Fontes: Gornik et al, Circulation 2024 · Sibley et al, RadioGraphics 2017
Duas fontes, duas camadas
Os estudos fisiológicos não produzem imagem. Medem pressão, forma de onda e
volume pulsátil, e com isso respondem três perguntas: existe doença arterial
periférica, quão grave ela é e em que nível ela está. A diretriz de 2024 acrescentou
a quarta, que é a que mudou a rotina de quem lauda: vale a pena olhar a anatomia?
a divisão de trabalhoGornik et al, Circulation 2024: a diretriz multissocietária de DAP (doença arterial periférica) de membros
inferiores. Governa a taxonomia (quatro subconjuntos clínicos), os limiares de ITB (índice tornozelo-braquial) e
de ITBH (ITB do hálux), a indicação de cada teste e o momento de pedir imagem.
Sibley et al, RadioGraphics 2017, como o exame é feito e lido: pressões segmentares, ondas
Doppler, registro de volume de pulso, teste de esforço, e a correlação de cada padrão com o nível
da lesão.
Onde divergem, vale a de 2024: é diretriz e é sete anos mais nova.
três divergências que valem pontoITBH: O artigo de 2017 usa < 0,6 como anormal; a diretriz de 2024 fixa
≤ 0,70. O vigente é 0,70.
O nome do terceiro nível: O artigo chama de crural (tibiopedal); a diretriz chama de
infrapoplíteo e inclui explicitamente o tronco tibiofibular, o arco plantar e os vasos do
pé.
Desempenho do ITB: O artigo repete o número clássico de 95% de sensibilidade e 100% de
especificidade; a diretriz, revendo a literatura contra imagem, dá 69% a 79% de
sensibilidade e 83% a 99% de especificidade, com sensibilidade menor no diabetes. Em
prova, o número da diretriz é o defensável.
o que a diretriz declara fora do escopo
A diretriz de 2024 diz de saída que não trata das causas não ateroscleróticas de doença
arterial do membro inferior: vasculite, displasia fibromuscular, síndromes de
aprisionamento, doença cística adventicial e trauma vascular, nem da doença
isolada de pequenos vasos, nem da população pediátrica.
Essas entram neste caderno pelo artigo de 2017, na última seção. É exatamente onde o laboratório
vascular costuma ser pedido para um paciente jovem.
Os quatro subconjuntos
A diretriz de 2024 abandonou a divisão antiga entre claudicação e isquemia crítica
e passou a classificar todo paciente com DAP objetivamente comprovada em quatro subconjuntos
clínicos. A classificação não é decorativa: ela determina a urgência, o teste seguinte e se
haverá imagem.
o que separa CLTI de isquemia aguda é o relógioCLTI (isquemia crônica ameaçadora do membro): sintomas há mais de 2 semanas. Isquemia aguda (ALI): hipoperfusão de até 2 semanas.
E o paciente transita entre os subconjuntos ao longo da doença: uma DAP crônica sintomática
pode deteriorar para CLTI ou para ALI, e pode melhorar depois de tratada.
Subconjunto
O que define
Números da diretriz
DAP assintomática
Não relata sintoma de esforço. Muitos autolimitam a atividade para ficar abaixo do limiar isquêmico; parte considerável passa a ter sintoma num teste de marcha objetivo
20% a 59% dos com DAP comprovada · limitação funcional comparável à da claudicação · risco aumentado de MACE (eventos cardiovasculares adversos maiores), inclusive mortalidade
DAP crônica sintomática
Claudicação ou outro sintoma de esforço não articular: ausente em repouso, aumenta com a intensidade e alivia em cerca de 10 minutos de repouso
Sintoma de esforço em até 80% · apenas cerca de um terço tem claudicação típica: o resto tem sintoma atípico, e limita a marcha do mesmo jeito
CLTI
> 2 semanas de dor isquêmica de repouso, ferida que não cicatriza ou gangrena, atribuídas a doença oclusiva objetivamente comprovada
11% a 20% dos com DAP · mortalidade em 1 ano historicamente 25% a 35% e amputação em até 30% · estadiar por WIfI (Wound, Ischemia, and foot Infection: ferida, isquemia e infecção do pé)
Isquemia aguda
≤ 2 semanas de hipoperfusão que ameaça a viabilidade: dor, palidez, ausência de pulso, poiquilotermia, parestesia e paralisia
1,7% em 30 meses de seguimento (0,8 por 100 pacientes-ano) · classificar por Rutherford
a nomenclatura mudouIsquemia crítica de membro (CLI) saiu; entrou isquemia crônica ameaçadora do membro
(CLTI). A troca é deliberada e diz duas coisas: que a condição é crônica (o que a distingue da isquemia aguda) e que o que está em jogo é o membro.
A dor isquêmica de repouso da CLTI tem assinatura própria: acomete o antepé, piora com a
elevação do membro e alivia com a pendência.
assintomático não quer dizer bem
O paciente com DAP assintomática tem limitação funcional comparável à do paciente com
claudicação: ele apenas ajustou a vida para não chegar ao limiar da dor. E a mortalidade
cardiovascular dele é pior que a de quem tem ITB normal.
Um ITB anormal num paciente que “não sente nada” é achado de risco, não de tranquilidade.
O índice tornozelo-braquial
O ITB é a razão entre a maior pressão sistólica do tornozelo daquela perna (pediosa ou
tibial posterior) e a maior das duas pressões braquiais. Mede-se com manguito e Doppler, no
laboratório vascular ou no consultório. Como adjunto, a onda Doppler contínua ou o PVR (pulse volume recording, o registro de volume de pulso) do tornozelo
confirmam a concordância, e a discordância entre eles é justamente o que levanta a suspeita
de artéria incompressível.
O algoritmo da diretriz de 2024 em uma linha: o ITB de repouso abre três caminhos, e a imagem
anatômica só entra no fim, se houver decisão de revascularizar.
as quatro faixas do laudo padronizado≤ 0,90 anormal · 0,91 a 0,99 limítrofe · 1,00 a 1,40 normal ·
> 1,40 incompressível.
A diretriz recomenda laudar nessas quatro categorias, e não só “normal ou alterado”: é o que
permite comparar o mesmo paciente ao longo do tempo e entre serviços.
Gravidade
ITB
ITBH
Onda Doppler
PVR
Vaso calcificado
> 1,4
não afetado
não interpretável pela pressão
preservado
Normal
0,9 a 1,4
> 0,6
trifásica
normal
DAP leve
0,70 a 0,89
0,34 a 0,59
bifásica
pico já arredondado
DAP moderada
0,51 a 0,69
0,12 a 0,34
bifásica a monofásica
achatado, sem incisura
DAP grave
≤ 0,50
≤ 0,11
monofásica
amplitude muito baixa
Faixas do ITBH como na figura original do artigo: há sobreposição em 0,34 e lacuna entre 0,59 e 0,70.
o que cada extremo dessa tabela significa na práticaDAP leve a moderada costuma cursar com claudicação.
ITB < 0,50 foi associado a doença coronariana mais grave e a mortalidade
aumentada; a DAP grave anda com doença multinível, úlcera que não cicatriza, gangrena e
dor isquêmica de repouso.
E ITBH < 0,11 é o número associado a dor isquêmica de repouso.
rastrear quem, e não rastrear quemRazoável rastrear (2a) com ITB de repouso, com ou sem PVR e onda de tornozelo, quem tem
risco aumentado: idade ≥ 65 anos; 50 a 64 anos com fator de risco para
aterosclerose (diabetes, tabagismo, dislipidemia, hipertensão), doença renal crônica ou história
familiar de DAP; < 50 anos com diabetes e mais um fator; ou doença aterosclerótica já
conhecida em outro leito (coronária, carótida, subclávia, renal, mesentérica ou aneurisma de aorta abdominal).
Não recomendado (classe 3, sem benefício) rastrear quem não está no grupo de risco e não tem
achado de história ou exame físico sugestivo. Abaixo de 50 anos, a prevalência de ITB anormal nos estudos populacionais é de cerca de 1%.
ITB > 1,40 não é bom sinal
Artéria incompressível significa calcificação da média, frequente no diabetes e na doença
renal crônica. O ITB pode vir falsamente elevado acima de 1,4 mesmo com DAP significativa
confirmada por imagem.
Nesse caso, não se pode afirmar nem a presença nem a ausência de doença limitante pelo ITB:
o exame não foi inconclusivo por acaso, ele é inválido naquele território. O passo seguinte
é a pressão de hálux.
Hálux, TcPO₂ e SPP
Há duas situações em que o ITB isolado não resolve: a artéria incompressível e a
suspeita de CLTI. Nas duas, o exame passa para o hálux: as artérias digitais
raramente são incompressíveis, porque a calcificação da média costuma poupar esse calibre.
os limiares do háluxITBH ≤ 0,70 é anormal e fecha o diagnóstico de DAP num paciente com ITB > 1,4 e
história ou exame sugestivos.
Pressão absoluta de hálux < 30 mmHg reflete isquemia grave e associa-se a
amputação maior e a menor chance de cicatrização.
Pelo artigo de 2017, a pressão de hálux acima de 30 mmHg é o mínimo para cicatrização
normal, mas no diabético pode ser preciso 45 a 55 mmHg.
por que o ITB não basta na CLTI
O ITB pode estar entre 0,90 e 1,40 em quase um quarto dos pacientes com CLTI, e
29% têm ITB entre 0,70 e 1,40. A concordância entre ITB e pressão de hálux nesses pacientes
é ruim: apenas 58% dos que têm pressão de hálux anormal se apresentam com ITB
anormal.
Por isso, na suspeita de CLTI é razoável (2a) somar ao ITB a pressão de hálux com ondas, a
TcPO₂ (pressão transcutânea de oxigênio) e/ou a pressão de perfusão cutânea (SPP).
Medida
Limiar
O que responde
ITBH
≤ 0,70 anormal
Existe DAP, mesmo com o ITB inválido
Pressão de hálux
< 30 mmHg = isquemia grave
Risco de amputação e chance de cicatrizar
TcPO₂
> 30 mmHg prediz cicatrização
Perfusão local do leito da ferida
SPP
> 40 mmHg prediz cicatrização
Perfusão local do leito da ferida
sala fria invalida a medida
Pressão de hálux com ondas, TcPO₂ e SPP são obtidas em sala aquecida, para evitar a
vasoconstrição reflexa ao frio. Uma medida feita em sala fria subestima a perfusão e pode
transformar um pé viável em candidato a amputação no papel.
O inverso também existe: vasodilatação induzida por calor reduz a inversão diastólica da
onda Doppler e apaga a incisura dicrótica do PVR.
ferida que não cicatriza com perfusão normal não é DAP
Se a avaliação de perfusão vier normal diante de uma ferida que não fecha, a diretriz manda
procurar outro diagnóstico: úlcera venosa (distal, sobretudo acima do maléolo
medial, tipicamente úmida), neuropática (nas zonas de pressão, com hiperceratose ao redor),
infecciosa, inflamatória (pioderma gangrenoso, necrobiose lipoídica),
autoimune, neoplásica, por medicamento ou por lesão local.
O teste de esforço
A razão do teste de esforço é hemodinâmica, e o artigo de 2017 a explica com números. Uma
estenose que reduz o raio do vaso em 50% produz redução de 16 vezes no fluxo.
Só que o efeito depende da velocidade: em repouso, a velocidade na femoral é de cerca de
20 cm/s, e seria preciso uma redução de 90% do raio para que a lesão fosse
hemodinamicamente importante. No exercício, a velocidade sobe até 150 cm/s, e aí uma
estenose de 50% já compromete o fluxo.
É por isso que existe teste de esforço: ele desloca o paciente para o regime de velocidade em
que a lesão se manifesta.
quem faz esforço, e para quêClasse 1: suspeita de DAP crônica sintomática (sintoma de esforço não articular) com ITB
de repouso normal ou limítrofe (> 0,90 e ≤ 1,40), esteira para diagnosticar.
Classe 2a: DAP já confirmada com ITB anormal (≤ 0,90), esteira para medir estado funcional, tempo até o sintoma, natureza do sintoma e tempo máximo de marcha. Serve de linha de
base para avaliar resposta ao tratamento clínico, ao exercício estruturado e à
revascularização.
Etapa
Como se faz
Protocolo
Esteira a 3,22 km/h (2 mph) com inclinação de 10% a 12%, por 5 minutos ou até o sintoma aparecer
Quando medir
ITB imediatamente após o esforço e a cada minuto até voltar ao valor pré-exercício. A diretriz descreve a medida entre 1 e 5 minutos após
O que é positivo
Queda do ITB maior que 0,2 após o esforço indica DAP
O tempo de retorno
Normal: volta ao basal em até 2 minutos · 2 a 6 min: doença de segmento único · 6 a 12 min: doença multissegmentar · > 15 min: tipicamente dor de repouso
Estenose ilíaca no teste de esforço, homem de 53 anos com claudicação à esquerda
Esforço em esteira: em repouso, ITB de 1,07 à direita e 0,71 à esquerda; o ITB esquerdo cai para 0,34 1 minuto depois do exercício (seta) e volta ao basal em 4 minutos (ponta de seta). O direito fica estável.Reconstrução 3D: estenose focal grave da ilíaca externa esquerda (ponta de seta).
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 8. Ver artigo
duas armadilhas do esforçoInsuficiência cardíaca descompensada produz ondas amortecidas após o exercício:
o achado é cardíaco, não arterial periférico.
E o paciente que não consegue andar na esteira não fica sem diagnóstico: é uma das
situações em que a diretriz admite imagem não invasiva (2b) para estabelecer a presença de
DAP.
Pressões segmentares
Com manguitos em série (3 ou 4 da coxa ao tornozelo pela diretriz; braço, coxa alta, acima do joelho, abaixo do joelho, tornozelo e hálux pelo artigo), mede-se a pressão sistólica em cada nível e comparam-se os gradientes. É razoável (2a) somar pressões segmentares com PVR
e/ou ondas Doppler ao ITB de repouso na DAP crônica sintomática, para localizar o nível da
doença.
os três critérios de anormalidade1. Queda proximal para distal em pressões sequenciais maior que 20 mmHg. 2. Queda do índice segmentar-braquial maior que 0,15. 3. Diferença maior que 30 mmHg no mesmo nível, entre o lado direito e o
esquerdo.
Qualquer um deles indica doença oclusiva, e a posição do gradiente marca o nível da
lesão.
erros de técnica que inventam doençaLargura do manguito: a bolsa deve ter 40% da circunferência do membro, ou ser
20% mais larga que o diâmetro. Manguito estreito demais superestima a pressão.
Sobre stent ou enxerto: pressões segmentares não devem ser tentadas no nível de um
stent previamente colocado ou de um enxerto de bypass.
Tolerância: o paciente com isquemia de membro raramente tolera a medida de pressão
no membro afetado.
o gradiente é do nível, não do vaso
O gradiente diz entre quais manguitos está a obstrução: aortoilíaca, femoropoplítea ou
infrapoplítea. Ele não define a lesão. A diretriz é explícita: a definição precisa de
localização, gravidade e características da lesão exige imagem. O estudo segmentar é
relevante justamente quando conhecer o nível muda a conduta: por exemplo, ao considerar
revascularização.
Ondas Doppler e PVR
A onda Doppler vem de um detector de velocidade de onda contínua, que capta o desvio
Doppler do som refletido nas hemácias em movimento; no duplex, o componente modo B permite colocar
o ângulo corretamente, entre 30° e 70°. O PVR é outra coisa: é o gráfico da variação
pulsátil do volume do membro sob pressão padrão constante, adquirido com os mesmos
manguitos da pressão segmentar.
As três formas de onda Doppler e os dois padrões de PVR. A deterioração da onda ao longo da
árvore arterial é que marca o nível da lesão.
a onda normal tem três componentesTrifásica: subida abrupta com pico sistólico agudo; componente diastólico precoce com
inversão do fluxo; componente diastólico tardio com fluxo anterógrado.
Bifásica: anormal quando há transição clara a partir de um sinal trifásico ao longo
da árvore arterial.
Monofásica: sempre anormal.
por que a onda perde os componentes nessa ordem
Com a aterosclerose, perde-se o recuo elástico e muscular da parede, e com ele o fluxo
anterógrado do fim da diástole. A onda vira bifásica.
Na DAP grave, perde-se a resistência vascular a jusante, e com ela a inversão diastólica
precoce. A onda vira monofásica.
Consequência prática: na ausência de obstrução adicional, um sinal distal a uma onda
anormal pode normalizar. Não se lauda um segmento pela onda de outro.
PVR
Como é
Normal
Subida rápida, pico agudo, incisura dicrótica presente e componente diastólico tardio côncavo para cima
Anormal
Amplitude reduzida, pico achatado ou arredondado, incisura dicrótica ausente e componente distal côncavo para baixo
Limiar
Amplitude menor que 5 mm do vale ao pico tem sido usada como critério de claudicação vascular
Entre dois níveis
Mudança abrupta de amplitude e de contorno indica oclusão entre os dois níveis
o par das duas curvas data a oclusão
Este é o achado mais elegante do artigo, e o que mais rende em prova.
Na trombose aguda, a onda Doppler e o PVR estão ambos ausentes ou
reduzidos.
Na oclusão crônica, com colaterais já desenvolvidas, o PVR fica relativamente
preservado em relação à onda Doppler, porque o volume pulsátil chega pela colateral ainda que
o sinal de velocidade da artéria nativa tenha sumido.
Ou seja: PVR melhor do que a onda faria supor é sinal de cronicidade.
o que corrompe cada uma das curvasOnda Doppler: dependência do operador; menor acurácia no segmento aortoilíaco por
obesidade ou gás intestinal; tempo longo de exame; vasodilatação por calor reduz a inversão
diastólica precoce; insuficiência cardíaca descompensada amortece as ondas após o
esforço.
PVR: sofre com débito cardíaco, tônus vasomotor, movimento do
paciente e estenose aórtica. Por isso a comparação lateral e sequencial é
imperativa: o valor absoluto de um PVR isolado não significa quase nada. O calor também apaga a
incisura dicrótica.
A diretriz registra que uma nomenclatura padronizada para as ondas Doppler das artérias do
membro inferior foi proposta recentemente: vale conferir o padrão do serviço antes de laudar por
“tri, bi e monofásica”.
Onde está a lesão
Localizar é a segunda função do laboratório vascular. A DAP pode acometer um segmento isolado
ou distribuir-se em vários: numa série de 626 pacientes submetidos a angiografia, 64% tinham
doença multissegmentar e 22% tinham doença nos três segmentos. E o fator de
risco prediz o território: o diabetes associa-se a maior incidência de doença nos segmentos
crurais; o tabagismo, à doença aortoilíaca.
Os três níveis e a assinatura fisiológica de cada um. A diretriz de 2024 acrescenta a divisão
funcional: inflow é o que está proximal à femoral superficial; outflow, o que está
distal a ela.
a claudicação leve e a grave não são a mesma doençaClaudicação leve tipicamente vem de doença de segmento único, com circulação
colateral desenvolvida.
Claudicação grave e isquemia crítica associam-se a doença multinível.
Nível
Claudicação
Pulsos
Onda e PVR
Aortoilíaco
Nádega, quadril ou coxa; dificuldade de deambular por dor e fraqueza
Um ou ambos os femorais diminuídos
Onda femoral tipicamente bi ou monofásica; PVR de coxa alta anormal, indicando doença proximal
Femoropoplíteo
Coxa e panturrilha. Panturrilha nos dois terços superiores aponta femoral superficial; no terço inferior, poplítea
Femorais normais, distais diminuídos
Onda femoral pode ser tri, bi ou monofásica conforme o nível; poplítea, tibial posterior e pediosa anormais. PVR de coxa alta tipicamente normal; acima e abaixo do joelho e no tornozelo, anormais
Infrapoplíteo (crural)
Claudicação de pé é incomum na DAP, e quando existe é tipicamente destes vasos
Distais ausentes ou não palpáveis
As ondas deterioram do nível poplíteo para tibial posterior, pediosa e digital. PVR abaixo do joelho e acima do tornozelo anormais
Doença aortoilíaca, homem de 59 anos com claudicação bilateral depois de andar um quarteirão
Laudo: PVR alargados, sem a incisura dicrótica e com a parte final da diástole côncava para baixo. ITB de 0,52 à direita e 0,77 à esquerda.Angiografia pélvica: doença aortoilíaca, pior à direita, com circulação colateral por uma artéria lombar direita aumentada (seta preta) para a iliolombar direita (ponta de seta); sacral lateral direita (seta branca), com colateral para a contralateral.Angiografia depois dos stents ilíacos em kissing: ilíacas pérvias. Pontas de seta = extremidades dos stents.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 4. Ver artigo
Quase oclusão da femoral comum, mulher de 71 anos com claudicação à direita ao caminhar
Laudo: ITB de 0,68 com ondas monofásicas à direita e 1,00 com ondas trifásicas à esquerda.Angiografia do membro inferior direito: quase oclusão da femoral comum; femoral superficial, poplítea e artérias distais sem alterações.Angiografia depois da endarterectomia da femoral comum direita.Antes e depois do tratamento: o ITB passa de 0,68 a 1,02 e a onda, de monofásica a trifásica.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 6. Ver artigo
síndrome de Leriche
A tríade clássica da oclusão aortoilíaca, descrita por René Leriche em 1923: claudicação
de nádega ou coxa + disfunção erétil + pulsos femorais diminuídos ou
ausentes.
As colaterais que se desenvolvem são reconhecíveis: sistêmico-sistêmicas ligando
intercostais, lombares e iliolombares às epigástricas inferiores e circunflexas ilíacas profundas;
víscero-viscerais entre tronco celíaco, mesentérica superior, mesentérica inferior e retal
superior; e, raramente, gonadais, com a artéria gonadal suprindo a epigástrica
inferior.
Oclusão da aorta infrarrenal, homem de 64 anos fumante com claudicação de nádegas, coxas, panturrilhas e pés e disfunção erétil
Laudo: ITB de 0,48 à direita e 0,39 à esquerda, com ondas Doppler bifásicas em todos os níveis, dos dois lados.Angio-TC: aorta infrarrenal ocluída (seta), a síndrome de Leriche.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 5. Ver artigo
o ITB pode passar por cima da doença crural distal
O ITB é calculado com a maior pressão do tornozelo: pediosa ou tibial posterior.
Se a tibial posterior está pérvia e a tibial anterior está ocluída, o ITB sai normal.
O artigo traz o caso: mulher de 43 anos com descoloração do primeiro ao terceiro pododáctilos
esquerdos, ITB de 1,27 pela tibial posterior com onda trifásica, e onda monofásica
a bifásica na pediosa, sem onda discernível no dedo. A angiografia mostrou oclusão da
tibial anterior.
Moral: o ITB isolado é insuficiente onde o problema é distal e focal. As ondas e as
pressões digitais é que salvam o laudo.
Oclusão da tibial anterior com ITB normal, mulher de 43 anos com escurecimento do 1º ao 3º dedos esquerdos há uma semana
Laudo: ITB normal na tibial posterior (1,27, onda trifásica), mas onda monofásica e bifásica na pediosa e nenhuma onda no dedo.Angiografia do membro inferior esquerdo: tibial posterior (PT) normal e tibial anterior (AT) ocluída na altura de uma placa de fixação da fíbula.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 7. Ver artigo
Quando pedir imagem
Este é o ponto em que a diretriz de 2024 reposicionou o radiologista. Duplex, angio-TC,
angio-RM e arteriografia deixaram de ser exame inicial na investigação de DAP. Elas entram
quando há decisão de revascularizar, e a pergunta que o exame responde não é “tem doença?”,
mas “por onde se trata?”.
Classe
Situação
Conduta
1
Claudicação funcionalmente limitante com resposta inadequada ao tratamento clínico otimizado, incluindo exercício estruturado, e revascularização em consideração
Duplex, angio-TC, angio-RM ou arteriografia: para avaliar anatomia e gravidade e definir a estratégia
1
CLTI
Duplex, angio-TC, angio-RM ou arteriografia: para definir a estratégia de revascularização
2b
Suspeita de DAP com ITB e testes fisiológicos inconclusivos
Imagem não invasiva pode ser considerada para estabelecer o diagnóstico
3: dano
DAP já confirmada, sem revascularização em consideração
Angio-TC, angio-RM ou arteriografia não devem ser feitas apenas para avaliação anatômica
as duas situações em que a inconclusão justifica imagem
A diretriz nomeia duas: o paciente com ferida que não cicatriza e vasos
incompressíveis, em que o teste fisiológico fica não diagnóstico; e o paciente com sintoma
de esforço que não consegue fazer o teste de esteira.
Nos dois, a decisão é individual, e a imagem pesa sobretudo se estabelecer o diagnóstico for mudar o tratamento.
Modalidade
A favor
Contra
Duplex
Sem radiação e sem contraste
Dependente do operador; exige pessoal treinado e tempo dedicado para varrer todas as artérias do membro; menor resolução espacial que TC e RM
Angio-TC
Melhor resolução espacial; menos dependente de pessoal
Contraste iodado e radiação
Angio-RM
Melhor resolução espacial; sem radiação
Gadolínio: algumas formulações são contraindicadas na disfunção renal grave pelo risco de fibrose sistêmica nefrogênica
Arteriografia
Permite tratar na mesma sessão; em doença renal crônica avançada, a dose de contraste pode ser menor que a exigida por uma angio-TC
Radiação, contraste, lesão arterial e sangramento do sítio de punção
a angio-RM sem contraste
A diretriz destaca que sequências de angio-RM sem contraste, com alta resolução espacial
e capacidade de mostrar vasos infrapoplíteos e pedais, emergiram como modalidade promissora
para a DAP. É a saída natural para o paciente renal em que nem iodo nem gadolínio são
bem-vindos.
o erro de fluxo mais comum
Pedir angio-TC para “avaliar a extensão” de uma DAP que está sendo tratada clinicamente. Na
DAP assintomática e na crônica sintomática manejada com tratamento clínico e exercício, não há
necessidade de definir a anatomia arterial, e o risco do exame supera qualquer
benefício potencial. É a única recomendação classe 3: dano desta seção.
Isquemia aguda
A isquemia aguda de membro é definida por até 2 semanas de hipoperfusão que ameaça
a viabilidade. O tempo é o eixo de tudo: o músculo esquelético tolera cerca de 4 a 6 horas
de isquemia. A avaliação inicial é clínica e feita com um Doppler de onda contínua de mão à beira do leito, porque a palpação de pulso é imprecisa nesse cenário e porque só o
Doppler identifica o sinal venoso.
As quatro categorias de Rutherford. O que separa IIb de III não é a dor, é o sinal venoso (presente no membro salvável, ausente no irreversível).
os dois sinais que definem a categoria
A perda do sinal arterial ao Doppler contínuo indica que o membro está ameaçado.
A ausência dos dois sinais (arterial e venoso) indica membro possivelmente
irreversível (categoria III) e não salvável.
quando pedir imagem na isquemia aguda
Na maioria dos casos o tratamento é implementado sem duplex, angio-TC ou angio-RM
adicionais: classe 1 para avaliar sem imagem não invasiva.
A exceção é classe 2b: paciente com história complicada de revascularizações
prévias, em que a imagem pode ser razoável antes de decidir. A diretriz cita ainda a suspeita
de dissecção aórtica como circunstância que altera estratégia e momento.
Comorbidades devem ser identificadas e tratadas agressivamente, mas sem atrasar a
terapia.
Grupo
Causas de isquemia aguda
DAP subjacente
Trombose sobre estenose arterial · embolização artéria-artéria · trombose de enxerto de bypass prévio · trombose de stent
Cardioembólica
Fibrilação atrial (trombo no átrio ou apêndice) · outro trombo intracardíaco (trombo de VE (ventrículo esquerdo) em cardiomiopatia) · endocardite infecciosa · valvopatia (estenose mitral) · shunt intracardíaco, com embolia paradoxal por forame oval patente
Vascular
Iatrogênica ou relacionada ao sítio de acesso (pós-punção femoral) · dissecção aórtica ou arterial · trauma arterial · tromboembolismo a partir de aneurisma, tipicamente da poplítea · aprisionamento da artéria poplítea
Trombofilia
Síndrome do anticorpo antifosfolípide · trombocitopenia induzida por heparina · trombose arterial associada a câncer
Terapia oncológica
Quimioterapia à base de platina · inibidores de tirosina-quinase
Pró-inflamatória
Vasculite · sepse · doença viral, incluindo covid-19
quem faz isquemia aguda por DAP
Entre pacientes com DAP, a taxa de isquemia aguda é de 0,8% a 1,7%. A maioria dos que
fazem isquemia aguda atribuível à DAP tem história de revascularização prévia de membro
inferior, de amputação, ou ITB basal ≤ 0,60.
Daí a regra da diretriz: em todo paciente com isquemia aguda, colher história dirigida sobre
DAP conhecida e procedimentos prévios.
a reperfusão também machuca
Depois de revascularizar, o risco muda de nome: síndrome compartimental por lesão de
reperfusão. O mecanismo é a liberação de radicais livres de oxigênio, que tornam o capilar
permeável e elevam a pressão do compartimento.
Ao contrário do trauma, na isquemia aguda a pressão compartimental não costuma estar elevada
na apresentação: ela sobe depois da reperfusão. A perna é de longe o sítio mais comum,
embora a coxa também possa. Monitorar e fazer fasciotomia é classe 1; nas categorias
IIa e IIb, a fasciotomia profilática é razoável (2a).
Detalhe contraintuitivo: períodos curtos de isquemia podem ser mal tolerados por quem não
tinha DAP prévia, enquanto períodos longos podem causar menos lesão celular em quem já tinha
DAP e colaterais.
O que imita DAP
Duas listas fecham o caderno, e são de naturezas opostas. A primeira é a dos quadros que
doem como claudicação mas dão teste fisiológico normal: é a lista que justifica ter
feito o exame. A segunda é a das doenças que dão estudo anormal sem serem aterosclerose: é
a lista que impede o laudo preguiçoso.
Condição
Onde dói
O que denuncia
Artrose do quadril
Quadril lateral e coxa
Desconforto em dor surda após esforço variável; não alivia rápido com o repouso; melhora ao não descarregar peso
Artrose de tornozelo e pé
Tornozelo, pé, arco
Pode estar presente em repouso; não alivia rápido; melhora sem descarga de peso
Compressão radicular
Irradia pela perna
Dor lancinante, provocada por sentar, ficar em pé ou andar; frequentemente presente em repouso; melhora com mudança de posição
Estenose espinhal
Nádegas e perna posterior, em geral bilateral
Imita claudicação. Dor e fraqueza, alívio variável e demorado; alivia com flexão da coluna lombar; piora ao ficar em pé e estender a coluna
Cisto de Baker sintomático
Atrás do joelho, descendo pela panturrilha
Inchaço e dor à palpação; presente também em repouso; não é intermitente
Claudicação venosa
Perna inteira, pior na panturrilha
Dor de aperto e estouro; alívio lento, acelerado pela elevação; história de trombose iliofemoral, edema, estase venosa
Síndrome compartimental crônica
Musculatura da panturrilha
Dor de aperto e estouro após esforço intenso (corrida); alívio muito lento; atleta musculoso
diferença de pressão entre os braços
Diferença maior que 20 mmHg entre as pressões braquiais obriga a investigar estenose
de subclávia, compressão extrínseca do suprimento do membro superior e dissecção
aórtica. O artigo traz o caso de um homem de 59 anos com dor bilateral no quadril ao andar e
diferença de 27 mmHg entre os braquiais: a angio-TC mostrou estenose grave da subclávia
esquerda.
E lembre que o ITB usa a maior das duas braquiais como denominador justamente para não ser
falseado por uma subclávia doente.
Diferença de pressão entre os braços e artéria incompressível, em dois pacientes
Estenose de subclávia, homem de 59 anos com dor nos quadris ao caminhar. Laudo: diferença de 27 mmHg entre as pressões braquiais, maior à direita.Angio-TC do mesmo paciente: estenose grave da subclávia esquerda (seta).Fístula arteriovenosa fibular, homem de 65 anos com gangrena do 2º e 3º dedos esquerdos. Laudo: pressões sistólicas não mensuráveis por artérias calcificadas e incompressíveis; ondas monofásicas em todo o membro esquerdo.Angiografia do mesmo paciente: fístula arteriovenosa da fibular com enchimento venoso precoce, tibial anterior (AT) ocluída na origem, tibial posterior (PT) e fibular; à direita, as veias de drenagem numa fase mais tardia.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Figs. 9, 10. Ver artigo
Não aterosclerótica
Como se apresenta no laboratório vascular
Fístula arteriovenosa
Adquirida, conecta fluxo arterial diretamente a uma veia. O impacto funcional do shunt é o que os estudos fisiológicos medem
Arterite de Takayasu
Vasculite crônica, mais comum em mulheres asiáticas. Acomete aorta e ramos primários; as lesões iniciais são frequentemente na subclávia, com queda das pressões braquiais, e o ITB pode vir falsamente muito alto (o caso do artigo: 2,04 e 2,11)
Tromboangeíte obliterante
Doença de Buerger: vasos pequenos e médios das extremidades, jovem tabagista. Pode dar ITB baixo, mas ITB normal não exclui: a doença pode ser limitada ao distal, e então são as pressões digitais e os PVRs que mostram a queda. Se há membro superior, medir índice punho-braquial. Na angiografia, as colaterais em saca-rolhas
Outras
Coarctação da aorta · aprisionamento da artéria poplítea · doença cística adventicial · endofibrose da ilíaca · displasia fibromuscular · síndrome mesoaórtica idiopática
Arterite de Takayasu, mulher de 23 anos com tontura, claudicação de braço e dispneia
Laudo: ITB muito elevados, 2,04 à direita e 2,11 à esquerda: as pressões braquiais estão baixas pela doença das subclávias.Angio-RM da aorta em projeção de intensidade máxima: irregularidade do tronco braquiocefálico (RBC), oclusão da carótida comum esquerda (LCC) e irregularidade e oclusão da subclávia esquerda (LS) (pontas de seta).
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 11. Ver artigo
o tabagista jovem com estudo anormal
Como o tabagismo é fator de risco tanto para DAP quanto para tromboangeíte obliterante,
o artigo recomenda usar os estudos fisiológicos justamente para excluir lesão proximal
concomitante nesses pacientes, e não para escolher entre um diagnóstico e o outro.
E vale a mesma cautela do início do caderno: a diretriz de 2024 não cobre nenhuma dessas
entidades. Quem manda aqui é o artigo de 2017 e a literatura específica de cada uma.
Tromboangiite obliterante, mulher de 45 anos fumante com dor em repouso nos dois membros inferiores e ferida no pé direito
Laudo do membro inferior direito: ITB de 1,00 e onda monofásica na tibial posterior.Angiografia: tibial anterior (AT) ocluída na panturrilha distal, com colaterais em saca-rolhas típicas (ponta de seta). Segmentos aortoilíaco e femoropoplíteo normais; tibial posterior e fibular ocluídas na origem.
Fonte: Sibley RC et al. RadioGraphics 2017;37(1):346–357, Fig. 12. Ver artigo
Subclávia · pressões braquiais baixas · ITB falsamente alto (a pressão braquial baixa reduz o denominador)
Buerger
Jovem tabagista · ITB normal não exclui · pressões digitais e PVR · colaterais em saca-rolhas
Armadilhas e erros comuns
Erros de medida
Laudar ITB só como normal ou alterado, sem as quatro faixas padronizadas
Dividir pela braquial do lado examinado em vez da maior das duas
Usar a pediosa quando a tibial posterior tem pressão maior: o ITB é a maior das duas
Manguito estreito demais: a bolsa precisa de 40% da circunferência do membro
Medir pressão segmentar sobre stent ou enxerto
Fazer pressão de hálux, TcPO₂ ou SPP em sala fria
Erros de interpretação
Tratar ITB > 1,40 como resultado tranquilizador: ele é inválido, não normal
Dizer que ITB normal exclui DAP: perde doença crural distal e não exclui Buerger
Concluir doença por uma onda bifásica isolada, sem transição a partir de trifásica ao longo da árvore
Laudar um segmento pela onda de outro: distal a uma lesão a onda pode normalizar
Ler PVR isolado sem comparação lateral e sequencial
Atribuir ondas amortecidas pós-esforço à DAP num paciente com insuficiência cardíaca descompensada
Chamar de DAP grave um paciente cuja perda de amplitude vem de estenose aórtica ou baixo débito
Erros de conduta
Pedir angio-TC em DAP confirmada sem plano de revascularizar (classe 3: dano)
Rastrear com ITB quem não tem risco aumentado nem achado sugestivo
Não fazer esforço num claudicante com ITB de repouso de 0,95
Ficar no ITB diante de ferida que não cicatriza, sem pressão de hálux e perfusão local
Pedir imagem na isquemia aguda e atrasar a revascularização
Concluir que uma ferida com perfusão normal é DAP: a diretriz manda buscar outra causa
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Homem de 68 anos, diabético e em hemodiálise, com úlcera no antepé que não cicatriza há dois meses. O ITB de repouso é de 1,52 à direita. Qual o passo seguinte?
Um ITB maior que 1,40 é laudado como incompressível, e isso não é erro de técnica nem sinônimo de normalidade: reflete calcificação da média, frequente exatamente no perfil deste paciente (diabetes e doença renal crônica). A diretriz de 2024 é explícita: o ITB pode vir falsamente elevado acima de 1,4 mesmo com DAP significativa confirmada por imagem. Nesse território o exame não é inconclusivo, é inválido.
O passo seguinte é classe 1: pressão de hálux com ondas. As artérias digitais raramente são incompressíveis, porque a calcificação da média costuma poupar esse calibre. O limiar vigente é ITBH ≤ 0,70: atenção, porque o artigo de 2017 ainda usa < 0,6, e é a diretriz que manda.
Como há ferida que não cicatriza, o caso é de suspeita de CLTI, e aí é razoável (2a) somar TcPO₂ e/ou pressão de perfusão cutânea: TcPO₂ acima de 30 mmHg ou SPP acima de 40 mmHg predizem cicatrização, e pressão absoluta de hálux abaixo de 30 mmHg indica isquemia grave. Tudo isso em sala aquecida.
A imagem anatômica não é o passo inicial nem aqui: ela entra depois, para planejar revascularização, e a diretriz lembra que, na doença renal avançada, a arteriografia diagnóstica pode expor a menos contraste que a angio-TC.
Homem de 62 anos, tabagista, com dor em panturrilha reprodutível após dois quarteirões e alívio em poucos minutos de repouso. O ITB de repouso é de 0,96 bilateralmente. Qual a conduta?
O valor de 0,96 cai na faixa limítrofe (0,91 a 0,99). Diante de sintoma de esforço não articular com ITB de repouso normal ou limítrofe (> 0,90 e ≤ 1,40), a diretriz de 2024 recomenda em classe 1 o ITB de esforço em esteira.
A razão é hemodinâmica, e o artigo de 2017 a quantifica. Uma estenose que reduz o raio em 50% reduz o fluxo em 16 vezes, mas o efeito depende da velocidade: em repouso a femoral corre a cerca de 20 cm/s, e seria preciso reduzir 90% do raio para que a lesão pesasse; no exercício a velocidade sobe até 150 cm/s, e aí 50% já compromete o fluxo. O esforço leva o paciente ao regime em que a lesão aparece.
Protocolo: esteira a 3,22 km/h com inclinação de 10% a 12%, por 5 minutos ou até o sintoma; ITB imediatamente após e a cada minuto até voltar ao basal. Queda maior que 0,2 indica DAP. O tempo de retorno ainda localiza: até 2 minutos é normal, 2 a 6 sugere doença de segmento único, 6 a 12 doença multissegmentar e mais de 15 costuma acompanhar dor de repouso.
O duplex não é exame inicial: imagem anatômica só entra se houver claudicação limitante refratária ao tratamento clínico, ou CLTI. E a pressão de hálux tem indicação classe 1 quando o ITB é maior que 1,40, não na faixa limítrofe.
Numa perna com oclusão femoropoplítea, qual combinação de achados aponta para oclusão crônica, já colateralizada, e não para trombose aguda?
É o achado mais elegante do artigo de 2017: interpretar o par das duas curvas permite datar a oclusão.
Na trombose aguda, a onda Doppler e o PVR estão ambos ausentes ou reduzidos: não houve tempo de desenvolver colateral.
Na oclusão crônica, com colaterais desenvolvidas, o PVR fica relativamente preservado em relação à onda Doppler. O PVR mede variação pulsátil de volume do segmento, e esse volume continua chegando pela colateral mesmo quando o sinal de velocidade da artéria nativa desapareceu. Um PVR melhor do que a onda faria supor é sinal de cronicidade.
As demais combinações não se sustentam. Onda trifásica preservada não convive com oclusão do segmento: a onda perde primeiro o fluxo diastólico tardio (fica bifásica, por perda do recuo elástico) e depois a inversão (fica monofásica, por perda da resistência vascular distal). Incisura dicrótica é achado de PVR normal; ela desaparece na doença, e também desaparece por vasodilatação induzida por calor, o que é armadilha à parte. E amplitude acima de 5 mm com onda bifásica descreve um estudo pouco alterado: o limiar de menos de 5 mm do vale ao pico é que tem sido usado como critério de claudicação vascular.
Pressões segmentares à direita: braquial 150, coxa alta 148, acima do joelho 116, abaixo do joelho 110 e tornozelo 106 mmHg. O PVR de coxa alta é normal; a onda femoral é trifásica, e poplítea, tibial posterior e pediosa são monofásicas. Onde está a doença?
O gradiente entre coxa alta e acima do joelho é de 32 mmHg: acima do critério de queda proximal para distal maior que 20 mmHg em pressões sequenciais. Os demais degraus (116 → 110 → 106) são pequenos. A obstrução está, portanto, entre esses dois manguitos: segmento femoropoplíteo, tipicamente a femoral superficial.
Os dois achados que excluem doença de entrada são característicos e caem em prova. No femoropoplíteo, o PVR de coxa alta é tipicamente normal e os pulsos femorais são normais; no aortoilíaco é o contrário: PVR de coxa alta anormal, femorais diminuídos e onda femoral já bi ou monofásica.
As ondas distais monofásicas não localizam a lesão abaixo do joelho: a deterioração da onda marca o nível a partir do qual a doença age, e tudo que está a jusante de uma lesão femoropoplítea sofre. O artigo lembra, aliás, que distal a uma onda anormal o sinal pode até normalizar se não houver obstrução adicional: nunca se lauda um segmento pela onda de outro.
Vale reter os outros dois critérios de anormalidade das pressões segmentares: queda do índice segmentar-braquial maior que 0,15 e diferença maior que 30 mmHg no mesmo nível entre os lados.
Mulher de 70 anos com DAP e ITB de 0,74. A claudicação melhorou com exercício estruturado e tratamento clínico otimizado, e não há consideração de revascularização. O clínico solicita angiotomografia “para conhecer a extensão da doença”. Qual a conduta correta?
Esta é a mudança de arcabouço que mais afeta a rotina de quem lauda. Na diretriz de 2024, imagem anatômica deixou de ser exame inicial na DAP: ela entra para planejar revascularização.
A recomendação aqui é classe 3: dano. Em paciente com diagnóstico de DAP confirmado em quem não se cogita revascularizar, angio-TC, angio-RM ou arteriografia não devem ser realizadas apenas para avaliação anatômica. O texto de apoio é direto: não há necessidade de definir a anatomia arterial, e o risco supera qualquer benefício potencial.
Repare que a recomendação nomeia angio-TC, angio-RM e arteriografia. O duplex não está nessa lista, mas a alternativa que o propõe erra no destino: revascularizar claudicação que respondeu ao tratamento clínico não é conduta da diretriz. Imagem é classe 1 em duas situações: claudicação funcionalmente limitante com resposta inadequada ao tratamento clínico otimizado e revascularização em consideração; e CLTI.
A angio-RM sem contraste é destacada como modalidade promissora para os vasos infrapoplíteos e pedais, e a arteriografia realmente pode significar menos contraste que a angio-TC na doença renal avançada, mas as duas coisas valem quando há indicação de imagem. Aqui não há.
Homem de 71 anos com fibrilação atrial, dor súbita e intensa na perna direita há 6 horas. Há perda sensitiva além dos pododáctilos e fraqueza leve à dorsiflexão. Ao Doppler de onda contínua de mão: sinal arterial inaudível no pé, sinal venoso audível. Como classificar e o que fazer?
O quadro é isquemia aguda (hipoperfusão de até 2 semanas que ameaça a viabilidade), e a fonte embólica provável é a fibrilação atrial, primeira das causas cardioembólicas da lista da diretriz.
A categoria sai de dois eixos, e ambos aparecem no enunciado. Déficit: perda sensitiva além dos pododáctilos com fraqueza motora leve a moderada define IIb; se a perda fosse limitada aos dedos e não houvesse déficit motor, seria IIa. Doppler: arterial inaudível com venoso audível confirma IIb, porque a perda do sinal arterial indica membro ameaçado, e é a ausência dos dois sinais que caracteriza o membro irreversível (III) e não salvável. Como o venoso está audível, não é III.
O relógio manda: o músculo esquelético tolera cerca de 4 a 6 horas de isquemia. Por isso a avaliação inicial é clínica e com Doppler de mão à beira do leito (a palpação de pulso é imprecisa nesse cenário) e o tratamento é implementado sem duplex, angio-TC ou angio-RM adicionais. A imagem antes de revascularizar é classe 2b, reservada a quem tem história complicada de revascularizações prévias, ou em circunstâncias como suspeita de dissecção aórtica.
Depois de reperfundir, o próximo risco é a síndrome compartimental: nas categorias IIa e IIb a fasciotomia profilática é razoável (2a), e monitorar e operar o compartimento é classe 1.
Fontes. [A] Gornik HL, Aronow HD, Goodney PP, et al. 2024 ACC/AHA/AACVPR/APMA/ABC/SCAI/SVM/SVN/
SVS/SIR/VESS Guideline for the Management of Lower Extremity Peripheral Artery Disease.
Circulation. 2024;149(24):e1313–e1410. doi:10.1161/CIR.0000000000001251 [B] Sibley RC 3rd, Reis SP, MacFarlane JJ, Reddick MA, Kalva SP, Sutphin PD.
Noninvasive Physiologic Vascular Studies: A Guide to Diagnosing Peripheral Arterial Disease.
RadioGraphics. 2017;37(1):346–357. doi:10.1148/rg.2017160044
A taxonomia, os limiares de ITB e ITBH, as classes de recomendação, a seção de
imagem e a de isquemia aguda vêm de [A]: Tabelas 2, 4, 5, 7, 8 e 20 e Figuras 2 e 8. A
técnica dos estudos fisiológicos, a graduação de gravidade, o protocolo de esforço, a
correlação por nível anatômico e as causas não ateroscleróticas vêm de [B], inclusive da
Figura 2 do artigo.
Onde as duas divergem (ITBH, nomenclatura do terceiro nível e desempenho do ITB) o caderno segue
[A] e assinala a divergência na abertura.
A diretriz [A] tem errata publicada em 2025 (Circulation 2025;151(14), doi:10.1161/CIR.0000000000001329). Os diagramas são próprios; não há figura
reproduzida de nenhuma das duas fontes.