Mulher de 58 anos, sem cirurgia prévia, com distorção arquitetural nova vista só na tomossíntese e sem correlato no US. A conduta mais adequada é:
Distorção Arquitetural, Triangulação e Tomossíntese
Os achados que mais escapam
Três assuntos que se cruzam na mamografia diagnóstica: a distorção arquitetural, o achado sutil que mais se deixa passar; a triangulação, que diz onde está uma lesão vista numa incidência só; e as calcificações na tomossíntese, onde a tomossíntese ajuda menos do que nas massas e distorções.
| Sigla | O que é |
|---|---|
| CC · MLO | Craniocaudal · oblíqua mediolateral (as duas de rotina) |
| ML · LM | Perfil a 90° (mediolateral ou lateromedial) |
| DBT | Tomossíntese mamária digital |
| SM (s2D) | Mamografia sintetizada, a 2D reconstruída da tomossíntese |
| CEM | Mamografia contrastada (imagem de baixa energia e recombinada) |
Distorção arquitetural
O BI-RADS (Breast Imaging Reporting and Data System) define a distorção arquitetural (DA) na mamografia como distorção do parênquima sem massa definida visível: linhas finas retas ou espículas que irradiam de um ponto, e retração ou retificação focal na borda do parênquima. Está em 6% das alterações do rastreamento e em 4% dos cânceres de mama, e é o sinal de câncer que mais se deixa passar.
| Método | Como aparece |
|---|---|
| Mamografia | Achado primário: espículas que irradiam de um centro, sem massa · ou achado associado a massa, assimetria ou calcificações |
| Tomossíntese | Detecta quase o dobro de DA que a 2D (menos sobreposição) · VPP (valor preditivo positivo) da DA suspeita na DBT de 43 a 50,7%, menor que na 2D, mas DA confirmada continua suspeita |
| US | Achado associado: o efeito da massa em volta · ligamentos de Cooper retificados ou dobrados, planos apagados, ductos desviados, halo ecogênico |
| RM | Achado sem realce (retração e distorção focal) ou associado a realce |








Causas benignas
| Causa | Pista |
|---|---|
| Cicatriz cirúrgica | A causa mais comum de longe · exige história de cirurgia no mesmo lugar (até 6 meses depois de biópsia cirúrgica, DA em mais de 80% das mamografias) · necrose gordurosa, calcificações, retração e espessamento da pele · cicatriz de mamoplastia redutora pode ser exuberante |
| Necrose gordurosa | Distorção com calcificações em anel · pode imitar câncer |
| Cicatriz radial e lesão esclerosante complexa | Não é cicatriz: centro de ductos e lóbulos irradiados com alterações proliferativas · a lesão complexa tem mais de 1 cm · o centro gorduroso ("estrela negra") não é específico · é o achado benigno mais comum na biópsia de DA, e é concordante |
| Adenose esclerosante | Calcificações amorfas, distorção ou massa · pode coexistir com câncer |
| Fibromatose | Massa com distorção · rara, pode se associar a implante |
| Tumor de células granulares | Raro · excisão |









| Lesão na biópsia | Com atipia | Sem atipia |
|---|---|---|
| Cicatriz radial | Excisão ou seguimento próximo, conforme tamanho e sintoma | Seguimento por imagem se pequena e bem amostrada · excisão se subamostrada, suspeita ou dolorosa |
| Lesão esclerosante complexa | Excisão (atipia e câncer junto) | Seguimento próximo, excisão se mudar |
| Adenose esclerosante | Excisão pode ser considerada, ou observação | Seguimento |
| Fibromatose | Excisão ampla (recidiva local) | Seguimento, excisão se crescer |
| Tumor de células granulares | Excisão | Excisão |













Numa série, a DA com atipia na biópsia subiu para câncer em 28% na cirurgia; sem atipia, em 2%.
Causas malignas
| Tumor | Como se mostra |
|---|---|
| Carcinoma ductal invasivo | Espículas que irradiam de uma massa central · a DA não é a forma mais comum dele |
| Carcinoma lobular invasivo | DA pura é frequente (cresce em fila, sem formar massa) · multicêntrico, a RM acha focos a mais |
| Carcinoma in situ | Microcalcificações com distorção · até 10% se apresenta como DA pura (2 a 10%) |












Roteiro e conduta
| Passo | O que fazer |
|---|---|
| 1. História | Cirurgia ou trauma no local? Cicatriz explica a DA (BI-RADS 2) |
| 2. Confirmar | Compressão localizada, com ou sem tomossíntese · vista numa incidência só: incidências adicionais |
| 3. US | Procurar a massa: correlato no US vale biópsia guiada por US, e DA com achado no US tem mais chance de ser câncer |
| 4. Caracterizar | DA isolada ou com massa, assimetria, calcificações |
| 5. Biopsiar | BI-RADS 4 ou 5 e biópsia por agulha grossa · sem correlato no US: estereotaxia ou tomossíntese |
| 6. Concordância | Resultado benigno não concordante (ex.: lesão fibroepitelial, hiperplasia estromal pseudoangiomatosa) pede nova biópsia ou excisão · cicatriz radial é concordante |
| RM e CEM | Para mama densa com mamografia indeterminada, em casos escolhidos · a RM não separa cicatriz radial de câncer |








| Armadilha | Saída |
|---|---|
| Mama densa esconde a DA | Compressão localizada, ampliação, tomossíntese |
| Vista numa incidência só | Incidências adicionais (a orientação das espículas em relação ao plano) |
| Biópsia não pegou | Erro de amostragem: correlacionar e repetir com outra técnica |
Onde está a lesão: triangulação
A mama tem poucos pontos de referência; o único fixo é a papila. Cada incidência informa um eixo: a CC diz com segurança se a lesão é medial ou lateral; o perfil a 90° (ML ou LM), se é superior ou inferior. A MLO, que mostra mais tecido e é a incidência mais importante do rastreamento, não diz com segurança se a lesão está acima ou abaixo da papila, porque o feixe é oblíquo.
| Incidência | O que conferir |
|---|---|
| MLO correta | Papila de perfil · peitoral maior até a altura da papila · sulco inframamário aberto |
| CC correta | Papila centrada e de perfil · espaço retromamário visível |
| Linha papilar posterior | Da papila ao peitoral (na CC, à borda da imagem) · diferença de até 10 mm entre CC e MLO |
| Perfil a 90° | A incidência adicional mais usada · a lesão o mais perto possível do detector |

| Método | Como fazer |
|---|---|
| Da linha | Alinhe as papilas das três incidências na mesma altura, com a MLO no meio (CC, MLO, ML) · uma reta pela lesão nas duas em que ela aparece mostra onde procurar na terceira |
| Da distância | Meça a distância da lesão à base da papila na incidência em que ela aparece e trace um arco com esse raio, centrado na papila, nas outras · a lesão está no arco · dá para fazer de cabeça |


| Erro comum | A verdade |
|---|---|
| Usar só a MLO | Sempre com pelo menos outra incidência |
| "Acima da papila na MLO" | Pode estar abaixo (e vice-versa): faça o perfil |
| Alta e posterior junto do peitoral na MLO = quadrante superolateral | Pode estar no superomedial |
| Centrada na papila na MLO = 3 ou 9 horas | Pode estar em qualquer lado · se é lateral na CC, desce no perfil: quadrante inferolateral |
| Ignorar o que aparece numa incidência só | Achado que parece real numa incidência é real até prova em contrário |
Incidências adicionais
| Incidência | Para quê |
|---|---|
| Compressão localizada | Separar tecido sobreposto e acentuar distorção ou margem |
| Ampliação | Caracterizar calcificações (morfologia, número, extensão) |
| Rotacionadas (CC e MLO) | O feixe não muda, só a mama gira · o achado some = sobreposição · o achado que anda junto com a parte de cima da mama está na metade superior; o que anda ao contrário, na inferior |
| Sulco intermamário (cleavage) | As duas mamas juntas, puxadas para a frente: tecido posteromedial e lesões no sulco |
| CC exagerada lateral e Cleópatra | Parte lateral e prolongamento axilar, quando a lesão só aparece na cauda axilar da MLO |
| Tangencial | Pele ou parênquima? Marcador na pele sobre o achado (pela placa fenestrada) e feixe tangente ali · quadrantes superiores pela CC, inferiores pelo perfil · com a tomossíntese é menos necessária |
| Manobra de Eklund | Implante empurrado para trás e tecido puxado para a frente · completa as incidências de rotina, não substitui (perde o tecido posterior) |















Calcificações na tomossíntese
A tomossíntese faz várias projeções num arco e reconstrói cortes: o plano focal fica nítido e o resto borra. A dose vai de pouco menos a mais que o dobro da 2D; a sintetizada (2D reconstruída dos mesmos dados) substitui a 2D e corta 40 a 50% da dose do conjunto. O ganho dos estudos (mais câncer detectado, menos reconvocação) veio das massas, assimetrias e distorções; para calcificações, não houve ganho significativo, e algumas aparecem menos.
| Estudo | Achado |
|---|---|
| Oslo (DBT + 2D × 2D) | Câncer por mil: 9,3 × 6,3 · especificidade 97,5 × 96,4% |
| STORM-2 | Câncer por mil: DBT + sintetizada 8,8 · DBT + 2D 8,5 · só 2D 6,3 |
| TOMMY | Sensibilidade para calcificação dominante: DBT + 2D = 2D = 88% · DBT + sintetizada 85% |
| Conspicuidade | DBT igual ou melhor que a 2D em até 92% dos casos nos estudos mais novos (43% no primeiro) |


| Calcificação | Na tomossíntese |
|---|---|
| Pele | Aparece nos primeiros e nos últimos 3 cortes (onde a pele toca a placa ou o detector) · se a pele não encostava, não aparece ali: incidência tangencial · placa flexível e erro de espessura a jogam mais para dentro |
| Vascular | Trilhos paralelos ao longo do vaso, mais claros na DBT |
| Grosseira (pipoca) | Mais de 3 mm, fibroadenoma involuído · a massa às vezes só aparece na DBT |
| Em anel | Necrose gordurosa, cisto oleoso · a parede fina e a gordura aparecem melhor |
| Leite de cálcio | Em menisco no perfil, redonda e borrada na CC · ampliação em perfil confirma |
| Suspeitas | Amorfas, grosseiras heterogêneas, finas pleomórficas, finas lineares ramificadas · mais visíveis na DBT às vezes · a DBT mostra a distância entre grupos (extensão) |
| Distribuição | Difusa: quase sempre benigna · linear e segmentar: mais câncer (até redondas, assim, são BI-RADS 4) |











| Artefato | O que é |
|---|---|
| Sombra (slinky) | Faixas escuras ao lado de calcificações grandes, na sintetizada |
| Zíper | Repetição fora do plano de calcificação densa ou metal nos cortes |
| Pseudocalcificação | O algoritmo da sintetizada realça ruído · aparece numa incidência só e não na DBT · na dúvida, ampliação |






Biópsia: estereotaxia ou tomossíntese
| Estereotaxia | Guiada por tomossíntese | |
|---|---|---|
| Profundidade | Por triangulação em duas projeções angulares | Direto no corte, sem triangulação |
| Posição | Muitas vezes em decúbito ventral | Em geral sentada |
| Campo | Janela de biópsia restrita | O detector inteiro |
| Resultado | Sucesso de 93% num estudo | 100% e menos da metade do tempo (a maioria das lesões não era calcificação) |
| Limite | Calcificação posterior, difícil de ver nas duas projeções | Calcificações finas ou pouco agrupadas, difíceis de ver na DBT · artefato |
Na tomossíntese também é mais fácil conferir a posição do clipe e ver se ele se deslocou. A estereotaxia continua necessária quando as calcificações são finas demais para a tomossíntese, quando artefato esconde o alvo ou quando é preciso o decúbito ventral.
Pontos de prova: alto rendimento
| DA | Distorção sem massa · 6% das alterações do rastreamento |
| Causa mais comum | Cicatriz cirúrgica |
| DBT | Quase o dobro de DA · VPP 43–50,7% |
| US | Cooper retificado ou dobrado |
| Sem cirurgia | DA é suspeita: biópsia |
| BI-RADS 3 | Nunca para DA |
| DA só na DBT sem US | 19% câncer, lobular |
| Revisão | Compressão localizada, não só ampliação |
| Cicatriz radial | Benigno mais comum, concordante |
| Estrela negra | Não é específica |
| Upgrade | Com atipia 28% · sem 2% |
| Lobular | DA pura |
| In situ | Até 10% como DA pura |
| RM | Não separa cicatriz radial de câncer |
| CC | Medial × lateral |
| Perfil 90° | Superior × inferior |
| MLO | Não diz acima ou abaixo da papila |
| Regra | Medial sobe, lateral desce |
| Central | Não anda |
| Método da linha | MLO no meio, papilas alinhadas |
| Método da distância | Arco centrado na papila |
| MLO | 30–60°, não sempre 45° |
| Rotacionada | Anda com a parte de cima = superior |
| Cleópatra | Cauda axilar |
| Tangencial | Pele × parênquima |
| Eklund | Implante para trás |
| Calcificação na DBT | Sem ganho · procurar nos cortes |
| Pele na DBT | 3 primeiros e 3 últimos cortes |
| BI-RADS 3 cálcio | Redondas, grupo único · 6, 12, 24 meses |
| Sintetizada | Sombra e pseudocalcificação |
| Biópsia por DBT | Sem triangulação · ruim para cálcio fino |
Armadilhas e erros comuns
Erros
- Chamar de cicatriz uma DA sem cirurgia naquele ponto
- Dar BI-RADS 3 para distorção arquitetural
- Desistir da DA porque a ampliação não a reproduziu
- Aceitar benigno discordante na biópsia
- Localizar a lesão só pela MLO
- Procurar no US às 9 horas uma lesão lateral que está abaixo da papila
- Triangular lesão colada na papila
- Confiar na DBT e na sintetizada para todas as calcificações
- Chamar de suspeita a calcificação de pele que não encostou na placa
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6Biópsia por agulha grossa de uma distorção arquitetural mostrou cicatriz radial sem atipia, numa lesão pequena e bem amostrada. Sobre isso, é correto:
Um nódulo aparece na mama direita no mesmo nível da papila na MLO e mais baixo no perfil a 90°. Onde ele provavelmente está?
Assimetria vista só na CC. Na CC rotacionada, ela desaparece. Isso indica que:
Sobre calcificações na tomossíntese com mamografia sintetizada, é correto:
Qual é uma vantagem da biópsia guiada por tomossíntese em relação à estereotaxia?
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