Cadernos QRad 41 · Mama: BI-RADS e Rastreamento
Transversal · o léxico e a diretriz

Mama: BI-RADS e Rastreamento

Fontes: ACR, BI-RADS v2025 What’s New · CBR/SBM/FEBRASGO, Radiol Bras 2023;56(4):207–214

O léxico mudou em novembro de 2025

O BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System) deixou de ser Atlas e passou a ser Manual. Deixou de ser numerado por edição (a 5ª, de 2013) e passou a ser numerado por ano, v2025, alinhado ao restante do programa RADS® (Reporting and Data System) do ACR (American College of Radiology). E, com isso, um punhado de termos que estavam na ponta da língua de todo mundo deixou de existir.

os quatro termos aposentados que mais aparecem no dia a dia Microlobulada como margem: passa a ser descrita como indistinta.
“Pipoca”: incorporada a grosseira, junto com distrófica.
Leite de cálcio: vira em camadas (layering).
Assimetria em desenvolvimento: descontinuada como descritor.
o que este caderno cobre e o que não cobre O Manual BI-RADS é um produto pago. O documento aberto do ACR é o What’s New do v2025, que compara a 5ª edição com a nova versão item a item, e é dele que vem tudo que este caderno afirma como mudança. As categorias de 0 a 6, a densidade e o léxico consolidado são tratados como conhecimento estabelecido. Para o léxico completo, ilustrado, não há substituto para o Manual.

As categorias

CATEGORIA SIGNIFICADO MALIGNIDADE CONDUTA 0 Incompleto v2025 separou em duas situações não se aplica completar a avaliação 1 Negativo 0% rastreamento de rotina 2 Benigno 0% rastreamento de rotina 3 Provavelmente benigno > 0% e ≤ 2% controle em intervalo curto 4 Suspeito > 2% e < 95% diagnóstico tecidual 4A · baixa suspeita> 2% e ≤ 10% 4B · moderada> 10% e ≤ 50% 4C · alta, mas não clássica> 50% e < 95% 5 Altamente sugestivo ≥ 95% diagnóstico tecidual 6 Malignidade já comprovada admite achados a menos de 2 cm não se aplica seguimento com cirurgião ou oncologista e terapia definitiva
A escada do BI-RADS. As faixas de probabilidade de malignidade e as condutas seguem as da 5ª edição; o que o v2025 mexeu foi nas pontas: a categoria 0 e a categoria 6.
categoria 0: agora são duas A 5ª edição tinha uma frase só: “Incompleto: necessita de avaliação por imagem adicional e/ou exame prévio para comparação”.

O v2025 separou em duas, para refletir as emendas de 2024 ao MQSA (Mammography Quality Standards Act) da FDA (Food and Drug Administration: agência reguladora dos Estados Unidos):
· Categoria 0: Incompleto; necessita de avaliação por imagem adicional
· Categoria 0: Incompleto; necessita de exame prévio para comparação
categoria 6: a conduta e um uso novo A conduta mudou de redação: era “excisão cirúrgica quando clinicamente apropriado”. Passou a ser “seguimento clínico com cirurgião e/ou oncologista, e terapia local definitiva (geralmente cirurgia) quando clinicamente apropriado”, em reconhecimento a terapias definitivas emergentes que podem não envolver excisão.

E ganhou um uso novo, na ressonância, em que a categoria 6 pode ser aplicada a achados adicionais próximos (suspeitos, mas não definitivamente malignos) quando as três condições se cumprem: estão a menos de 2 cm da malignidade comprovada; não aumentam a extensão total em mais de 2 cm; e não mudariam a conduta, como levar a uma cirurgia significativamente maior.
a armadilha da categoria 3 BI-RADS 3 significa mais que 0% e no máximo 2% de probabilidade de malignidade: é uma faixa estreita, e a categoria só se aplica depois de avaliação diagnóstica completa e, na mamografia, nunca direto de um exame de rastreamento. Novidade do v2025 na auditoria: os desfechos das categorias 3 iniciais passaram a integrar a auditoria clinicamente relevante básica.

Densidade mamária

DENSIDADE MAMÁRIA: O v2025 TROCOU “COMPOSIÇÃO” POR “DENSIDADE” A quase toda adiposa B áreas esparsas de tecido fibroglandular C heterogeneamente densa pode obscurecer nódulos D extremamente densa reduz a sensibilidade
As quatro categorias. A troca de nome é do v2025: onde se lia “composição mamária”, lê-se “densidade mamária”, e os descritores foram padronizados para casar com as exigências da FDA.
por que a letra importa A densidade faz duas coisas ao mesmo tempo, e é por isso que ela virou informação obrigatória de laudo em vários países: reduz a sensibilidade da mamografia (o tecido fibroglandular denso e o tumor têm atenuação parecida) e é, por si só, fator de risco para câncer de mama.

A categorização é visual e qualitativa, não uma medida de porcentagem: o que importa é a chance de o tecido obscurecer um nódulo pequeno, e por isso uma área densa focal pode elevar a categoria de uma mama globalmente adiposa.
+ complemento · a novidade regulatória de 2025 O v2025 descreve as atualizações de 2024 da FDA sobre notificação de densidade, e o padrão alternativo de 2025, que permite usar fraseado no singular ao reportar mamografia unilateral: detalhe pequeno, mas é o tipo de item que aparece em prova de atualização.

Léxico de mamografia

5ª edição (2013)v2025Por quê
Margem microlobuladaRemovida: descreva como indistintaEvitar confusão com o termo de forma lobulada
Forma lobular: eliminada em 2013Lobulada volta ao léxicoDevolve nuance à descrição de forma; “lobulada” evita confusão com o subtipo lobular do carcinoma
Assimetria em desenvolvimentoDescontinuada como descritorCoerência com o resto do léxico, em que mudança ao longo do tempo não fica embutida no termo
Linfonodo intramamário como achado isoladoLinfonodos como achado único, com subachados intramamário e axilarDiscussão unificada de linfonodos normais e anormais
Ducto dilatado solitário é suspeito salvo etiologia benigna demonstradaPode ser considerado benigno se assintomática e sem achado suspeito associadoSe estiver em exame basal, em mulher sintomática, ou junto de nódulo, distorção ou microcalcificações, aí sim investiga
Múltiplos ductos dilatados entra como achado tipicamente benignoNovo no léxico
Nódulo exige duas incidências para preencher a definiçãoNa tomossíntese, todos os requisitos podem estar aparentes em uma única projeçãoA DBT (tomossíntese digital de mama) resolve a sobreposição que exigia a segunda incidência
achados secundários: um conceito novo A 5ª edição tinha “características associadas”. O v2025 introduz os achados secundários: anormalidades adicionais presentes junto de um achado primário (nódulo, assimetria ou calcificações).

Três itens saíram de características associadas e viraram achados secundários: distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar, esta última migrando para a seção de linfonodos.
+ complemento · localização e profundidade O v2025 flexibilizou a descrição de localização: pode-se usar quadrante e/ou horário do relógio, e ou a profundidade (anterior, médio, posterior) ou a distância à papila.

E corrigiu um detalhe de método: na incidência MLO (mediolateral oblíqua), a profundidade passa a ser determinada por divisões imaginárias paralelas ao ângulo do músculo peitoral maior, e não mais por linhas verticais.

Calcificações

5ª ediçãov2025Motivo
Grosseira ou “pipoca”Grosseira“Pipoca” foi incorporada a grosseira: parte do afastamento geral da radiologia dos descritores culinários
Distrófica, descritor separadoIncorporada a grosseiraSimplificar, e enfatizar a aparência em vez da histopatologia presumida
Redonda (puntiforme é subconjunto)Redonda, sem o parênteseAmbos os termos descrevem partículas redondas, e não é prático medir calcificações na faixa de 0,5 mm
Leite de cálcioEm camadas (layering)Enfatiza a aparência morfológica (sedimentação do cálcio em micro ou macrocistos) em vez da composição fisiológica
VascularVascular, com nota novaA literatura recente associa calcificação vascular mamária a maior risco cardiovascular, e o Manual passa a registrar isso
a tabela que sumiu A 5ª edição trazia duas tabelas de probabilidade de malignidade por descritor de calcificação: uma por morfologia e outra por distribuição.

No v2025, a de morfologia permanece e foi atualizada com literatura mais recente, e agora se chama tabela de valor preditivo positivo de malignidade; a de distribuição foi removida.
+ complemento · o que não mudou e segue sendo o essencial A hierarquia de suspeição por morfologia continua a mesma: tipicamente benignas (cutâneas, vasculares, grosseiras, em bastão, redondas, em camadas, de sutura); suspeitas (amorfas, grosseiras heterogêneas, pleomórficas finas e lineares finas ou lineares finas ramificadas, estas as de maior valor preditivo).

E a distribuição, embora sem tabela própria, segue pesando: agrupada, linear e segmentar preocupam; difusa e regional, menos.

Léxico de ultrassom

lesão não nodular: a maior novidade do léxico de US Achado discreto, identificável como distintamente diferente do tecido normal, visto em três dimensões, mas que não tem a margem definida de um nódulo e ao qual não se pode atribuir forma específica.

Costuma ser sutil, e muitas vezes só é detectado porque o tecido de fundo aparece desorganizado. É o equivalente ultrassonográfico do que a ressonância chama de realce não nodular.
5ª ediçãov2025
Orientação: não paralelaNão-paralela: revisão de terminologia
Margem: não circunscritaNão-circunscrita: revisão de terminologia
Padrão ecogênico: cístico e sólido complexoMisto sólido e cístico
Características posteriores: padrão combinadoRemovido: se o nódulo mostra qualquer sombra, caracteriza-se como sombra acústica
Vascularização: ausenteAvascular
Vascularização: vasos no haloVascularização periférica
Calcificações em nódulo / fora de nóduloMacrocalcificações e microcalcificações; e as categorias passam a admitir lesão não nodular, além de nódulo, como sítio
Pseudocápsula ecogênica e halo ecogênico entram como características associadas
Composição tecidualPadrão tecidual e componente de tecido glandular (GTC)
Casos especiais: corpo estranho incluindo implantesCorpo estranho e implantes separados; entra abscesso e alterações pós-traumáticas não cirúrgicas
+ complemento · o que a nova seção geral discute O v2025 abre a seção de ultrassom com considerações que antes não existiam: manual versus automatizado (com imagens e exemplos de ABUS, o ultrassom automatizado de mama) e realizado pelo médico versus pelo técnico. E acrescentou pressão do transdutor ao item de qualidade de imagem, ao lado da frequência.

Léxico de ressonância

Foco foi eliminado como achado Era a categoria para o realce puntiforme, menor que 5 mm, sem correspondente em T1 ou T2 e cuja morfologia não podia ser caracterizada. Deixou de existir no v2025.
5ª ediçãov2025
FocoEliminado como achado
Realce parenquimatoso de fundo (BPE): mínimoMínimo (inclui ausência de realce)
Margem: não circunscrita / irregularNão-circunscrita / indistinta: “irregular” some daqui para não duplicar o termo de forma
Realce interno: realce em anelRealce em anel espesso
Realce não nodular: distribuição em múltiplas regiõesRemovido como descritor
Avaliação da curva cinéticaCinética de realce; fase inicial vira fase precoce
Sinal em T2 entra como subachado do nódulo: hiperintenso ou não hiperintenso
Características associadas: invasão de pele, papila, peitoral, parede torácicaEnvolvimento: “invasão” virou “envolvimento”. Entra edema peritumoral; sai distorção arquitetural
Lesões contendo gordura como subcategoriaDescontinuada: necrose gordurosa e hamartoma migram para “outros achados, tipicamente benignos”
Achados sem realceOutros achados, tipicamente benignos, categoria ampliada
protocolo abreviado e difusão A subseção de parâmetros de aquisição foi reescrita e passou a trazer protocolos abreviados e difusão: dois temas que não existiam na 5ª edição e que hoje estão no centro da discussão sobre rastreamento por RM em escala.

Mamografia contrastada

A CEM (mamografia com realce por contraste) era um suplemento da 5ª edição. No v2025 ela é seção intrínseca do Manual, com léxico e organização de laudo próprios, alinhados às demais modalidades.

o que a seção padronizou Densidade: os descritores foram padronizados para os termos da mamografia e para as exigências da FDA: (A) quase toda adiposa, (B) áreas esparsas de densidade fibroglandular, (C) heterogeneamente densa, que pode obscurecer nódulos pequenos, (D) extremamente densa, o que reduz a sensibilidade da mamografia.

Forma e margem: lobulada volta; não-circunscrita/indistinta substitui irregular, pelas mesmas razões da RM.

Características associadas: “invasão” vira envolvimento, alinhando com a RM.

Realce não nodular: a distribuição em múltiplas regiões foi removida, como na RM.
+ complemento · onde a CEM entra na prática A CEM é uma alternativa à RM quando esta não está disponível, é contraindicada ou não é tolerada. Usa iodado e um mamógrafo com aquisição de dupla energia, e o laudo descreve densidade e BPE, este último como na ressonância. As recomendações brasileiras de rastreamento de 2023 não mencionam a CEM.

A organização do laudo

Mamografia: 5ª ediçãoMamografia: v2025
1. Indicação1. Indicação
2. Composição mamária2. Comparação com exames anteriores
3. Achados3. Técnica
4. Comparação, se o médico julgar apropriado4. Densidade mamária
5. Avaliação5. Achados
6. Conduta6. Avaliação
7. Recomendações de conduta
as três mudanças estruturais 1. A comparação subiu para o segundo item e deixou de ser opcional a critério do médico.
2. A técnica entrou como item próprio.
3. A ordem passou a ser a mesma em todas as modalidades, no que é aplicável. Na ressonância, os itens 4 e 5 são tecido fibroglandular (FGT) e realce parenquimatoso de fundo (BPE); no ultrassom, o item 4 é composição tecidual, com padrão e componente glandular.
+ complemento · indicação estruturada O v2025 introduziu fraseado padronizado de indicação do exame, para ser usado em todas as modalidades. É a peça que faltava para que a auditoria consiga separar automaticamente exame de rastreamento de exame diagnóstico: o que nos leva à seção seguinte.

Auditoria e monitoramento

Era “Seguimento e Monitoramento de Desfechos”. Virou “Auditoria e Monitoramento de Desfechos”, e o conteúdo mudou junto.

as definições que foram reescritas Rastreamento e diagnóstico agora são definidos de forma neutra quanto à modalidade, para comportar tecnologias atuais e futuras.

Exame de rastreamento positivo passou a ser definido, com ênfase, como a aquisição de imagens adicionais além das prescritas pelo protocolo padrão de rastreamento, com qualquer modalidade, para avaliar melhor qualquer achado.

A definição de câncer foi ampliada: antes era o diagnóstico tecidual de DCIS (carcinoma ductal in situ) ou de qualquer câncer de mama primário (não metastático), e passou a ser o de DCIS, carcinoma lobular in situ pleomórfico ou florido, ou qualquer carcinoma de mama invasor primário (não metastático).
os desfechos das categorias 3 entraram na auditoria Novidade do v2025: os desfechos das avaliações iniciais de categoria 3 passam a fazer parte da auditoria clinicamente relevante básica. Se o serviço classifica como provavelmente benigno, precisa demonstrar que a taxa de malignidade nesse grupo fica de fato dentro de 2%.
+ complemento · os benchmarks As tabelas de referência foram todas atualizadas: mamografia de rastreamento (BCSC, Breast Cancer Surveillance Consortium, e NMD, o National Mammography Database), ultrassom de rastreamento (agora restrita a ensaios multi-institucionais que avaliaram o US independentemente da mamografia), RM de rastreamento e mamografia diagnóstica. As duas de mamografia passaram a trazer faixas aceitáveis definidas por consenso de especialistas, e as duas tabelas que antes traziam essas faixas separadas foram eliminadas, com os dados incorporados às tabelas principais.

Rastreamento no Brasil

RISCO HABITUAL: CBR / SBM / FEBRASGO Mamografia anual dos 40 aos 74 anos A partir dos 75, mantém-se se a expectativa de vida for de ao menos 7 anos. US e RM não entram. Mamas densas US anual pode ser adjunta categoria B RM bienal se extremamente densa (categoria C) HLA, CLIS clássico ou HDA Risco ≥ 20%: RM anual adjunta, não antes dos 25 anos categoria B Radioterapia torácica Irradiação antes dos 30 anos: MG e RM anuais do 8º ano categoria A Câncer de mama tratado Conservadora: MG anual, a partir de 6 meses do fim da radioterapia Mastectomia: MG anual só da contralateral, a partir de 1 ano RM anual se diagnóstico antes dos 50 anos Mutação ou forte história familiar BRCA1: MG aos 35 · RM aos 25 TP53: MG aos 30 · RM aos 20 BRCA2 e demais: MG e RM aos 30 São idades mínimas, não de início
A recomendação brasileira de 2023, por grupo de risco. As letras entre parênteses são as categorias de força da própria diretriz: A e B são recomendações fortes a favor, com evidência de alta e de moderada qualidade; C é fraca a favor; D se apoia só em consenso; E é recomendação contra.
risco habitual: a regra e o porquê Mamografia anual dos 40 aos 74 anos, preferencialmente digital (categoria A). A partir dos 75, mantém-se se não houver comorbidade que reduza a expectativa de vida e se esta for de ao menos sete anos (categoria D).

US e RM não entram como rastreamento suplementar nem isolado no risco habitual, e a diretriz é explícita ao classificar isso como categoria E, recomendação contra.

Tomossíntese combinada à mamografia 2D, sintetizada ou padrão, deve ser considerada quando disponível (categoria B).
+ complemento · os números que sustentam a idade de 40 anos Iniciar aos 40 reduz em 25% a mortalidade em 10 anos, ao custo de elevar o falso-positivo de 4,8% para 7%. E há um argumento brasileiro: pelo estudo AMAZONA, 41,1% das mulheres com diagnóstico de câncer de mama no Brasil têm menos de 50 anos; e, abaixo dos 40, a proporção no Brasil é de 17% (AMAZONA III), contra cerca de 7% na literatura.

Sobre o intervalo: o rastreamento bienal associa-se a maior risco de tumores avançados (RR, risco relativo, 1,28), maiores que 15 mm e com piores fatores prognósticos. Daí o anual.

E abaixo dos 40 não se rastreia, mas a diretriz recomenda que o médico assistente faça estimativa de risco por modelo matemático em toda mulher acima de 30 anos, para identificar quem se beneficiaria de rastreamento diferenciado.

Os grupos de risco aumentado

GrupoMamografiaComplementar
Mamas densasAnual, 40–74 anos (A)US anual pode ser adjunta (B), exceto quando se faz RM. RM bienal pode ser considerada nas extremamente densas (C)
HLA (hiperplasia lobular atípica), CLIS (carcinoma lobular in situ) clássico ou HDA (hiperplasia ductal atípica)Risco < 20%: anual a partir dos 40 (A). Risco ≥ 20%: anual desde o diagnóstico, não antes dos 30 (B)Risco 15–20%: US pode ser adjunta (D). Risco ≥ 20%: RM anual adjunta, não antes dos 25 (B); US é a alternativa para quem não pode fazer RM (B)
Câncer de mama tratadoConservadora: anual, iniciando no mínimo 6 meses após o fim da radioterapia (A). Mastectomia: anual só da contralateral, a partir de 1 ano (A)RM anual se o diagnóstico foi antes dos 50 anos ou se as mamas são densas, iniciando 1 ano após o tratamento (C)
Radioterapia torácica antes dos 30 anosAnual a partir do 8º ano após a radioterapia, não antes dos 30 (A)RM anual a partir do 8º ano, não antes dos 25 (A)
BRCA1 (gene de suscetibilidade hereditária ao câncer de mama e de ovário), ou não testada com parente de 1º grau portadoraAnual desde o diagnóstico da mutação, não antes dos 35 (A)RM anual, não antes dos 25 (A)
TP53 (gene supressor de tumor p53), ou não testada com parente de 1º grau portadoraAnual, não antes dos 30 (A)RM anual, não antes dos 20 (A)
BRCA2 e demais genes de risco moderado ou altoAnual, não antes dos 30 (A)RM anual, não antes dos 30 (A)
Risco ≥ 20% por modelo matemáticoAnual 10 anos antes da idade do diagnóstico do parente mais jovem, não antes dos 30 (A)RM anual, mesma regra dos 10 anos antes, não antes dos 30 (A)
a regra que atravessa todos os grupos O ultrassom é o plano B da ressonância, não um adjunto paralelo. Nos grupos de alto risco (mutação, forte história familiar, radioterapia torácica), a US só entra quando a RM, por qualquer motivo, não puder ser feita. As exceções são a mama densa, onde a US anual pode ser adjunta por si só, e ainda assim exceto quando a RM for realizada, e o risco de 15–20% após HLA, CLIS ou HDA, em que a US pode ser adjunta (categoria D).
os pares de idade que se confundem BRCA1: MG (mamografia) aos 35, RM aos 25. TP53: MG aos 30, RM aos 20. BRCA2 e demais: MG e RM aos 30. A lógica é a mesma nos três: a RM nunca começa depois da mamografia (na BRCA2, as duas começam juntas), porque em mama jovem e densa a mamografia enxerga pouco e a dose importa mais, e o TP53 é o mais precoce de todos porque o pico de incidência vem antes: 20–35 anos, contra 30–39 no BRCA1 e 30–49 no BRCA2.

Qualidade do mamógrafo

A mamografia é a modalidade com o controle de qualidade mais apertado, porque é rastreamento em população assintomática: a dose é entregue a muita gente saudável, e a lesão a detectar é pequena. No Brasil, quem fixa os valores é a Instrução Normativa nº 92 da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Espessura de PMMA (cm)Mama equivalente (cm)DGM (dose glandular média) de referência (mGy)Tolerância
2,02,10,6< 1,0
3,03,21,0< 1,5
4,04,51,6< 2,0
4,55,32,0< 2,5
5,06,02,4< 3,0
6,07,53,6< 4,5
razão contraste-ruído mínima, por espessura A CNR (razão contraste-ruído) relativa exigida cai conforme a mama engrossa, porque mantê-la numa mama espessa custaria dose demais. É o compromisso dose × imagem escrito dentro da norma:

≥ 115% a 2 cm · ≥ 110% a 3 cm · ≥ 105% a 4 cm · ≥ 103% a 4,5 cm · ≥ 100% a 5 cm · ≥ 95% a 6 cm · ≥ 90% a 7 cm
+ complemento · por que a compressão não é maldade Comprimir reduz a espessura e, com ela, a dose e o espalhamento; separa estruturas sobrepostas, aumentando o contraste; e imobiliza, eliminando borramento. A força de compressão é item de teste da IN 92, aferida em newtons, e a conversão que costuma aparecer é 9,8 N = 1 kgf.
a leitura que a dose exige A DGM depende da espessura comprimida: comparar dose glandular entre serviços sem informar a espessura não significa nada. É o mesmo raciocínio do CTDIvol (computed tomography dose index) em tomografia: o número descreve uma condição de medida, não o paciente.

Pontos de prova: alto rendimento

Nome e versãoDeixou de ser Atlas 5ª edição e passou a ser Manual v2025, numerado por ano
Categoria 0Foi separada em duas: precisa de imagem adicional · precisa de exame prévio
Categoria 3> 0% e ≤ 2% de malignidade · controle em intervalo curto · desfechos agora entram na auditoria
Categoria 44A > 2 e ≤ 10% · 4B > 10 e ≤ 50% · 4C > 50 e < 95%
Categoria 5≥ 95%
Categoria 6Conduta agora é seguimento com cirurgião/oncologista e terapia local definitiva · na RM cabe para achado próximo, < 2 cm, que não aumente a extensão em mais de 2 cm nem mude a conduta
Margem microlobuladaAposentada: descreva como indistinta
Forma lobuladaVoltou ao léxico das três modalidades
“Pipoca” e distróficaIncorporadas a grosseira
Leite de cálcioVirou em camadas (layering)
RedondaPerdeu o parêntese “puntiforme”
Calcificação vascularPassa a ser associada a maior risco cardiovascular
Assimetria em desenvolvimentoDescontinuada como descritor
Achados secundáriosConceito novo: distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar saíram de características associadas
Nódulo na tomossíntesePode preencher todos os requisitos em uma única projeção
Profundidade na MLODivisões paralelas ao ângulo do peitoral maior
Lesão não nodular ao USAchado novo: discreto, visto em 3D, sem margem definida e sem forma atribuível
Foco na RMEliminado como achado
Sinal em T2 na RMEntrou como subachado: hiperintenso ou não hiperintenso
Invasão na RM e CEMVirou envolvimento; entrou edema peritumoral
CEMDeixou de ser suplemento e virou seção intrínseca
Composição mamáriaVirou densidade mamária, com descritores alinhados à FDA
Definição de câncer na auditoriaPassou a incluir CLIS pleomórfico ou florido, além de DCIS e carcinoma invasor
Rastreamento no Brasil: risco habitualMG anual dos 40 aos 74; a partir dos 75, se a expectativa de vida for ≥ 7 anos
US e RM no risco habitualCategoria E: recomendação contra
Mamas densasUS anual pode ser adjunta (B); RM bienal nas extremamente densas (C)
BRCA1MG não antes dos 35 · RM não antes dos 25
TP53MG não antes dos 30 · RM não antes dos 20
BRCA2 e demais genesMG e RM não antes dos 30
Radioterapia torácica < 30 anosMG e RM anuais a partir do 8º ano; MG não antes dos 30, RM não antes dos 25
Pós-tratamento conservadorMG anual a partir de 6 meses do fim da radioterapia
Pós-mastectomiaMG anual só da contralateral, a partir de 1 ano
DGM de referência a 4,5 cm de PMMA (polimetilmetacrilato, o acrílico)2,0 mGy, tolerância < 2,5 (IN 92)

Armadilhas e erros comuns

Usar termo que não existe mais

  • Descrever margem como microlobulada: hoje é indistinta
  • Escrever “calcificações em pipoca” ou distróficas: tudo virou grosseiras
  • Escrever leite de cálcio: hoje é em camadas
  • Laudar assimetria em desenvolvimento: descontinuada como descritor
  • Descrever um foco na ressonância: eliminado como achado

Erros de categoria

  • Dar BI-RADS 3 direto de um exame de rastreamento, sem avaliação diagnóstica completa
  • Achar que BI-RADS 4 é uma faixa só: são três, e a diferença entre 4A e 4C muda a conversa com a paciente
  • Usar a categoria 6 para achado distante ou que mudaria a extensão da cirurgia: os três critérios são cumulativos
  • Reportar categoria 0 sem dizer qual das duas: falta imagem ou falta exame prévio

Erros de rastreamento

  • Oferecer US ou RM suplementar a mulher de risco habitual: é recomendação contra, categoria E
  • Tratar a US como adjunta à RM nos grupos de alto risco: ela é alternativa para quem não pode fazer RM
  • Iniciar a RM da BRCA1 junto com a mamografia: a RM começa 10 anos antes, aos 25
  • Rastrear a mama ipsilateral após mastectomia: a MG anual é só da contralateral
  • Começar a mamografia pós-conservadora antes de 6 meses do fim da radioterapia

Questões

Questões

uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1

Residente lauda uma mamografia com calcificações grosseiras arredondadas num nódulo circunscrito e escreve “calcificações em pipoca, típicas de fibroadenoma em involução”. O que o léxico v2025 tem a dizer sobre a descrição?

O v2025 fez uma limpeza nos descritores tipicamente benignos, e “pipoca” foi uma das vítimas: foi incorporada a “grosseiras”, tanto para simplificar quanto por um movimento da radiologia como um todo de abandonar descritores de comida.

No mesmo passe, “distróficas” deixou de ser descritor separado e também entrou em “grosseiras”: a justificativa do ACR é enfatizar a aparência do achado, e não a histopatologia presumida.

Outros dois termos do mesmo grupo mudaram: “leite de cálcio” virou “em camadas” (layering), pela mesma lógica de descrever morfologia em vez de composição; e “redonda” perdeu o parêntese “puntiforme”, já que ambos descrevem partículas redondas e não é prático medir calcificações na faixa de 0,5 mm.

E uma novidade que não é de nomenclatura: a calcificação vascular passou a ser registrada como associada a maior risco cardiovascular.
↑revisar esta parte do caderno · Calcificações
Questão 2

RM de mama em paciente com carcinoma ductal invasor comprovado no quadrante superolateral direito. Há um segundo realce suspeito a 1,5 cm da lesão índice, que não estende a doença além de 2 cm e não mudaria o porte da cirurgia. Como classificar esse segundo achado no v2025?

Essa é uma extensão nova da categoria 6 na ressonância. Ela pode ser aplicada a achados adicionais próximos (suspeitos, mas não definitivamente malignos) quando as três condições se cumprem: estão a menos de 2 cm da malignidade comprovada; não aumentam a extensão total em mais de 2 cm; e não mudariam a conduta clínica, como levar a uma cirurgia significativamente maior.

Os critérios são cumulativos: falhando um deles, o achado volta a ser tratado por si só.

A outra mudança da categoria 6 é de redação: a conduta era “excisão cirúrgica quando clinicamente apropriado” e passou a ser “seguimento clínico com cirurgião e/ou oncologista, e terapia local definitiva (geralmente cirurgia) quando clinicamente apropriado”, em reconhecimento a terapias definitivas que podem não envolver excisão.
↑revisar esta parte do caderno · As categorias
Questão 3

Mulher de 44 anos, sem fatores de risco, mamas de densidade B, mamografia anual normal. Ela pergunta se deveria fazer também ultrassom “para garantir”. Qual a resposta segundo a recomendação conjunta CBR (Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem), SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia) e FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia)?

A diretriz brasileira classifica suas recomendações de A a E, e a letra E significa recomendação contra, por evidência insuficiente para apoiar o uso. É exatamente a categoria que US e RM recebem como rastreamento suplementar ou isolado em mulheres de risco habitual.

O que é recomendado nesse grupo: mamografia anual dos 40 aos 74 anos, preferencialmente digital (categoria A), continuando a partir dos 75 se a expectativa de vida for de ao menos sete anos (categoria D). E a tomossíntese combinada à 2D deve ser considerada quando disponível (categoria B).

A idade de início não é arbitrária: começar aos 40 reduz em 25% a mortalidade em 10 anos, e no Brasil 41,1% das mulheres diagnosticadas têm menos de 50 anos, proporção maior que a dos países onde as diretrizes internacionais foram desenhadas.
↑revisar esta parte do caderno · Rastreamento no Brasil
Questão 4

Mulher de 26 anos acaba de receber o resultado de mutação patogênica em BRCA1. Quando começa o rastreamento por imagem, e com quê?

Na BRCA1, a recomendação brasileira separa as duas idades: mamografia anual não antes dos 35 e ressonância anual não antes dos 25 (as duas, categoria A). Aos 26 anos, portanto, começa a ressonância.

A lógica se repete nos outros grupos, com a RM começando antes da mamografia ou junto com ela, porque em mama jovem e densa a mamografia enxerga pouco, e a dose pesa mais. Os pares que caem em prova:
BRCA1: MG aos 35, RM aos 25.
TP53: MG aos 30, RM aos 20, a mais precoce de todas, pela radiossensibilidade da síndrome de Li-Fraumeni.
BRCA2 e demais genes: MG e RM aos 30.

E o ultrassom não entra aqui: nos grupos de alto risco ele é alternativa para quem não pode fazer RM, não adjunto paralelo.
↑revisar esta parte do caderno · Grupos de risco aumentado
Questão 5

Ao comparar a mamografia atual com a de dois anos atrás, você identifica uma assimetria focal que não existia antes. Como o v2025 orienta descrevê-la, e o que mudou em relação à 5ª edição?

Assimetria em desenvolvimento foi descontinuada como descritor. A justificativa do ACR é de coerência interna: no resto do léxico, a delineação de mudança ao longo do tempo não fica embutida na terminologia do descritor. A mudança continua sendo relevante e deve ser relatada, só que não como um termo do léxico.

Cuidado com a alternativa dos achados secundários: é um conceito realmente novo no v2025, mas significa outra coisa; são anormalidades adicionais presentes junto de um achado primário, e três itens migraram para lá vindos de “características associadas” (distorção arquitetural, calcificações e adenopatia axilar, esta última indo para a nova seção de linfonodos).

Outra novidade que vale registrar na mesma seção: na tomossíntese, todos os requisitos que definem um nódulo podem estar aparentes em uma única projeção; a 5ª edição exigia duas incidências.
↑revisar esta parte do caderno · Léxico de mamografia
Questão 6

US de mama mostra uma área nitidamente diferente do tecido vizinho, identificável nos três planos, mas sem margem definida e sem forma que se possa nomear: percebida sobretudo porque o tecido de fundo parece desorganizado. Que termo do v2025 descreve isso?

A lesão não nodular é a maior novidade do léxico de ultrassom do v2025. A definição do ACR tem quatro elementos, e o enunciado traz os quatro: achado discreto, identificável como distintamente diferente do tecido normal, visto em três dimensões, mas que não tem a margem definida de um nódulo e ao qual não se pode atribuir forma específica. Costuma ser sutil e muitas vezes só é detectado porque o tecido de fundo aparece desorganizado.

É o equivalente ultrassonográfico do realce não nodular da ressonância, mas o termo é próprio do US, e o v2025 já a incorporou nas categorias de calcificação, que agora admitem “em nódulo ou lesão não nodular” e “fora de nódulo ou lesão não nodular”.

Outras revisões da mesma seção: não-paralela e não-circunscrita ganharam hífen, “cístico e sólido complexo” virou “misto sólido e cístico”, e “padrão combinado” saiu das características posteriores (havendo qualquer sombra, caracteriza-se como sombra acústica).
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Fontes.
Léxico e categorias: American College of Radiology. ACR BI-RADS® v2025 Manual: What’s New? Novembro de 2025. Documento aberto que compara a 5ª edição do Atlas (2013) com o Manual v2025 item a item. Todas as mudanças afirmadas neste caderno vêm dele.

Rastreamento: Urban LABD, Chala LF, Paula IB, et al. Recomendações do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, da Sociedade Brasileira de Mastologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia para o rastreamento do câncer de mama no Brasil. Radiol Bras. 2023;56(4):207–214. doi:10.1590/0100-3984.2023.0064

Qualidade e dose: ANVISA. Instrução Normativa nº 92, de 27 de maio de 2021 (mamografia), Anexos II e III.

Limitação conhecida: O Manual BI-RADS v2025 é um produto pago e não está na pasta de referências. As categorias de 0 a 6, as faixas de probabilidade de malignidade, a densidade e o léxico consolidado são tratados aqui como conhecimento estabelecido; o que este caderno afirma como mudança está ancorado no What’s New. Para o léxico completo e ilustrado, não há substituto para o Manual.

Os diagramas são próprios, desenhados para este caderno. Blocos marcados com + complemento são acréscimos do autor, além do texto da fonte.