A radiografia é o primeiro exame de quase toda doença pulmonar difusa, e é difícil: até 10%
das radiografias iniciais desses pacientes são lidas como normais. A TC costuma vir depois, mas
em muitos casos a radiografia já permite um diagnóstico diferencial curto e útil, desde que lida
com método.
Pergunta
Opções
1. Qual é o padrão predominante?
Linear (liso, reticular, brônquico, cístico) · nodular (miliar, nódulos grandes, agrupados) · alveolar (leve ou denso)
2. Qual é a distribuição?
Difusa · superior, média ou inferior · central ou periférica
3. Há mudança de arquitetura?
Distorção · volume diminuído ou aumentado · dá a cronicidade e ajuda a separar doenças
"vidro fosco" é palavra de TC
O glossário da Sociedade Fleischner de 2024 reserva vidro fosco para a TC. Na
radiografia, fale em opacidade alveolar leve (tênue, que não apaga a trama fina) ou
densa (consolidação). E lembre que muitas doenças passam de leves a densas quando
pioram.
nem toda linha B é edema cardiogênico
Coração normal, pouco derrame, hipoxemia desproporcional à imagem, paciente jovem,
distribuição estranha ou falta de resposta ao diurético: pense em linfangite carcinomatosa
(adenocarcinomas, sobretudo gastrointestinal e de mama; pode ser unilateral ou nodular), doença
de depósito, lesão pulmonar por fármaco, hemorragia alveolar.
linhas lisas e linhas irregulares
A linha lisa é regular, difusa ou basal (mais vasos e linfáticos nas bases), as linhas B
tocam a pleura lateral em intervalos regulares, e não há distorção. A linha irregular é mais
grossa, em malha, e nos casos avançados vem com perda de volume e distorção; aí a
distribuição (superior ou inferior) decide o diferencial. A radiografia não vê a fibrose inicial:
olhe a periferia das bases no PA (posteroanterior) e o espaço retroesternal e as bases posteriores no perfil.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 11. Ver artigo
Pneumonia intersticial usual progressiva (fibrose pulmonar idiopática), homem de 91 anos fumante
Opacidades periféricas irregulares sutis.Oito anos depois: mais perda de volume, diafragma esquerdo elevado e opacidades em malha.TC coronal: faveolamento subpleural, reticulação e bronquiectasia de tração.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 12. Ver artigo
Fibrose de predomínio superior
Pneumonite de hipersensibilidade fibrótica (penas de travesseiro), mulher de 70 anos: reticulação grosseira superior, distorção e diafragma direito elevado.Sarcoidose avançada, mulher de 72 anos: distorção, perda de volume, hilos puxados para cima e reticulação superior.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 13. Ver artigo
+ complemento · bronquiectasia e cistos na radiografia
A bronquiectasia aparece como trilho (parede espessa paralela) ou como "cisto" de
parede grossa, conforme o brônquio esteja no plano ou de topo. As doenças primariamente
brônquicas (fibrose cística) aumentam o volume; as fibróticas o diminuem. Doença cística na
radiografia é muito pouco sensível, mesmo quando grave; a histiocitose de Langerhans poupa os
seios costofrênicos e vai de nódulos irregulares a nódulos escavados e cistos bizarros.
Distribuição do padrão brônquico (esquemas)
Superior: fibrose cística, sarcoidose, hipersensibilidade, micobactéria.Médio: micobactéria não tuberculosa, ABPA, traqueobroncomegalia.Inferior: aspiração de repetição, imunodeficiência, discinesia ciliar.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 14. Ver artigo
Fibrose cística, homem de 27 anos
Espessamento brônquico e bronquiectasias de predomínio superior.TC coronal: bronquiectasias superiores (pontas de seta) e hiperinsuflação por aprisionamento de ar.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 15. Ver artigo
Sarcoidose com micetoma, homem de 60 anos
Distorção superior, perda de volume e bronquiectasias (setas); a massa no ápice esquerdo (asterisco) é um micetoma com crescente aéreo.TC coronal: bronquiectasias císticas superiores e distorção.TC axial: os micetomas (pontas de seta).
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 16. Ver artigo
Complexo Mycobacterium avium, homem de 75 anos
Opacidades nos campos médios, espessamento brônquico e nódulos de tamanhos variados.TC coronal: bronquiectasias médias e inferiores e micronódulos em árvore em brotamento.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 17. Ver artigo
Distribuição do padrão cístico (esquemas)
Difuso: linfangioleiomiomatose, neurofibromatose 1.Superior: histiocitose de Langerhans, bronquiectasias, enfisema com edema, pneumocistose.Inferior: Birt-Hogg-Dubé, depósito de cadeias leves, amiloide, pneumonia intersticial linfoide.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 20. Ver artigo
Linfangioleiomiomatose com esclerose tuberosa, mulher de 57 anos
Linhas curvas e lucências difusas (setas).TC: parênquima substituído por cistos de parede fina.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 21. Ver artigo
Pneumonia intersticial linfoide no Sjögren, mulher de 49 anos
Cistos sutis de predomínio basal (asterisco).TC coronal: cistos de parede fina espalhados, mais nas bases.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 23. Ver artigo
Padrão nodular
Subtipo
Pensar em
Miliar: incontáveis nódulos de 1 a 3 mm, aleatórios
Disseminação hematogênica: tuberculose, histoplasmose, coccidioidomicose · metástases de carcinoma papilífero da tireoide, melanoma, carcinoma de células renais, adenocarcinoma de reto
Nódulos grandes (mais de 5 mm, tamanhos variados), difusos
Metástases antes de tudo no adulto · fungos · pneumonia em organização · vasculite · Nocardia e êmbolos sépticos (podem escavar)
Aspiração · bronquiolite infecciosa · micobactéria não tuberculosa (com bronquiectasia nos campos médios)
o agrupamento é a pista
Micronódulos agrupados, mesmo quando não são o achado mais chamativo, apontam doença
granulomatosa ou linfática (sarcoidose, pneumoconiose, micobactéria), sobretudo com distorção e
distribuição superior ou média. "Miliar" é só para nódulos de 1 a 3 mm; pela disseminação
hematogênica, costumam ser um pouco mais numerosos nas bases, que recebem mais sangue.
Os padrões nodulares (esquemas)
Miliar: incontáveis micronódulos aleatórios.Nódulos grandes, de tamanhos variados.Agrupados, superiores.Agrupados, médios e inferiores.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 26. Ver artigo
Silicose crônica, pedreiro de 55 anos
Consolidação em massa superior com micronódulos em volta (setas), distorção e perda de volume.TC coronal: fibrose maciça progressiva nos ápices, com micronódulos agrupados.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 30. Ver artigo
Sarcoidose, homem de 36 anos com emagrecimento e dispneia
Nódulos agrupados peri-hilares nos campos médios e superiores, com distorção.TC coronal: nódulos perilinfáticos superiores (setas vermelhas), alguns confluentes (seta amarela), e linfonodos calcificados.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 31. Ver artigo
Nódulos agrupados inferiores e médios
Aspiração crônica, homem de 65 anos com disfagia depois de radioterapia: nódulos inferiores, mais à direita, espessamento brônquico e consolidação no lobo inferior direito.TC coronal: bronquiectasias inferiores e árvore em brotamento.TC axial: o mesmo.Micobactéria não tuberculosa, mulher de 65 anos com tosse crônica: micronódulos agrupados e bronquiectasias nos campos médios e inferiores.TC axial em projeção de intensidade máxima: árvore em brotamento.TC coronal: bronquiectasias do lobo médio e da língula (setas) e árvore em brotamento (pontas de seta).
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 32. Ver artigo
Bronquiolite infecciosa viral, mulher de 42 anos
Nódulos agrupados (setas) e espessamento brônquico (pontas de seta) nos campos médios e inferiores, sem consolidação.TC axial: micronódulos em árvore em brotamento (setas).TC coronal: predomínio discreto nos lobos inferiores.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 33. Ver artigo
Pneumonia em organização · pneumonia eosinofílica crônica · vírus · êmbolos sépticos e infartos (multifocais)
líquido, sangue ou pus
O preenchimento alveolar agudo difuso pode ser líquido (edema cardiogênico ou não),
sangue (hemorragia alveolar) ou pus (vírus, pneumocistose). Simetria, ausência de
derrame e de linhas B, coração normal e paciente jovem favorecem causa não cardiogênica. Na
hemorragia alveolar (vasculites de pequenos vasos, lúpus), a periferia subpleural costuma ser
poupada; no dano alveolar difuso, aparecem lóbulos poupados.
Os padrões alveolares (esquemas)
Leve e difuso.Denso e central: asa de morcego.Denso e periférico: asa de morcego invertida.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 35. Ver artigo
Hemorragia alveolar no lúpus, mulher de 21 anos com hemoptise
Opacidades alveolares peri-hilares tênues, novas.Três dias antes.TC coronal: vidro fosco peribroncovascular poupando o espaço subpleural (setas).
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 37. Ver artigo
Hemorragia alveolar na granulomatose com poliangiite, homem de 61 anos
Consolidações, mais à direita, com a periferia poupada (setas).TC coronal: consolidação e vidro fosco com o subpleural poupado.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 38. Ver artigo
Alveolar leve e difuso
Dano alveolar difuso, mulher de 62 anos: opacidades extensas com áreas poupadas.Pneumocistose com aids, homem de 32 anos: opacidades alveolares multifocais bilaterais.TC axial: vidro fosco difuso.TC axial: o mesmo.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 39. Ver artigo
Alveolar denso e central
Edema agudo, homem de 71 anos com insuficiência biventricular nova: consolidação peri-hilar (asa de morcego).Poliangiite microscópica, mulher de 62 anos com hemoptise: consolidação central com a periferia poupada (hemorragia alveolar).Aspiração maciça, homem de 88 anos: consolidação central bilateral.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 40. Ver artigo
a periferia tem diferencial curto
Consolidação periférica, linear ou curvilínea, que cruza cissuras ou migra com o
tempo: pneumonia em organização e pneumonia eosinofílica crônica (esta classicamente superior).
Periférica multifocal ou nodular, em cunha: infartos (brandos ou sépticos) e pneumonia em
organização. O halo invertido na TC aparece nos dois.
Pneumonia em organização por bleomicina, homem de 26 anos
Opacidades alveolares periféricas, algumas lineares (setas).TC coronal: consolidações periféricas e curvilíneas (setas).TC axial: o mesmo.Depois de trocar a quimioterapia: melhora quase completa.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 41. Ver artigo
Pneumonia em organização criptogênica, mulher de 60 anos
Consolidações densas nas bases, sem melhora com antibiótico.Seis semanas depois: as opacidades migraram para a periferia.Perfil, seis semanas depois.TC axial: consolidações subpleurais multifocais.Um mês depois do corticoide: melhora acentuada.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 44. Ver artigo
Êmbolos sépticos, mulher de 29 anos usuária de heroína injetável
Opacidades nodulares periféricas multifocais (setas).TC sagital: consolidações subpleurais em cunha.
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 45. Ver artigo
Infartos por embolia pulmonar, homem de 50 anos
Consolidações periféricas nas bases (asteriscos).Angio-TC coronal: êmbolos segmentares e subsegmentares (setas).TC axial: consolidações periféricas, com halo invertido à direita (círculo).
Fonte: Anderson SE, Rojas CA et al. RadioGraphics 2026;46(8):e260013, apresentação, slide 46. Ver artigo
Pontos de prova: alto rendimento
Três perguntas
Padrão · distribuição · arquitetura
Radiografia inicial
Até 10% lidas como normais
Vidro fosco
Termo de TC (Fleischner 2024)
Linhas lisas
Edema, linfangite, veno-oclusiva
Linfangite
Coração normal, hipoxemia, sem resposta ao diurético
Ignorar micronódulos agrupados porque não são o achado principal
Chamar de miliar nódulos de 6 a 10 mm
Usar "vidro fosco" no laudo da radiografia
Tratar como pneumonia uma consolidação periférica que migra
Dar a radiografia como normal sem olhar volume e distorção
Questões
Questões
uma passada rápida no que o caderno cobraQuestão 1 / 6
Questão 1
Mulher de 30 anos com hipoxemia importante. A radiografia mostra linhas B de Kerley difusas e lisas, coração normal e derrame mínimo; não melhora com diurético. A hipótese que mais preocupa é:
Linhas lisas com coração normal, pouco derrame, paciente jovem, hipoxemia desproporcional e falta de resposta ao diurético afastam o edema cardiogênico e apontam linfangite carcinomatosa (no caso do artigo, de adenocarcinoma gástrico em anel de sinete). PIU e sarcoidose dão linhas irregulares com distorção.
Radiografia com reticulação grosseira de predomínio superior, distorção e hilos puxados para cima. O diferencial inclui:
Fibrose de predomínio superior com perda de volume: sarcoidose, pneumonite de hipersensibilidade fibrótica, silicose, histiocitose de Langerhans, micobactéria. A PIU e a asbestose são inferiores; aspiração e discinesia ciliar dão bronquiectasia inferior.
Homem de 27 anos: espessamento brônquico e bronquiectasias de predomínio superior, com pulmões hiperinsuflados. O diagnóstico mais provável é:
Bronquiectasia superior com volume aumentado (aprisionamento de ar) é típica da fibrose cística. A micobactéria não tuberculosa prefere os campos médios; aspiração e imunodeficiência, os inferiores; a bronquiectasia de tração da fibrose vem com volume diminuído.
Radiografia com incontáveis nódulos de 1 a 3 mm, difusos, um pouco mais numerosos nas bases. Qual é o mecanismo e uma causa típica?
O padrão miliar (1 a 3 mm, aleatório) é de disseminação hematogênica, por isso um pouco mais nas bases, que recebem mais sangue: tuberculose, fungos endêmicos, metástases de tireoide papilífera, melanoma. Nódulos de 1 cm não são miliares. Agrupados apontam doença granulomatosa ou de via aérea.
Mulher de 21 anos com lúpus, hemoptise e insuficiência respiratória: opacidades alveolares peri-hilares novas que poupam a periferia subpleural. A principal hipótese é:
Lúpus e vasculites de pequenos vasos são as causas mais comuns de hemorragia alveolar difusa, que costuma poupar a periferia subpleural. Pneumonia eosinofílica crônica, pneumonia em organização e infartos são periféricos.
Consolidações periféricas, algumas lineares, que cruzam cissuras e mudam de lugar em exames sucessivos, sem melhora com antibiótico. A hipótese principal é:
Consolidação periférica ("asa de morcego invertida"), linear, que cruza cissuras e migra é da pneumonia em organização e da pneumonia eosinofílica crônica. Edema, aspiração maciça e hemorragia tendem a ser centrais.
Fonte.
Anderson SE, Rojas CA, Stib MT, Jokerst CE, Panse PM, Gotway MB, Cummings KW. Chest
Radiographic Patterns of Diffuse Lung Disease: A Systematic Approach. RadioGraphics
2026;46(8):e260013. doi:10.1148/rg.260013 (artigo e apresentação de slides)
PIU: pneumonia intersticial usual; PINE: pneumonia intersticial não específica; ABPA: aspergilose
broncopulmonar alérgica; LIP: pneumonia intersticial linfoide. Conferido em 06/10/2026.
Blocos marcados com + complemento são aprofundamentos opcionais, tirados da mesma
fonte.