que agora admitem “em nódulo ou lesão não nodular” e “fora de nódulo ou lesão não nodular”.
Outras revisões da mesma seção: não-paralela e não-circunscrita ganharam hífen, “cístico e sólido complexo” virou “misto sólido e cístico”, e “padrão combinado” saiu das características posteriores (havendo qualquer sombra, caracteriza-se como sombra acústica).
Fontes. Léxico e categorias: American College of Radiology. ACR BI-RADS® v2025 Manual:
What’s New? Novembro de 2025. Documento aberto que compara a 5ª edição do Atlas (2013) com o
Manual v2025 item a item. Todas as mudanças afirmadas neste caderno vêm dele.
Rastreamento: Urban LABD, Chala LF, Paula IB, et al. Recomendações do Colégio Brasileiro
de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação
Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia para o rastreamento do câncer de mama no
Brasil. Radiol Bras. 2023;56(4):207–214. doi:10.1590/0100-3984.2023.0064
Qualidade e dose: ANVISA. Instrução Normativa nº 92, de 27 de maio de 2021
(mamografia), Anexos II e III.
Limitação conhecida: O Manual BI-RADS v2025 é um produto pago e não está na pasta de
referências. As categorias de 0 a 6, as faixas de probabilidade de malignidade, a densidade e o
léxico consolidado são tratados aqui como conhecimento estabelecido; o que este caderno afirma como
mudança está ancorado no What’s New. Para o léxico completo e ilustrado, não há substituto
para o Manual.
Os diagramas são próprios, desenhados para este caderno. Blocos marcados com
+ complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.